PRÁTICAS DE RECUPERAÇÃO DE APRENDIZAGENS: NECESSIDADE DA OFERTA DE UM CURRÍCULO QUE INCLUA TODAS AS CRIANÇAS

- 214896
Resumo Expandido - Trabalho
Favoritar este trabalho
Como citar esse trabalho?
Resumo
PRÁTICAS DE RECUPERAÇÃO DE APRENDIZAGENS: NECESSIDADE DA OFERTA DE UM CURRÍCULO QUE INCLUA TODAS AS CRIANÇAS Introdução O presente texto é resultado de uma pesquisa de mestrado em Educação cujo objeto de investigação é atravessado por inquietações como a observação de que algumas crianças chegam no Ensino Fundamental II sem estar alfabetizadas integralmente, sem as competências e habilidades essenciais como a leitura, escrita e cálculo. Mesmo considerando práticas pedagógicas de recuperação de aprendizagens, ainda há obstáculos a serem superados. Para refletir sobre práticas pedagógicas que envolvem a recuperação de aprendizagens, faz-se necessário considerar que, conforme Franco (2016, p. 536), “as práticas pedagógicas são aquelas que se organizam para concretizar determinadas expectativas educacionais”, nas quais a intencionalidade dá sentido à ação. Portanto, constitui-se numa intervenção pedagógica planejada, que requer um ambiente que desperte a curiosidade, com possibilidade de adaptação, de conteúdos e metodologias, às necessidades de todos os alunos. O currículo, prescrito nas políticas, realiza-se por meio das práticas pedagógicas e carrega as percepções dos sujeitos envolvidos no processo educativo. Assim, o currículo praticado é resultado de convergências e/ou contradições, em um movimento dialético (Gimeno Sacristán, 2017). Com base nesses pressupostos, é preciso compreender que a escola é um espaço que proporciona à criança interação com um currículo prescrito permeado por bens culturais e diversas situações do cotidiano escolar, fazendo com que ela conheça e compreenda essas significações, apropriando-se de seu desenvolvimento conforme as suas possibilidades reais. É relevante mencionar que um currículo inclusivo e flexível possibilita adaptações de conteúdos e metodologias que atendam às necessidades dos alunos (Gimeno Sacristán, 20217). Nesse contexto, a recuperação de aprendizagens pode ser vista como uma estratégia, adaptando o currículo às necessidades dos alunos em situação de dificuldade. O professor tem um papel fundamental, pois é o responsável pela elaboração do planejamento, que envolve a flexibilização do tempo de ensino, a organização da sequência dos tópicos, a priorização de determinados assuntos e de práticas pedagógicas. Espera-se que o professor tenha a liberdade de realizar escolhas em suas práticas, favorecendo a aprendizagem dos alunos. Com base nesses pressupostos e considerando o lócus da pesquisa, uma escola municipal de educação básica, foi estabelecida a seguinte questão norteadora: Quais sentidos e significados são atribuídos por professores dos anos iniciais do Ensino Fundamental às práticas de recuperação de aprendizagens? Com isso, o objetivo geral é apreender sentidos e significados atribuídos por esses professores às práticas de recuperação de aprendizagens em uma escola pública municipal da região nordeste de Santa Catarina. Os fundamentos teóricos e metodológicos que orientaram a investigação se pautaram numa perspectiva sócio-histórica, contemplando as práticas pedagógicas como práticas sociais e o currículo como um instrumento construído historicamente. Desse modo, podemos inferir que tanto as práticas pedagógicas como os currículos estão imersos e/ou são oriundos de campos de disputa, marcados por interesses econômicos e políticos. Para Ponce (2023), essas disputas podem ter efeitos devastadores, quando impedem os sujeitos de se emanciparem ou de terem acesso a experiências escolares de construção de dignidade. Por isso, é relevante ouvir os professores, pois eles são protagonistas dos processos de ensino nas escolas de educação básica. Aspectos Metodológicos A metodologia, de abordagem qualitativa, contou com a realização de entrevistas semiestruturadas com quatro professoras e um professor dos anos iniciais de uma escola da rede pública municipal de uma cidade industrial situada no nordeste de Santa Catarina. Nessa escola, cada professor inseriu em seu planejamento atividades diversificadas, como revisões, exercícios e outros no sentido de promover, de forma contínua, a recuperação de aprendizagens com os estudantes que não alcançarem os resultados esperados. A análise dos resultados foi realizada com base na metodologia denominada Núcleos de Significação (Aguiar e Ozella, 2013). Essa metodologia consiste em identificar pré-indicadores nas falas dos participantes que, ao serem articulados permitem formar indicadores. Os indicadores, ao serem articulados, constituem os Núcleos de Significação, que buscam revelar as significações dos sujeitos acerca da temática investigada, ou seja, as práticas de recuperação de aprendizagens. Vale destacar que “os núcleos devem ser construídos de modo a sintetizar as mediações constitutivas do sujeito; mediações essas que constituem o sujeito no seu modo de pensar, sentir e agir” (Aguiar e Ozella, 2013, p. 310). A análise de um dos núcleos de significação, elaborados na pesquisa, foi selecionado para esta