MULTIPLICASAN: COMPARTILHANDO O PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DA AVALIAÇÃO DO CURSO NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO POPULAR NA UNB

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Resumo

Apresentação/objetivos A alimentação adequada e saudável constitui-se como requisito essencial para o pleno desenvolvimento dos povos. Apesar de sua relevância, a alimentação só foi reconhecida como direito social constitucional no Brasil no ano de 2010, por meio de uma emenda (BRASIL, 2010). Todas as pessoas devem ter a garantia do acesso permanente e regular, de forma socialmente justa, a uma alimentação adequada e saudável baseada em uma prática alimentar adequada aos aspectos biológicos, sociais e culturais, de acordo com a fase da vida e as necessidades alimentares especiais. Deve atender aos princípios da variedade, equilíbrio, moderação, prazer (sabor), às dimensões de gênero e etnia, e às formas de produção ambientalmente sustentáveis, livre de contaminantes físicos, químicos, biológicos e de organismos geneticamente modificado (BRASIL, 2010). O cumprimento do direito humano à alimentação adequada e saudável (DHAAS) significa que as pessoas devem estar livres da fome e da desnutrição, mas também ter acesso a uma alimentação adequada, saudável, sustentável ambiental e economicamente, e que respeite a cultura alimentar, alcançando assim a Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) (BRASIL, 2006). Sendo um direito social, é dever do Estado garantí-lo à toda a população. Contudo, a plena realização desse direito muitas vezes depende da participação ativa da sociedade, cobrando e fiscalizando as ações que o garantam. Nesse sentido, estratégias que visem munir cidadãs e cidadãos de elementos necessários para a reivindicação de seus direitos são de grande importância e potencial. Nesse contexto, o Curso sobre Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) e Direito Humano à Alimentação Adequada e Saudável (DHAAs), construído dentro do Projeto de Extensão “MultiplicaSAN - Promovendo uma cultura de direitos”, configura-se com uma iniciativa que visa revelar a importância do DHAAS, e o papel dos cidadãos como titulares de direitos, bem como os caminhos legais e institucionais para sua exigibilidade e potencial alcance. Entende-se como elemento fundamental da estruturação de ações educativas, a dimensão da avaliação, tanto dos processos, quanto dos resultados, a fim de promover aperfeiçoamento contínuo das propostas. Assim, este relato tem como objetivo apresentar o instrumento de avaliação do curso promovido pelo Projeto MultiplicaSAN. Descrição da experiência O curso foi elaborado e executado por alunas e professoras do Departamento de Nutrição da Universidade de Brasília (NUT/UnB) e nutricionistas colaboradoras do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição/UnB. Foi composto por seis encontros, que ocorreram entre abril e junho de 2018, no município de Colinas do Sul, no norte do estado de Goiás. Os encontros aconteceram em sábados alternados, em uma escola da rede municipal. As participantes do curso foram principalmente mulheres moradoras do município, com diferentes ocupações e atuações na sociedade, como donas de casa, merendeiras, auxiliares de serviços gerais na escola municipal, e trabalhadoras/servidoras da área da saúde de saúde. A participação no curso deu-se a partir de convite à comunidade escolar do município, feito por uma professora do Polo da UnB Cerrado, em Alto Paraíso de Goiás, que desenvolve Projeto de Extensão na região. O curso desenvolveu-se como atividade complementar deste Projeto. Todo o processo do curso foi baseado na educação popular e seus princípios nortearam as relações interpessoais (participante - equipe, equipe - equipe, participante - participante, participante - sociedade), as abordagens pedagógicas aos temas propostos e as metodologias. Durante os encontros foram utilizadas dinâmicas ativas e participativas, rodas de conversa, representações teatrais, buscando sempre a participação ativa das educandas na construção de seu conhecimento. O curso foi planejado e executado com o objetivo de instigar questões relacionadas ao