Relações intergeracionais e midiáticas entre avós e netos

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Resumo
RELAÇÕES INTERGERACIONAIS E MIDIÁTICAS ENTRE AVÓS E NETOS A partir de uma pesquisa de mestrado que teve como objetivo analisar as relações intergeracionais mediadas pelas tecnologias digitais entre um grupo de idosas e seus netos na cidade de Florianópolis/SC na perspectiva da Mídia Educação (Rivoltella, 2012). Nessa investigação realizada entre 2022 e 2024, focalizamos as interações entre avós e seus/suas netos/as, bem como suas formas de produzir, interagir e compartilhar informações e produções culturais e midiáticas. A reconfiguração das relações socioespaciais promovida por meio da cultura digital reduziu distâncias e facilitou a interação social e o acesso à informação das pessoas nas diferentes épocas e fases da vida. O acesso e a inclusão digital para todas as pessoas — idosas, adultas, jovens ou crianças — tem se tornado uma preocupação crescente quando se pretende uma sociedade mais participativa e inclusiva, visando minimizar a resolução de problemas relacionados à comunicação e favorecer as relações intergeracionais (García; Sanchéz, 1998; Martín-Barbero, 2001; França et al., 2010; Bonilla; Pretto, 2015; Castro, 2018; Santos, 2020). Estudos e pesquisas sobre a velhice e terceira idade, realizados a partir de diferentes áreas do conhecimento (Jardim; Medeiros; Brito, 2006; Silva, 2008; Rozendo; Justo, 2011; Dalto; Bitencourt, 2021), revelam diversas potencialidades e qualidades sociais das relações intergeracionais em diferentes meios culturais. E os usos das tecnologias digitais nestas relações podem sugerir tanto as formas de exclusão e distanciamento como as formas de aproximação que podem contribuir para o reconhecimento de outras aprendizagens, interações e memórias. A necessidade de ampliar investigações sobre as relações dos idosos com as tecnologias digitais nos motivou a refletir sobre a importância das relações intergeracionais nas atividades de um grupo de idosas a partir da perspectiva mídia-educativa. Ao acompanhar as atividade do grupo de idosas a pesquisa qualitativa envolveu também uma dimensão empírica e outras formas de interação com o grupo em uma concepção construtiva social (Creswell, 2010) visando interpretar os significados que os sujeitos da pesquisa atribuem ao mundo. O percurso metodológico da pesquisa apresentou as seguintes etapas: a) Estudos teóricos: revisão de literatura sobre o tema e seus possíveis diálogos. b) Pesquisa exploratória de abordagem qualitativa: observação da rotina de atividades do grupo de idosas; aplicação de um questionário do perfil sociodemográfico dos participantes; entrevistas semiestruturadas, transcrições e análises; proposta de atividades intergeracionais com o grupo de idosas e netos na perspectiva da mídia-educação; c) Análise e interpretação dos dados. Os dados estatísticos sobre o crescimento da população idosa no Brasil e no estado de Santa Catarina revelam que este grupo permanece ativo e continua aumentando (IBGE, 2022). E os estudos teóricos sobre conceitos de geração e intergeracionalidade destacam que o termo geração não se refere apenas a pessoas que compartilham a mesma idade, mas também a quem vivência determinados eventos que definem trajetórias passadas e futuras (Debert,1998, p. 60). Ao evidenciar a relevância da memória nas dimensões educacionais e relacionais dos idosos (Halbwachs, 1990; Benjamin, 1987; Bosi, 1994) a pesquisa enfatiza a importância de estudar as relações intergeracionais na sociedade contemporânea. O grupo de idosas participante da pesquisa, composto por dez idosas na faixa etária de 71 a 84 anos, atua em ações voluntárias, propostas culturais entre o grupo, como por exemplo atividades de integração com jogos, brincadeiras, passeios e a criação e produção de uma revista bimestral interna no grupo. As entrevistas revelaram diferentes perfis das participantes, sendo que a maioria utiliza artefatos das tecnologias móveis em seu cotidiano. Nas conversas e comentários com as idosas também evidenciamos diversas situações de uso dos celulares e dificuldades a partir das fake News. A partir de algumas escolhas negociadas, foram realizadas três intervenções pedagógicas. A primeira foi uma atividade artística de pintura mediada por um vídeo de uma rede social compartilhada entre as integrantes e seus netos. Nessa proposta, observamos um momentos muito significativos na relação intergeracional familiar mediada pela tecnologia, em que as crianças ensinavam suas avós a acessarem o conteúdo do vídeo da rede social: Vó olha aquele aviãozinho de papel no seu vídeo aí do lado! Clica em cima dele que ele voa para onde a vó quer enviar! (Abacaxi, 10 anos). A segunda proposta partiu dos relatos sobre o período pandêmico, em que as avós e netos participaram de um jogo adquirido por aplicativo em seus celulares e smartphones. Nessa proposta foi possível analisar as diferentes conquistas e relação de conhecimento e prática de jogo nas diferentes gerações (avós e netos), desencadeando outras propostas de atividades a partir da construção com materiais alternativos desse mesmo jogo compartilhado nos celulares e reconstrução de uma obra artística baseadas nessa intervenção. A terceira proposta partiu da necessidade de mediação no grupo de idosas diante de depoimentos sobre compartilhamento de mensagens duvidosas via grupos de WhatsApp, onde elas se depararam com fake News e outras mensagens falsas e enganosas, além de propagandas realizadas com auxílio de Inteligência Artificial (IA) e tentativas de golpe – como o caso de um produto que oferecia recuperação da saúde na terceira idade por meio de medicamento direcionado ao público idoso. Através de conversas