AS MÚLTIPLAS DETERMINAÇÕES DA INFODEMIA

Vol. 2, 2023 - 181555
Relato de Pesquisa
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Resumo

Apresentação/Introdução A infodemia pode ser introduzida como uma superabundância de informações precisas ou não sobre questões de saúde (TANGCHAROENSATHIEN et al., 2020) cujas características são mais complexas do que a propagação de notícias falsas sobre doenças e seus tratamentos. Como parte dos fenômenos da desinformação, a infodemia participa de disputas epistêmicas, geopolíticas e produtivo-acumulativas, especialmente no capitalismo contemporâneo (CESARINO, 2022), seja como seu efeito ou mediação. Nestes termos, também argumentamos que a infodemia emerge como um fenômeno no qual os corpos, as subjetividades individuais e coletivas, bem como os sistemas de saúde e as interações digitais, tornam-se arenas adicionais desses conflitos. Em sociedades capitalistas complexas, nas quais o domínio social sobre os processos econômicos, tecnológicos e científicos está se tornando cada vez mais difícil (DARDOT e LAVAL, 2016), teorias conspiratórias e crenças pseudocientíficas encontram espaço para proliferar, muitas vezes alinhadas a interesses políticos ocultos (CGI, 2020). Essas desinformações são favorecidas e disseminadas com o suporte de processos automatizados que competem pela atenção dos usuários de mídias digitais, explorando especialmente suas emoções (BRUNO, 2013; ZUBOFF, 2021; WARD, 2022). Essa "tecnopolítica" (SILVEIRA, 2017), que se manifesta no design da experiência do usuário (UX) – desde a prática de "zero rating" até os "nudges" e outras técnicas de contágio emocional (EYAL, 2014) – cria efeitos de influência contínua (LEWANDOWSKY et al., 2017) que dificultam o combate à infodemia no Brasil (AVAAZ, 2020) e no mundo (ECKER et al., 2020). Objetivos Neste trabalho, apresentamos resultados da pesquisa da literatura acadêmica acerca da infodemia, com o objetivo de suprir uma lacuna existente acerca da sua natureza simultaneamente político-econômica, científica, sociotécnica e psicossocial em geral, e como essas determinações se combinam com o contexto brasileiro. Adicionalmente, problematizamos alternativas de enfrentamento da infodemia. Metodologia Produção teórica a partir de revisão integrativa da literatura científica, de natureza exploratória e qualitativa Resultados e discussão Nossa revisão da literatura sugere que esses efeitos de influência não são meramente resultado de fraquezas emocionais e cognitivas naturais ou herdadas evolutivamente, frequentemente tratadas como vieses irracionais (ARIELY, 2008; KAHNEMAN, 2012). Esses efeitos infodêmicos, em grande medida, podem ser eliciados por meio de gatilhos, recomendações algorítmicas, affordances, recompensas psicológicas, arquiteturas de decisão e habituações competitivamente projetadas no ambiente digital (NODDER, 2013; KRUG, 2016; CARR, 2020). Por outro lado, a revisão da literatura também identificou uma série de abordagens cognitivistas (Ecker, 2022), pedagógicas (Norman e Skinner, 2006), sociopolíticas (Bezerra, Schneider e Saldanha, 2019) e regulatórias (Westrup, 2022) que visam enfrentar a infodemia e fenômenos relacionados. Isso destaca a necessidade de mais pesquisas científicas interdisciplinares, incluindo no campo da Saúde Coletiva, sobre as sobreposições mencionadas e seus efeitos nas emoções e comportamentos relacionados à saúde. Conclusões/Considerações finais Essas tentativas de modulação se tornam contínuas e difíceis de mitigar porque, devido ao seu caráter emocionalmente estimulante por design, elas podem afetar o sistema dopaminérgico córtico-estriatal (Firth et al., 2019), além de endorfina, serotonina e cortisol (COOK, 2020), entre outros neuroquímicos, podendo levar a mudanças neuroanatômicas (KANDEL, 2007), cognitivas e comportamentais estáveis (SMALL e VORGAN, 2009). Realizada principalmente por meio da engenharia algorítmica e do design de UX (user experience) das mídias digitais, a composição intencional desses estímulos com certos determinantes político-econômicos, psicossociais e emocionais pode contribuir para que a infodemia alcance proporções crescentes, comprometendo nossos sistemas e cuidados de saúde. Apresentação/Introdução O Relatório Global sobre Álcool e Saúde de 2018 aponta para as consequências negativas do uso dessa substância, indicando-a como problema de saúde pública. Apesar de receber menor destaque, os impactos na família são consequência relevante do uso problemático do álcool, na medida em que provoca eventos estressores, gera conflitos, promove mudanças na rotina, e sentimentos de desamparo e frustração, que, ao fim, ameaçam a própria unidade familiar. Por isso, ao tratar da questão do uso de álcool, é preciso também pensar no cuidado do usuário no âmbito intrafamiliar. Não obstante, tal problemática não pode ser dissociada de um recorte de gênero, tendo em vista que esse cuidado é, no geral, delegado às mulheres. Em uma sociedade machista, que pressupõe o cuidado como função da mulher, verificam-se efeitos da “carga do cuidador”, caracterizada por sofrimento psíquico acentuado e prejuízos cognitivos, além de sintomas de ansiedade e depressão em quem cumpre tal papel. Assim, diante de uma questão de caráter biopsicossocial, o tratamento é pensado em rede, contemplando os CAPS-Ad (álcool e drogas), serviços da Atenção Básica, ambulatórios, hospitais e grupos de apoio da comunidade. Neste artigo, será investigado o grupo anônimo Al-anon, que reúne parentes e amigos de usuários de álcool, oferecendo um espaço para compartilhamento de experiências mediado pela tradição dos Doze Passos. Dentre os frequentadores, enfatiza-se um contingente expressivo de mulheres que participam das reuniões apesar do falecimento de seu familiar. Objetivos O presente trabalho busca produzir conhecimento acerca de mulheres que permanecem frequentando grupos anônimos como o Al-Anon mesmo depois da morte dos familiares que motivaram a sua procura inicial. Através de um estudo de caso, inserido em um contexto maior de pesquisa, buscou-se descrever o fenômeno e seu contexto, elucidando os elementos que contribuíram para permanência destas mulheres no grupo, bem como as dinâmicas presentes neste espaço.

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Eixo Temático
  • CT 18 - Infodemia, dataficação e práticas em saúde