A onda neoconservadora que vivemos nos últimos anos ocupa espaços em diferentes âmbitos da atuação da sociedade brasileira. As disputas em relação às definições curriculares e à agenda educacional retratam a força com que essa onda invade a educação. A pressão sobre a educação expõe a fragilidade das conquistas alcançadas por meio de muitas lutas. Neste cenário, aprofundam-se desigualdades e amplia-se o abismo entre privilegiados e vulneráveis. Nesse contexto, o presente trabalho é parte do desenvolvimento de minha pesquisa de doutorado que objetiva a compreensão de processos de formação do Projeto MOVA-Angra no município de Angra dos Reis (RJ), na década de 1990, por meio da recuperação da história e da memória. Para isso, tenho investido no resgate documental desse período e realizado entrevistas com coordenadores e educadores que participaram do Projeto levando em conta os contextos histórico e político da época. O Projeto MOVA foi uma política pública realizada em parceria com movimentos sociais, visando à ampliação e legitimação de direitos educativos e sociais fundamentais, forjados nas lutas pela democratização. O processo de redemocratização da sociedade brasileira reverberou no município e uniu elite e movimentos sociais contra a política local, resultado direto do Decreto-lei n. 672 que transformou a cidade em área de segurança nacional em julho de 1969. A retomada do direito a eleger o prefeito, o que aconteceu em 1985, foi uma conquista relevante. Porém, os projetos voltados para a democratização da cidade surgiram apenas em 1988, com a eleição do prefeito Neirobis Nagae (PT). O MOVA em Angra dos Reis fez parte da estratégia da gestão municipal de democratizar a cidade, e a educação de jovens e adultos (EJA) constituiu um dos projetos na área da educação. Assentou-se na desigualdade real sustentada pela negação histórica de direitos humanos básicos e ainda não superada. O horizonte do trabalho de alfabetização promovida pelo Projeto foi além da escolarização, envolvendo ações educativas, fortalecimento de movimentos sociais, vivências culturais, de modo a garantir, junto com o direito à educação, a formação de sujeitos conscientes das injustiças sociais e da necessidade de participação ativa para a transformação social. O aporte teórico-prático do Projeto baseou-se em Paulo Freire. A hipótese que orienta a pesquisa é a de que o Projeto MOVA teve potencial para contribuir com a EJA, em especial com a formação de professores, oferecendo lentes para o fortalecimento da luta dessa modalidade de ensino, diante da precarização da educação e avanço do neoconservadorismo. Nessa jornada, apoiei-me na história oral (Thompson, 1992) que oferece percepção social com o sentido de pertencimento e possibilita ir além de generalizações evasivas e chegar à lembrança detalhada; na entrevista compreensiva (Kaufmann, 2013) que defende um processo de pesquisa de campo pressupondo a necessidade de ver e entender as pessoas pela escuta sensível; e em Freire, referência para a análise de dados coletados. No processo de pesquisa recuperei 14 cadernos[1] produzidos pelo Projeto. Os cadernos apresentam relatórios, trabalhos desenvolvidos por educadores, atividades criadas por esses mesmos educadores, registros de trabalhos desenvolvidos junto às turmas, cadernos de formação, cadernos de poesias escritas por alfabetizandos, ou seja, uma rica produção escrita. Em alguns desses cadernos há registros de textos criados por alfabetizandos, nos quais se destacam: o movimento de valorização do conhecimento; o respeito pela “fala”; o sentimento; o sonho traduzido em palavras. Freire (2020, p. 126) nos recorda que “Sonhar não é apenas um ato político necessário, mas também uma conotação da forma histórico-social de estar sendo mulheres e homens. Faz parte da natureza humana que, dentro da história, se acha em permanente processo de tornar-se”. Mário, um alfabetizando da turma de funcionários da Prefeitura Municipal de Angra dos Reis, em agosto de 1998 escreveu sobre o seu sentimento de retornar a estudar e a importância da atitude da educadora: Outra alfabetizanda, de uma turma situada em Santa Rita do Bracuí, no mesmo ano, escreve sobre o seu sonho: Os dois sujeitos desses textos revelam sentimentos e desejos, questões tão humanas negligenciadas historicamente por políticas públicas. O acolhimento e o reconhecimento de si como sujeito adulto, detentor e produtor de conhecimento restauram a esperança, exercitam melhor a capacidade de aprender e de participar ativamente para a transformação social. Certas aprendizagens são fundamentais para o alcance da cidadania. A educação dá acesso a linguagens produzidas e adotadas pela sociedade, tornando-se ferramenta necessária para a conquista da cidadania. Apesar de sofrerem interdição ao direito à educação, sujeitos como os do MOVA seguiram produzindo