processo alimentar na sociedade em que vivemos, possibilitando uma compreensão ampliada sobre o DHAAS e os caminhos para sua exigibilidade e garantia. Para tanto, tratou de temas como: história e conceitos de segurança alimentar e nutricional e direito humano à alimentação adequada e saudável, circuitos alimentares, sistema e soberania alimentar, conceitos básicos relacionados a políticas públicas, Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN)-componentes e funcionamento em nível local, violações e exigibilidade do DHAAS e como colocar tais conceitos em prática. A educação popular realiza práticas pedagógicas num diálogo interdisciplinar que visam à emancipação dos sujeitos para a transformação social. Na abordagem da educação libertadora, os processos educativos partem da realidade dos fenômenos para fazer o diagnóstico e, de maneira participativa, alcançam discussões sobre possibilidades de trabalho e construção de alternativas para o desenvolvimento de atividades pedagógicas que, por sua vez, proponham transformações na realidade diagnosticada inicialmente. (Freire, 2005). A proposta foi organizada sob duas perspectivas: a avaliação de desempenho (processo de análise, reflexão e síntese do conhecimento compartilhado entre participantes/grupo) e avaliação de processo de trabalho (da proposta do curso). Este trabalho trata-se, apenas, do relato da experiência de avaliação da proposta do curso. Para escolha da forma de avaliação do curso, buscando a coerência com a metodologia a educação popular, buscou-se estratégias que valorizassem a avaliação como uma ferramenta pedagógica. Neste sentido, de acordo com os princípios adotados na relação com a equipe, foi proposto a uma das integrantes o planejamento de um instrumento de avaliação do curso como oportunidade de realização de uma pesquisa que seria seu trabalho de conclusão de curso, na graduação de nutrição. Assim, a proposta de construção de uma ferramenta avaliativa foi gerada provocando a ponte entre extensão e ensino no âmbito do projeto MultiplicaSAN/FS do departamento de Nutrição/UnB. O processo de construção da ferramenta foi coletivo. Em uma das reuniões semanais da equipe, foi realizado uma chuva de idéias sobre : qual o objetivo da avaliação do curso indicando as dimensões que deveriam ser avaliadas : metodologia, conteúdos, desempenho da equipe e das participantes em relação aos princípios acordados no contexto da educação popular. Além desses pontos, foram consideradas questões voltadas à aplicação e o formato do questionário, como: não haveria acesso a internet e outras tecnologias na escola, as participantes não tinham facilidade em responder um questionário online e a linguagem deveria ser de acordo com o perfil das participantes, dialogando com a “leitura de mundo” do grupo e com perguntas claras, diretas e objetivas .O instrumento se constituiu no formato de um questionário de seis perguntas, sendo cinco questões fechadas e uma questão aberta. A primeira pergunta do questionário foi “Como você avalia o curso? A partir dos seguintes itens: metodologia, duração do curso, e dinâmicas. As participantes tinham que atribuir uma nota de 0 a 10 para cada um desses itens. Neste item, a média foi alta , 9,9 indicando que o curso teve boa aceitação. A segunda pergunta foi “Pensando no que você sabia quando começou o curso, de 0 a 10 o quanto você avalia que você sabe os conteúdos? Avalie o quanto você sabia no início e no final do curso:” e em seguida havia uma tabela onde na primeira coluna estavam os conteúdos/temas que abordamos nos encontros, na segunda espaço para colocar a nota para o início do curso e a última coluna a nota para o final do curso. O objetivo dessa questão foi saber a evolução do conhecimento, ao longo do curso. Propomos essa questão como uma forma de mostrar/entender que ninguém sabe nada e ninguém sabe tudo, ou seja, ao considerarmos que as pessoas já tinham algum conhecimento prévio sobre os temas que levamos esperávamos acrescentar outras visões e construir um conhecimento coletivo. Essa questão nos ajuda a entender como as pessoas chegam, em termos de conhecimento acerca dos temas e conteúdos que serão abordados na aula, no encontro ou no