CONSTRUÇÃO E VALIDAÇÃO DE UM INSTRUMENTO DE AVALIAÇÃO RESPONSIVA DE COMPETÊNCIAS INTERPROFISSIONAIS PARA A GESTÃO DO CUIDADO NA ATENÇÃO BÁSICA À SAÚDE

Vol.2 - 2024 - 199020
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Resumo

Apresentação/Introdução A gestão do cuidado representa a oferta de tecnologias em saúde, coerentes com as necessidades singulares dos usuários. A multiplicidade da gestão do cuidado atravessa as dimensões individual, familiar, profissional, organizacional, sistêmica e societária, de forma a buscar superar coexistência, e muitas vezes a predominância, de modelos fragmentados, uniprofissionais, centrados na doença (Cecilio, 2011). Deste modo, a prática profissional na Atenção Básica à Saúde (ABS), por diversas vezes, é sufocada pelo atendimento biomédico à demanda espontânea. Assim, para essa mudança no modelo de atenção faz-se necessária a ressignificação das práticas dos profissionais da saúde por meio do desenvolvimento de competências alicerçada em uma perspectiva colaborativa e interprofissional (Ribeiro et al., 2019). As competências são um conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes, que apresentam a capacidade de promover benefícios para o sistema de saúde, trabalhadores e usuários, colaborando para a a resolução de problemas e para a formação e prática profissional (Fleury; Fleury, 2001). A partir de então, é essencial a construção de processos avaliativos que apoiem de forma construtivista e formativa (Guba; Lincoln, 2011). Objetivos Construir uma matriz de competências interprofissionais para a gestão do cuidado na ABS e a partir de então, desenvolver um instrumento de avaliação de competências interprofissionais para a gestão do cuidado no âmbito da ABS, alicerçado uma perspectiva de avaliação construtivista-responsiva proposto por Guba e Lincoln (2011) Metodologia Trata-se de um estudo exploratório, descritivo e metodológico, organizada nas seguintes etapas: fundamentação do constructo por meio de uma fase exploratória com entrevistas semiestruturadas com profissionais da ABS e Revisão Sistemática; Metassíntese dos estudos incluídos; Construção e Validação da Matriz de Competências e Construção do Instrumento de Avaliação. Para subsidiar o constructo, a Revisão Sistemática foi realizada nas bases: MEDLINE/PUBMED, WEB OF SCIENCE, CINAHL, SCOPUS, Cochrane Library, Biblioteca Virtual da Saúde, Scielo, PsycInfo, ERIC e Google Scholar. A metassíntese da Revisão foi feita por análise temática com suporte do software NVIVO11. A partir de então, foi construído perfil de competências, que foi validado com trabalhadores da ABS por meio da técnica Delphi e análise por meio de índice de Validação de Conteúdo (IVC). Assim, foi definido o constructo e iniciou-se a decomposição dos itens, situações problema e ilustrações para a elaboração do Instrumento de Avaliação. O instrumento de avaliação teve como referencial teórico-metodológico a avaliação construtivista-responsiva. O estudo tem parecer favorável do Comitê de Ética e Protocolo PROSPERO. Resultados e Discussão As entrevistas e a metassíntese da revisão sistemática possibilitaram a construção de uma matriz com 52 competências interprofissionais para a gestão do cuidado decomposto em um instrumento de avaliação situações problema e ilustrações que permitem o mergulho em um cenário, de modo que sua aplicação possibilita a abertura de um círculo hermenêutico-dialético que permite o desenvolvimento de uma avaliação de quarta geração. As competências interprofissionais foram organizadas nos seguintes domínios: cuidado individual, cuidado familiar/territorial, atuação profissional, impacto organizacional, efeitos de rede, efeitos políticos. As competências interprofissionais sistematizadas compreendem a centralidade do usuário em uma perspectiva transversal a todos os domínios. O domínio ‘cuidado individual’ agrega competências interprofissionais ancoradas no cuidado centrado no usuário e no reconhecimento da necessidade de desenvolvimento de ações e entregas coerentes com a singularidade do sujeito. O domínio ‘familiar/territorial’, reconhece a pluralidade da família e seus elementos simbólicos e contextuais. Os domínios ‘atuação profissional’ e ‘impacto organizacional’ refletem o encontro do pensar, sentir e agir na fronteira interprofissional, por meio de uma comunicação efetiva, dialogicidade e do sentimento de coletividade, atravessadas pela afetividade, respeito, confiança e resiliência. O domínio ‘efeitos de rede’ reforça a necessidade do compartilhamento do cuidado. O domínio ‘efeitos políticos’, relaciona-se aos movimentos de defesa e militância por políticas públicas promotoras de emancipação, justiça