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“O Comer e o Sagrado”: alimentando corpo e espírito Cotidiano e político, o comer é tão vital para sobrevivência do nosso sistema biológico quanto da nossa cultura e sociedade, sendo relevante para a manutenção da sobrevivência do indivíduo e para a construção da identidade, história, cultura e tradição na esfera do social. Objeto de análise dentro das interações sociais, processos civilizatórios da sociedade humana, modelos alimentares de resistência, aspectos psicológicos, sensoriais, patológicos e sentimentais, o ato do comer dentro dos seus significados revela-se como sagrado para muitos grupos, dentre eles os adeptos ao popularmente chamado “Movimento Hare Krishna”. O Movimento Hare Krishna - inserido na Tradição Vaishnava, a corrente monoteísta do Hinduísmo - teve início na Índia Antiga, difundiu se pelo Ocidente em 1965 com a ida de um líder importante chamado Swami Prabhupada para os EUA, e é classificado por seus integrantes como uma filosofia de vida, que tem como guia os escritos sagrados do livro Bhagavad-Gita. Dentro de suas práticas, destacamos a visão espiritual que este grupo possui acerca da alimentação, e a construção do pensamento e crença em torno do comer, que por sua vez distingue-se de uma maneira bem marcada das práticas ocidentais (COSTA, 2013). Há alimentos específicos, com combinações, objetivos e maneira certa de preparo e consumo, que suscita curiosidades e nos convida a lançarmos um olhar sobre suas práticas. Alguns autores demonstram a riqueza da diversidade dessa tradição milenar que interage de forma íntima e soberana com quem a pratica, além da urgência de nos atentarmos e considerarmos o estilo de vida dos/as demais, não excluindo ou marginalizando o diferente, mas valorizando os distintos saberes e práticas dentro do universo que se inclui a cultura alimentar. (GIORDANI, FIDELI e BERGAMASCO, 20016; COSTA, 2013; CANESQUI e DIEZ, 2005). Na perspectiva do Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) Bezerra e Isaguirre (2019) ressaltam a importância para que a sociedade compreenda o DHAA para além do âmbito normativo - de exigibilidade de direitos - para que este direito também incorpore as dimensões políticas, sociais, econômicas, ambientais e, por fim, mas não menos importante, a dimensão cultural. Ao trazer elementos para refletir a cultura alimentar alinhada à uma filosofia de vida espiritual optou-se neste ensaio por explorar de forma breve o “Movimento Hare Krishna”. Dentre as principais práticas dos/as devotos/as da divindade Krishna está o canto de mantras, que pode ser feito em grupo com instrumentos, ou individualmente em recitação; o oferecimento do alimento para Deus antes da ingestão, por acreditar que se Ele comê-lo antes, irá torná-lo purificado e purificador, passando a ser chamado de prasadam; a adoração às Deidades onde estiver; a distribuição de livros de filosofia em locais públicos; o uso de vestimentas semelhantes a longas batas na cor laranja quando o indivíduo assume voto de castidade, ou então brancas. Prezam muito pela devoção, desapego dos bens materiais, simplicidade e limpeza. (COSTA, 2013, grifos nossos). A prática prevê o seguimento de quatro princípios. São eles: a não-violência, ou seja, não agredir fisicamente ou verbalmente nenhum ser, o que se reflete no não consumo de carnes, peixes e ovos; não praticar jogos de azar, como apostas; não se intoxicar com drogas lícitas ou ilícitas; e a não-promiscuidade, que costuma ser resumida pelos praticantes como não ter relações sexuais fora do casamento. Os/as devotos/as são lacto-vegetarianos/as, entendem que toda matéria é constituída por três modos: Bondade, Paixão e Ignorância. Portanto os alimentos também são classificados de acordo com esses modos, podendo, segundo a crença, nos influenciar positivamente ou negativamente. (COSTA, 2013 grifos nossos). Alimentos no modo da bondade ampliam a duração da vida, purificam a existência, dão força e ampliam a saúde, a felicidade e a satisfação. Tais alimentos são suculentos, gordurosos e muito favoráveis à saúde do corpo. Alimentos que são excessivamente amargos, excessivamente azedos, excessivamente salgados, excessivamente acres, excessivamente secos ou excessivamente picantes causam aflição, miséria e doenças. Tais alimentos são muito queridos àqueles no modo da paixão. Alimentos preparados mais de três horas antes de serem comidos, que são insípidos, sem sumo, em decomposição, malcheirosos e que consistem em sobras e substâncias intocáveis são muito queridos àqueles no modo da escuridão (PRABHUPADA, 2011, p. 777) Então, os/as devotos/as têm um grande cuidado na alimentação, excluindo da dieta alimentos como chocolate e cafeína, cebola, alho e aqueles de origem animal, com exceção do leite e seus derivados. Os dois primeiros por acreditarem que alteram o estado normal do nosso corpo, dando uma falsa sensação de felicidade pela liberação de neurotransmissores, são considerados pertencentes ao “modo da paixão”; os condimentos citados em seguida não são consumidos por serem pertencentes ao “modo da ignorância”, por acreditarem que alteram o estado normal do nosso corpo, como, por exemplo, o odor. Já o último grupo citado não é consumido por acreditarem que Krishna não se agrada desse tipo de alimento, além