A CONCEPÇÃO DA COMUNIDADE UNIVERSITÁRIA ACERCA DO DESPERDÍCIO E DA PERDA DE ALIMENTOS NA XVII SEMANA DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

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Resumo

Introdução/objetivos: Perda ou desperdício é alguma mudança na viabilidade, comestibilidade, salubridade ou qualidade do alimento que o impeça de ser consumido por pessoas em qualquer fase da cadeia alimentar (FILHO,1996; FAO, 2014). No âmbito mundial, entre um quarto e um terço dos alimentos produzidos anualmente para o consumo humano, cerca de 1.300 bilhões toneladas, se perde ou é desperdiçado em uma das quatro etapas de produção (FAO, 2017): a) produção e armazenamento, na qual ocorre em torno de 10% do desperdício total de alimentos; b) distribuição e transporte, cerca de 50% da perda de alimentos; c) comercialização e processamento, etapa que corresponde a 30% do desperdício; d) consumo, responsável por cerca de 10% na quantidade total de alimentos desperdiçados (FAO, 2014). Cerca de 6% das perdas mundiais de alimentos ocorrem na América Latina e no Caribe e a cada ano a região perde e/ou desperdiça cerca de 15% dos alimentos disponíveis (FAO, 2014). O Brasil está entre os 10 países que mais desperdiçam alimentos no mundo (GOULART, 2008). O desperdício de alimentos está relacionado com as perdas derivadas da decisão de descartar alimentos que ainda têm valor nutricional e comercial e se associa, principalmente, ao comportamento dos canais de comercialização de maior e menor porte, serviços de venda de comida e consumidores (FAO, 2014). As causas da perda e do desperdício de alimentos em países de baixa renda estão relacionadas à limitações financeiras, de gestão e técnicas na produção e colheita de produtos, nas dificuldades de armazenamento e refrigeração, na embalagem ineficaz e nas estruturas de comercialização deficientes (FAO, 2011). Já as perdas de alimentos em países de renda média e alta, estão mais relacionadas ao comportamento dos consumidores, bem como a falta de coordenação entre os diferentes atores das cadeias produtivas. Além disso, alimentos podem ser desperdiçados devido à preferência por padrões de qualidade, que rejeitem itens alimentares que não têm forma ou aparência perfeitas (PEIXOTO & PINTO, 2016). Ademais, sabe-se que existem diversas consequências ambientais associadas com a perda de alimentos que podem ser relacionadas com a crise de alimentos, fome e insegurança alimentar, desperdício de fertilizantes e pesticidas químicos, maior necessidade de utilização de combustíveis para transportante e maior quantidade de metano gerado, que é um dos gases mais danosos e que mais contribuem para para as mudanças climáticas e para o aquecimento global. Além disso, o desperdício de alimentos é também desperdício de água, elemento essencial à vida e em escassez no planeta, devido ao grande consumo associado com a produção de alimentos (NELLEMANN et al, 2009). Atualmente, 1 bilhão de pessoas passam fome no mundo (GOULART, 2008). Uma das necessidades existentes é minimizar a perda de alimentos, fundamental enquanto estratégia para combate da fome e desnutrição e também, ampliar a renda e propiciar a segurança alimentar e nutricional em todo o mundo. Exemplificando, calcula-se que a quantidade de alimentos desperdiçados mundialmente seria suficiente para alimentar cerca de 2 bilhões de pessoas (FAO, 2011). É notável, portanto, a relação entre o desperdício de alimentos e a prevalência da insegurança alimentar e nutricional no mundo. Assim, a redução das perdas e desperdícios de alimentos e o aumento da disponibilidade destes, favorece o acesso da população aos alimentos. Além disso, diminuir o desperdício de alimentos significa adotar um enfoque abrangente, intersetorial e sistêmico, que por meio da promoção de sistemas alimentares sustentáveis, possam contribuir na garantia da segurança e soberania alimentar e nutricional e o Direito Humano à Alimentação Adequada para toda a população (MALUF, 2013, p. 14). O objetivo do trabalho foi realizar uma pesquisa com a comunidade acadêmica, durante a XVII Semana de Ensino, Pesquisa e Extensão (SEPEX) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Foram investigadas as características dos entrevistados (sexo, idade e escolaridade) e realizadas perguntas referentes a opinião sobre os temas de desperdício e perda dos alimentos, com intuito de identificar os conhecimentos da comunidade universitária sobre o tema. Também, foram realizadas atividades de extensão sobre a importância e o impacto do desperdício e perdas dos alimentos no Brasil e no mundo, no estande do Programa de Educação Tutorial (PET) Nutrição UFSC. Método: O instrumento de coleta de dados da pesquisa continha doze questões objetivas as quais continham perguntas sobre as características socioeconômicas dos entrevistados, sobre o manejo do lixo e da presença