Relações intergeracionais e midiáticas entre avós e netos

- 214966
Resumo Expandido - Trabalho
Favorite this paper
How to cite this paper?
Abstract
RELAÇÕES INTERGERACIONAIS E MIDIÁTICAS ENTRE AVÓS E NETOS A partir de uma pesquisa de mestrado que teve como objetivo analisar as relações intergeracionais mediadas pelas tecnologias digitais entre um grupo de idosas e seus netos na cidade de Florianópolis/SC na perspectiva da Mídia Educação (Rivoltella, 2012). Nessa investigação realizada entre 2022 e 2024, focalizamos as interações entre avós e seus/suas netos/as, bem como suas formas de produzir, interagir e compartilhar informações e produções culturais e midiáticas. A reconfiguração das relações socioespaciais promovida por meio da cultura digital reduziu distâncias e facilitou a interação social e o acesso à informação das pessoas nas diferentes épocas e fases da vida. O acesso e a inclusão digital para todas as pessoas — idosas, adultas, jovens ou crianças — tem se tornado uma preocupação crescente quando se pretende uma sociedade mais participativa e inclusiva, visando minimizar a resolução de problemas relacionados à comunicação e favorecer as relações intergeracionais (García; Sanchéz, 1998; Martín-Barbero, 2001; França et al., 2010; Bonilla; Pretto, 2015; Castro, 2018; Santos, 2020). Estudos e pesquisas sobre a velhice e terceira idade, realizados a partir de diferentes áreas do conhecimento (Jardim; Medeiros; Brito, 2006; Silva, 2008; Rozendo; Justo, 2011; Dalto; Bitencourt, 2021), revelam diversas potencialidades e qualidades sociais das relações intergeracionais em diferentes meios culturais. E os usos das tecnologias digitais nestas relações podem sugerir tanto as formas de exclusão e distanciamento como as formas de aproximação que podem contribuir para o reconhecimento de outras aprendizagens, interações e memórias. A necessidade de ampliar investigações sobre as relações dos idosos com as tecnologias digitais nos motivou a refletir sobre a importância das relações intergeracionais nas atividades de um grupo de idosas a partir da perspectiva mídia-educativa. Ao acompanhar as atividade do grupo de idosas a pesquisa qualitativa envolveu também uma dimensão empírica e outras formas de interação com o grupo em uma concepção construtiva social (Creswell, 2010) visando interpretar os significados que os sujeitos da pesquisa atribuem ao mundo. O percurso metodológico da pesquisa apresentou as seguintes etapas: a) Estudos teóricos: revisão de literatura sobre o tema e seus possíveis diálogos. b) Pesquisa exploratória de abordagem qualitativa: observação da rotina de atividades do grupo de idosas; aplicação de um questionário do perfil sociodemográfico dos participantes; entrevistas semiestruturadas, transcrições e análises; proposta de atividades intergeracionais com o grupo de idosas e netos na perspectiva da mídia-educação; c) Análise e interpretação dos dados. Os dados estatísticos sobre o crescimento da população idosa no Brasil e no estado de Santa Catarina revelam que este grupo permanece ativo e continua aumentando (IBGE, 2022). E os estudos teóricos sobre conceitos de geração e intergeracionalidade destacam que o termo geração não se refere apenas a pessoas que compartilham a mesma idade, mas também a quem vivência determinados eventos que definem trajetórias passadas e futuras (Debert,1998, p. 60). Ao evidenciar a relevância da memória nas dimensões educacionais e relacionais dos idosos (Halbwachs, 1990; Benjamin, 1987; Bosi, 1994) a pesquisa enfatiza a importância de estudar as relações intergeracionais na sociedade contemporânea. O grupo de idosas participante da pesquisa, composto por dez idosas na faixa etária de 71 a 84 anos, atua em ações voluntárias, propostas culturais entre o grupo, como por exemplo atividades de integração com jogos, brincadeiras, passeios e a criação e produção de uma revista bimestral interna no grupo. As entrevistas revelaram diferentes perfis das participantes, sendo que a maioria utiliza artefatos das tecnologias móveis em seu cotidiano. Nas conversas e comentários com as idosas também evidenciamos diversas situações de uso dos celulares e dificuldades a partir das fake News. A partir de algumas escolhas negociadas, foram realizadas três intervenções pedagógicas. A primeira foi uma atividade artística de pintura mediada por um vídeo de uma rede social