O SUS COMO PROMOTOR DE AUTONOMIA E DE EMANCIPAÇÃO

Vol. 2, 2023 - 180629
Relato de Pesquisa
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Resumo

Apresentação/Introdução O Brasil possui um sistema de saúde público e universal, com um setor privado de saúde de grande relevância econômica, política e simbólica, como objeto de desejo da população. Os gastos privados com saúde podem representar um percentual significativo do orçamento das famílias brasileiras. O esforço em manter um plano de saúde pode comprometer o que Amartya Sen denomina como capacidade dos cidadãos, restringindo sua autonomia. A política de saúde deveria priorizar o SUS e reduzir a cobertura populacional dos planos privados de saúde. Objetivos Considerando o conceito de capacidade, de Amartya Sen, o trabalho propõe uma discussão sobre o papel dos planos de saúde na sociedade brasileira e como o governo, por meio de políticas de saúde, restringe o papel emancipatório do SUS em benefício de interesses privados. Metodologia Foi realizada a análise documental de material de imprensa contendo discursos e posicionamentos de atores do governo em prol do setor privado de saúde; e revisão bibliográfica sobre a temática de equidade em saúde, tendo como referencial o conceito de capacidade, de Amartya Sen. Resultados e discussão No Brasil, cerca de 25% da população possui um plano de saúde privado. A posse de um plano de saúde está diretamente relacionada à capacidade de pagamento. Dados da Pesquisa Nacional de Saúde, de 2019, informam que entre aqueles que possuem renda per capita de mais de 5 salários mínimos a cobertura por planos de saúde chega a 88%. Entre 2 a 3 salários mínimos a cobertura é de 54%. Observa-se o esforço de mais da metade dos indivíduos com uma faixa salarial baixa, em manter um plano de saúde. Moraes et al. (2022) concluíram que o gasto com planos de saúde tem impacto significativo nas despesas das famílias com saúde, podendo comprometer mais de 40% do orçamento doméstico. Gastos pessoais com saúde podem gerar empobrecimento das famílias e ter um efeito catastrófico em relação à capacidade de consumo. Por sua vez, a histórica redução do financiamento do SUS causa o esvaziamento de recursos e a deterioração dos serviços. O viés ideológico mostra o setor público sob um ângulo negativo de ineficiência e desperdício em contraponto à pretensa eficiência do setor privado. A mídia destaca aspectos caóticos do sistema público e contribui para que a população enxergue os serviços públicos como precários, influenciando a percepção da realidade da população, deteriorando a imagem do SUS. Sucessivos governos acenaram para um incentivo ao maior acesso aos planos de saúde. Em 2013, o governo Dilma negociou com o setor de saúde suplementar formas de ampliação da cobertura por planos de saúde. Em 2018, no governo Bolsonaro, discutia-se uma proposta de “planos acessíveis” para potencializar o mercado de planos de saúde. Em 2022, o Ministro da Saúde manifestava a intenção de criar o “open health” compartilhando dados de clientes de planos de saúde com objetivo de oferecer planos adequados ao perfil de cada cliente. Segundo o então ministro, ao facilitar o acesso à saúde suplementar a medida ajudaria a reduzir a pressão sobre o SUS. O cidadão faz um esforço para adquirir um plano de saúde, comprometendo parte significativa do orçamento familiar, pois acredita que dessa forma terá acesso a melhores serviços de saúde. A dificuldade de pagamento pode obrigá-lo a se endividar, o que se agrava na medida em que o mercado financeiro aplica altas taxas de juros. As instituições financeiras facilitam o crédito, trazendo riscos reais aos consumidores. O indivíduo endividado perde sua capacidade de consumo e tem sua dignidade diminuída pois se vê impotente em gerir seus gastos e suas necessidades e sente-se excluído da sociedade de consumo. Para Amartya Sen (2010) o estigma da pobreza não se dá apenas pela renda dos indivíduos, mas também pela