JOGOS CORPORAIS COMO UMA PRÁTICA DE CUIDADO DE SI Introdução Ao refletir sobre algumas propostas de jogos corporais experimentadas em um ciclo formativo denominado Corpo, Movimento e Criação, que é oferecido para docentes da Rede Municipal de Educação de Niterói, no Rio de Janeiro, propõe-se, neste trabalho, a análise desses jogos a partir do conceito de cuidado de si (Foucault, 2006), através de um levantamento bibliográfico sobre os termos abordados. O ciclo formativo citado ocorre desde 2018 e tem como um dos objetivos sensibilizar o olhar dos docentes participantes para o corpo. No ciclo formativo propõe-se a experimentação de alguns jogos corporais, e depois uma reunião no formato de roda de conversa para compartilhar os sentidos produzidos, através de narrativas. Não é o objetivo deste trabalho desenvolver análise sobre o ciclo formativo, mas potencializar as reflexões sobre os jogos corporais, a partir da defesa de que tais jogos se caracterizam como uma prática de cuidado de si (Foucault, 2006). Uma das pensadoras do Jogo Corporal é Angel Vianna[1], mas, a concepção da artista é conceituada e teorizada por Ramos (2007). Trata-se de uma etapa das práticas corporais que traz a sugestão de um jogo com o corpo, não no sentido de competir, mas de dispensar o máximo de atenção na entrega aos movimentos. Os jogos corporais possuem temáticas diversas, como temas geradores dos movimentos que podem surgir no planejamento da aula ou como improvisação no momento em que se dá a movimentação. Pode acontecer na relação consigo mesmo, com objetos e com o outro (duplas, trios, grupos). O cuidado de si (Foucault, 2006) é uma forma do sujeito, através do conhecimento de si, da experiência em suas singularidades e da noção dos seus desejos, potencializar-se, afirmar-se e criar resistência a estrutura que coloca o indivíduo em conflito consigo mesmo. Os jogos corporais podem se caracterizar como um dos modos do sujeito conscientizar-se de si mesmo e, através da experimentação dos próprios movimentos, libertar-se e lutar contra um discurso que tenta regular os movimentos. As características dos jogos corporais proporcionam argumentos para a defesa de que eles se apresentam como uma proposta potente para o trabalho com o corpo na educação. Tais jogos promovem a produção do cuidado (consigo e com o outro), os encontros e a percepção de outras potências de vida. Tudo isso incide diretamente nos processos de subjetivação. Defende-se, portanto, que os jogos corporais são práticas que promovem o cuidado de si, tal como o cuidado de si é definido por Foucault (2006). Jogos corporais e cuidado de si Nas práticas de si, o sujeito estabelece uma intensidade de relações para consigo mesmo, tomando-se como objeto de conhecimento e ação, não rejeitando seus desejos, vontades e comportamentos, mas identificando-os, capturando-os, refletindo nas suas singularidades e em como esses processos caracterizam a si como sujeito. No cuidado de si, dois outros eventos aparecem na relação do sujeito consigo: a experiência de si e a consciência de si. O sujeito se conscientiza de si em suas experiências de afecções com o mundo e com o outro, cuidando-se, compreendendo suas singularidades e valorizando-se (Foucault, 2004; 2006). Na experimentação dos jogos corporais, os corpos em estado de presença movimentam-se, produzem descobertas, criam, produzem conexões e recebem as implicações coletivas, na movimentação do pensamento sobre o que está sendo produzido com e a partir dos corpos. Os jogos corporais são uma prática de cuidado de si, pois neles os sujeitos experimentam a si mesmos através dos seus movimentos e produzem compreensões sobre as suas próprias produções corporais que os significam, podendo, através das suas reflexões, descobrirem outras compreensões a partir daquilo que já conhecem de si. E como podem ocorrer outras compreensões de si mesmos nos indivíduos que experimentam os jogos corporais? Os sujeitos criam formas de serem e estarem no mundo, para fugirem da norma que regula os seus movimentos e sobreviverem a ela. Essas formas de ser são complexas e coexistem paralelamente ao corpo organizado e habilitado à convivência de uma cultura, criada para que os sujeitos se relacionem a partir de regras que organizam determinado discurso. Em determinadas situações, espaços e tempos, é permitido a esse sujeito o escape ao regulamento, para que possa extravasar um modo de ser que está preso numa espécie de corpo que não pode aparecer na vida cotidiana. Muitas das vezes os sujeitos, com medo da reprovação, quase não expõem esses corpos, mas eles estão em seus movimentos, algumas vezes