da necessidade de aprender a usar recursos disponíveis à população para diagnosticar Fake News, as idosas e seus/suas netos/as discutiram e reconheceram diversos problemas sociais e econômicos que envolvem vítimas de golpes além de propagar mensagens enganosas. A partir disso, algumas falas dos netos destacam a necessidade da educação midiática nos espaços escolares: Eu sabia o que era Fake News, mas não desse jeito, e com a ajuda da IA vai ser cada vez mais perigoso e esse tema seria legal trabalharmos no colégio, pois ajudaria a nós e aos pais (Abacaxi, 10 anos). A questão de criar, modificar pessoas e imagens penso que se fala muito em respeitar os colegas da turma em suas diferenças, mas não existe uma prática, é apresentado parâmetros de beleza criados pela IA, mas que indiretamente impõe a seguir estilos, aparência... muitos amigos se sentem mal por isso, são indiretamente excluídos; e na verdade é tudo ilusório, mentira (Maçã, 13 anos). As análises dos depoimentos revelam o quanto podem ser relevantes as relações e aprendizagens intergeracionais entre avós e netos: “Primeira vez que converso algo tão diferente com meu neto e ele comigo, aprendemos muito!” (Bromélia, 74 anos), compartilhando suas aprendizagens, os vínculos fortalecidos e relações de afeto. As propostas de atividades visaram criar condições de encontros intergeracionais envolvendo o grupo de idosas e seus/suas netos/as. As mediações trouxeram diversas situações relacionadas às temáticas sobre o uso cotidiano das mídias, habilidades e dificuldades, bem como sobre algumas manifestações artísticas que promoveram diversas reflexões e discussões. A partir dos dados produzidos na pesquisa destacamos a importância de estudos que envolvam propostas de atividades com/entre idosos na perspectiva mídia-educativa em espaços formais ou informais da cultura. Os dados analisados nesta investigação podem oferecer subsídios teóricos e práticos tanto no âmbito de propostas de atividades para esse público (por meio de grupos e/ou associações da terceira idade), bem como em cursos de formação para profissionais de distintas áreas, como Educação, Saúde, Psicologia, Assistência Social, e para subsidiar a elaboração de políticas públicas, entre outros. Nesse processo, identificamos também a importância do papel da arte na troca de saberes entre as gerações e para a construção de vínculos e memórias que fazem parte da formação humana (Martins; Picosque; Guerra, 1998). Os saberes e as tradições dos antepassados têm grande valor para recuperar aspectos da história do desenvolvimento social (Halbwachs, 1990; Bosi, 1994; Prado, 2004) e também para melhor entender os desafios da cultura digital contemporânea, pois não se pode deixar de lado os conhecimentos das novas gerações e seu relevo nas relações intergeraiconais. Nessa pesquisa observamos o quanto o envolvimento entre avós e netos potencializa as relações de afeto, a construção de vínculos e as aprendizagens. A aproximação intergeracional propicia diálogos sobre questões de nosso tempo em que a troca de conhecimento torna-se relevante para a compreensão de determinadas temáticas, como por exemplo, o uso de diferentes tecnologias na vida cotidiana. A relação intergeracional entre avós e netos mediadas pelas tecnologias nos faz refletir acerca da importância da mediação intencional na perspectiva da Mídia Educação, uma vez que seus pressupostos incentivam um uso crítico das mídias e de seus conteúdos, contextualizando a produção, a recepção e o compartilhamento de informações. Para além de fortalecer vínculos afetivos, consideramos que as relações intergeracionais ampliam as possibilidades e conexões e aprendizagens que aprimoram e potencializam as relações entre os sujeitos, tanto a nível individual quanto coletivo, social e cultural. REFERÊNCIAS BENJAMIN, W. Rua de mão única: obras escolhidas. V. 2. São Paulo: Brasiliense, 1987. BITENCOURT, R. O. M. DALTO, F. A. S. Da velhice à terceira idade: um estudo exploratório sobre a evolução do conceito e as implicações para as políticas públicas. Planejamento e Políticas Públicas. Brasília, n. 59, jul./set. 2021. p. 285-304. Disponível em: https://doi.org/10.38116/ppp59art10. Acesso em: 12 mar. 2025. BONILLA, M. H.; PRETTO, N. Movimento colaborativos, tecnologias digitais e educação. Em Aberto. Brasília, v. 28, n. 94, 2015. p. 23-40. BOSI, E. Memória e Sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. CASTRO, J. C. Prácticas coeducativas en torno a la cultura digital: (des) Encuentros intergeneracionales. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2018. 313 p. CRESWELL, J. W. Projeto de pesquisa: métodos qualitativo, quantitativo e misto. Porto Alegre: Bookman, 2010. DEBERT, G. G. 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Um olhar sobre o processo do envelhecimento: a percepção de idosos sobre a velhice. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia. São Paulo, v. 9, n. 2, 2006. p. 25–34. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbgg/a/tzGHq3mphTxJ5jtvX5pRM6z/#ModalTutors. Acesso em: 10 mar. 2025. MARTINS, M. C. F. D. et al. Didática do ensino da arte: a língua do mundo: poetizar, fruir e conhecer arte. São Paulo: FTD, 1998. MARTÍN-BARBERO, J. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 2001. PRADO, A. Bagagem. Rio de Janeiro: Record, 2004. RIVOLTELLA, P. C. Media education: modelli, esperienze, profilo disciplinare. Carocci: Roma, 2012. ROZENDO, A. da S.; JUSTO, J. S. Velhice e Terceira Idade: tempo, espaço e subjetividade. Revista Kairós-Gerontologia. São Paulo, v. 14, n. 2, 2012. p. 143–15. Disponível em: https://doi.org/10.23925/2176-901X.2011v14i2p143-159. Acesso em: 11 marc. 2025. SILVA, L. R. F. 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