PERSPECTIVAS FORMATIVAS E EDUCACIONAIS DO DIÁLOGO EM DEWEY E GADAMER

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Resumo
PERSPECTIVAS FORMATIVAS E EDUCACIONAIS DO DIÁLOGO EM DEWEY E GADAMER Este estudo aborda o conceito de diálogo em John Dewey (1859-1952) e Hans-Georg Gadamer (1900-2002). A possibilidade de entrelaçamento entre os autores em torno do tema do diálogo é a razão pela qual optamos pela investigação, pois, embora sejam de tradições diferentes, revelam o desejo de uma formação humana permeada pela prática comunicativa dialógica. Defendemos que a Educação, ancorada nas perspectivas formativas e educacionais de Dewey e Gadamer tem maior chance de capacitar o ser humano no sentido de enfrentamento dos problemas contemporâneos. John Dewey direcionou sua crítica ao modelo educacional do século XX, que se sustentava em preceitos tradicionais e não conseguia formar sujeitos críticos e criativos, nem os capacitar para pensar e agir diante das demandas da vida. O que se buscava era exclusivamente a preparação para o mundo do trabalho, atendendo às demandas do capitalismo. Gadamer, também no século XX, critica o mundo caracterizado pela fragilidade do diálogo, ocasionada pelo avanço tecnológico. Ambos os autores antecipam o nosso tempo, caracterizado pela tecnologização, incursão neoliberal com reflexos na precarização do trabalho, ascensão neoconservadora, acentuação de conflitos e guerras e a expansão violenta de ideias totalitárias e destruição da biodiversidade no âmbito global. Assim, as objeções dos autores são pertinentes à nossa conjuntura atual, visto que a excessiva transitoriedade e fluidez, a escassez de discussões abertas e projetos interculturais dialógico-cooperativos afetam as relações humanas. Isso torna mais desafiador, do ponto de vista educacional, a formação das novas gerações, que tendem a se distanciar do princípio dialógico, fundamental para a própria humanização. O panorama exposto se desdobra em diversas outras problematizações, pois os desafios para formar as gerações contemporâneas parecem se ampliar de forma acelerada, reduzindo cada vez mais as possibilidades de uma formação humanizadora. Segundo Dalbosco; Doro (2024), o diálogo é o princípio nuclear da formação humana, mas se mostra fragilizado ou até inexistente em nosso contexto educacional, em virtude da complexidade e das demandas vigentes da nossa sociedade. No entanto, como cerne da educação, o diálogo precisa ser resgatado e cultivado nas relações, a fim de coibir o risco da desumanização. É neste sentido que Dewey e Gadamer nos trazem contribuições valiosas. Ao considerar dialogicamente estes autores, buscamos uma sólida possibilidade de formação humana, que tenha no diálogo o eixo unificador. Diante disso e considerando nossa aposta nos autores, lançamos a seguinte pergunta: Quais possibilidades formativas e educacionais podem ser extraídas das noções deweyana e gadameriana de diálogo e como podem nos ajudar a enfrentar os problemas contemporâneos? Para alcançar nosso objetivo, optamos pela pesquisa qualitativa, bibliográfica, fundamentada no princípio analítico-hermenêutico. Essa escolha permite uma melhor compreensão da realidade e nos inspira a questionar sobre novas possibilidades para a sua transformação. É no universo humano que a reflexão se concentra, ancorada nos pensadores clássicos, que provocam uma reflexão crítica e propositiva. A postura hermenêutica filosófica, segundo Gadamer (2008), possibilita encontrar o sentido, a interpretação e a compreensão dos horizontes dos textos, criando condições para apresentar novas perspectivas de ação em conformidade com a história vivida. Tomamos como referência deweyana os capítulos 1 e 2 de “Democracia e Educação” (1979a) e fragmentos de “Como pensamos” (1979b). Em Gadamer, nos concentramos em dois textos: “A incapacidade para o diálogo” (1972), presente na obra Verdade e Método II (2007), e “A educação é educar-se” (2000). Ao longo da história, constatamos que o desenvolvimento humano foi constituído em estreita relação com o trabalho, entendido como atividade produtiva resultante da interação entre os seres humanos e a natureza. No entanto, o regime de concorrência em todos os níveis, as formas de gestão das empresas, o desemprego e a precariedade, a dívida e a avaliação, são poderosas alavancas de concorrência interindividual, definem novos modos de subjetivação e, consequentemente, de relacionamento (Dardot; Laval, 2016). Nesse contexto, não há espaço para o diálogo, pois o “sujeito do desempenho” é impulsionado a comprovar produtividade e performance (Pinto, 2021). Em contraste com à ideia de individualismo, concorrência e competitividade, Dewey aposta no arranjo social de cooperação, centrado em um objetivo comum. Para que projetos comuns sejam concretizados é necessário o princípio nuclear do diálogo. Em sua obra “Democracia e Educação” (1979a), Dewey utiliza expressões como comunicação e linguagem para descrever a experiência relacional-interativa entre os seres