presos, mas em situações específicas podem ser liberados. Podemos relacionar os jogos corporais com o cultivo de si (Foucault 1985), numa perspectiva de que os modos nos quais o jogo[2] funciona na vida das pessoas e nas práticas culturais movimenta os sentidos dos sujeitos sobre si, sobre o outro e sobre o mundo. Os jogos corporais sugerem uma harmonização de si com o seu movimento e, assim, podem se caracterizar como uma prática de si. Nessa prática, sugere-se o cuidado de si (Foucault, 1985) dos sujeitos, pois nela afirma-se as muitas possibilidades do corpo criativo e inquietante, evidencia-se as diferenças nos movimentos e proporciona-se um espaço de potencialização das singularidades. Para Foucault (2009) o sujeito, em meio a suas práticas de cuidado de si, pode constituir-se como matéria principal da sua conduta moral, estabelecendo seus modos de sujeição às regras e reconhecendo-se na obrigação de colocá-las em prática. A elaboração do trabalho ético se efetua sobre o si mesmo, na direção de transformar o sujeito moral nos seus modos de ser, proporcionando-o a ocupação do seu lugar singular no conjunto de uma conduta, e apresentando uma subjetividade almejada ou próximo a ela, na relação com os elementos da cultura em que se está inserido. Essa constituição de si mesmo, numa atitude ética diante do código moral, é uma ação complexa, já que essas regras circulam de forma discursiva por meio de instituições (escolas, instituições religiosas, família). A constituição dos sujeitos se dá numa relação de sujeição e resistência a tais códigos. Desse modo, a relação com a moral também é atravessada pela orientação ética, tendo como elemento de dinamização as formas de subjetivação e as práticas de si. Nas práticas do cuidado de si, são elaborados exercícios de conversão do olhar para si mesmo e práticas que permitam a modificação de si ou a reorientação de condutas. Compreender a si mesmo está relacionado com o mergulho nas diferentes formas de si existentes em nós, no nosso corpo. Foucault (1985) aborda o si como o sendo as características individuais dos sujeitos, que é resultado da identidade que se constrói ao longo da vida. Vale destacar que essa identidade não é algo acabado, mas um processo que nunca termina. São processos que envolvem nossas identificações com o mundo e com as coisas que passam a fazer parte de nós, e que vão (trans)formando o que somos de forma contínua. Essa compreensão de si como um processo permanente é um cuidado dispensado naquilo que somos, pensamos, sentimos e como transformamos isso dia a dia. Nas práticas dos jogos corporais os participantes podem descobrir outras versões de si em seus movimentos. Tal ocorrência nos sugere a ideia de que os movimentos são parte do processo de identificação dos sujeitos. Expressar-se sobre si, pensar sobre nossas ações no mundo, entender nossas diferenças, movimentar-se; tudo isso faz parte da identificação pessoal dos sujeitos no mundo. O movimento faz parte dessa (re)criação de si, portanto, os jogos corporais podem ser caracterizados como práticas de si, pois eles possibilitam que os sujeitos entendam suas particularidades, seus contornos, suas (des)formas, nuances e tudo isso entra na dança do que somos, do que nos tornamos e retornamos, no complexo dos movimentos que nos fazem viver e experimentar o mundo, a nós mesmos e as relações que estabelecemos. No cuidado de si o corpo é um arcabouço para os processos de subjetivação, o lugar das experiências que favorecerão as experimentações. O cuidado de si é uma prática que perdura pela vida, sugerindo-se como algo que deve acompanhar o sujeito ao longo da sua existência. No movimento de conscientizar-se de si mesmo, o sujeito volta-se constantemente a si, movimentando suas características. Nesse sentido, retornar a si é reconhecer-se como alguém que precisa de autocuidado, de um olhar sensível para o corpo, com atitudes constantes sobre o próprio ser, mantendo a atenção para tudo o que se passa consigo e em sua volta. “O fim principal a ser proposto para si próprio deve ser buscado no próprio sujeito, na relação de si para consigo” (Foucault, 1985, p.69). Através das práticas de si os indivíduos tornam-se sujeitos, em processos e modos de subjetivação que os fazem criar suas formas de se relacionar com o mundo, identificando-se com as coisas que lhe são interessantes. Esse processo de subjetivação acontece no corpo e nas relações que se estabelecem por via dele. Destaca-se que tais processos nunca são acabados e os resultados são sempre provisórios, podendo as compreensões de si mudarem a qualquer momento. Nas propostas dos jogos