social e direito à vida, bem como por uma saúde pública e universal, onde os usuários acessem de forma equitativa e qualificada os serviços e ações de saúde ofertados. Conclusões/Considerações finais Para o desenvolvimento da gestão do cuidado na ABS precisa-se atravessar os domínios cuidado individual, cuidado familiar/territorial, atuação profissional, impacto organizacional, efeitos de rede, efeitos políticos; de maneira a desenvolver competências interprofissionais. Deste modo, a tese proposta foi alcançada uma vez que foram desveladas as competências interprofissionais para a gestão do cuidado às condições crônicas na ABS, o que subsidiou a construção de um instrumento avaliativo, influenciado por referenciais de avaliação construtivista-responsiva. Foi construído o Instrumento de Avaliação de Competências Interprofissionais para a Gestão do cuidado na ABS com 6 domínios e 52 competências. Esta pesquisa reforça a necessidade de processos avaliativos construtivistas e da mudança no modelo de atenção para uma prática centrado na pessoa, alicerçada em uma perspectiva colaborativa e interprofissional. Referências Cecilio, L. C. O. Apontamentos teórico-conceituais sobre processos avaliativos considerando as múltiplas dimensões da gestão do cuidado em saúde. Interface (Botucatu), Botucatu, v. 15, n. 37, p. 589-599, 2011. Fleury, M. T. L.; Fleury, A. Construindo o conceito de competência. Revista de Administração Contemporânea, Curitiba, v. 5, n. spe, p. 183-196, 2001. Guba, E.; Lincoln, Y. Avaliação de quarta geração. Campinas: Editora Unicamp; 2011. Ribeiro, M. A. et al. Organização do cuidado às condições crônicas na Atenção Básica à Saúde de Sobral-CE: avaliação de processo na perspectiva de gestores. ABS EM REVISTA, v.1, n. 1, p. 29–38, 2019Contextualização A adolescência no Brasil se configura como uma fase da vida em que diversas demandas em saúde aparecem, como a violência, o uso de álcool e drogas, a gravidez na adolescência, a incidência de infecções sexualmente transmissíveis, questões de saúde mental, entre outras. A adolescência e a juventude também são fases com características próprias tanto biológicas quanto culturais, psicológicas e sociais. No entanto, é comum que os adolescentes sejam tratados apenas a partir da perspectiva clínica ou que sua particularidade enquanto geração em ato seja ignorada, sendo tratados como um momento de transição para a vida adulta sem autonomia (Horta e Sena, 2010), embora seja reconhecido no ECA a necessidade de intervenção a partir da doutrina de proteção integral (Brasil, 1990), o que vai ao encontro do princípio de integralidade defendido no SUS. A atenção primária tem papel fundamental para trabalhar a proteção, promoção, prevenção e acompanhamento à saúde de adolescentes, principalmente a partir de grupos que compreendam sua especificidade e incentivem seu protagonismo, segundo as Diretrizes Nacionais de Atenção à Saúde do Adolescente (Brasil, 2010), sendo necessária a elaboração de estratégias para identificação de temas, captação, criação de vínculos e explicitação clara e convidativa de como se pretende realizar um grupo de adolescentes. Descrição da Experiência Este trabalho, portanto, visa relatar o processo de planejamento e construção de um grupo de adolescentes em uma clínica da família da cidade do Rio de Janeiro, por uma equipe de residentes multiprofissionais em saúde da família. A presença deste público na unidade era esvaziada, embora fosse comum a realização de discussões de casos de adolescentes junto a eMulti da unidade. O planejamento foi um momento crucial para o desenvolvimento do grupo. Havia a preocupação de captar os adolescentes para um grupo de educação e promoção em saúde, de incentivar a participação ativa do público-alvo na condução do grupo e de engajar da unidade e os profissionais de saúde no trato com adolescentes. Para isso, a equipe lançou mão de estratégias que conduzissem a este objetivo: 1) coletou-se temas importantes para os adolescentes em uma escola municipal; 2) elaborou-se um projeto de intervenção para apresentar aos profissionais que manifestaram interesse em participar; 3) negociou-se a parceria com escolas municipais do território, com a apresentação de demandas institucionais e o desenvolvimento de acordos; 4) realizou-se o convite pessoalmente e por meio de panfletos aos alunos das escolas municipais. Além disso, também-se negociou um espaço com um setor da Secretaria Municipal de Ciência e Tecnologia, onde já havia a frequência de adolescentes, para a realização do grupo. Objetivo e período de Realização O objetivo deste trabalho é apresentar o processo de construção de um grupo de adolescentes, procurando