humanos. Nesse interim, a palavra “comunicação” assume o sentido de partilha ou troca, que pode ocorrer por meio verbal (falado ou escrito) ou não verbal (imagens, sons, gestos). A experiência do diálogo leva os seres humanos a buscar uma forma comum de viver, o que requer participação e compreensão do contexto em que vivem. Dewey, em “Como Pensamos” (1979b), defende o espírito aberto como uma disposição receptiva do ser humano para o que é novo, incluindo o outro e o que ele traz para partilhar. Essa disposição, é um encorajamento diante do desconhecido, permitindo questionar, crenças e pré-conceitos. Quando essa abertura não existe, não ocorre a superação das convicções, levando a atitudes defensivas, que bloqueiam novas concepções, impedindo o acesso ao novo e limitando o crescimento do sujeito. Por outro lado, aquele que está interessado, determinado e atento, Dewey afirma que está “de coração” (1979b, p. 39), uma atitude que se refere no interesse e comprometimento com a própria formação, ou seja, predisposto ao diálogo. Sem a participação, a cooperação e a mudança dos hábitos sociais não se pode alcançar uma formação democrática, nem superar modelos transmissivos e autoritários e, ainda, como outro exemplo, a onda neoconservadora que nos afeta de maneira avassaladora. Portanto, é possível afirmar que, para garantir os elementos essenciais de um arranjo social democrático – modelo aberto e flexível – é imprescindível o ato comunicativo, pois ele educa, na medida em que a experiência humana se torna comum e pode ser transformada. Nas palavras de Dewey, “A comunicação é o processo da participação da experiência para que se torne patrimônio comum” (1979a, p.10). Ao trazer a ideia de incorporação do comunicado à experiência da pessoa como possibilidade de ampliação do aprendizado, Dewey esclarece que “[...] o aprender da experiência é fazer uma associação retrospectiva e prospectiva entre aquilo que fazemos às coisas e aquilo que, em consequência, essas coisas nos fazem gozar ou sofrer” (1979, p. 153). Desta forma, o diálogo pode ser um modo de experimentar o mundo, descobrir como ele é e a relação entre as coisas. Quando há troca comunicativa entre os envolvidos, ocorrem as associações retrospectiva e prospectiva da experiência dialógica. Isso implica um “interesse compartido, comum, de modo a haver o duplo anseio de dar e receber” (Dewey, 1979a, p. 239-240). No século XIX, a “invenção do telefone” marcou o início de uma reflexão sobre as limitações do diálogo vivo acontecer. Embora essa importante invenção tecnológica tenha permitido conversar simultaneamente com pessoas de todo o mundo e facilitado a troca de informações, Gadamer afirma que o recurso não possibilita o aprofundamento das relações humanas. A “magia” humana no trocar as palavras vivamente não ocorre em uma ligação telefônica. Segundo o autor, “Ao telefone quase não é possível ouvir a disposição de abertura do outro para entrar em diálogo. Também não é possível à experiência da aproximação mútua” (2007, p. 244). O diálogo também pode ser impossibilitado no contexto educacional, onde se apresenta o “perigo da cátedra”. Isso ocorre quando o professor ensina por meio do monólogo, onde somente ele fala e os aprendizes ouvem passivamente. É fundamental criar condições para que haja participação ativa, proporcionando equilíbrio e igualdade entre os interlocutores. Quando existe uma relação autoritária, estamos diante de uma postura equivocada e reducionista, que inibe o diálogo e a construção do conhecimento compartilhado. Existe uma necessidade humana essencial para o aprendizado, que é a “linguagem comum”, ou seja, a necessidade de dialogar a partir de um referencial compartilhado, de um mundo comum. Essa prática abre a possibilidade de entendimento, mesmo diante de divergências de pensamento. Como destaca Gadamer, “É preciso observar que o entendimento entre as pessoas tanto cria uma linguagem comum como pressupõe uma tal linguagem” (2007, p. 252). Na relação dialógica, sob a ótica do autor, os envolvidos sentem-se em casa, no sentido de que se encontram em um espaço de formação cultural ampliada. A casa, nesse contexto, representa o próprio mundo, o espaço onde se exerce a linguagem como diálogo. Assim, a formação permeada pelo diálogo é o exercício de sentir-se em casa. O diálogo é uma experiência formativa que permite ao ser humano pensar por conta própria, exercitar a exposição de juízos próprios e se relacionar com as pessoas e com a sociedade. Nesse sentido, escreve Gadamer: “O aceder a morada no mundo se mostra também com esse atrevimento a formar novas palavras do que foi falado” (2000, p. 02). Gadamer (2000) destaca a importância da língua materna como a principal forma de comunicação. O aprendizado da língua desperta o prazer por aprender e proporciona segurança, permitindo que o ser humano conheça uma concepção de mundo. A linguagem é o meio pelo qual se conhece o seu pensamento, e a língua materna é fundamental para isso. Além disso, a língua materna é