compartilhada entre as integrantes e seus netos. Nessa proposta, observamos um momentos muito significativos na relação intergeracional familiar mediada pela tecnologia, em que as crianças ensinavam suas avós a acessarem o conteúdo do vídeo da rede social: Vó olha aquele aviãozinho de papel no seu vídeo aí do lado! Clica em cima dele que ele voa para onde a vó quer enviar! (Abacaxi, 10 anos). A segunda proposta partiu dos relatos sobre o período pandêmico, em que as avós e netos participaram de um jogo adquirido por aplicativo em seus celulares e smartphones. Nessa proposta foi possível analisar as diferentes conquistas e relação de conhecimento e prática de jogo nas diferentes gerações (avós e netos), desencadeando outras propostas de atividades a partir da construção com materiais alternativos desse mesmo jogo compartilhado nos celulares e reconstrução de uma obra artística baseadas nessa intervenção. A terceira proposta partiu da necessidade de mediação no grupo de idosas diante de depoimentos sobre compartilhamento de mensagens duvidosas via grupos de WhatsApp, onde elas se depararam com fake News e outras mensagens falsas e enganosas, além de propagandas realizadas com auxílio de Inteligência Artificial (IA) e tentativas de golpe – como o caso de um produto que oferecia recuperação da saúde na terceira idade por meio de medicamento direcionado ao público idoso. Através de conversas da necessidade de aprender a usar recursos disponíveis à população para diagnosticar Fake News, as idosas e seus/suas netos/as discutiram e reconheceram diversos problemas sociais e econômicos que envolvem vítimas de golpes além de propagar mensagens enganosas. A partir disso, algumas falas dos netos destacam a necessidade da educação midiática nos espaços escolares: Eu sabia o que era Fake News, mas não desse jeito, e com a ajuda da IA vai ser cada vez mais perigoso e esse tema seria legal trabalharmos no colégio, pois ajudaria a nós e aos pais (Abacaxi, 10 anos). A questão de criar, modificar pessoas e imagens penso que se fala muito em respeitar os colegas da turma em suas diferenças, mas não existe uma prática, é apresentado parâmetros de beleza criados pela IA, mas que indiretamente impõe a seguir estilos, aparência... muitos amigos se sentem mal por isso, são indiretamente excluídos; e na verdade é tudo ilusório, mentira (Maçã, 13 anos). As análises dos depoimentos revelam o quanto podem ser relevantes as relações e aprendizagens intergeracionais entre avós e netos: “Primeira vez que converso algo tão diferente com meu neto e ele comigo, aprendemos muito!” (Bromélia, 74 anos), compartilhando suas aprendizagens, os vínculos fortalecidos e relações de afeto. As propostas de atividades visaram criar condições de encontros intergeracionais envolvendo o grupo de idosas e seus/suas netos/as. As mediações trouxeram diversas situações relacionadas às temáticas sobre o uso cotidiano das mídias, habilidades e dificuldades, bem como sobre algumas manifestações artísticas que promoveram diversas reflexões e discussões. A partir dos dados produzidos na pesquisa destacamos a importância de estudos que envolvam propostas de atividades com/entre idosos na perspectiva mídia-educativa em espaços formais ou informais da cultura. Os dados analisados nesta investigação podem oferecer subsídios teóricos e práticos tanto no âmbito de propostas de atividades para esse público (por meio de grupos e/ou associações da terceira idade), bem como em cursos de formação para profissionais de distintas áreas, como Educação, Saúde, Psicologia, Assistência Social, e para subsidiar a elaboração de políticas públicas, entre outros. Nesse processo, identificamos também a importância do papel da arte na troca de saberes entre as gerações e para a construção de vínculos e memórias que fazem parte da formação humana (Martins; Picosque; Guerra, 1998). Os saberes e as tradições dos antepassados têm grande valor para recuperar aspectos da história do desenvolvimento social (Halbwachs, 1990; Bosi, 1994; Prado, 2004) e também para melhor entender os desafios da cultura digital contemporânea, pois não se pode deixar de lado os conhecimentos das novas gerações e seu relevo nas relações intergeraiconais. Nessa pesquisa observamos o quanto o envolvimento entre avós e netos potencializa as relações de afeto, a construção de vínculos e as aprendizagens. A