SAÚDE E CUIDADO COMO PRODUÇÃO DE VIDA: PARA DESCOLONIZAR E CORAZONAR A SAÚDE COLETIVA.

Vol. 2, 2023 - 181551
Relato de Pesquisa
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Resumo

Apresentação/Introdução O trabalho consiste em um ensaio crítico, conceitual e epistemológico, em diálogo inspirado pela arte e poesia, para desenvolver uma reflexão em torno da transição paradigmática do campo da saúde coletiva. Inicialmente, apresenta uma breve trajetória da saúde coletiva, inserida nos desafios atuais civilizatórios e planetários, em diálogo com áreas internas a ela, como a ‘saúde da trabalhadora e do trabalhador’, a ‘saúde e ambiente’ e as ‘práticas integrativas e complementares em saúde’ (PICs); e com uma abordagem crítica externa a ela, a ecologia política. Elege como principais marcos teóricos para subsidiarem as mediações conceituais do trabalho o pensamento decolonial da América Latina, as epistemologias do Sul, os feminismos descoloniais e o ecofeminismo. São convidados para serem interlocutores orgânicos do trabalho o pensador quilombola Nego Bispo e o pensador indígena Ailton Krenak, que integram os diálogos de saberes com as epistemologias do Sul, com o intuito de serem propostos caminhos para descolonizar e corazonar a saúde coletiva; e com o pensamento ecofeminista, para subsidiar a saúde coletiva no processo de ampliação dos cuidados em saúde, de forma a incorporar a perspectiva dos cuidados integrais com as vidas às construções conceituais desse campo. Objetivos Objetivo geral • Contribuir com o processo de transição paradigmática para descolonizar e corazonar a Saúde Coletiva. Objetivos específicos • Incorporar marcos teóricos mais recentes, ainda em processo de consolidação, como a ecologia política, o pensamento decolonial e as epistemologias do Sul, para descolonizar e corazonar a Saúde Coletiva; • Construir diálogos entre os conhecimentos dos interlocutores orgânicos Nego Bispo e Ailton Krenak, e as epistemologias do Sul, que contribuam para o enfrentamento dos epistemicídios e a construção da justiça cognitiva na transição paradigmática da saúde coletiva; • Construir diálogos interdisciplinares e interculturais entre os conhecimentos dos interlocutores orgânicos Nego Bispo e Ailton Krenak, e o Ecofeminismo, aportes renovadores para a saúde coletiva, que inspirem esse campo a incorporar as reflexões sobre os cuidados integrais para a produção de vida, com o intuito de ampliar os referenciais teórico-metodológicos sobre os cuidados em saúde e fortalecer as concepções integradoras de vida e saúde no processo de transição paradigmática da saúde coletiva. Metodologia Realizamos um ensaio crítico, conceitual e epistemológico, inspirado por perspectivas literárias, artísticas, musicais e poéticas ( FASANELLO; NUNES; PORTO, 2018; MENEGUETTI, 2011; ADORNO, 2003; LARROSA, 2003), partindo prioritariamente das contribuições aportadas pelos interlocutores Nego Bispo e Ailton Krenak, por meio da consulta à produção intelectual dos pensadores (livros e demais publicações) e aos materiais relacionados à vida deles disponíveis na Internet (entrevistas; seminários; lives; participações em filmes e documentários; manifestações públicas etc.). A proposta integrada e integradora que emerge é inspirada pelo pensamento artesanal feminista, o qual procura visibilizar os conhecimentos historicamente desconsiderados e valorizar as experiências comumente desperdiçadas, conectando radicalmente ser, sentir, pensar e fazer nos projetos vinculados à produção de vida. Resultados e discussão Sintetizamos as principais contribuições que os diálogos de saberes e interculturais realizados no percurso do trabalho podem oferecer à transição paradigmática da saúde coletiva, sendo elas: o reconhecimento dos seres humanos como integrantes da natureza, superando a visão moderna que fragmenta e desconecta o ser humano dos demais componentes da natureza, das outras espécies e do feminino; a necessária descolonização da saúde coletiva, inclusive dos setores críticos que fazem parte desse campo, por meio da crítica ao colonialismo e à incorporação das epistemologias do Sul; a importância de corazonar os sujeitos e a práxis da saúde coletiva, rompendo com a rigidez logocêntrica que embota os afetos perpetuada pela racionalidade científica moderna; e fortalecer as aproximações virtuosas entre os cuidados em saúde e os cuidados integrais com as vidas, para ampliar as perspectivas de saúde, vida e cuidado desse campo. Conclusões/Considerações finais A realização deste ensaio permitiu conectar a reflexividade crítica da autora a um exercício potente de liberdade perpassado pela busca de conhecimentos e autoconhecimentos, para sintonizá-la com a proposta de transição paradigmática da saúde coletiva. Apresentação/Introdução As comunidades remanescentes de quilombos são grupos etnicamente diferenciados, reconhecidos enquanto categoria social pela Constituição de 1988, passando a ser sujeitos de direitos, após séculos de exclusões e invisibilidade. Contudo, as lacunas sociais e históricas produzidas ao longo de séculos, endossadas pelo racismo, em suas diversas formas de manifestação, tem refletido no campo do acesso a direitos e na efetividade de políticas públicas. Nesse contexto, Minas Gerais se apresenta enquanto o segundo maior estado em número de comunidades quilombolas, fator que não reflete no âmbito da promoção de direitos, uma vez que possui duas comunidades quilombolas tituladas, num universo que ultrapassa 2.000. Januária, município localizado no Norte do estado, lidera este ranking, tendo mais de 40 comunidades quilombolas reconhecidas, sendo este, o recorte de nossa pesquisa de doutorado. A comunidade quilombola, pesqueira e vazanteira de Croatá, nossa interlocutora na pesquisa, se constituiu em torno do Rio São Francisco, aspecto que a diferencia em seus aspectos socioculturais, mas que também é o ponto de partida para conflitos de ordem territorial. Os processos de desterritorialização se apresentam enquanto estratégias de sobrevivência, de luta e de ressignificação identitária, aspectos relevantes e que merecem destaque em nossa pesquisa. Vale destacar que o não acesso ao território gera impactos como o não acesso a políticas públicas, como água e saneamento básico, essenciais para a reprodução sociocultural dessas comunidades, uma vez que a gestão desse espaço e de seus recursos, perpassa pela titulação e consequente reconhecimento territorial. Ora, se Minas Gerais é o segundo estado em número de comunidades e destas, somente duas possuem o título, partimos do entendimento de que acessibilizar o território, direito garantido pela Constituição, é uma das formas manifestas de racismo. Se as terras devolutas do estado são destinadas à monoculturas - sobretudo eucalipto – áreas de proteção, agronegócio, dentre outras, por que parte delas não são destinadas aos povos que ali residem há séculos? Aqui, compreender tais relações, tendo por marco conceitual o racismo ambiental, se faz relevante, trazendo para o centro de nossas observações os modos de produção de saberes e fazeres da comunidade na defesa de seus territórios. Objetivos Identificar os processos históricos de ocupação territorial e de desterritorialização, a fim de verificar os impactos e mudanças na qualidade de vida dos comunitários tendo por recorte a defesa do território e a relação com o Rio São Francisco.

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Eixo Temático
  • CT 12 - Epistemologias da Saúde desde o Sul: virada decolonial, pesquisa participativa e soberania sanitária da América Latina e Caribe