NASALIDADE VOCÁLICA: ALGUMAS SOLUÇÕES DAS CRIANÇAS PARA REPRESENTAR ESSA PARTICULARIDADE DO PB

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Resumo
NASALIDADE VOCÁLICA: ALGUMAS SOLUÇÕES DAS CRIANÇAS PARA REPRESENTAR ESSA PARTICULARIDADE DO PB A pesquisa exploratória “Os desafios impostos pela nasalidade vocalidade no processo de apropriação da escrita no Português Brasileiro”, buscou compreender como crianças que já fonetizam a escrita compreendem e resolvem desafios ao escrever palavras com vogais nasais e nasalizadas no Português Brasileiro (PB). E como objetivos específicos: 1) analisar as soluções originais das crianças para escrever palavras com vogais nasais e nasalizadas quando ainda não o fazem na correspondência termo a termo; 2) analisar compreensivamente possíveis conflitos enfrentados pelas crianças diante da produção de palavras com vogais nasais ou nasalizadas e sua relação com seus níveis conceituais de escrita; 3) ampliar as discussões sobre as particularidades do processo de construção da escrita no português brasileiro a partir do marco construtivista psicogenético. Ter essa compreensão poderá proporcionar grandes reflexões acerca de como se aprende a ler e a escrever e ainda fazer um destaque substancial numa particularidade importante da língua Portuguesa Brasileira. A investigação relacionou-se com as contribuições das pesquisas psicolinguísticas sobre a construção da escrita, realizadas por Ferreiro e Teberosky (1985) na língua espanhola e por Ferreiro e Zen (2022) com crianças brasileiras. E é um desdobramento dessa última, intitulada “Peculiaridades da Aquisição da Escrita na Língua Portuguesa”. Esse estudo longitudinal realizado pela Profª Dr.ª Giovana Cristina Zen, da Universidade Federal da Bahia sob a orientação da Profª Dr.ª Emilia Ferreiro, do Departamento de Investigações Educativas do Centro de Investigação e Estudos Avançados do Instituto Politécnico Nacional do México (CINVESTAV/México), em 2019, tinha como identificar as particularidades do processo de construção da escrita em crianças falantes da Língua Portuguesa, a partir das referências epistêmicas propostas por Ferreiro. Antes das pesquisas de Emília Ferreiro e Ana Teberosky (1985), era comum o uso de métodos experimentais controlados, focados em medir desempenho em testes padronizados. Elas romperam com essa abordagem ao desafiar as crianças a ler e escrever palavras ou frases que ainda não haviam sido ensinadas. Fazendo com que as crianças pudessem expressar seu pensamento possibilitando que explicitassem sua compreensão sobre o objeto escrito e interpretassem sua produção. Além disso, para as investigações psicogenéticas, o sujeito não é um mero receptor de informações, mas um agente ativo que formula hipóteses, experimenta, constrói e reconstrói seu conhecimento. Nesta investigação a escrita é compreendida como um sistema de representação e não como um código de transcrição da língua. Ou seja, as unidades sonoras não se convertem em unidades gráficas; é necessário considerar o signo sonoro, o significado e o signo linguístico, entendendo, por exemplo, porque alguns elementos essenciais da língua oral não podem ser conservados na escrita, entre outros. Considerando a perspectiva construtivista, em que esse estudo se fundamenta, psicogenética, a escrita não é um conjunto de unidades isoladas e não é um código que a criança decodifica. Para o processo de apropriação da escrita configura-se como um conjunto de marcas sobre uma superfície organizadas em um sistema relacionado com o sistema da língua. É um sistema de representação pois não há correspondência direta entre os elementos da escrita e elementos da fala. Assim, o estudo, que aqui será apresentado, tem como característica investigar os sentidos e os significados que a criança opera com esse objeto social (a escrita), buscando descobrir os caminhos de seus pensamentos por meio de suas explicações e constante intervenção do pesquisador. Ao planejar situações experimentais em que a criança ponha em evidência a escrita e a leitura do modo que a concebe exige um método adequado. Essa situação precisa permitir uma interação entre o sujeito e o objeto do conhecimento, cabendo ao entrevistador estabelecer um diálogo com a criança de modo a tentar compreender os mecanismo de seu pensamento. O interesse em saber mais sobre a sensibilidade das crianças que já fonetizam pelas vogais nasais e nasalizadas nasceu de destaques importantes apresentados nos dados da pesquisa de Ferreiro e Zen (2022). Ao analisar o uso de vogais nasais e nasalizadas, as investigadoras constataram que as crianças não se restringiam ao uso do til (~) ou de consoantes nasais como soluções para representá-las. Entretanto, é importante sinalizar que na Língua Portuguesa existem dois tipos de nasalidade linguística: a nasalidade fonológica que ocorre