de hortas em casa, além de questões que abordaram o desperdício de alimentos. Foi aplicado para a comunidade acadêmica que frequentou a XVII SEPEX da UFSC, que ocorreu de 18 à 20 de outubro de 2018, em seu campus Trindade em Florianópolis, Santa Catarina. A abordagem com os entrevistados da comunidade acadêmica, foi realizada pelos alunos do PET Nutrição UFSC e continha diversas informações sobre a temática. Destaca-se que o estande do PET Nutrição teve como temática central o desperdício e a perda de alimentos. O intuito foi alertar a comunidade acadêmica sobre o impacto do desperdício e das perdas de alimentos e quais atitudes e atividades que podem ser realizadas, tanto no contexto individual e quanto no coletiva. As atividades realizadas no estande foram instrumentalizadoras e propiciaram uma reflexão sobre o tema da perda e do desperdício de alimentos. O preenchimento do questionário foi realizado pelos entrevistados, antes de serem apresentados ao conteúdo do estande, de maneira que não houvesse influência nas respostas. Após a coleta dos dados, os mesmos foram digitados e tabulados no Excel para que pudessem ser analisados e discutidos. Resultados/discussão: O total dos entrevistados foi de 149 pessoas. A maioria declarou-se como sendo do sexo feminino, totalizando 106 pessoas e 43 do sexo masculino. Com relação à escolaridade, 24 indivíduos estavam cursando o ensino médio, 30 a pós-graduação, 93 a graduação e 2 não responderam. Dos participantes da graduação, houve uma incidência maior do curso de Nutrição da UFSC, sendo 22 integrantes. Outros 38 cursos de graduação foram citados, esses faziam parte da UFSC ou de outras universidades. Em relação ao tema do desperdício de alimentos, os entrevistados, em sua maioria, acreditavam que o maior responsável pelos danos encontra-se na distribuição, 58 indivíduos no total, sendo 39,62% mulheres e 37,20% homens. No consumo, 43 dos representantes da amostra, 31,13% mulheres e 23,25% homens. Nota-se que um percentual significativo compreende que no Brasil a maior quantidade de desperdício encontra-se na distribuição dos alimentos (FAO, 2014); porém ainda é baixa em comparação ao total da amostra, que totaliza 38,9%. De acordo com a FAO, cerca de um terço das partes comestíveis dos alimentos são desperdiçadas no mundo desde a produção agrícola até a chegada na mesa do consumidor. Esse alimento desperdiçado poderia ser redirecionado para aqueles que encontram-se em insegurança alimentar (fome), suprindo, na América Latina e Caribe, as necessidades nutricionais de mais de 30 milhões de pessoas, ou seja, 64% das pessoas em insegurança alimentar na região (FAO, 2014). Quanto a separação do lixo observou-se que a maior parte dos participantes da pesquisa separavam seu lixo em reciclável e orgânico. 81% dos participantes da pesquisa separavam o lixo de alguma maneira, sendo na partilha de reciclável e orgânico, resíduos não aproveitáveis e rejeitos. Entretanto, 25,34% do total dos entrevistados possuíam uma composteira em casa. Destaca-se que esse método pode auxiliar na reutilização de resíduos que seriam desperdiçados e na fertilização e enriquecimento de solos para produção de alimentos (BRASIL, 2018). Observa-se que grande parte dos entrevistados separa seu lixo, mas não se responsabiliza por suas sobras individualmente. Destaca-se que existem falta de informação sobre a utilização de composteiras caseiras (BRASIL, 2018) podendo ser um indicador da baixa adesão desse método. Sobre como os entrevistados escolhiam os alimentos, a resposta mais destacada de 108 entrevistados, foi a aparência. Salienta-se que 77% dos graduandos do curso de Nutrição escolheram essa dimensão da qualidade. Isso demonstra a predisposição de consumo em que a aparência do alimento representa a sua qualidade. Também, sabe-se que antes de chegar aos supermercados, esses alimentos já passam por uma pré-seleção de acordo com tamanho, peso, forma e aparência o que já descarta uma parcela da produção que será rejeitada ou usada como insumo de animais (STUART, 2009). A maioria dos entrevistados, estudantes do Curso de Nutrição (63,63%) souberam responder de maneira correta a etapa na qual ocorre a maior porcentagem de desperdício de alimentos, porém quando perguntados se avaliavam o alimento pela aparência, foram o segundo grupo que mais tinha esse critério de compra, ficando atrás apenas dos indivíduos que faziam Pós-Graduação em diferentes cursos. Houve uma associação entre as variáveis, escolaridade e separação do lixo, observou-se que entre os entrevistados, que possuíam Ensino Médio (não finalizado, completo ou em andamento), os estudantes do Curso de Nutrição e estudantes da Pós Graduação, foram os que relataram a separação do lixo. Destaca-se assim, que a escolaridade tem papel importante no conhecimento sobre o tema de desperdício de alimentos. Conclusão/considerações