aproximação intergeracional propicia diálogos sobre questões de nosso tempo em que a troca de conhecimento torna-se relevante para a compreensão de determinadas temáticas, como por exemplo, o uso de diferentes tecnologias na vida cotidiana. A relação intergeracional entre avós e netos mediadas pelas tecnologias nos faz refletir acerca da importância da mediação intencional na perspectiva da Mídia Educação, uma vez que seus pressupostos incentivam um uso crítico das mídias e de seus conteúdos, contextualizando a produção, a recepção e o compartilhamento de informações. Para além de fortalecer vínculos afetivos, consideramos que as relações intergeracionais ampliam as possibilidades e conexões e aprendizagens que aprimoram e potencializam as relações entre os sujeitos, tanto a nível individual quanto coletivo, social e cultural. REFERÊNCIAS BENJAMIN, W. Rua de mão única: obras escolhidas. V. 2. São Paulo: Brasiliense, 1987. BITENCOURT, R. O. M. DALTO, F. A. S. Da velhice à terceira idade: um estudo exploratório sobre a evolução do conceito e as implicações para as políticas públicas. Planejamento e Políticas Públicas. Brasília, n. 59, jul./set. 2021. p. 285-304. Disponível em: https://doi.org/10.38116/ppp59art10. Acesso em: 12 mar. 2025. BONILLA, M. H.; PRETTO, N. Movimento colaborativos, tecnologias digitais e educação. Em Aberto. Brasília, v. 28, n. 94, 2015. p. 23-40. BOSI, E. Memória e Sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. CASTRO, J. C. Prácticas coeducativas en torno a la cultura digital: (des) Encuentros intergeneracionales. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2018. 313 p. CRESWELL, J. W. Projeto de pesquisa: métodos qualitativo, quantitativo e misto. Porto Alegre: Bookman, 2010. DEBERT, G. G. A antropologia e o estudo dos grupos e das categorias de idade. In: M. L. de Barros (Org.). Velhice ou terceira idade? Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1998. p. 49-68. FRANÇA, L. H. F. P., SILVA, A. M. T. B.; BARRETO, M. S. L. Programas intergeracionais: quão relevantes eles podem ser para a sociedade brasileira. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia. São Paulo, v. 13, n. 3, 2010, p. 519-532. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbgg/a/55DRHDsYnS4CQ3SNKrLkYvQ/abstract/?lang=pt. Acesso em: 13 mar. 2025. GARCÍA, J. M.; SANCHÉZ, A. G. Un modelo de educación en los mayores: la interactividad. Madrid: Dykinson, 1998. HALBWACHS, M. A. Memória coletiva. São Paulo, Vértice; Revista dos Tribunais, 1990. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo 2022: Panorama. Disponível em: https://censo2022.ibge.gov.br/panorama/?utm_source=ibge&utm_medium=home… aign=portal. Acesso em: 13 mar. 2025. JARDIM, C. F. S; MEDEIROS, B.F de; BRITO, A.M de. Um olhar sobre o processo do envelhecimento: a percepção de idosos sobre a velhice. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia. São Paulo, v. 9, n. 2, 2006. p. 25–34. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbgg/a/tzGHq3mphTxJ5jtvX5pRM6z/#ModalTutors. Acesso em: 10 mar. 2025. MARTINS, M. C. F. D. et al. Didática do ensino da arte: a língua do mundo: poetizar, fruir e conhecer arte. São Paulo: FTD, 1998. MARTÍN-BARBERO, J. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 2001. PRADO, A. Bagagem. Rio de Janeiro: Record, 2004. RIVOLTELLA, P. C. Media education: modelli, esperienze, profilo disciplinare. Carocci: Roma, 2012. ROZENDO, A. da S.; JUSTO, J. S. Velhice e Terceira Idade: tempo, espaço e subjetividade. Revista Kairós-Gerontologia. São Paulo, v. 14, n. 2, 2012. p. 143–15. Disponível em: https://doi.org/10.23925/2176-901X.2011v14i2p143-159. Acesso em: 11 marc. 2025. SILVA, L. R. F. Da velhice à terceira idade: o percurso histórico das identidades atreladas ao processo de envelhecimento. História, Ciências, Saúde – Manguinhos. Rio de Janeiro, v. 15, n. 1, jan./mar. 2008. p. 155–168. Disponível em: https://www.scielo.br/j/hcsm/a/kM6LLdqGLtgqpggJT5hQRCy/. Acesso em: 9 marc. 2024.

Share your ideas or questions with the authors!

Did you know that the greatest stimulus in scientific and cultural development is curiosity? Leave your questions or suggestions to the author!

Sign in to interact

Have a question or suggestion? Share your feedback with the authors!

Institutions
  • 1 UFSC- Universidade Federal de Santa Catarina
Track
  • GT16 - Educação e Comunicação