como um traço distintivo que pode alterar o significado da palavra (nível abstrato da organização dos fonemas) e a nasalidade fonética que se refere à característica física da produção de sons nasais e nasalizados, em que o fluxo de ar passa pela cavidade nasal devido à abaixamento do véu palatino. METODOLOGIA Ao investigar o que pensam crianças quando produzem e interpretam sua escrita é fundamental que a proposta possibilite ao investigador descobrir as hipóteses que elas põem em jogo por meio de um diálogo inteligente, visto que a criança nessa situação atua ativamente. Esse processo de interrogação (interação) e sua flexibilidade, segundo Ferreiro e Teberosky, possibilita o surgimento de respostas com muita originalidade por parte das crianças. O caminho metodológico caracterizado neste estudo busca atender ao objetivo principal que é investigar o que pensam as crianças, em processo de aquisição da língua escrita, quando precisam registrar palavras com vogais nasais ou nasalizadas. E método clínico-crítico, com suas entrevistas verbais semiestruturadas, bem se ajusta a esse percurso levando em conta que sua principal característica é a intervenção do pesquisador de forma sistemática diante da atuação e respostas do sujeito. Para tal, é de suma importância a interação entre o sujeito e o objeto do conhecimento. ANÁLISE E DISCUSSÃO DE RESULTADOS Os dados analisados nessa pesquisa exploratória apresentaram importantes reflexões sobre como a criança conceitualiza e reconceitualiza o objeto reorganizando seus sistemas de ideias para a compreensão cada vez mais consistente “sobre a natureza do objeto social que o sistema de escrita é.” (Ferreiro, 1995, p. 23). Nas entrevistas individuais foi solicitado que escrevessem nomes de brinquedos e brincadeiras sendo que três formados por mais de uma palavra, uma polissílaba, quatro trissílabas e duas dissílabas. Além dessa categorização, as palavras com traços nasais se classificavam em paroxítonas (6 palavras) e oxítonas (4 palavras). Não havia nenhuma proparoxítona na lista. Em relação à tonicidade, o segmento nasal apresentou-se em 50% das palavras ditadas: esconde, ciranda e amarelinha (paroxítonas), patins e pião (oxítonas). Em 30%, o segmento nasal posicionou-se nas sílabas pré-tônicas, como em cantiga, empinar e fantoche e 20% onde a sílaba nasal posiciona-se afastada da sílaba tônica: bambolê e dominó. Não ocorreu nessa lista nenhuma palavra com traço nasal posicionada na sílaba pós-tônica. Das soluções encontradas nesta pelas crianças para registrar a nasalidade vocálica no PB destaca-se os mais recorrentes: O uso do ão: no PB o ditongo nasal é muito representativo, principalmente em final de palavras. É provável que em função disso as crianças o reconheçam e faça uso em suas escritas quando precisam escrever palavras com sons nasais mesmo quando suas hipóteses sejam desviantes em relação à escrita convencional, como em CÃOTIGA DI RODA. Anerson (6a7m) Entrevistadora: Somente nessa palavra você colocou isso aqui, por quê? Anerson: Porque é ‘ão’. Entrevistadora: E pião termina com essa letra? (apontando para o N em [PIÃON]) Anerson: Sim. É ‘pi-ão-o’ (soletra prolongando a letra /o/) O uso da letra /o/: para resolver o problema de como produzir na escrita o som nasal, algumas crianças recorreram ao uso de letras não pertinentes e observou-se na análise dos dados a recorrência do uso dessa letra. Interessante observar que a letra /o/ foi utilizada em todos os casos para substituir a vogal nasal /ã/ quando formada em uma estrutura silábica CVC, com a consoante em posição coda. Houve apenas um caso do uso do /o/ para representar o ditongo nasal. O uso do /o/ para marcar a nasalidade Anerson (6a7m) Arthur (6a4m) Maysa (6a8m) Miguel P. (6a5m) Safira (6a9m) Sara (6a5m) COTIGA FODI BOBOLE BONBOL/PIONO FOTAX CILODA cantiga fantoche bambolê bambolê/pião fantoche ciranda *Fonte: Elaborado pela autora A pesquisa encontrou outros dados de relevância acerca da representação da nasalidade vocálica no PB por crianças em processo de apropriação da escrita tais como: casos de desordem que ocorreram quando as crianças precisaram escrever palavra com estrutura silábica VC; palavras formadas pela vogal nasal /a/ com a consoante em posição coda se constituíram como aquelas em que as crianças mais solicitaram para revisão; sensibilidade à nasalidade das crianças com escritas silábicas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABAURRE, M. B. M. (org.) Gramática do português culto falado no Brasil: vol. II: a construção fonológica da palavra. Contexto, 2013. P. 141-164. ARGUERO, C., D. La obra de Emilia Ferreiro. Una revolución conceptual sobre el lenguaje escrito. Lingüística Mexicana Nueva Época Vol. VI, Núm. 1. P. 195.Enero-Junio 2024. 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  • GT10 - Alfabetização, Leitura e Escrita