RESIDÊNCIA EM SAÚDE MENTAL E O CENTRO POP: UMA EXPERIÊNCIA TRANSFORMADORA

Vol.2 - 2024 - 200069
Relato de experiência
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Resumo

Contextualização A residência multiprofissional em saúde mental envolve os processos de cuidado na saúde mental no contexto das Redes de Atenção Psicossocial (RAPS) e do cuidado em território. Sua inserção no território e suas ações, que ultrapassam os limites dos serviços especializados em saúde mental, são fundamentais para proporcionar aos residentes uma visão ampliada do cuidado nessa área. Nesse sentido, a atuação da residência no Centro de Referência Especializado para Pessoas em Situação de Rua (Centro POP), um equipamento destinado ao atendimento de pessoas em situação de rua, foi de extrema importância para o desenvolvimento de um trabalho intersetorial em colaboração com os profissionais desse serviço. Essa experiência possibilitou uma abordagem mais abrangente e inclusiva, contribuindo para uma atuação mais efetiva e humanizada no cuidado em saúde mental. Descrição da Experiência Trata-se de um relato das experiências vividas pelos residentes da turma VIII da Residência Multiprofissional de Saúde Mental Coletiva da Escola de Saúde Pública do Ceará (ESP/CE) no Centro de Referência Especializado para Pessoas em Situação de Rua (Centro POP) no município de Caucaia, Ceará, onde se desenvolveu a referida residência. As atividades dos residentes no Centro POP ocorreram de março de 2022 a janeiro de 2023, previamente pactuadas entre a coordenação do serviço e os preceptores de campo e núcleo que acompanharam a turma durante esse período. As atividades no Centro POP foram conduzidas por uma enfermeira, uma profissional de educação física e uma psicóloga. No Centro POP, as atividades desenvolvidas pelos residentes incluíram escuta ativa, orientação de saúde, ações de prevenção e promoção da saúde, como rodas de alongamento e realização de testes rápidos para infecções sexualmente transmissíveis. Além disso, foram oferecidas oficinas manuais e orientações sobre o fluxo de atendimento dos serviços de saúde do município, visando aproximar esse público das ações ofertadas pela residência. Objetivo e período de Realização O objetivo deste relato é descrever e analisar a experiência da Residência Multiprofissional em Saúde Mental Coletiva da Escola de Saúde Pública do Ceará (ESP/CE) no Centro de Referência Especializado para Pessoas em Situação de Rua (Centro POP) em Caucaia, Ceará. Pretende-se destacar as atividades realizadas, os efeitos percebidos e a importância dessa atuação no contexto da saúde mental e do atendimento a populações vulneráveis. Resultados A inserção da residência em saúde mental no Centro POP foi de suma importância. Percebemos que isso possibilitou esclarecer diversas dúvidas sobre o Centro de Atenção Psicossocial. Além disso, os participantes destacaram que as oficinas manuais desempenharam um papel significativo, permitindo-lhes desenvolver habilidades que anteriormente não reconheciam, evitando o ócio durante esse período. Houve relatos de que alguns conseguiram controlar a ansiedade utilizando técnicas discutidas durante as rodas de conversa. Ademais, foi possível estabelecer uma articulação com outros serviços para garantir a continuidade do cuidado. Aprendizado e Análise Crítica No geral, observamos uma boa adesão tanto da equipe quanto dos usuários do Centro POP para participar das atividades propostas. Foi possível compreender o processo de cuidado em saúde mental de forma mais ampla, indo além dos serviços especializados. Percebemos o quanto essas pessoas vulnerabilizadas, muitas vezes invisíveis para os serviços e para a comunidade, expressavam anseios e angústias que refletiam essa realidade. Essa experiência nos permitiu uma visão mais holística do cuidado e evidenciou a importância de abordagens inclusivas e sensíveis às necessidades individuais. Referências AMARANTE, Paulo. Saúde mental e atenção psicossocial. 4. ed. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2015. PINHEIRO, Ruth; LOPES, Fernanda. A importância da residência multiprofissional em saúde mental. Revista Brasileira de Educação Médica, São Paulo, v. 40, n. 2, p. 234-245, abr./jun. 2016.Contextualização: A residência multiprofissional em saúde, instituída pela lei 11.129/2005, é uma modalidade de pós-graduação lato sensu voltada para a educação em serviço cuja finalidade é qualificar o trabalho dos profissionais para atuação nos campos de saúde pública. Na Residência Multiprofissional em Saúde Mental, associada a Faculdade de Medicina de Botucatu da UNESP, é prevista a entrada de quatro profissionais a cada ano, dentre eles um psicólogo, um assistente social, um enfermeiro e um terapeuta ocupacional. Além da composição multiprofissional do programa em saúde mental, a residência pressupõe atuação conjunta com outros programas da residência, alunos da graduação e especialização em redes de saúde. A partir da Portaria Interministerial MEC/MS no 506/2008, foi