comunicação: “necessidade da oferta de um currículo que inclua todas as crianças”. A construção desse núcleo contou com dez pré-indicadores, selecionados a partir da leitura flutuante das entrevistas. A articulação e aglutinação destes resultou em quatro indicadores, são eles: a) relacionar o currículo com a realidade dos estudantes; b) o currículo deve ser adaptado para garantir o direito dos estudantes e atender às necessidades sociais, culturais e econômicas contemporâneas; c) o isolamento do professor no enfrentamento das dificuldades; d) a necessidade de formação dos professores. Núcleo de Significação: “necessidade da oferta de um currículo que inclua todas as crianças” O primeiro indicador desse núcleo de significação, “relacionar o currículo com a realidade dos estudantes”, revela que essa articulação tem sido um grande desafio para os professores. A professora 1 diz: “Creio que o maior desafio seja conseguir inserir, na matriz curricular, a realidade atual dos nossos alunos, pois por vezes os conteúdos são extensos e fazê-los compreender e manter a atenção tem sido um grande desafio”. Essa fala revela que é fundamental estabelecer alterações e adaptações no currículo para que os conteúdos sejam mais acessíveis às necessidades dos estudantes, melhorando, assim, sua atenção e compreensão. O currículo não é estático, mas dinâmico, pois se modifica à medida que as práticas pedagógicas são implementadas, adquirindo um significado genuíno por meio da interação entre professores e alunos no contexto das atividades de ensino-aprendizagem (Gimeno Sacristán, 2017). Essa flexibilidade do currículo é relevante para uma educação inclusiva, como diz o professor 3: “Como também a educação inclusiva, muitas crianças que necessitam de atenção ou direito de aprendizagem. A cidade está crescendo muito, vem família de todos os lugares, observar e atender a da melhor forma possível cada criança”. Isso é necessário pois, de acordo com Kramer (2007, p 14), “a linguagem das crianças está impregnada de marcas de seus grupos sociais de origem, valores e conhecimentos. Seus modos de falar e agir fazem parte de suas bagagens culturais, de vida – são modos de ler a realidade”. Outro aspecto ressaltado pelos professores foi a dificuldade em lidar com a diversidade de estudantes, pois eles são oriundos de diversas regiões do país. A professora 5 diz: “As crianças apresentam variados níveis de aprendizagens. Ou seja, a heterogeneidade é muito elevada e temos que recorrer a atividades de anos anteriores”. Dessa maneira, em sala de aula, há crianças com diferentes níveis de aprendizagens e níveis sociais, até mesmo porque cada uma é única, trazendo consigo suas experiências e vivências. Elas necessitam de uma prática pedagógica distinta e adaptada para que o processo de ensino e de aprendizagem ocorra, abrangendo as lacunas existentes durante sua formação. Sobre isso, Libâneo (2017, p. 94) nos lembra de que “a aprendizagem escolar tem um vínculo direto com o meio social que circunscreve não só as condições de vida das crianças, mas também a sua relação com a escola e o estudo, sua percepção e compreensão das matérias”. No caso desta pesquisa, é preciso observar que a cidade na qual está localizada a escola, lócus da pesquisa, permanece em pleno desenvolvimento industrial, o que gera um movimento migratório no qual as pessoas buscam melhores oportunidades de trabalho e de uma vida melhor. Essa condição implica na vida das famílias, que precisam promover mudanças, tanto de residência quanto de escola para seus filhos, o que impacta na adaptação e na aprendizagem dos estudantes. Contudo, é provável que os professores possam estar expressando suas opiniões sem, de fato, ter condições de promover qualquer alteração, considerando que o currículo prescrito é extenso, por vezes desinteressante, não dialogando com a realidade dos estudantes. Além disso, a educação básica é tensionada a dar resultados em avaliações de larga escala, o que dificulta ainda mais a flexibilização desejada. O que vem ocorrendo, como afirma Ponce (2023, p. 110), é uma tentativa de transformá-los em uma presença social desbotada, obscurecida lenta e gradualmente por políticas públicas de descaso e por construções midiáticas. Os sujeitos mais imediatos do currículo, os que deveriam ser os verdadeiros construtores dinâmicos e cotidianos de saberes - alunos e professores -, ficaram à mercê de uma engrenagem que busca torná-los “funcionários” da própria da proposta curricular. Nessa perspectiva, o currículo perde a sua função de formação humana e passa a ser apenas um meio para o alcance de metas nacionais e globais. O segundo indicador desse núcleo de significação é: “o currículo deve ser adaptado para garantir o direito dos estudantes e atender às necessidades sociais, culturais e econômicas contemporâneas”. As falas dos participantes desta pesquisa abordam a dificuldade de ensinar todos os conteúdos e atender às diretrizes nacionais. Uma delas é do professor 4: “O desafio é cumpri-lo todo com os conteúdos muito além do que eles aprenderam”. Outra é da professora 5: “É uma matriz que apresenta muita repetição desnecessária. E não apresenta nada flexível ao