Título: “... o engodo da subjetividade constitutiva”: A educação, o mito da operation e a crítica às formas autoritárias de subjetivação Introdução O objetivo da presente pesquisa é pensar o papel mediador da educação na perlaboração de processos que, críticos à unidimensionalidade da cultura, possam tornar possível o conteúdo de verdade da subjetividade, aquela capaz de mobilizar nos homens àquilo que ainda lhes resta de humano: a sensibilidade diante à dor do outro; e, por conseguinte, o seu papel no combate às expressões de autoritarismo sociais muito próprias a este tempo de ontologização dos princípios neoliberais e avanço dos movimentos extremistas em nosso país. Interessa-nos, em primeiro lugar, mostrar que o centro do problema são as formas rígidas e identitárias de individualidade, base destes princípios, cujo mote a educação, que se pretende política e para a democracia, tem por tarefa problematizar. Esse problema nos remete às seguintes questões: i) se a formação do indivíduo ocorre pelo/no mundo e o mundo é administrado pelos interesses da economia de mercado como é possível que o indivíduo se emancipe, rompendo com esse aprisionamento à lógica totalitária e autoritária que organiza o mundo? ii) a memória coletiva de eventos de barbárie deve servir como fundamento para pensarmos a educação ou o negacionismo é o melhor caminho para encerrarmos os ciclos de violência? iii) Obrigados a se capacitarem para a frieza, os sujeitos se curvam a uma identidade puramente funcional, condição sine qua non da autoconservação. Frieza, aqui, possui um duplo significado, a saber: a) liquidação do indivíduo e negação do Eu e b) violência contra o outro. A luta pela conservação do Eu não se encerra com o êxito obtido (uma posição profissional assegurada, por exemplo). O sujeito é inserido para sempre nesse continuum, i.e., numa sequência infinita de experiências de injustiça e de violência. Esta, ininterruptamente, provoca medo pela perda do já alcançado e agressão entre os homens. Qual o papel da educação frente a estas formas autoritárias de subjetivação? Essas perguntas nos conduzem a outra questão fundamental que transcende o recorte histórico e refere-se ao âmbito da teoria, consequentemente, ao da práxis educativa: refere-se ao papel da formação frente à noção de dominação na qual não só o corpo e nossos afetos estão sujeitos, mas principalmente frente à sua conversão em uma ferramenta de produção de dispositivos de eficácia para atender de forma bastante imediata aos interesses da sociedade industrial e mercantil. Interessa-nos, portanto, insistir na hipótese de que a frieza burguesa, prototípica desta sociedade, cujas práticas são tomadas desde o pressuposto de “uma normatividade que impõe ao sujeito uma normatização subjetiva de um tipo particular” (DARDOT & LAVAL, 2016, p. 319), não trata simplesmente de anulá-lo, mas de incorporá-lo ao mercado como mero produto, i.e., trata de torna-lo mais uma coisa dentre as coisas: “meros seres genéricos” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 41). A partir disso, a educação institucionalizada, além de neutralizada em suas possibilidades de emancipação, se mostra como o processo ideal de propagação da mentalidade da indiferença com relação ao Outro e, consequentemente, à natureza que o circunda. Ao fim e ao cabo, nosso interesse é, desde os textos de Adorno e para além deles mesmos, tornar claras as condições subjetivas do autoritarismo latente no interior da formação e da cultura democrática – objeto e tarefa do que aqui se entende por educação para a emancipação e cujo componente crítico e anticonformista trataremos de desenvolver. Nesse sentido, é primordial a relevância, nesta pesquisa e para a práxis educativa, a ideia de uma racionalidade estético-formativa, enquanto possibilidade de desvelamento de todas àquelas dimensões que não são puramente racionais, inclusive aquelas potencialmente violentas, como a repulsa ou o ódio. Esses impulsos não deveriam ser reprimidos, mas sublimados e direcionados como intolerância à violência contra os mais fracos. Não é a subjetividade new age, despreocupada, inserida no ritmo da vida a partir de uma interioridade conformista que deveria ser o objeto da educação, mas aquela capaz de sublimar seus impulsos destrutivos em termos de uma solidariedade com o sofrimento do próximo. Isso implica em um retorno a capacidade de experiência que atravessa toda filosofia adorniana, à demanda de abertura ao não-idêntico que só é possível desde o resgate das dimensões afetivas recalcadas pela racionalidade instrumental. Não é o sujeito racional e bem adaptado que é o protótipo de uma bem organizada democracia, tampouco é o espírito do moderado que pode fazer frente à barbárie. Sem uma quota de indignação frente à opressão e ao sofrimento do outro, sem uma recusa enfática da violência contra os mais fracos, tal subjetividade “emancipada” seria