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Resumo

Apresentação/Introdução Em agosto de 2019, o desastre-crime do petróleo afetou os territórios da pesca artesanal no Brasil. Foram atingidos 11 estados brasileiros, constituindo-se um grave problema de saúde pública pela exposição ao petróleo e derivados, como os hidrocarbonetos aromáticos: benzeno, tolueno, xileno e outros que comprovadamente estão relacionados a distúrbios psíquicos e alterações bioquímicas e biofísicas, bem como a repercussão desse desastre-crime nas condições sociais, explicitado pela interrupção do processo de trabalho e na baixa procura do pescado, vulnerabilizando simbólica e materialmente essa população. Subsumido a esse desastre-crime a pandemia de covid-19 agravou os processos de vulnerabilização e as vulnerabilidades ocasionadas pela exposição ao petróleo. Este relato aborda o contexto vivenciado pelas mulheres pescadoras/s da comunidade de Ilha de Deus, Zona Especial de Interesse Social (ZEIS) localizada na cidade do Recife, Pernambuco, que foram afetadas pelo desastre-crime do petróleo em 2019 e a pandemia de covid-19. O território da Ilha de Deus é compreendido entre o manguezal e bairros da Zona Sul do Recife, próximo a shoppings e outros empreendimentos. Cerca de 95% da população da comunidade mantém a sua renda a partir da coleta e da venda do marisco e foi afetada não apenas pela chegada do petróleo bruto mas também pelos prejuízos ao meio-ambiente, interdição da comercialização e baixa procura de compradores. Objetivos Descrever a percepção de gênero, de saúde e de ameaça à vida no discurso de mulheres pescadoras de comunidades tradicionais atingidas pelo desastre-crime do petróleo no contexto da pandemia de covid-19. Metodologia Estudo descritivo analítico com abordagem qualitativa. Os dados foram coletados por meio de rodas de conversa realizadas entre setembro de 2022 e janeiro de 2023 com média de 15 pescadoras da comunidade de Ilha de Deus, no município de Recife, Pernambuco. Os encontros foram guiados a partir de temas relacionados ao trabalho e as vivências das mulheres. Foi utilizado um roteiro semi-estruturado de questões centrais vinculadas à matriz de processos protetores e destrutivos para a saúde humana e ambiental, proposta por Breilh (2003). Os dados foram interpretados à luz do Discurso do Sujeito Coletivo. Resultados e discussão Foram relatadas impressões sobre a divisão sexual do trabalho, além de vivências de gravidez interrompida, de violência de gênero e feminicídio dentro do núcleo familiar e prejuízos relacionados à saúde decorrentes do processo de trabalho da pesca. Nas mulheres mais jovens, predominava a atividade da pesca como trabalho eventual e informal, necessário à subsistência. Para as mais velhas, ser pescadora constituía parte da sua identidade. Foram identificadas reflexões sobre a dificuldade do acesso aos serviços de saúde e o desamparo pelo Estado no apoio social frente às vulnerabilidades socioambientais enfrentadas pelas mulheres na comunidade durante o desastre-crime do petróleo e a pandemia embora a USF tenha sido apontada como elemento protetivo. Conclusões/Considerações finais O território da pesca artesanal é imbricado por questões de gênero que ressoam em dimensões socioculturais e integram condições gerais de produção e reprodução dos espaços e da vida. A generificação é um princípio ativo na produção de desigualdades dentro do desenvolvimento das forças produtivas de um território. É necessário aprofundar os estudos sobre gênero para ampliar a discussão sobre o entendimento acerca da construção da identidade das mulheres pescadoras, a partir de uma perspectiva geracional e de pertencimento ao território, observando o trabalho da pesca como espaço de amparo e de aprofundamento de laços sociais. Contextualização O Laboratório de Estudos em Representações Sociais e Saúde - LERS e o Coletivo Feminista – COFEM, do Centro Universitário Arthur Sá Earp Neto/Faculdade de Medicina, em Petrópolis, Rio de Janeiro vem desenvolvendo parceria no desenvolvimento de um grupo de estudos. O LERS é um grupo de pesquisa interdisciplinar no campo das Representações Sociais e Saúde, sobre temas relativos às transformações culturais e os processos psicossociais envolvidos na construção de representações no âmbito da saúde, especialmente na dimensão simbólica da constituição das subjetividades e identidades de gênero. O COFEM reúne estudantes de diferentes cursos com a finalidade de promover a reflexão e o ativismo em torno das questões de gênero. Descrição Nessa parceria, são realizados encontros virtuais quinzenais, de 2 a 3 horas cada, para estudo e discussão sobre obras de interesse. O grupo variou quanto a quantidade e origem dos participantes ao longo do tempo, contanto com cerca de 20 estudantes regulares, majoritariamente do sexo feminino e da área da saúde (medicina, psicologia, enfermagem). As interpretações das leituras e reflexões decorrentes do debate são registradas em “diários reflexivos” onde os estudantes expressam seus afetamentos a partir de textos ou manifestações artísticas.

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Eixo Temático
  • CT 14 - Gênero, cuidado e emergências sanitárias