de não seguir a prática da “não-violência”. Quem ama a Krishna Lhe dará tudo o que Ele quiser e evitará oferecer algo indesejável ou inoportuno. Logo, carne, peixe e ovos não devem ser oferecidos a Krishna. Se Ele desejasse esse tipo de oferenda, Ele teria Se manifestado nesse sentido. [...] Legumes, cereais, frutas, leite e água são os alimentos apropriados para os seres humanos e são prescritos pelo próprio Senhor Krishna. Os alimentos gordurosos não têm nenhuma relação com a gordura animal obtida através da matança. A gordura animal é disponível sob a forma de leite, que é o mais maravilhoso de todos os alimentos. Leite, manteiga, queijo e produtos desse mesmo gênero, fornecem uma forma de gordura animal que exclui qualquer necessidade de matar criaturas inocentes. Só quem tem uma mentalidade bruta deixa que esta matança aconteça. O leite propicia o método civilizado de obter a gordura necessária. A matança é prática dos sub-humanos. A proteína é amplamente disponível através de ervilhas partidas, dāl, trigo integral, etc. (PRABHUPADA, 2011, p. 777). Acreditam que cereais e grãos têm grande poder de acumular energia das pessoas que o processam, portanto os devotos não costumam comer nenhum alimento feito de grãos e cereais que não seja preparado por outro adepto, já que não têm ideia de quais eram os pensamentos e sentimentos de quem os preparou, e querem evitar absorver más energias. Além disso, duas vezes ao mês eles fazem jejum de grãos e cereais, ou até mesmo o jejum total. Os alimentos escolhidos para ingestão são selecionados de acordo com o que acreditam que agrada a Krishna, como legumes, cereais, frutas, água e principalmente o leite e seus derivados. Entre a preparação do alimento e a refeição existe uma série de peculiaridades segundo a ótica ocidental, todas as etapas são realizadas com a intenção de agradar a Deidade. Há uma grande relação de devoção e essa conexão do sagrado com o mundo material é mediada pela refeição, ao passo que os devotos, independente do gênero, cozinham o alimento entoando mantras, evitando pensamentos e sentimentos de natureza mundana para que então essa comida seja destinada para que os membros somente a saboreiem, passando a ser denominado bogha, ou então ela é oferecido para Krishna, na ideia da Deidade torná la purificada e com poder purificador. Eles creem que quem consumir esse alimento purificado e sagrado, passado a ser chamado de prasadam, também adquire boas energias, que conferem uma atitude mais positiva e feliz mediante a vida. Para oferecer um prato à Krishna, especialmente em dia de eventos especiais, são lidas descrições e histórias milenares para saber que combinação agrada mais a Ele. O valor estético e sensorial são considerados, por isso, a preparação precisa estar bonita, harmônica, com aroma intenso, cremosa e saborosa, existindo uma composição específica para determinar tais fatores. O padrão é que a oferenda seja constituída de dois tipos de sabji (preparo de vegetais), dahl (sopa de grãos), arroz, samosa (pastéis indianos), capati (pão assado), doce, salada e suco. As preparações feitas para as deidades devem ser opulentas e são incrementadas com frituras, creme de leite (nata), azeitonas, queijo, etc. (COSTA, 2013, p. 43). Além de toda essa conexão na seleção, preparo, montagem e oferenda da refeição e no próprio prazer em se alimentar, se por algum motivo a comida tiver que ser descartada, ela não vai parar no lixo. Por supostamente conter o poder purificador e representar a benção de Krishna, ela não pode ser desperdiçado a seres sem vida, sendo direcionada então para seres humanos, animais, ou espécies vegetais, de modo que esse alimento contribua de alguma forma para a purificação de algum ser. Preocupados em levar essa consciência de Krishna para outros, o prasadam é oferecido, muitas vezes gratuitamente, para a comunidade externa ao templo. Moradores de rua, estudantes, vegetarianos e demais grupos costumam se alimentar dele, reiterando o fato do alimento ser um fator importante nas interações sociais, dentro da significação de cada grupo, eles acabam por se conectarem e dialogarem entre si, tendo o ato de comer como mediador de uma troca de vivências. BEZERRA, Islandia; ISAGUIRRE, Katya. Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA): a discussão da “geografia da fome” à sua proteção jurídica no Brasil. In: Diálogos sobre o Direito Humano à Alimentação Adequada / Leonardo Corrêa [organizador]. – Juiz de Fora, MG: Faculdade de Direito da Universidade Federal de Juiz de Fora, 2019. CANESQUI, Ana Maria; DIEZ, Rosa Wanda (org.). Antropologia e nutrição: um diálogo possível. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2005. COSTA, Ana P. R. Dala. Adoração Ritual à Deidades no Templo Hare Krishna em Curitiba. Curitiba: UFPR, 2013. 79 p. Monografia (Bacharelado) – Programa de Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2013. GIORDANI, R. C. F. ; FIDELIS, L. M. ; BERGAMASCO, S. M. P. P. . Comunidades tradicionales brasileñas y Seguridad Alimentaria y Nutricional: articulaciones necesarias entre cultura y territorio. Espacio Regional. Revista de Estudios Sociales , v. 1, p. 13-22, 2016. MINTZ, S. Comida e antropologia: uma breve revisão. Revista Brasileira C.S; 16, 2001.
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