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INTRODUÇÃO: A adolescência é um período marcado por transformações físicas e psicossociais, bem como por conflitos relacionados a incertezas, inseguranças, construção e conhecimento da própria imagem corporal, autoestima e identificação de pares, além das instabilidades familiares e sociais. Considerando que tais mudanças refletem nos hábitos alimentares, perceber-se que a alimentação está circundada por uma série de interferências: a história de vida do adolescente, o comportamento alimentar pregresso na sua infância, as crenças e os mitos alimentares, a religião, a influência da mídia no culto à boa forma física e o cenário social. Entre os fatores que podem interferir nos hábitos alimentares tem-se a religião. As pessoas, no seu comportamento diário, são conduzidas pela sua fé. Uma grande parte das práticas religiosas está ligada ao ato de comer. Segundo Carneiro (2013), o que se come é tão importante quanto quando se come, onde se come, como se come e com quem se come. A religião ou cultura reflete nas práticas alimentares dos indivíduos, no que diz respeito as restrições, proibições e jejum. Algumas dessas manifestações são decorrentes de regras, rituais e crenças religiosas, e já estão são bem descritas, como a proibição do consumo de alguns tipos de carnes, de alimentos contendo sangue e a determinação de práticas de jejuns em determinadas épocas do ano, porém, a origem das restrições alimentares não é algo tão claro ou exato. Além de interferir na alimentação de seus participantes através das restrições, de forma indireta a religião também influencia na alimentação de seus seguidores com seus rituais e festas como festejos, batizados, e dentro deste contexto, de cultura e crenças, é importante enfatizar que a alimentação está entrelaçada a diversas interferências, como a localização, disponibilidade, renda, entre outros fatores. Várias outras restrições podem existir sem que sejam expressas como vinculadas a questões religiosas, algumas inclusive com variações locais que podem influenciar na sua adoção ou não. Estes preceitos resultam de certa combinação da cultura local e da interpretação dos textos de referência. O respeito e o conhecimento da dimensão cultural contribuem para a adequada relação da equipe de profissionais da saúde com o paciente e seus familiares, além de possibilitar melhor adesão ao que se propõem para que este seja viável de uma maneira holística. Como tal, parece importante reforçar o estudo dos fatores que influenciam as escolhas alimentares dos adolescentes, como a cultura alimentar, no sentido de auxiliar no desenvolvimento de intervenções mais eficazes na promoção da saúde e na prevenção de doenças associadas aos comportamentos alimentares dos adolescentes. OBJETIVO: Determinar a identidade cultural alimentar de adolescentes de escolas públicas de altos. MÉTODO: O trabalho faz parte do projeto “Estudo de práticas de vida saudável com estudantes de ensino fundamental e médio na perspectiva da promoção da soberania e segurança alimentar e nutricional”, realizado no período de agosto a dezembro de 2018. Trata-se de um estudo transversal e descritivo realizado em Altos-PI, a coleta de dados se deu entre os meses de agosto a dezembro, com estudantes adolescentes, com idade entre 10 a 17 anos. No universo de 1255 crianças matriculadas nas escolas urbanas e rurais do município de Altos – PI. A amostra foi estimada em função da prevalência média de hipertensão e obesidade de 15%, com erro amostral de 5% e com nível de confiança de 95%, totalizando 170 estudantes, sendo 121 na zona urbana e 49 na zona rural do município. Atendendo a Resolução nº. 466/2012, do Conselho Nacional de Saúde, o projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal do Piauí (parecer n°. 2.379.672, em 13 de novembro de 2017). Após o esclarecimento sobre a natureza e os objetivos e concordaram em participar da pesquisa, todos os participantes assinaram o termo de assentimento do menor. Em seguida os alunos foram orientados a responderem uma entrevista contendo 10 perguntas, sobre as variáveis: estrutura familiar, religião, etnia e cultura alimentar. Os dados foram tabulados no Excel e posteriormente analisados. RESULTADOS E DISCUSSÃO: O estudo foi realizado em cinco escolas públicas, sendo duas rurais e três urbanas, da cidade de Altos-PI. A amostra foi constituída por 294 estudantes, entretanto, 45 indivíduos não participaram desta pesquisa por ausência, totalizando ao final 249 adolescentes. Dentre os participantes do estudo 62,25% (n = 155) eram de escolas urbanas e 55,42% do sexo feminino, com média de idade de 12,39 anos. Do total da amostra (n = 249), 84% (n = 209) dos entrevistados declararam-se católicos, 14% (n = 35) evangélicos e 2% (n = 5) sem nenhuma religião. Esses dados corroboram com os dados do censo de 2010 divulgados pelo IBGE, o qual afirma que o Brasil, ainda é a maior nação católica do mundo, com 64,6% da população, mas, na última década, a Igreja teve um encolhimento de 12,2% no número de fiéis. Foi relatado no censo que o contingente de católicos foi reduzido em todas as regiões, e se manteve mais elevado no Sul e no Nordeste, o que