Parabenizo pela qualidade do trabalho e pertinência do tema, fundamental para se pensar a educação básica hoje.
Ressalto também a qualidade da reflexão inicial que articula as reformas educacionais do ensino básico brasileiro com o contexto do capitalismo contemporâneo.
Neste sentido, elenco algumas questões que podem auxiliar para o desenvolvimento futuro de pesquisas sobre esta temática:
- Na p. 3 escreve-se que “Para os reformadores, é a distância entre a escola e as demandas da vida social que produziriam os problemas de qualidade e o alto índice de evasão no Ensino Médio”. Como professor do ensino médio na rede estadual de São Paulo, vejo que este tema é muito presente no discurso de gestores e alunos e, em grande medida, justifica as reformas em execução. Mas faria uma provocação para suas pesquisas futuras: quais os reflexos da existência de um processo de deslegitimação e mesmo de ataque à escola - como espaço autônomo de construção de conhecimento e formação cidadã - no reforço e legitimação deste discurso pró-reformas? Haveria articulações entre as disposições empresariais que visam atribuir à escola o papel de formação de mão-de-obra adaptada às demandas do capitalismo contemporâneo e um movimento conservador que visa retirar da escola seu papel de reflexão cidadã? Ou ainda, como os discursos de setores empresariais e de um movimento conservador no âmbito moral articulam, sob diferentes prismas, a ideia de que haveria uma “distância entre a escola e as demandas da vida social” e, neste sentido, legitimam mudanças no modelo de ensino?
- Trabalha-se com as hipóteses que o “projeto de vida opera como centro de gravidade em torno do qual orbitam os diferentes agentes envolvidos nas reformas educacionais recentes” e de que “a relevância do projeto de vida estaria relacionada à sua capacidade de preparar os estudantes, por meio do desenvolvimento de habilidades socioemocionais, para atuarem em um mercado de trabalho cujas demandas e garantias legais de proteção estão em profunda transformação”. Me parece sim que o projeto de vida possui essa centralidade, mas somente quero destacar que estes eixos são transversais em todo o currículo do Novo Ensino Médio, sendo que questões como empreendedorismo e a lógica de preparação ao mercado de trabalho constituem-se como eixos que devem nortear a prática docente também nos itinerários formativos. Neste sentido, o projeto de vida pode ser visto também como um continuum, algo que não se encerra no próprio componente curricular.
- No que se refere à reflexão sobre a recepção dos professores ao componente projeto de vida e as condições para sua execução destaca-se no trabalho algo que me parece muito relevante, a saber, “a falta de preparação dos profissionais da educação para lidarem com os sonhos dos jovens, apontando para a falta de formação adequada para esse componente” (p. 3). Isso parece apontar para uma precarização nas formas de implementação do Novo Ensino Médio, realidade referente ao conjunto dos componentes do novo currículo (não só do PV), que estão ou serão implementados. Se vê uma espécie de confusão entre professores e entre professores e alunos sobre o papel deste componente curricular e, em última instância, da própria escola neste novo contexto. Entender as causas deste processo passa também por analisar as condições de implementação da reforma curricular, considerando metas governamentais propostas em São Paulo, tempos de realização das mudanças e o período histórico em que isso vem acontecendo (neste caso, no meio de uma pandemia sanitária). Passa também por refletir sobre a presença ou ausência de professores e da escola na formulação e execução destas mudanças.
- Na p. 5, referindo-se ao Novo Ensino Médio, cita-se a existência de “críticas e resistências a essas reformas educacionais desde o início de sua formulação”. Senti falta de saber um pouco mais sobre estas críticas e resistência. Penso que sejam fundamentais para articular uma reflexão sobre os caminhos, os conflitos e as disputas na implementação deste novo modelo de ensino.
- Por fim, gostaria de perguntar por que da escolha desta escola para realização do trabalho de campo? Chegou-se a considerar a possibilidade de pesquisa em escolas de outras regiões de Campinas? Afinal, como seria a realidade em escolas localizadas nas periferias da cidade? Faço estas indagações como um estímulo, pois considero enriquecedor quando a Unicamp supera os limites de Barão Geraldo.
Parabéns pelo trabalho. Reflexão muito importante e de muito boa qualidade.