conhecimentos e cultura em seus cotidianos, mesmo em condições desfavoráveis. Reafirmando Freire (1996, p. 60): são sujeitos histórico-socioculturais, seres “[...] inacabados num permanente processo social de busca”. A leitura dos documentos escritos durante o Projeto MOVA permite afirmar haver a defesa do fortalecimento de movimentos sociais; a formação de “[...] sujeitos que influem no seu processo histórico, que tomam para si a responsabilidade e o direito de influir no mundo, não apenas depositando seu futuro nas mãos de outrem” (Sales, Silva, 1994, p. 24) como fundamento essencial em relação aos educadores, em movimento constante de processo de formação e de ter os alfabetizandos como foco principal do trabalho desenvolvido. O horizonte e a prática pedagógica assumidos caracterizam-se pelo fomento de ações voltadas para o desenvolvimento da capacidade crítica; pelo despertamento da curiosidade; pela necessidade de participação ativa para a transformação da realidade. A metodologia de trabalho baseada em Freire prima pela escuta, pelo diálogo, pela problematização, reafirmando o compromisso com a “releitura do mundo” (Freire, 2020, p. 109) e a formação do educador que, sendo “[...] democrático não pode negar-se de, na sua prática docente, reforçar a capacidade crítica do educando, sua curiosidade, sua insubmissão”. (Freire, 1996, p. 33). A problematização de um tema gerador representava uma estratégia de decodificação da realidade e mobilizador para o alcance de “inéditos viáveis”. (Araújo-Freire, 2020, p. 279) Sr. Sebastião, conhecido como o poeta do MOVA, ilustra bem o efeito do Projeto. O poeta metamorfoseou seu cotidiano em versos. Teve seus versos publicados em um livro artesanal e emocionou a todos quando revelou que agora podia prender seus versos no papel. Em turma de Monte Castelo, onde Sr. Sebastião estudava, no processo de problematização em torno do tema gerador foi despertada a vontade de os alfabetizandos se organizarem para resolverem seus problemas. O tema era iluminação pública. A fala da educadora Ivete Lyra ilustra o ocorrido: “[...] a gente começou a conversar sobre associação de moradores, sobre os direitos, sobre cidadania, em sala de aula e aquilo parece que foi despertando [...] aí a gente começou a trabalhar sobre iluminação pública. ‘Ah! porque a associação não está fazendo mais nada!’. Então vamos fazer nós’. [...] foi quando eles gostaram mais do movimento popular”. Os alfabetizandos formaram uma chapa, disputaram e ganharam as eleições para a Associação de Moradores. Sr. Sebastião elegeu-se presidente. Essa experiência revela a potência da prática de sala de aula. Ao oferecer elementos para que os alfabetizandos, ao invés de se subordinarem, fossem estimulados a intervir no mundo, redefinindo-o, fortaleceu-se o movimento social, o engajamento, por meio da compreensão da realidade social e do reconhecimento de si como sujeito histórico. A conquista partilhada por todo o grupo tomou forma no momento em que a educadora, por meio da metodologia, trouxe a voz dos alfabetizandos como ponto de partida para o trabalho de alfabetização, o que fortaleceu laços com a comunidade, recuperou a história, a identidade e viabilizou o registro da história a partir da experiência da vida cotidiana. A escuta, o reconhecimento de saberes forjados pela prática permitiram o aprendizado da língua com o sentimento de pertencimento à história, pela valorização de suas lutas. Jovens, adultos e idosos foram tratados como sujeitos de cultura /conhecimento — todo o trabalho partiu dessa premissa. Outra senhora, quando soube em conversa informal que eu desejava pesquisar sobre o que o MOVA representara, prontamente me perguntou: “Por que acabou?” Contou-me, com jeito quase adolescente, que começara a estudar no MOVA, fizera novas amizades, aprendera muitas coisas, participara de reuniões... só não entendia o fim do projeto. Gostaria de ter “estudado mais com o MOVA”. Sua pergunta me desafia. Como pesquisadora, espero poder responder essa e outras perguntas. REFERÊNCIAS: ARAÚJO-FREIRE, Ana Maria. Notas. In: FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo. Paz e Terra, 1996. FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. São Paulo, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2020. SALES, Sandra; SILVA, Alberto Gomes. MOVA-Angra: refletindo sobre a metodologia. Caderno Alfabetização para a cidadania. Prefeitura Municipal de Angra dos Reis, Secretaria Municipal de Educação. Angra dos Reis, 1994, p. 22-29. SALES, Sandra. A parceria entre o estado e a sociedade civil no MOVA (uma análise da experiência de Angra dos Reis). Angra dos Reis, Prefeitura Municipal de Angra dos Reis, Secretaria de Educação e Brasília, MEC/FNDE, Caderno 2, 1998. [1] Os cadernos são produções artesanais do serviço de mecanografia da Secretaria Municipal de Educação.