impossível, pois, “como eu poderia amar o bem, se não odiasse o mal” (ADORNO, 1995, p. 158). Essa educação estética dos afetos, essa disposição afetiva contra a crueldade e a discriminação é a tarefa essencial de uma educação para a democracia. A emancipação não é um estado, mas um projeto, uma tarefa com síntese provisória, um processo de construção da subjetividade que supõe uma autorreflexão crítica incessante sem a qual a democracia se torna uma mera formalidade. Metodologia Tratando-se de um estudo analítico, a metodologia, de cunho histórico-conceitual, consistirá basicamente na leitura dos textos referentes ao objeto de estudo e em um exercício de interpretação destes textos, desde a crítica imanente. Tal estudo se fará acompanhar de um levantamento bibliográfico mais acurado sobre comentadores, bem como de leituras de artigos e de livros de reconhecidos especialistas e comentadores nacionais e internacionais sobre a temática. Resultados parciais e discussão Os resultados obtidos até o presente momento, alguns deles já aceitos para publicação, como é o caso do artigo "Conformar-se à vida real”: sobre o(s) sentido(s) do conceito de formação em Adorno" - a ser publicado na Revista Educação: Teoria e Prática, da UNESP - Rio Claro - reforça nossa hipótese segundo à qual a filosofia do Adorno nos oferece ferramentas importantes para pensar a relação entre educação e autoritarismo, explorando como a formação cultural e os processos educativos podem contribuir para a perpetuação ou a resistência a ideologias autoritárias. Nesse sentido, as análises adornianas, continuam relevantes para a educação contemporânea, especialmente em tempos de polarização política e ascensão de movimentos autoritários. Suas ideias nos lembram da importância de: 1. promover o pensamento crítico e a autonomia dos estudantes; 2. cultivar a tolerância e o respeito à diversidade; 3. combater a manipulação e a desinformação; e 4. defender uma educação que promova a emancipação e a justiça social. Considerações finais Diante da barbárie e das tendências sociais que ainda podem produzi-la, é preciso opor-se a ela por meio de uma educação ‘desde’ e ‘para’ a resistência. Uma educação que não torne as pessoas indiferentes em relação ao que acontece com todas as outras, ou seja, que não os tratem como meras coisas, mas como seres humanos. Theodor W. Adorno é categórico ao apontar a primeira reivindicação de toda educação: que uma das maiores barbaridades da história – onde milhões de pessoas foram sistematicamente exterminadas – não se repita. A urgência dessa demanda não se dá apenas pela potencialidade de tal perigo mas, justamente, pelo fato de que Auschwitz já aconteceu, e mais, o ser humano demonstrou que é capaz de agir com extrema violência. Essa reivindicação ganha mais força se reconhecermos que a essência dessa barbárie se repetiu, várias vezes, na história posterior – e nunca esteve tão próxima de nós. A monstruosidade das atrocidades de Auschwitz não penetrou suficientemente nos homens. Isso significa dizer que ainda não há consciência suficiente sobre o que aconteceu e sobre as condições que o tornaram possível. Pensar neles é essencial na medida em que a possibilidade da barbárie persiste enquanto essas condições persistirem. Uma educação que desnaturalize a violência, a opressão e a frieza, que não resulte apenas em uma fábrica de corpos dóceis, é urgente nestes tempos de pleno império das lógicas da eficiência e da utilidade. Pensar, portanto, em um outro modelo de racionalidade que tome por base o que de fato nos constitui, i.e., os afetos. Educar para uma afetividade que rejeite a barbárie. Trata-se da capacidade afetiva de se opor à atrocidade para não cair numa apatia ou indiferença cúmplice que está pronta para contemplar o horror e se omitir no momento decisivo. Na impossibilidade, quiçá efetiva, da autonomia e da emancipação, não podemos recuar ao debate e à reflexão sobre suas causas. Inovar talvez seja, também, dar um passo atrás (ao passado), entender o aqui-e-agora (o presente), na tentativa de construir outro mundo (o futuro) possível. Esta tarefa a educação não pode se furtar a fazer. Referências ADORNO, Theodor W. Educação e Emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995 ADORNO, Theodor W. Estudos sobre a personalidade autoritária. São Paulo: Ed. UNESP, 2019a ADORNO, Theodor W. Aspekte des neuen Rechtsradikalismus: Ein Vortrag. Suhrkamp Verlag, Berlin 2019b ADORNO, Theodor W; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985 ADORNO, Theodor W. Ästhetische Theorie. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1970b ADORNO, Theodor W. Dialética negativa. Rio de Janeiro: Zahar, 2009 ADORNO, Theodor W. Theorie der halbbildung. In: ADORNO, Theodor. Soziologische Schriften I. Band 8. Gesammelte Schriften, vol. 8. Frankfurt a. M.: Suhrkamp, 1959, p. 93-122 DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016