curso, e a partir dos resultados e das interpretações de acordo com cada contexto, essa avaliação consegue nos ajudar a pensar novas formas de apresentar esse tema/conteúdo para aquele público específico. Pode dar indícios de onde iniciar a conversa, se mais aprofundado ou não de acordo com o conhecimento inicial sobre o tema/conteúdo. Mas para além disso, a nota atribuída para o conhecimento ao final do curso também nos traz reflexões interessantes, por meio da autopercepção comparativa dos sujeitos, como: o tema/conteúdo com a nota mais alta parece ser aquele que as participantes mais entenderam e o que teve a menor nota poderia ser aquele que as participantes tiveram mais dificuldade para entender . E ainda, a diferença entre a nota inicial e final nos mostra como foi a caminhada das participantes durante o curso, possibilitando uma análise subjetiva da “diferença de saberes” entre o início do curso e o fina, denominamos esta abordagem de ‘Curva de conhecimento’. Se a diferença entre as duas foi grande podemos inferir que a discussão sobre aquele tema foi construtiva de forma que conseguimos agregar mais conhecimento ao que as participantes já tinham sobre aquele tema/conteúdo. Sendo assim, considerando a médias das notas, o conteúdo com menor nota inicial foi “SISAN, CONSEA e CAISAN” com 2,7; com maior nota inicial foi “Circuito alimentar”, com 5,9; com menor nota final foi “SISAN, CONSEA e CAISAN”, com 8,4; com maior nota final foi “DHAAS”, com 9,6; com a menor diferença entre as notas finais e iniciais foi “Participação social”, com 3,5; e com a maior diferença foi “SISAN, CONSEA e CAISAN”, com 5,7. A terceira pergunta foi “Como você avalia a equipe? Avalie a equipe a partir dos seguintes itens:” da mesma forma que as anteriores, as participantes tinham que pontuar de 0 a 10 os itens “Respeito com você e com o grupo”, “Soube ouvir”, “Deu espaço de fala”, “Se colocou no lugar dos outros”, “Acolhimento”, “Falou de forma clara” e “Organização”. Nessa questão queríamos saber como nossas atitudes foram percebidas pelas participantes e se tínhamos conseguido transmitir amorosidade e construir um ambiente onde houvesse diálogo e respeito, dois dos princípios da educação popular (BRASIL, 2014). Para essa avaliação, considerando a média das notas, os itens “Respeito”, “Soube ouvir” “Acolhimento” e “Organização” apresentaram notas iguais a 10, e os outros itens, apresentaram média igual a 9,9. A quarta questão foi “Como você avalia sua participação no curso? Faça uma autoavaliação a partir dos seguintes itens:” e para cada item a seguir elas tinham que atribuir uma nota de 0 a 10, os itens foram “Se comprometeu com o curso (chegou no horário, faltas...)”, “Colaborou para as discussões”, “Estava presente de corpo e alma nos encontros (não mexeu no celular durante as aulas)” e “Soube ouvir os outros”. Com isso buscamos saber qual foi o comprometimento e dedicação das pessoas em relação ao curso, e o que nos ajudou para construir essa questão foi o “Com-trato” que tínhamos ‘assinado’, onde colocamos pontos como uso do celular durante o curso, por exemplo, e dessa forma pude resgatar essas cláusulas, trazendo perguntas de ações e atitudes mensuráveis para questões que são abstratas. O Com-Trato é uma dinâmica realizada no início do curso onde é pactuado as normas de convivência de ordem prática, como horários, relação com a tecnologia etc., com respeito e tolerância a partir dos princípios da educação popular, estabelecendo limites e tolerância mútua para os processos colaborativos e participativos do grupo. O resultado dessa questão mostrou que em relação aos itens “Se comprometeu com o curso” e “Colaborou para as discussões” tiveram nota média de 8,6, o item “Estava presente de corpo e alma nos encontros” teve nota média de 9,1 e o item “Soube ouvir os outros” teve média igual a 9,9. A questão cinco, foi “Como você avalia a importância da sua participação nesse curso?” nessa pergunta, elas tinham que assinalar uma das opções “Fundamental”, “Importante”, “Não importante” e “Não tenho elementos suficientes para avaliar”. Com essa pergunta queríamos ver se o curso tinha feito diferença na vida das participantes, se tinha acrescentado