A PANDEMIA NA FAVELA: PERCEPÇÃO DE HOMENS JOVENS DO COMPLEXO DA MARÉ-RJ SOBRE A PANDEMIA DE COVID-19

Vol. 2, 2023 - 180623
Relato de Pesquisa
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Resumo

Apresentação/Introdução A pandemia do novo coronavírus configura a maior emergência sanitária dessa geração. Analisando as diferenças de gênero, se identifica que homens apresentam piores resultados em termos de morbidades e mortalidade em função da COVID-19, associados a uma noção de invulnerabilidade e à resistência a práticas de prevenção características da masculinidade hegemônica. Observamos um “rejuvenescimento da pandemia”, com os jovens tendo de se colocar em risco para proteger os mais velhos. As comunidades cariocas também foram mais vulneráveis à COVID-19, em função da densidade populacional, do modelo de trabalho e da crônica ausência do Estado. Por sua vez, a população foi afetada por posturas negacionistas acerca da doença, do tratamento e do próprio vírus, nas quais identificou-se uma articulação com a masculinidade hegemônica, com consequências dramáticas nos casos de COVID-19. Assim, é estratégico ouvir os jovens sobre os impactos da pandemia e as fontes de informação consultadas. Com isso, visamos colaborar com perspectivas contemporâneas de comunicação em saúde, assim como refletir acerca de questões históricas ligadas à Saúde do Homem. Objetivos Refletir sobre a experiência da pandemia de COVID-19 de homens jovens (18 a 29 anos) moradores do Complexo da Maré no Rio de Janeiro e o impacto do negacionismo científico em suas práticas de prevenção da saúde. Metodologia Este trabalho é um recorte de uma pesquisa de pós-doutorado realizada entre set/22 e 02/23. Tratou-se de uma pesquisa qualitativa e exploratória, através de 10 entrevistas semiestruturadas com homens jovens (entre 18 e 29 anos) moradores do Complexo da Maré. Os critérios de inclusão foram a autoidentificação como homem e ser residente de comunidade. As categorias de análise foram: (I) perfil sociodemográfico; (II) sociabilidade e internet; (III) saúde e medicamentos; (IV) saúde e sociedade; e (V) COVID-19. Aqui, focaremos especificamente a COVID-19. Resultados e discussão Seis jovens tiveram COVID-19, com sintomas leves e sem internações. Houve variações na percepção do contágio na vizinhança, porém, os jovens argumentam que as pessoas mais atingidas seriam os mais velhos, ao passo que eles estariam mais protegidos. Entre os que trabalhavam, houve forte impacto do lockdown, gerando problemas financeiros que afetaram a segurança alimentar, a saúde mental e o consumo de álcool e drogas. O ensino remoto foi visto como muito negativo e também afetou a saúde mental. O afastamento de amigos foi o principal motivo para interromper o isolamento social, ainda que as redes sociais tenham atenuado a distância. Foi frequente uma sensação de ansiedade ou pânico frente ao contágio e à possibilidade de morte. Contudo, um entrevistado argumentou que teria “anticorpos” por “pular no valão”, reproduzindo a fala do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ressaltamos o paralelo com uma ideia de invulnerabilidade da masculinidade hegemônica. Todos fizeram algum isolamento (4 meses em média) e todos usavam máscaras, porém somente em lugares fechados e quando obrigatório. Vale destacar que o cotidiano desses jovens é muito atrelado ao território, com pouca circulação urbana fora da favela. Os relatos foram muito críticos às atitudes da população, consideradas negligentes e egoístas, principalmente pela não interrupção dos espaços de lazer na favela. Outra crítica frequente envolvia a ideia de ser “só uma gripezinha. A maioria sequer sabia o que era cloroquina ou o suposto “kit-COVID”, o que demonstra uma baixa exposição e adesão a discursos negacionistas. Um dado que confirma essa análise é a vacinação: todos tomaram ao menos duas doses, sem grandes hesitações. Os relatos confirmam o impacto positivo de uma campanha de vacinação coletiva, com destaque para a atuação da Fiocruz no território. Todos consideraram que tinham informações suficientes para tomar decisões. Ainda que consultem a internet, criticam a desinformação das redes. A televisão segue como uma fonte confiável, assim como instituições governamentais, universidades públicas, ONGs locais e profissionais da saúde. Conclusões/Considerações finais As práticas de prevenção adotadas não foram as mais rígidas, mas enfatizamos que a realidade socioeconômica da favela não permitia um isolamento maior, e foram frequentes os relatos de que a vida continuou quase inalterada. Por outro lado, os jovens criticaram intensamente tais atitudes, e o baixo contágio, a vacinação e a não adesão ao suposto “kit-COVID” são exemplos práticos desse discurso. A sociabilidade focada na comunidade foi um fator protetivo e a maioria não corroborou discursos negacionistas, o que demonstra uma resistência ao negacionismo. O Governo, ONGs e profissionais de saúde são vistos como referências. Mais do que relatar a competência informacional desses jovens acerca da pandemia, é preciso aproveitar as redes sociais para ampliar o diálogo com esse público, o que se torna um imperativo para a educação em saúde e deve ser uma prioridade nas ações em saúde futuras. Apresentação/Introdução A efetividade da regulação estatal nas políticas públicas é relevante no Sistema Único de Saúde (SUS), dada a intensidade das relações público-privadas. Além da regulação estatal, reconhecemos a importância da participação da sociedade civil como forma fundamental de regulação no SUS. Norteados pelas reflexões de Boaventura de Sousa Santos, assumimos que, ao longo do século XX, houve uma aproximação gradual da burocracia estatal e das ferramentas do direito, incluindo os sistemas públicos, com o modo de produção capitalista. Esse processo resultou na prevalência de uma ordem social, ou regulação, caracterizada pela influência conjunta do Estado e do mercado, enquanto as formas de exercício do poder comunitário foram marginalizadas. Procuramos aproximar essa reflexão teórica com a análise da participação da comunidade nos espaços de tomada de decisão do Sistema Único de Saúde, com ênfase nos órgãos de controle social - os conselhos e conferências de saúde. Para isso, exploramos essa perspectiva expandida de regulação, particularmente no contexto da regulação da gestão privada da atenção básica por meio das Organizações Sociais de Saúde (OSS) no município de São Paulo. O recorte temático do estudo é adequado, uma vez que a administração pública em São Paulo apresenta semelhanças com a abordagem da Nova Administração Pública, que é analisada por meio do referencial teórico mencionado. O recorte geográfico é relevante também pela extensão da gestão terceirizada no município de São Paulo, onde as OSS são responsáveis pela gestão de mais de 90% das Unidades Básicas de Saúde (UBS). Objetivos Compreender o papel regulador do controle social do SUS na gestão da atenção básica por Organizações Sociais de Saúde no município de São Paulo.

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Eixo Temático
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