NADANDO CONTRA A CORRENTE: DESAFIOS DO ATENDIMENTO EM SAÚDE À CRIANÇAS E ADOLESCENTES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA SEXUAL

Vol.2 - 2024 - 199641
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Resumo

Apresentação/Introdução A Organização Mundial de Saúde caracteriza a violência sexual enquanto um problema de saúde pública em escala global. Cada país tem desenvolvido mecanismos de enfrentamento a esse fenômeno e o atendimento pelos profissionais de saúde, deve ocorrer de forma integral e multidisciplinar. Realizar tal tarefa apresenta desafios aos profissionais de saúde, principalmente no atendimento ao público infanto-juvenil, o que torna este estudo imprescindível para fomentar formas de enfrentamento aos desafios postos às práticas profissionais no âmbito da saúde pública. Objetivos O estudo buscou descrever os desafios da atuação de profissionais de saúde no que tange o atendimento em saúde a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. Metodologia Trata-se de uma Revisão Integrativa da Literatura (Souza; Silva e Carvalho, 2010), realizada na Biblioteca Virtual de Saúde (BVS) em março de 2024. Foram incluídos artigos originais, publicados entre 2019 a 2023, com a pergunta norteadora, “O que a literatura científica tem mostrado acerca dos desafios das práticas de profissionais de saúde relacionadas às demandas de violência sexual contra crianças e adolescentes?”. Utilizou-se a partir de descritores as chaves de busca “profissionais de saúde AND violência sexual AND criança” e profissionais de saúde and violência sexual and adolescente”, realizaram as buscas 2 revisores com um total de 168 artigos. Excluíram-se os estudos de revisão, incompletos, indisponíveis na íntegra e duplicados, resultando em 12 artigos incluídos na análise. Resultados e Discussão Os estudos contemplaram diferentes categorias profissionais e serviços de saúde, notou-se principalmente a presença de assistentes sociais, enfermeiros, Agentes Comunitários de Saúde (ACS), médicos e psicólogos. Assim, a análise permitiu um alcance sob diferentes perspectivas acerca dos desafios enfrentados. Tem sido visto no processo de trabalho o despreparo, desconhecimento e insegurança no manejo dos casos, que pode repercutir no modo de agir em cada atendimento, seja com a criança ou adolescente, ou com o familiar da vítima (Batista; Gomes e Villacorta, 2022; Silva et al., 2021). Há também um desconhecimento acerca da rede de proteção e dos próprios serviços de saúde. Percebe-se diante desses impasses que o cenário de atuação torna-se um campo tenso, já que existem problemáticas internas - insegurança na atuação e manejo de casos, e externas - dada a necessidade de articulação intersetorial ser prejudicada devido ao desconhecimento de outros serviços. A falta de capacitação proposta pelas instituições e a necessidade de incentivos a cursos para além da formação advinda da graduação (Dornelles; Macedo; Souza, 2020; Mastroianni et al., 2021), impactam negativamente no cenário interventivo, o que carece de estratégias que considerem as legislações de enfrentamento à violência e a promoção da qualificação profissional. Ademais, os profissionais de saúde sentem a necessidade do desenvolvimento de fluxos e/ou protocolos institucionais, o que acreditam que melhoraria os resultados desse atendimento (Batista; Gomes; Villacorta, 2022; Silva et al., 2021). Nesse sentido, estratégias de intervenção nestas frentes perpassam pelo conhecimento dos fatores contextuais que se relacionam para superação dos desafios identificados. Conclusões/Considerações finais O estudo abordou um grave problema de saúde pública que é a violência sexual contra crianças e adolescentes. De modo geral, é possível afirmar que para além da necessidade de capacitações para os profissionais envolvidos nesse cuidado, como trazido pelos artigos, faz-se necessário investir na efetivação da atuação em rede intersetorial, na Educação Permanente e na criação de fluxos e protocolos de atendimento. Observou-se a necessidade de produção de conhecimento acerca das estratégias utilizadas para o rompimento dessas barreiras que têm sido encontradas, o que torna ainda mais pertinente a produção de pesquisas nos serviços de saúde. Diante dos desafios apresentados, conclui-se que é imprescindível o fomento a mecanismos que deem atenção às demandas dos profissionais de saúde, para que se possa realizar um atendimento que de fato seja integral, contribua para o rompimento com o ciclo de violência e proporcionando o direito à saúde e proteção integral da criança e adolescente . Referências BATISTA, M. K. B; GOMES, W. da S; VILLACORTA, J. A. M. Abuso sexual contra crianças: construindo estratégias de enfrentamento na APS em um município da região metropolitana do Recife. Saúde em Debate, v. 46, n. 5, p. 208-220, 2022. DORNELLES, T. M; MACEDO, A. B. T; SOUZA, S. B. C de. Qualidade de vida profissional e coping num hospital de referência para vítimas de violência sexual. Texto & Contexto Enf., v. 29, p. e2190153, 2021. MASTROIANNI, F. de C. et al. Violência sexual infantojuvenil: contribuições e responsabilidades dos profissionais de psicologia. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, v. 12, n. 1, p. 40-62, 2021. SILVA, P. L. N. da et al. Desafios da atuação do enfermeiro frente à violência sexual infanto-juvenil. J. nurs. health, n 11, (2):e2111219482, 2021. SOUZA, M. T. de; SILVA, M. D. da; CARVALHO, R. de. Revisão integrativa: o que é e como fazer. Einstein (São Paulo), v. 8, p. 102-106, 2010.Contextualização: O presente relato de experiência se propôs investigar as relações ancestrais no campo da saúde coletiva em uma comunidade quilombola em Linharinho no ES, tendo como sujeitos da pesquisa um grupo composto por três mulheres com diferentes gerações, na perspectiva circular e dialógica, por meio das narrativas, das relações com as ervas medicinais e a unidade de saúde mais próxima. Metodologicamente trata-se de uma pesquisa qualitativa, no campo quilombola, com foco na construção do conhecimento pela visão holística, a partir das escutas e redes de conversações com mulheres negras quilombolas. Nesse contexto os resultados apontam que as mulheres negras idosas, adultas e jovens quilombolas tecem suas redes de saúde e cuidado, reavivando histórias tecidas pelos ancestrais quilombolas, tendo a terra como foco central de vida, (senão tem terra não se tem nada) onde o território é de uso coletivo possibilitando o exercício de uma vida comunitária, laços de solidariedade entre seus moradores e moradoras. Identifica-se que as relações das mulheres negras quilombolas apontam caminhos da utilização de plantas, ervas medicinais que amenizem as suas doenças, trazem melhores condições de vida e prevenções. Sendo assim, acredita-se na importância de vozes das mulheres negras quilombolas e no investimento das narrativas singulares, como uma estratégia que visibiliza a produção de conhecimentos.. Descrição da Experiência: Esta experiência decorre de uma pesquisa de campo do mestrado em 2023 na comunidade quilombola de Linharinho em Conceição da Barra (ES), ao entrar neste enegrecido quilombo, reavivo lembranças da minha infância tendo muitos sentimentos: Estou de volta pro meu aconchego trazendo na mala bastante saudade querendo um sorriso sincero, um abraço Para aliviar meu cansaço E toda essa minha vontade Que bom Poder tá contigo de novo Os lindos e delicados versos cantando por Elba Ramalho (2015), nos remete à Neusa Santos Souza (2021) quando em sua obra "Tornar-se Negra" nos indicam os resquícios da sociedade escravocrata preservada e reforçada pelo racismo, com controle das hegemonias brancas presente ainda nos dias de hoje. Esse relato de experiência justifica-se, a partir de ausência dessas produções acadêmicas do campo da saúde, e pela presença das desigualdades raciais que, historicamente, têm excluído essa população dos direitos de acesso à saúde pública, jogando-a à margem de uma participação efetiva nos rumos da sociedade brasileira. Gonzalez (1998) nos alerta sobre a coletividade dessas mulheres negras, que possibilita momentos de trocas de afeto, de acolhimentos e criam estratégias coletivas para lutarem por direitos, proteção e preservação dos saberes africanos e afro-brasileiros, através de uma perspectiva circular e dialógica por meio de narrativas de quem construiu essa história.. Objetivo e período de Realização: Investigar as relações ancestrais no campo da saúde coletiva, na comunidade quilombola no ES, tendo como sujeitos três mulheres, de diferentes gerações. A pesquisa de campo foi realizada de janeiro a agosto de 2023, com três encontros por meio de conversações. São diferentes modos de produção de saberes, que mulheres negras quilombolas constroem coletivamente. Ao ouvir as narrativas, percebe-se que a presença das tradições e relações com plantas medicinais, como mecanismo de cuidado com a saúde.. Resultados: A partir das narrativas de três diferentes gerações de mulheres quilombolas, identificamos que atualmente mulheres quilombolas atuam como benzedeiras em um ambiente que inspira muita quietude, reflexão e inspiração religiosa. Assim, por meio de conversações, escutas sensíveis e acolhedoras, interações nas conversas, sentindo o cheiro da terra e usufruindo de um ambiente cheio de energias ancestrais, reconhecemos que nas relações de saúde, estabelecidas na comunidade quilombolas, predominam o uso de chás, rezas, plantas medicinais e em último caso elas procuram atendimento médico. Elas narraram que as profissionais da saúde têm consciência das relações que estabelecem com as plantas, principalmente quando sentem dor ou desconforto. Antes da pandemia ocorreram visitas de diferentes profissionais de saúde com frequência, inclusive para realização de exames na própria comunidade, atualização de receitas vencidas e análise de exames. Entretanto, as mulheres relataram a dificuldade de transporte para irem até a Unidade de Saúde, além dos impactos com o horário de pegar fichas, perdendo muitas vezes a oportunidade de agendar uma consulta e mesmo que expliquem a atendente não abre exceções.. Aprendizado e Análise Crítica: Pisar numa comunidade quilombola e vivenciar histórias narradas por quem de fato viveu é algo que extrapola a academia neutra, posto que seus limites não comportariam as muitas cores, as singularidades das vozes, os cheiros característicos da comunidade, os sons das gargalhadas, as feições na pele preta muitas vezes marcada pelas lutas, e muito menos o caminho das lágrimas que marcaram os rostos das mulheres negras dessa pesquisa. Reconhecendo os séculos de reprodução sobre a inferioridade da população negra, objetificada e difundida ao longo do processo de escravização no Brasil. Ao realizar essas escutas na comunidade quilombola de Linharinho (ES), mantidas pelas tradições e histórias, entendemos as negações de direitos pelo Estado, muitas vezes ausente, ao mesmo tempo, as relações entre as mulheres quilombolas são demarcadas por empatia, união e continuidade das tradições ancestrais nas relações com a natureza. Torna-se necessário assim, o maior investimento do Estado para a implementação de políticas públicas de saúde, mais efetivas, sobretudo para atender as reais necessidades das mulheres negras quilombolas, sendo necessário conhecer histórias, memórias, saberes dos quilombos, as manifestações religiosas, econômicas e a relação da comunidade com a terra, para de fato criar políticas públicas que visem o fortalecimento da saúde e cuidado nas comunidades quilombolas.. Referências:

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Eixo Temático
  • Eixo 08 - Desafios e rumos na formação, no trabalho e na educação na saúde