instituída a carga horária semanal de 60 horas para as residências uni e multiprofissionais (BRASIL, 2008a), das quais 48 correspondem às atividades práticas e, 12, às teóricas. Destas, são pressupostos momentos de supervisão, tutoria e aulas teóricas, de modo que há 8 horas semanais separadas no primeiro ano para esta última, sendo 4 destas correspondentes a aulas de saúde coletiva e 4 para o módulo comum, cujo intuito é trabalhar aspectos interprofissionais com residentes de todos os programas. O restante das 12 horas são os momentos de estudos com tutores e coordenadores.. Descrição da Experiência: Durante a residência em saúde mental, a prática se dá nas seguintes entidades da RAPS: Centro de Saúde Escola, e-Multi e Consultório na Rua (APS); CAPS ij, CAPS AD, CAPS I e CAPS II (Atenção Psicossocial Especializada); Arte Convívio e Oficina Girassol (Reabilitação Psicossocial). Geralmente, cada semestre é composto pela atuação em cerca de três entidades, distribuídas ao longo da semana, juntamente às aulas teóricas. Além disso, a residência multiprofissional tem atividades em colaboração com a graduação em enfermagem e medicina, compondo disciplinas de caráter teórico-prático sobre saúde pública junto com docentes da graduação. Acrescenta-se a isto, atividades de extensão universitária, que cumprem o papel de levar as potencialidades e o caráter de vanguarda científica até a comunidade. Tais atividades demonstram efetividade no aprendizado de todos os envolvidos, fomentando discussões sobre os princípios e diretrizes do SUS, redes de atenção à saúde e gestão em saúde coletiva. A atuação nas entidades parte do pressuposto de uma ação conjunta interdisciplinar que contempla a interação entre os residentes de diferentes programas, profissionais da especialização e dos serviços, bem como os alunos da graduação. Nesse sentido, são incentivadas ações assistenciais que mesclam esses profissionais de diferentes áreas, visando um cuidado interdisciplinar mais integral e efetivo.. Objetivo e período de Realização: Este trabalho tem como objetivo relatar o percurso formativo dos residentes em saúde mental da Faculdade de Medicina da Unesp Botucatu. O relato foi construído a partir de experiências de março de 2023 a maio de 2024.. Resultados: Em relação ao trabalho na saúde mental, seguindo a lógica do modo psicossocial, é pressuposto uma equipe multiprofissional, contrariamente ao modo asilar. Nesse sentido, a organização do trabalho da residência, que presume a ação conjunta de profissionais de diferentes áreas e graduandos em formação, favorece a inclinação para atuação em um modo psicossocial de trabalho. A direção do trabalho intercessor permite o residente ir além de sua prática cotidiana do trabalho, uma vez que coloca como necessidade o repensar sobre a teoria que embasa sua técnica, no sentido de analisá-las e orientá-las para a produção de subjetividade que proporcione desvelamento de contradições. Da mesma forma, no trabalho intercessor, é importante a atuação na diferenciação entre encomenda social, aquilo que é verbalizado pelos usuários, e a demanda social, o que eles realmente necessitam. Na Saúde Mental, por exemplo, é comum o pedido por parte dos usuários de soluções fáceis que viriam de uma prática voltada ao modo asilar de cuidado. Um exercício, nesse sentido, é entender qual a real necessidade daquele sujeito, considerando o contexto em que está inserido e implica-lo em sua realidade.. Aprendizado e Análise Crítica: A partir do conceito de dispositivo intercessor, criado por Costa-Rosa, o qual visa uma modalidade de produção de conhecimento que pretende romper com a divisão social do trabalho entre o saber técnico e o saber acadêmico, é possível pensar que o residente atua na direção de um trabalhador intercessor. Assume um papel paradoxal no qual, ao mesmo tempo em que é visto como um trabalhador, ainda consegue escapar, em partes, da força instituída. Da mesma forma, é possível perceber que, apesar de haver uma limitação intrínseca à organização da residência, na qual a atuação em cada serviço se dá em um tempo limitado, de modo que os residentes se deparam com forças instituídas não passíveis de mudança pela limitação do tempo, o trabalho interprofissional e conjunto com outros atores externos ao programa de saúde mental se mostra como uma ferramenta para a criação de brechas que a médio ou longo prazo possam propiciar intercessão. Ademais, é possível observar que as entidades que compõem a RAPS de Botucatu se mostram abertas à entrada dos residentes, o que pode ser observado pela ampla variedade de serviços oferecidos para formação. Assim, ao considerarmos as instituições como palcos de luta social, temos sempre como possibilidade a mudança da dominância a favor das forças instituintes, mesmo que a força instituída esteja mais rígida.. Referências:

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Eixo Temático
  • Eixo 02 - Populações vulnerabilizadas e invisibilizadas: reparação e saúde como direito de cidadania