METAMORFOSES DO TRABALHO DE ENFERMAGEM E O AVANÇO DA IDEOLOGIA DO EMPREENDEDORISMO

Vol. 2, 2023 - 181066
Relato de Pesquisa
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Resumo

Apresentação/Introdução Introdução Diversas publicações em periódicos da enfermagem têm manifestado uma adesão acrítica à ideologia do empreendedorismo nesta profissão. Relacionam o suposto espírito empreendedor do profissional de enfermagem com valores há tempos difundidos na formação como liderança, iniciativa, pró-atividade, criatividade, autonomia e responsabilidade (Copelli; Erdmann; Santos, 2019). Entretanto, não é novo o discurso acerca do sujeito empreendedor enquanto indivíduo responsável pela conservação e reprodução do modelo capitalista de sociabilidade, assumindo como suas as metas do capital. Contraditoriamente, a enfermagem não se dá conta de que essa manobra ideológica do próprio sistema capitalista, cumpre seu papel de alienar o trabalhador desempregado ou subempregado desta sua condição, para se enxergar, de forma distorcida, como um empresário em busca de seu lugar ao sol. Assim, ao contrário da propalada autonomia, este trabalhador está cada vez mais distante de sua emancipação humana (Costa, Barros, Carvalho, 2011). Objetivos Objetivo Propõe-se construir um contraponto crítico a esta incorporação crescente da noção de empreendedorismo na enfermagem, assumindo que a linguagem não é neutra e que tais argumentos ideológicos, ao naturalizar fenômenos históricos, ocultam suas consequências nefastas ao próprio trabalhador da enfermagem. Metodologia Metodologia Revisão narrativa apoiada em literatura sobre o tema do empreendedorismo e o trabalho de enfermagem, disponível na base de dados da biblioteca virtual da saúde (bvs). Resultados e discussão Resultados O trabalho em saúde, de maneira geral, é reconhecido como uma atividade insalubre para os que nele trabalham. As difíceis condições de trabalho e de vida podem estar relacionadas com o desgaste físico e mental, adoecimento e acidentes, frequentemente a insatisfação e a intenção de abandonar a profissão (Bardaquim et al., 2019). Apesar disso, o aumento do desemprego e a precarização dos vínculos de trabalho têm deixado desprotegidos(as) milhares de trabalhadores(as) de enfermagem. O subemprego e as más condições de trabalho afetam quem continua no mercado e, também, impulsionam o abandono da profissão devido aos salários as demais condições de trabalho (Buchan et al.,2018). Nesse contexto, nos cursos de enfermagem, o discurso do empreendedorismo tem se veiculado em disciplinas da graduação e pós-graduação (Backes et al. 2022; Copelli et al., 2022), em pesquisas com estudantes com questionários elaborados pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) (Joffre et al., 2021), e por meio da instalação das tais “empresas júniores” (Trotte et al., 2021). Essas empresas são associações “sem fins lucrativos” comandadas e criadas por alunos da graduação, que possuem regulamentação e tem como objetivo “a prática educativa, a realização de projetos organizados pelos graduandos e promoção de serviços de cuidado à população (Trotte et al., 2021). O discurso ideológico do empreendedorismo ganha força, como solução para problemas sociais, em conexão à precarização dos vínculos trabalhistas e à intensificação no trabalho nas organizações laborais, à desregulamentação e afrouxamento da proteção social e a perda de direitos, assentados na lógica ultraneoliberal. Ingenuamente, alega-se que o empreendedor não está sujeito à lógica da exploração do trabalho e os ganhos financeiros serão maiores (Pereira; Martins, 2023). Conclusões/Considerações finais Considerações finais Há uma subordinação acrítica entre a atual configuração do mundo do trabalho em saúde e a formação em enfermagem, pois, frequentemente, o que é valorizado sobre a organização e processo de trabalho de enfermagem, como é o caso das adaptações e as improvisações de materiais e equipamentos realizadas no contexto assistencial, visam assegurar o cuidado ao paciente em meio às precárias condições de trabalho que, frequentemente, impõe uma escassez qualitativa e quantitativa de materiais para a prestação do cuidado. Não é por acaso que este discurso venha despontando após a adoção do modelo de reestruturação produtiva dito flexível, pelo setor saúde, bastante visível no contexto da pandemia de Covid-19. Uma das lições aprendidas com a pandemia é a de que o setor saúde não está imune à lógica mercantil, pois, a adoção de estratégias flexíveis de contratação de leitos e força de trabalho apenas no momento de maior demanda foi e permanece um importante determinante para o acesso desigual à saúde e, em tantos casos, letal para muitos(as) brasileiros(as), incluindo os(as) trabalhadores(as) de saúde, especialmente de enfermagem. Contextualização Trata-se de uma reflexão metodológica sobre uma etnografia do Programa Atenas - serviço humanizado de atenção a mulheres em situação de abortamento (provocado ou espontâneo), de uma maternidade pública do nordeste. Concomitante ao processo de produção de dados (observação participante e entrevistas), eu continuei como trabalhadora da Maternidade pesquisada e enfermeira atuante no Programa Atenas. Descrição A maior parte do tempo, eu fiz a observação participante de jaleco na Maternidade. Ao usá-lo, era transmitida a mensagem de que eu fazia parte da massa de estudantes e trabalhadores de saúde daqueles espaços. Logo, inserida no contexto da “capa branca”, eu circulava com tranquilidade nos corredores da Maternidade. Não apenas por pertencer àquele ambiente, mas também por compartilhar o código de vestimentas do hospital: jaleco branco, calça, sapato fechado. Não tive problemas ao fazer as minhas observações, e escrevê-las no meu diário de campo nas alas de internação hospitalar. Na verdade, por estar vestindo o jaleco, era abordada pelos meus colegas, para discutir questões sobre o trabalho, e pelas mulheres, para sanar dúvidas sobre saúde ou fluxos da instituição. “Vestir o jaleco” também era a mensagem de que eu estava no meu horário de trabalho, mesmo que eu fizesse as observações nas minhas pausas ou fora do meu expediente. “Vestir a capa branca”, como uma vez uma médica me falou, representava, portanto, que eu era parte da equipe (para as mulheres e profissionais), que eu estava no meu horário de trabalho (para meus colegas), e disponível para fornecer e discutir informações concernentes ao meu trabalho na Maternidade (para mulheres, meus colegas e profissionais). Em suma, usar o jaleco é “abrir às portas” no campo da pesquisa hospitalar. No entanto, eu constantemente me debatia com a questão do afastamento e do estranhamento. “Como eu vou fazer isso?”, eu refletia. Então, após vinte dias de início do campo, eu decidi tirar o jaleco em alguns momentos e experimentar fazer observações sem este “equipamento de proteção individual”. Comecei a perceber algumas diferenças. A retirada do jaleco simbolizou, pra mim, um rito de passagem da enfermeira para a pesquisadora.

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Eixo Temático
  • CT 33 - Trabalho contemporâneo, saúde e ambiente: diálogos, confrontações e resistência