corporais, é interessante a forma em que os sujeitos encontram suas singularidades nas diferentes figurações de corpos e movimentos colocadas e, nesse sentido, os jogos produzem uma reverberação no movimento de si. O cuidado de si possui essa perspectiva de fazer o indivíduo ocupar-se e preocupar-se consigo mesmo. O sujeito que se ocupa consigo intensifica suas relações individuais (de si para consigo), onde ele toma a si mesmo como objeto de conhecimento e ações, e através da relação consigo se transforma. O sujeito encontra sua singularidade através da valorização de si próprio e do conhecimento de si, que pode ser realizado através do próprio cuidado (Foucault, 2010a; 2010b). Os jogos corporais se configuram como uma prática de si, pois favorecem aos sujeitos esse mergulho em si mesmo. Tais jogos se apresentam como práticas que se voltam para o cuidado de si dos sujeitos participantes, favorecendo a constituição de tais indivíduos por eles próprios, a criação do seu próprio eu, buscando essa construção partindo de seus próprios movimentos, favorecendo a descoberta de suas características em suas expressões, no emergir dos sentidos. Considerações finais Os jogos corporais possibilitam aos sujeitos a descoberta de si e aprendizagens sobre o mundo, por meio de uma perspectiva de invenção e criação. Nessa direção, possibilita-se, também, através das descobertas de si que o jogo proporciona, a recriação pessoal, abrindo caminhos para que os sujeitos se abordem de variadas formas, que não estão comprometidas com o rigor de uma norma que, por vezes, coloca suas atitudes no lugar do certo ou errado. Nos jogos corporais existe uma possibilidade de reflexão a partir das ações que estão nos movimentos de si, que levam os sujeitos a pensarem criativamente nos seus modos de ser, desgarrados da regulação, possibilitando novas concepções sobre si e seus movimentos. Os jogos corporais se caracterizam como uma prática de cuidado de si, pois proporcionam aos sujeitos através da movimentação corporal, a reflexão sobre si, a desconstrução de sentidos fixados, a recomposição desses sentidos, e a partir daí a recriação pessoal. Recriando-se os indivíduos alcançam novas formas de experimentarem seus movimentos, abrindo novas possibilidades de vida. Nos jogos corporais os sujeitos podem passar por um processo de transformação, implicado nas afecções entre as características de si, as relações com o outro e com o mundo. Nesse conjunto de afetos, a experiência vivida possibilita uma abertura para processos estéticos de (re)conhecimento de si e afirmação da própria diferença no mundo, entendendo que o si mesmo está envolvido nos modos em que nos identificamos com as coisas, modos esses que estão sempre abertos a novas possibilidades. Referências FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade: o cuidado de si. Rio de Janeiro: Graal, 1985. FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade: o uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Graal, 2009. v. 2. FOUCAULT, Michel. A ética do cuidado de si como prática de liberdade. In: MOTTA, Manoel. Ética, Sexualidade e Política. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004. p. 264-287. FOUCAULT, Michel. Hermenêutica do sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 2006. FOUCAULT, Michel. O governo de si e dos outros. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2010a. FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 2010b. HUIZINGA, Johan. Homo Ludens. São Paulo: Editora Perspectiva, 1990. RAMOS, Enamar. Angel Vianna: a pedagoga do corpo. São Paulo: Summus, 2007. [1] Bailarina, coreógrafa, professora, doutora (título notório saber) e fundadora da Escola e Faculdade Angel Vianna (Rio de Janeiro), cujo espaço é pioneiro na formação em dança contemporânea e nas linguagens de consciência corporal. É uma pensadora do movimento no Brasil, reconhecida no mundo. Seus saberes sobre o movimento são escritos por seus alunos e seguidores e possui muitos registros em livros, artigos e documentários. [2] Para Huizinga (1990) o jogo é um instrumento de relação individual consigo mesmo e de relação com os outros. Ele ganha sentido quando inserido numa prática cultural e multiplica seus sentidos para os que o experimentam. Na relação favorecida pelo jogo, os sujeitos se conhecem melhor, produzem trocas de experiências, dialogam e confraternizam através desse instrumento lúdico e cultural. O jogo é um elemento das diversas culturas e produz significados múltiplos para a vida das pessoas, possibilitando a experiência e o conhecimento de si na relação com o objeto do jogo, com o outro e com o mundo.