atendimento de alunos especiais ou com dificuldades de aprendizagem”. Para refletir sobre essa questão, inspiramo-nos em Libâneo (2017, p. 36): “a educação não depende apenas do interesse e esforço individual porque, por trás da individualidade, estão condições sociais de vida e de trabalho que interferem nas possibilidades de rendimento escolar”. Portanto, vários fatores sociais podem afetar diretamente a capacidade do estudante de aprender durante o processo de ensino-aprendizagem. Por isso a importância de um currículo adaptado e diferenciado para que se possa incluir todos os estudantes. O próximo indicador é: “o isolamento do professor no enfrentamento das dificuldades”. Acerca dele, a professora 5 diz: “Não ocorre informação ou reunião para conversar sobre estes desafios. Cada professor trabalha isolado de acordo com a sua própria compreensão”. Aqui, percebemos que os professores encontram um desafio para conseguir compartilhar suas angústias e trocar ideias e experiências sobre suas práticas pedagógicas. O que indica condições de trabalho que não permitem momentos de trocas, de estudo e formação. E o último indicador nos faz refletir sobre a “necessidade de formação dos professores para atender às necessidades dos alunos”. Sobre ele, a professora 2 fala: “A garantia de que os currículos estejam alinhados com as diretrizes educacionais nacionais e a formação e capacitação dos professores para implantar efetivamente essas diretrizes curriculares também podem ser desafios”. Diante disso, podemos inferir que é necessária uma formação continuada de professores para que se possa discutir e implantar diretrizes curriculares de modo a atender todos os estudantes, além de qualificar as práticas pedagógicas em sala de aula. Considerações finais A pesquisa, a partir das falas dos professores participantes, revela que as práticas pedagógicas que envolvem recuperação de aprendizagens demandam uma flexibilização do currículo para que se possa dar atenção e atender todos os estudantes. Um currículo padronizado e que não permite adaptações pode representar exclusão e o não atendimento às necessidades dos estudantes. Além disso, é indicada a carência de formação continuada para implantar efetivamente as diretrizes curriculares e ressignificar as práticas pedagógicas, especialmente para atender os estudantes que não conseguem atingir os objetivos propostos em sala de aula. Diante disso, considera-se que é papel das políticas públicas promover a garantia do direito à educação para todos os estudantes, independentemente de sua classe social, gênero ou cor. Políticas que incluam a viabilização de infraestrutura escolar e material pedagógico adequados para atender às necessidades de alunos e professores, bem como a oferta de formação continuada para os docentes, promovendo a troca de experiências e saberes e, consequentemente, o aprimoramento de suas práticas. Desse modo, pode-se dar condições de atendimento às necessidades dos estudantes da educação básica, garantindo que todos tenham acesso a uma educação que seja democrática, com equidade e de caráter emancipatório. REFERÊNCIAS AGUIAR, Wanda Maria Junqueira de; OZELLA, Sergio. Apreensão dos sentidos: aprimorando a proposta dos núcleos de significação. Revista brasileira de estudos pedagógicos, v. 94, p. 299-322, 2013. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbeped/a/Y7jvCHjksZMXBrNJkqq4zjP . Acesso em: 25 fev. 2025. GIMENO SACRISTÁN, José. O currículo: uma reflexão sobre a prática. 3.ed. Porto Alegre: Penso, 2017. [E-book]. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/reader/books/9788584291922/ . Acesso em: 18 out. 2024. KRAMER, Sonia; NUNES, Maria Fernanda R.; CORSINO, Patrícia. Infância e crianças de 6 anos: desafios das transições na educação infantil e no ensino fundamental. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 37, n. 1, p. 69-85, jan./abr. 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ep/a/vZGy5F6XjQ3C9rS4VvrcMXJ/?format=pdf&lang=pt . Acesso em: 02 set. 2024. LIBÂNEO, José C. Didática. São Paulo: Cortez, 2017. [E-book]. Disponível em: https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788524925573/ . Acesso em: 02 set. 2024. FRANCO, Maria Amélia do Rosario Santoro. Prática pedagógica e docência: um olhar a partir da epistemologia do conceito. Revista Bras. Estud. Pedagógicos, Brasília, v. 97, n. 247, p. 534-551, set./dez. 2016. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbeped/a/m6qBLvmHnCdR7RQjJVsPzTq/?lang=pt . Acesso em: 20 nov. 2024. PONCE, Branca Jurema. O currículo escolar e os desafios na escola pública brasileira: em busca da justiça curricular. In: PONCE, Branca Jurema; COSTA, Thais Almeida; ARAÚJO, Wesley B. Justiça Curricular: por uma educação escolar comprometida com a justiça social. Editora Dialética, 2023.

Compartilhe suas ideias ou dúvidas com os autores!

Sabia que o maior estímulo no desenvolvimento científico e cultural é a curiosidade? Deixe seus questionamentos ou sugestões para o autor!

Faça login para interagir

Tem uma dúvida ou sugestão? Compartilhe seu feedback com os autores!

Instituições
  • 1 UNIVERSIDADE DA REGIÃO DE JOINVILLE
Eixo Temático
  • GT12 - Currículo