explica o percentual maior de católicos encontrado nesta pesquisa. Segundo o mesmo censo, evangélicos são 22%, e encontram-se em ritmo crescente, além disso, o segmento dos sem religião também cresceu percentualmente, e chegou a 8% da população em 2010. Quanto às preferências alimentares consumidas em festas, como festejos e festa junina, os entrevistados responderam quais preparações consumiam, entre as opções destacou-se: pamonha, bolo de fubá, mingau de milho, canjica, arrumadinho (misturinha), maçã do amor, pipoca, bolo de milho, pé de moleque, cocada, bolo de macaxeira e batata frita. As três preparações mais citadas foram batata frita com 77,9% (n = 194), pipoca 73,0% (n = 182) e mingau de milho 67,0% (n = 167); entre as menos citadas estão: pamonha 13,2% (n = 33), bolo de fubá 19,2% (n = 48) e bolo de macaxeira 24,1% (n = 60). Pode-se observar que entre as três preparações mais consumidas, duas são salgadas (batata frita e pipoca), e a mais consumida é considerada uma comida rápida (fast food) caracterizada pelo excesso de gordura e sal; é possível constatar também que preparações típicas como pamonha, bolo de fubá e bolo de macaxeira, feitos com a matéria prima local estão “perdendo” espaço entre as preferências dos adolescentes, este efeito pode ser devido ao processo de globalização. Segundo Garcia (2003), a globalização atinge a indústria de alimentos, o setor agropecuário, a distribuição de alimentos em redes de mercados de grande superfície e em cadeias de lanchonetes e restaurantes. Tem-se percebido a tendência dos brasileiros em adotarem novos hábitos, criados pela indústria alimentar e marcados pelo consumo excessivo de produtos artificiais, em detrimento de produtos regionais com tradição cultural. Proença (2010) enfatiza que com o processo de globalização são também intensificados os fatores de risco associados ao consumo dos alimentos, destacando-se aqueles relacionados à manipulação, processamento e conservação. Segundo França et al. (2012) a cultura do fast food se apresenta como uma realidade condizente com a mentalidade moderna global. A predileção pela quantidade, em detrimento da qualidade e do sabor, e a ausência de uma tradição local ligada à gastronomia, favorecem produtos de status que influenciam os hábitos de consumo da população, principalmente a jovem. De acordo com Proença (2010) slow food é um movimento que se contrapõem ao fast food (comida rápida) e vem sendo desenvolvido com o objetivo de resgatar uma cadeia cultural envolvendo, principalmente os alimentos locais, da produção ao consumo. Este movimento difunde a calma ao comer, o máximo proveito da refeição, considerando, além do conteúdo nutricional, os aspectos culturais e de prazer. A proposta básica é resgatar os produtos gastronômicos, ameaçados pelo processo industrial, pelas regras de grande distribuição e pela degradação ambiental. Ainda, segundo Proença, por razões biológicas e também por abranger aspectos econômicos, psicológicos, sociais e culturais, por se tratar de algo complexo e multifatorial, a alimentação representa uma das atividades humanas de maior importância. Por isso, precisa ser avaliada e estudada dentro de todas as suas facetas. Além disso, os profissionais de saúde e educação devem se questionar e avaliar se há perdas importantes dos hábitos alimentares culturais devido à “globalização”, ou se existem aspectos desta evolução tecnológica na área alimentícia que merecem ser incorporados à cultura local. CONCLUSÃO: O presente trabalho apresenta-se relevante, pois oferece informações sucintas e importantes acerca de como a cultura influência nos hábitos alimentares de adolescentes piauienses. Além disso, tais informações tornam-se necessárias para um atendimento nutricional mais eficiente, cabendo ao nutricionista conhecer e respeitar a cultura no qual seu cliente/paciente está inserido, a disponibilidade dos alimentos, sua situação econômica podendo assim respeitar princípios como o da dignidade e autonomia, além de servir como suporte na realização de intervenções e até mesmo formulação de políticas públicas e programas que objetivam o resgate da cultura alimentar. Referências CARNEIRO, H. Comida e sociedade: uma história da alimentação. Rio de Janeiro: Campus, 2003. CENSO DEMOGRÁFICO 2010. Características gerais da população, religião e pessoas com deficiência. Rio de Janeiro: IBGE, 2012. Disponível em: <ftp://ftp.ibge.gov.br/Censos/Censo_Demografico_2010/Caracteristicas_Gera.... Acesso em: 29 mar 2019. FRANÇA, F. C. O., et al. Mudanças dos hábitos alimentares provocados pela industrialização e o impacto sobre a saúde do brasileiro. Anais do I Seminário Alimentação e Cultura na Bahia, v. 1, p. 1-7, 2012. PEREIRA, C. M; SILVA, A. L; SÁ, M. I. Fatores que influenciam os comportamentos alimentares: questionário das escolhas alimentares dos adolescentes. Psicologia, Saúde & Doenças, v. 16, n. 3, p. 421-438, 2015. PROENÇA, R. P. C. Alimentação e globalização: algumas reflexões. Ciência e Cultura, v. 62, n. 4, p. 43-47, 2010. SANTOS, C. C., et al. A influência da cultura no comportamento alimentar dos adolescentes: uma revisão integrativa das produções em saúde. 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