perda de capacidades civis e, em consequência, com a perda da liberdade desses indivíduos. Sen (2010) considera que a liberdade é uma avaliação de êxito e fracasso pela sociedade, mas também um determinante principal da iniciativa e emancipação individual. A capacidade de uma pessoa é um tipo de liberdade substantiva, capaz de realizar combinações alternativas de funcionamentos, ter a liberdade para ter estilos de vida diversos, a liberdade de escolha, a autonomia para tomar decisões, com a integração de uma saudável distribuição de meios diversos para a realização de uma variedade de anseios e valores de quem detém a capacidade de escolha. Conclusões/Considerações finais O SUS é um direito constitucional brasileiro cujo princípio de equidade necessita ser concretizado, de fato, com políticas públicas que minimizem as distâncias entre as capacidades das pessoas, permitindo seu pleno uso por todos de direito. O pleno financiamento do SUS e a maior eficiência de seus serviços poderiam reduzir o desejo manifesto de contratação de serviços privados de saúde e o constrangimento financeiro pelo qual passam muitas famílias, contribuindo para maior capacidade, segundo Amartya Sen, e autonomia dos cidadãos brasileiros. Contextualização Este trabalho é parte das atividades da equipe interprofissional que atua no projeto de extensão com interface na pesquisa intitulado: “De mãos dadas com Antônio Pereira: acolhimento e empoderamento dos moradores e concretização dos objetivos do desenvolvimento sustentável do distrito de Antônio Pereira, Ouro Preto, Minas Gerais”. Trata-se de um projeto que conta com a parceria entre a UFOP, o Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG), campus Ouro Preto e a Universidade Federal de Viçosa (UFV). Dentre as atividades desenvolvidas, ressalta-se a importância e relevância de trabalhar a saúde mental na comunidade escolar de Antônio Pereira, um distrito afetado pelo descomissionamento das barragens ao redor. Descrição Trata-se relato da experiência com a aplicação da técnica da roda de diálogos com o tema: saúde mental na comunidade escolar. Esta roda de diálogos foca no cuidado, acolhimento e na saúde mental, de forma a apoiar os participantes em torno de uma rede de ações, fortalecendo o vínculo, a fim de construir espaços de escuta ativa e troca de experiências sobre a saúde mental no ambiente escolar e fora dele. A roda de diálogo realizada no dia 29 de abril, aconteceu no Centro Educacional Comunitário Padre Ângelo, que possui 97 alunos de 2 a 5 anos. No dia da referida roda, participaram 6 professores, 5 funcionários e os membros da equipe de Ouro Preto (UFOP), na função de coordenadores e relatores, e membros de Viçosa (UFV), como apoiadores da roda. Inicialmente as cadeiras foram dispostas de forma a aproveitar o espaço da sala e aproximar todos os participantes envolvidos nela. No 1º momento o coordenador da roda fez as apresentações, propôs a dinâmica de atividade e declarou a roda oficialmente aberta. No 2º momento, a dinâmica proposta foi iniciada. Para tal, foi disponibilizado diversos materiais criativos para o desenvolvimento da atividade, tais como: folhas coloridas, canetinhas, tinta, giz de cera, cola etc. Foi solicitado aos participantes (que se sentissem à vontade para participarem), que representassem na folha, de forma criativa a resposta a seguinte questão: “Para você, o que é Saúde Mental?”. Em seguida foi solicitado aos participantes que apresentassem para a roda, os seus desenhos, destacando as emoções, os afetos e/ou desafetos representados no desenho produzido. Neste momento da roda de diálogos, foi estimulado a participação de todos de forma dialógica. Para encerramento da roda, todos foram convidados a fazer um grande abraço coletivo e o coordenador deu por encerrada a atividade.

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Eixo Temático
  • CT 25 - Políticas de emancipação e saúde: epistemologias e práticas para integralidade do cuidado