focar nas estratégias para criar um grupo de promoção e educação em saúde horizontal, que vinculasse o público-alvo, profissionais de saúde e outras políticas setoriais em uma construção coletiva. A construção do grupo iniciou-se em Novembro de 2023, com o primeiro encontro acontecendo em Março de 2024 e desenvolvendo-se até o momento atual. Resultados Foi estabelecida uma articulação com duas escolas que divulgaram o grupo, além do contato com uma escola mais próxima que sugeriu algum de seus alunos e combinou que fosse realizado um diálogo sobre a participação deles. Também criou-se uma parceria com uma Nave do Conhecimento, unidade de divulgação de ciência, tecnologia e informação da cidade do Rio de Janeiro, para utilização do espaço. Até o momento foram realizados seis encontros do grupo de adolescentes, cuja presença girou em torno de 13 participantes por encontro. Os encontros se iniciam sempre com uma dinâmica quebra-gelo e os temas tratados até o momento foram: noção de grupalidade, com dinâmicas de trabalho em equipe; relacionamentos, sexualidade e papéis de gênero; violência sexual contra crianças e arte e saúde, associado ao tema de saúde mental. Temas têm sido sugeridos, como arte e saúde, uso de drogas e bullying, e serão tratados no decorrer do grupo. Além dos residentes, de seis encontros, quatro tiveram a presença de pelo menos um profissional da clínica, com o total de seis categorias, sendo eles médico, agente comunitária de saúde, assistente social, psicóloga, profissional de educação física e nutricionista. Aprendizado e Análise Crítica Considera-se que o grupo tem desenvolvido o vínculo entre a unidade de saúde e os adolescentes, havendo apropriação das necessidades de saúde, possibilitando realização de educação permanente, a inserção desse público na agenda da unidade e a ampliação dos cuidados de um público cuja presença ocorria por questões de saúde mental já agravadas, proporcionando novas formas de cuidado. A construção e condução do grupo têm oportunizado o protagonismo dos adolescentes nos temas a serem tratados, aspecto essencial para o vínculo, pertencimento e promoção de saúde. Além disso, a articulação intersetorial com a Educação e com a Ciência e Tecnologia também tem sido um central, permitindo articular as demandas institucionais, construir um trabalho no território, ampliar os momentos de compartilhamento e discussão de casos e permitindo um espaço mais reservado e confortável para o público alvo. O processo de negociação também lança luz para alternativas mais vivas de articulação e aproximação entre os setores e profissionais. Por fim, reflete-se que com tantas demandas e com os indicadores do contrato de gestão, municipais e federais, a equipe tende a priorizar os grupos populacionais e as linhas de cuidado contemplados. Estranhamente, a adolescência não está presente em nenhum dos indicadores, o que pode contribuir para a invisibilização desse grupo. Referências BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei 8.069/1990. Rio de Janeiro: CEDECA-RJ, 2022. BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Diretrizes Nacionais para a Atenção Integral à Saúde do Adolescente e do Jovem. Brasília: Ministério da Saúde, 2010. HORTA, Natália de Cássia; SENA, Roseni Rosângela de. Abordagem ao adolescente e ao jovem nas políticas públicas de saúde no Brasil: um estudo de revisão. Physis, Rio de Janeiro, n.20, v.2, pp.475-495, 2010.Contextualização: A diabetes (DM) é um problema de saúde pública, sendo as úlceras e amputações decorrentes de sua progressão um desafio para o SUS. A incidência de úlcera do pé ao longo da vida de pacientes com DM é de 19% a 34%, com taxa de incidência anual de 2%¹. Embora o Ministério da Saúde tenha implementado ações para o cuidado integral de pessoas com DM, ainda não há iniciativas para prevenção de fatores de risco modificáveis para úlceras nos pés. O Grupo Internacional de Prevenção do Pé Diabético², em revisões sistemáticas e diretrizes publicadas a cada 4 anos, recomenda programas de exercícios para os pés para prevenir fatores de risco e úlceras nos pés, ação ainda não implementada no SUS. Diante dessa realidade, nasce o FOot Care and exercises ImplementatioN for people with diabetes in primary care - FOCAIN, projeto de ciência da implementação construído em conjunto pela Universidade de São Paulo, Secretaria Municipal de Saúde (SMS) e profissionais de saúde de Limeira/SP. A proposta, com envolvimento e alinhamento com a gestão da Atenção Básica (AB), visa implementar um programa de exercícios para os pés de pessoas com DM, em adição às práticas educativas de cuidados com os pés, estabelecendo ações de corresponsabilidade