um recurso essencial para o sentimento profundamente humano de “sentir-se em casa”, pois é ela que estabelece a conexão entre o bebê e o adulto, dinamizando a relação tensional entre necessidades e cuidados. Nesse contexto, Gadamer também destaca a importância da sensibilidade, que ele chama de “sensório”. Essa sensibilidade é indispensável para o outro e pode ser compreendida como uma postura pedagógica em que não se ensina apenas pela teoria, mas também pela prática. Essa abordagem permite uma compreensão mais profunda, silenciosa e significativa do outro. Segundo Gadamer (2007), o diálogo profundo depende da quietude. Só é possível dialogar mediante a escuta silenciosa e atenta. Neste sentido, a escuta gadameriana significa a resistência à incapacidade para ouvir. Quando ocorre a ausência da escuta estamos sob o risco da própria morte da formação humana e dos processos recíprocos de ensinar e aprender. A educação e a autoeducação não se concretizam. Neste sentido, a escuta se revela como algo essencial no processo dialógico educacional. Só educa e forma bem, quem ouve bem seus interlocutores. Em conclusão, retomamos nossa problemática inicial: Quais possibilidades formativas e educacionais podem ser extraídas das noções deweyana e gadameriana de diálogo e como podem nos ajudar a enfrentar os problemas contemporâneos? Embora Dewey não utilize o termo, ele implicitamente destaca a importância do diálogo como princípio essencial para a formação humana e para a construção do que é comum na sociedade. Ele afirma que a vida social se identifica com a comunicação, porque ela é educativa. Receber a comunicação é adquirir uma experiência mais ampla e variada. Gadamer destaca a interação dialógica como um pressuposto fundamental para formação humana. Ele enfatiza a importância de características essenciais como abertura, escuta, pergunta e resposta. Gadamer é defensor do diálogo vivo, pois, “Um diálogo é, para nós, aquilo que deixou uma marca” (Gadamer, 2007, p. 247). Dialogar é uma experiência profunda que toca a alma e faz vibrar o coração. Elencamos alguns pressupostos que, ao nosso ver, podem ser aproximados e auxiliam no processo de uma educação formadora, respeitando a originalidade de cada autor. Destacamos assim que: ambos defendem o diálogo como princípio nuclear para a formação humana e a educação; existe uma preocupação comum dos autores em conduzir ao diálogo, sendo responsabilidade e compromisso das pessoas mais experientes em relação aos menos experientes; ainda, ambos conferem importância da prática dialógica sensível. Tanto em Dewey quanto em Gadamer, o diálogo é apresentado como elemento formativo indiscutível. Na perspectiva deweyana, o diálogo é visto como um processo educativo que enfatiza a participação ativa do sujeito e a escuta das vozes, como forma de construir e consolidar uma sociedade humana e refinada, capaz de lidar com as complexidades. Na perspectiva gadameriana, o diálogo é um pilar central na formação e educação dos seres humanos, visando evitar a reprodução de fragilidades formativas e contrariedades sociais, bem como, barbáries de um passado recente e sombrio. Enfim, ao longo da pesquisa, as aproximações entre Dewey e Gadamer se consolidaram, revelando sentidos semelhantes, que permitem esse entrelaçamento. Concluímos esta investigação com a certeza de que nossos interlocutores clássicos defendem a ideia de que o diálogo vivo é fundamental para a formação humana e a educação. Com uma formação humana dialógica estaremos capacitados para defender princípios coletivos e democráticos, o que nos permitirá enfrentar, com firmeza e repertório vigoroso os problemas que afetam nosso mundo e se manifestam no campo educacional de diversas formas. REFERÊNCIAS DALBOSCO, Claudio Almir; DORO, Marcelo. Ética, docência e formação humana: por uma práxis docente dialógica. IN: CENCI, Angelo Vitório (et al). Vol. 1. Passo Fundo: EDIUF, 2024. DARDOT, P.; LAVAL, C. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016. DEWEY, John. Como pensamos. Tradução: Haydée Camargo Campos. São Paulo: Nacional, 1979b. Atualidades pedagógicas; vol. 2. DEWEY, John. Democracia e educação. Tradução: Godofredo Rangel e Anísio Teixeira. São Paulo: Nacional, 1979a. Atualidades pedagógicas; vol. 21. DEWEY, John. Experiência e educação. 2 ed. São Paulo: Companhia Ed. Nacional, 1976. Atualidades pedagógicas; vol. 131. GADAMER, Hans-Georg. La educación es educarse. Barcelona: Paidós, 2000. GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método I. Tradução: Flávio Paulo Meurer. 9 ed. Petrópolis, RJ: Vozes. 2008. GADAMER, Hans-Georg. Verdade e Método II. Tradução: Ênio Paulo Giachini. 3 ed. Petrópolis, RJ: Vozes. 2007. PINTO, S. C. L. Entre coaches e colaboradores: o sujeito do desempenho. Revista de Ciências Sociais, Política & Trabalho, João Pessoa, n. 55, 2021. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/index.php/politicaetrabalho/article/view/. Acesso em: 11 fev. 2025.

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