mais do que conhecimento. Esta questão ainda que ousada para um curso de seis encontros, se propõe analisar a capacidade de empoderamento social que o coletivo pode promover. É uma pergunta sobre o princípio de transformação da realidade que não se realiza em 6 meses, mas que pode gerar efeitos potentes do ponto de vista do reconhecimento dos sujeitos como agentes de transformação social. Parafraseando Paulo Freire: “A educação não muda o mundo. A educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo” (Freire, 2005;BRASIL, 2014). Para essa questão 57% das participantes consideraram sua participação no curso como importante, 36% consideraram fundamental e 7% não respondeu a essa questão. A última questão foi aberta, o comando geral era “Compartilhe conosco a sua avaliação e nos ajude a melhorar nossos encontros”, colocamos um comando auxiliar que foi “Para facilitar, utilize palavras-chaves para responder os itens a seguir:” os itens seguiam com espaço para escrever “O que não foi bom?”, O que foi bom?”, “O que pode melhorar?”, “Suas sugestões” e “Suas preocupações”. O objetivo foi ter uma visão geral dos pontos positivos e negativos do curso de forma que elas pudessem expressar questões específicas dos encontros. Essa questão aberta também foi importante para justificar também algumas diferenças nas notas atribuídas nas perguntas anteriores, como a primeira onde o item Duração teve menos nota, e nesta pergunta elas ‘explicaram’ que um dos pontos negativos foi a curta duração do curso e como sugestão, ele deveria acontecer duas vezes ao ano, como algumas colocaram, outras questões como a pouca divulgação do curso na cidade, a greve dos caminhoneiros que fez com que adiássemos um dos nossos encontros, elogios a equipe, as dinâmicas, sugestões para outro temas como autoestima, melhor a divulgação para que mais pessoas possam participar e preocupações com o futuro do grupo e com a melhoria das situações problema levantadas. Conclusão/considerações finais O processo de avaliação aqui relatado foi construído coletivamente no contexto de um curso de extensão para formação em DHAAS e SAN, dialogando com os princípios da educação popular que entende a avaliação como também uma ferramenta pedagógica que deve auxiliar na qualificação do curso. As questões descritas buscam destacar dimensões importantes de acompanhamento do processo pedagógico e temático da proposta. A avaliação do curso foi escolhida como um eixo de pesquisa articulador entre o ensino e a extensão em um Projeto do departamento da Faculdade de Saúde da UnB, evidenciando a potência e a indissociabilidade do ensino, pesquisa e extensão como base de conhecimento na universidade pública engajada na construção de uma ciência critica e cidadã. O curso de multiplicadores de SSAN/DHAAS é relevante e necessário no contexto do fortalecimento dos direitos de cidadania e parece ser um cenário profícuo para a expansão do tema no contexto universitário na perspectiva de uma ciência cidadã. Referências bibliográficas BRASIL. Marco de referência da Educação Popular para as políticas públicas. Secretaria-Geral da Presidência da República, Secretaria Nacional de Articulação Social, Departamento de Educação Popular e Mobilização Cidadã. Brasília, 2014. Disponível em: http://conae2014.mec.gov.br/images/pdf/MarcodeReferencia.pdf. Acessado em: 17 de maio de 2019. Carvalho, Maria Cláudia da Veiga Soares; Prado, Shirley Donizete; Moreira, Vanessa Nascimento; Nascimento, Marina N. da C.; Barbosa, Maria Irene de Castro; Brito, Catarina Barbosa; Fernandes, Juliana Milczanowski; Estrella,Thais Barreto; Ferrer, Roberta de Cássia O. Avaliação de ações de Educação Alimentar e Nutricional / EAN na escola. Produção bibliográfica digital livre acesso do Laboratório Digital de Educação Alimentar LADIG’E do Instituto de Nutrição Josué de Castro / UFRJ para o Projeto Projeto MDS/SESAN/CNPq: avaliação de ações de educação alimentar e nutricional na escola, 2016. Freire, P. Pedagogia do oprimido. 45. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.

Instituições
  • 1 Universidade de Brasília
Eixo Temático
  • Tema 1 - Direito Humano à Alimentação Adequada
Palavras-chave
DHAA
educação popular
avaliação