entre as equipes eMulti de Limeira e a universidade, de modo que após o fim da parceria, o município tenha condições reais de manter e ampliar as ações do FOCAIN.. Descrição da Experiência: Dada a manutenção das equipes Núcleo de Apoio à Saúde da Família, apesar da suspensão do repasse federal, e adesão à Estratégia de Saúde Cardiovascular na AB, Limeira destacou-se como potencial município para tradução de resultados de anos de pesquisa sobre cuidado e prevenção do pé diabético do Laboratório de Biomecânica do Movimento e Postura Humana – USP (LABIMPH) em práticas efetivas na AB. Após apresentação e apoio da SMS e coordenação da AB, o FOCAIN iniciou com reunião presencial com representantes da gestão de saúde e profissionais da AB e das equipes da eMulti e da AB. Nessa reunião (fase 1), a proposta, público-alvo e o envolvimento do município foram discutidos com os profissionais por meio de entrevista estruturada e gravada. As opiniões foram analisadas qualitativamente e categorizadas como barreiras e facilitadores para a implementação. Depois, foi formado o time de implementação (fase 2), grupo oriundo da fase 1 e formado por atores que demonstraram envolvimento para estruturar estratégias para a intervenção nas UBSs e por elaborar a capacitação dos profissionais que participarão da intervenção (equipe eMulti, agentes de saúde, médicos, técnicos de enfermagem e enfermeiros). O FOCAIN encontra-se na fase 3, que contempla a capacitação dos profissionais, realizada em 4 encontros (2 teóricos e 2 práticos), e a intervenção com a população, ainda a ser realizada.. Objetivo e período de Realização: O FOCAIN teve início em março/2023. Para seu desenvolvimento, foi firmado um contrato entre o Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional da Faculdade de Medicina da USP e a SMS de Limeira. Esta experiência visa relatar o processo de efetivação da parceria, da discussão da proposta com os profissionais de saúde, atores esses responsáveis pela implementação, e da capacitação dos profissionais de saúde de Limeira.. Resultados: A fase 1 do FOCAIN atingiu 52 profissionais (enfermeiros, agentes de saúde, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, nutricionistas, psicólogos, assistentes sociais, terapeuta ocupacional e fonoaudióloga. Destacaram-se barreiras em relação à gestão municipal (recursos disponíveis), custo, compromisso da liderança e escassez de estrutura para gerenciamento de grupos. Sobre os facilitadores, os atores acreditam na proposta, consideram a evidência e o projeto de qualidade, qualificam o alinhamento do projeto com os próprios valores e apresentam motivação para executá-lo. Na fase 2, o time definiu: 1. estratégias para execução da intervenção mediante realidade das UBSs do município (grupos, 12 semanas, cartilha e SOPED - Sistema de Orientação do Pé Diabético)3 e programa de exercícios para os pés (desenvolvidos pelo LABIMPH); 2. conteúdos e estrutura para a capacitação dos profissionais de saúde. A capacitação, 1ª parte da fase 3, alcançou 118 profissionais de saúde e abordou: avaliação e autocuidado do pé diabético, fisiopatologia e biomecânica da PND, princípios de offloading, workshops e prática de exercícios para os pés. Financiamento FAPESP 2023/09860-4 e CNPq/MCTI 402307/2023-2.. Aprendizado e Análise Crítica: Para implementar na vida real é preciso avaliar o contexto social, cultural, econômico e político do local onde a intervenção em saúde será implementada, com base nas percepções de instituições, profissionais e usuários do SUS, de modo que estratégias adequadas contextualmente sejam elaboradas. O FOCAIN destaca-se por: 1. oferecer um programa de exercícios e práticas educativas de cuidados com os pés de pessoas com DM baseado em evidências científicas atuais; 2. é construído e implementado junto ao município que receberá a implementação. As principais barreiras foram centradas na falta de recursos disponíveis e a maior parte dos facilitadores refere-se aos atores da intervenção. Apesar dos obstáculos, os profissionais desejam fazer o melhor com o que possuem, retratando um cenário comum da AB no país. Ademais, o FOCAIN apresentou grande sucesso nas fases 1, 2 e na capacitação, fato demonstrado por meio da crescente participação e interesse dos 176 profissionais da AB que participaram das atividades do FOCAIN até o momento. Por fim, a mensagem é clara: é urgente que o conhecimento transpasse os muros da academia e chegue aos cenários do mundo real. Continuamos juntos, como um time, para que o FOCAIN aconteça e permaneça em Limeira..

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  • Eixo 04 - Gestão do cuidado e qualidade nas redes de atenção à saúde