AS RESIDÊNCIAS MULTIPROFISSIONAIS EM SAÚDE E A (TRANS)FORMAÇÃO DA(O) PSICÓLOGA(O) NA SAÚDE PÚBLICA E COLETIVA

Vol. 2, 2023 - 180868
Relato de Pesquisa
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Resumo

Apresentação/Introdução As Residências Multiprofissionais em Saúde (RMS) se configuram como significativa estratégia para responder às questões levantadas a partir dos (des)encontros da atuação profissional da psicóloga/o e das diretrizes e modos de produção do trabalho preconizados pela saúde pública e coletiva. Propõem-se à formação qualificada dos/as diferentes profissionais da área da saúde, com base nos princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS) e nas orientações da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (PNEPS). No núcleo de práticas psicológicas, as RMS configuram-se como experiências que têm conseguido produzir efeitos de mudança na formação em saúde, formando profissionais com capacidade de desenvolver práticas afinadas com as necessidades e demandas do campo da saúde. Objetivos O presente trabalho objetiva analisar a literatura científica brasileira sobre a formação de psicólogas/os na e para a saúde pública e coletiva, por meio das residências multiprofissionais em saúde, considerando as rupturas, ressignificações e transformações advindas da experiência formativa. Metodologia Constitui-se de revisão de literatura que se deu pela busca de artigos completos nas plataformas de pesquisa Portal de Periódicos da CAPES, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e Periódicos Eletrônicos em Psicologia – PEPSIC, utilizando as palavras-chave Residência Multiprofissional e Psicologia, combinadas pelo operador booleano AND. Como resultado, selecionamos 47 produções científicas, distribuídas entre os anos de 2007 e 2022. Destas, 34 produções discutem a atuação psicológica na saúde pública ou apresentam ações específicas realizadas por psicólogas/os residentes (28 são relatos de experiência sobre práticas profissionais em RMS) e apenas 13 trabalhos se propõem a discutir mais detidamente aspectos da formação profissional da psicóloga/o residente. Resultados e discussão Os estudos que abordam a formação e a atuação de psicólogas/os em RMS ressaltam, discutem e problematizam as articulações da psicologia com a saúde pública e coletiva. Um ponto de partida importante é a crítica direcionada à formação de psicólogas/os no âmbito da graduação, descrita, ainda, como uma formação voltada para a clínica tradicional, com poucos elementos e experiências dirigidos para o SUS e suas diversas possibilidades de inserção. No entanto, a despeito da discussão em torno das lacunas formativas e das necessidades de investimentos na formação profissional, a maioria dos artigos encontrados tem como foco de discussão e análise a atuação nos contextos onde a residência ocorre, em detrimento do aprofundamento do debate sobre a formação nos diversos cenários de prática. Uma característica que chama a atenção na análise da produção acadêmica, é a quantidade expressiva de relatos de experiência sobre a atuação profissional de psicólogas/os no contexto das residências multiprofissionais. Os relatos indicam a riqueza da experiência formativa e contribuem para a caracterização da prática profissional na modalidade das residências. Porém, não se propõem a realizar discussões e articulações teóricas mais robustas, apenas tangenciando esses aspectos. Ademais, enfatizam, de forma geral, a ampliação do fazer individual e clínico, para um fazer coletivo e diversificado, como uma comprovação do engajamento da práxis psicológica com as demandas dos contextos de atuação, aspecto este que merece ser interrogado e problematizado. Finalmente, os estudos, que privilegiam a discussão da formação profissional de psicólogas/os no contexto das residências, avançam nas discussões em torno do encontro e das tensões geradas a partir dos conhecimentos e das vivências da saúde coletiva e a formação tradicional da/o psicóloga/o, dos profícuos movimentos de abertura e ampliação das práticas psicológicas nos diversos níveis de atenção e da produção do trabalho interdisciplinar e transdisciplinar em saúde. As RMS têm, portanto, conseguido impactar na formação profissional, por meio da gradual superação do desafio da psicologia de reprodução dos moldes de intervenção clássica individual, aproximando as práticas da realidade e das necessidades dos serviços que compõem o SUS. Conclusões/Considerações finais As produções analisadas têm contribuído para produzir sentidos em torno da ampliação das possibilidades de atuação profissional no campo da saúde, dando visibilidade às transformações advindas do encontro entre a formação clássica da/ psicóloga/o e os conhecimentos e vivências da saúde pública e coletiva. Nesse contexto, as RMS têm se caracterizado como espaços contra-hegemônicos de produção de rupturas e cuidado integral em saúde. No entanto, os estudos analisados indicam que a formação acadêmica a nível de graduação não tem sofrido impacto semelhante, ainda com predomínio da formação clínica clássica, e que o foco de análise tem recaído na atuação em detrimento da formação profissional, embora esses dois aspectos estejam intimamente imbricados, merecendo, portanto, novos estudos e análises. Contextualização O Brasil é reconhecido internacionalmente pelos seus altos índices de cesariana. Em 2000, a taxa nacional era 37,8%, em 2009 ultrapassou 50%, em 2014 chegou a 57% e em 2017 estava em 55,7%, alcançando 56,3% em 2019 e 57,3% em 2020. E essas taxas não correspondem a uma melhoria nos indicadores de saúde materna e infantil, incluindo os de mortalidade e morbidade materna. Nesse sentido, de acordo com diferentes organismos internacionais e com as evidências científicas, investir em enfermeiras obstetras e obstetrizes está relacionado a melhores resultados na atenção obstétrica, diminuição das intervenções desnecessárias e maior satisfação das mulheres. A OMS preconiza no seu documento “Recomendações da OMS para os cuidados durante o parto, para uma experiência de parto positiva” que é necessário a implementação do modelo de continuidade do cuidado oferecido por enfermeiras obstetras e obstetrizes durante o pré-natal, parto e pós-parto. De acordo com documento elaborado pelo Projeto Enlace (UNFPA, 2022) o fortalecimento de enfermeiras(os) obstétricas(os) e obstetrizes contribui diretamente para a meta dos três zeros: zero necessidades não atendidas de contracepção; zero mortes maternas evitáveis; zero violência e práticas nocivas contra mulheres e meninas. Nesse sentido, investir na formação de obstetrizes com olhar para uma formação pautada nas boas práticas e na experiência positiva de parto para as mulheres, torna-se fundamental. No entanto, refletir sobre essa formação, buscando o cuidado centrado na mulher e a integralidade, é de suma importância para a transformação do modelo de atenção obstétrica. Ainda, analisar a influencia dos marcadores sociais na atenção obstétrica é necessário para uma formação pautada pelas demandas sociais das mulheres. Descrição Relato de experiência de uma obstetriz docente com estudantes em estágio prático em sala de parto de um hospital público. Os estágios curriculares acontecem no último ano do curso de graduação em Obstetrícia. Compreendem um total de 240 horas por semestre, vivenciados em serviços públicos no município de São Paulo e municípios vizinhos. Fazem parte das atividades prestar cuidados durante o trabalho de parto, parto e pós-parto, além de aleitamento materno, cuidados com o bebê, entre outros. Nos dias em que não havia demanda de atendimentos, foram realizadas rodas de conversa e simulação realística sobre protocolos de urgência e emergência em Obstetrícia. Busca desenvolver habilidades, conhecimentos e práticas necessários para a formação de obstetrizes.

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Eixo Temático
  • CT 03 - Ciências Sociais e humanas em saúde e (trans)formação na saúde coletiva: ações afirmativas, vozes e vivências contra-hegemônicas nas universidades brasileiras