finais: A partir dos resultados obtidos na pesquisa, foi possível perceber que existe uma grande desinformação da comunidade universitária da UFSC acerca de informações relacionadas com o desperdício e a perda de alimentos. Destaca-se que há uma correlação entre a educação alimentar e nutricional e a redução do desperdício de alimentos (BRASIL, 2013), portanto, é necessário que sejam fomentados programas e atividades de ensino e extensão que instrumentalizem as pessoas sobre essas temáticas. Observou-se que, mesmo para estudantes do Curso de Nutrição, ainda existe falta de informações relacionadas com a escolha do alimento. Notou-se que as questões sobre as escolhas vão além da qualidade nutricional, a qual fica em segundo plano quando comparada a aparência. A seleção dos alimentos pela sua estética (tamanho, cor ou forma) gera maior desperdício, tanto no consumo quanto na comercialização, pois os alimentos que não se enquadram nas características usuais, são descartados mesmo quando mantém adequados aspectos microbiológicos e nutricionais (FAO, 2011). Ademais, percebe-se que a comunidade universitária da UFSC não tem conhecimento suficiente acerca da cadeia de produção e dos sistema alimentares, sendo que menos da metade dos entrevistados respondeu corretamente o estágio no qual ocorre a maior perda de alimentos. Assim, é importante que a população conheça a dimensão do problema da perda e desperdício de alimentos, das suas consequências ambientais, sociais e econômicas. Dessa forma, há necessidade da ampla divulgação de informações sobre a temática para que a população possa incidir nas suas decisões de consumo e com isso permitir que esse excesso de alimento descartado possa chegar às pessoas que o necessitem. Percebeu-se que mesmo com a falta de informações e de conhecimento mais abrangente sobre o tema, a comunidade universitária e visitantes da SEPEX da UFSC, mostraram muito interesse no tema do estande e também em participar da entrevista. Nesse sentido, o envolvimento dos participantes da pesquisa em discussões sobre o tema pode demonstrar a necessidade de serem realizadas mais atividades orientadoras e educativas relacionadas à temática da perda e desperdício de alimentos. É relevante também destacar a importância dos nutricionistas e demais atores sociais envolvidos nesse processo de informação e de educação, para promover a garantia da soberania e segurança alimentar e nutricional. Referências bibliográficas: BRASIL, Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Rev. Ideias na Mesa, primeira edição: Desperdício — O Vilão de Todos Nós: 1º/2013. Disponível em https://ideiasnamesa.unb.br/upload/bibliotecaIdeias/1394189680revistaide.... Acesso em 06 de maio de 2019. BRASIL, MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. Compostagem Doméstica, Comunitária e Institucional de Resíduos Orgânicos. Disponível em http://www.mma.gov.br/images/arquivo/80058/Compostagem-ManualOrientacao_... Acesso em: 15 out. 2018 FAO, 2014: Food losses and waste in Latin America and the Caribbean. Disponível em http://www.fao.org/3/a-i3942e.pdf/. Acesso em 06 de maio de 2019. FAO, 2017. 30% de toda a comida produzida no mundo vai parar no lixo. Disponível em https://nacoesunidas.org/fao-30-de-toda-a-comida-produzida-no-mundo-vai-.... Acesso em 06 de maio de 2019. FAO, 2011: Global food losses and food waste. Disponível em http://www.fao.org/3/mb060e/mb060e00.pdf. Acesso em 06 de maio de 2019. GOULART, R.M.M. Desperdício de alimentos: um problema de saúde pública. Integração, v.54, n.1. 2008. J. Gustavsson, C. Cederberg, U. Sonesson, A. Emanuelsson. The Methodology of the FAO Study: “Global Food Losses and Food Waste - Extent, Causes and Prevention ” - FAO, 2011. MONTEIRO, Carlos Augusto. A dimensão da pobreza, da desnutrição e da fome no Brasil. Estud. av., São Paulo , v. 17, n. 48, p. 7-20, Aug. 2003. NELLEMANN, C., MacDevette, M., Manders, T., Eickhout, B., Svihus, B., Prins, A. G., Kaltenborn, B. P. (Eds). Fevereiro, 2009. The environmental food crisis – The environment’s role in averting future food crises. A UNEP rapid response assessment. United Nations Environment Programme, GRID-Arendal. Disponível em https://www.gwp.org/globalassets/global/toolbox/references/the-environme.... Acesso em 06 de maio de 2019. PEIXOTO, M.; PINTO, H. S. Desperdício de Alimentos: questões socioambientais, econômicas e regulatórias. Brasília: Núcleo de Estudos e Pesquisas/CONLEG/ Senado, fevereiro/2016 (Boletim Legislativo nº 41, de 2016). Disponível em: www.senado.leg.br/estudos. Acesso em 06 de maio de 2019. STUART, Tristam. Waste: uncovering the global food scandal. [s.i.]: W. W. Norton & Company, 2009. 480 p.

Instituições
  • 1 PET Nutrição UFSC
  • 2 UFSC
Eixo Temático
  • Tema 3 - Abastecimento e Consumo Alimentar Saudável
Palavras-chave
desperdício de alimentos
Segurança Alimentar
comunidade universitária