Favoritar este trabalho
Como citar esse trabalho?
Resumo
No cenário global de agravamento das crises migratórias, este simpósio propõe discutir possibilidades teóricas, metodológicas e práticas de acolhimento e integração de crianças e adolescentes imigrantes e refugiados em escolas brasileiras. As participantes integram a Rede Internacional Infâncias Protagonistas: migração, arte e educação, sediada na Universidade de Brasília e presente em treze estados brasileiros e sete outros países (Portugal, Espanha, Moçambique, Colômbia, Venezuela, França e Estados Unidos). Os trabalhos que compõem o simpósio representam o caráter interdisciplinar da Rede e sua articulação entre pesquisas acadêmicas e propostas interculturais de ação educativa. Um diferencial da abordagem é o reconhecimento do papel das crianças e adolescentes nos processos migratórios, por meio da escuta de suas narrativas e da promoção de seus saberes a partir das linguagens artísticas. Uma das principais ações da rede é a formação continuada de professores, por meio de oficinas em parceria com profissionais da educação que atuam em diferentes regiões do país. A importância da abordagem interseccional na compreensão da trajetória escolar dos imigrantes na educação básica brasileira Com o aumento do fluxo migratório em idade escolar e a diversificação do perfil nacional no Brasil, muitos estudiosos têm se dedicado a estudar a educação de imigrantes no país. Hachem (2023) demonstrou em seu trabalho uma série de fatores que influenciam a trajetória escolar dos imigrantes e analisou a defasagem idade-série de diferentes nacionalidades. Baseando-se no trabalho da autora, esta apresentação trata da importância da abordagem interseccional (Crenshaw, 1991) na compreensão das trajetórias escolares, reconhecendo que para o contexto escolar brasileiro, assim como Sayad (1998) diagnosticou há algumas décadas no contexto migratório na França, também há a diferenciação entre imigrantes e estrangeiros, como demonstraram os índices de defasagem idade-série (Hachem, 2023). Portanto, para aprimorar a compreensão da educação de imigrantes, além de buscarmos analisar as questões relativas à origem nacional, é fundamental que marcadores interseccionais como raça, gênero e classe social, dentre outros, sejam levados em consideração em pesquisas quantitativas e qualitativas. Perspectivas teórico-metodológicas em pesquisas sobre crianças migrantes O horizonte teórico-metodológico da rede Infâncias protagonistas: migração, arte, educação se alinha aos estudos migratórios, aos estudos sociais da infância em sua dimensão crítica, e aos estudos das culturas infantis (Luttrell, 2020), com um caráter participativo, dialógico, interdisciplinar e intercultural. Enfatiza-se o protagonismo infantil, a escuta das crianças e a criação colaborativa. Faz parte desse horizonte o compromisso com os Direitos das Crianças à proteção, à provisão, à participação e à educação, entendendo educação e cuidado como indissociáveis. O potencial da arte, da ludicidade e das múltiplas linguagens volta-se à comunicação, ao acolhimento e à inclusão de crianças migrantes, em práticas artístico-pedagógicas que são ao mesmo tempo processo e produto, criação e reflexão (Hartmann; Castro, 2024; Girardello,2020 ), em uma perspectiva relacional em que adultos e crianças partilham ambientes de “arte em convívio”, sempre priorizando a autonomia criativa das crianças (Machado, 2023). Palhaços sem Fronteiras e a resistência alegre das crianças e jovens Compartilha-se experiências de acolhimento e integração de crianças e jovens, por meio das práticas artísticas e ações formativas realizadas pela organização não-governamental internacional de trabalho humanitário Palhaços Sem Fronteiras Brasil (Jesus, 2020). A entidade atua voluntariamente na promoção dos direitos humanos, realizando espetáculos circenses em contextos de imigração e refúgio, com o objetivo de favorecer o bem-estar psicossocial e contribuir para uma infância mais alegre, divertida e segura. Também desenvolve capacitações de multiplicadores, destinadas a agentes sociais, artistas e educadores. Ao oferecer ambientes e condições que estimulam o desenvolvimento, essas ações minimizam os efeitos negativos das circunstâncias desfavoráveis de tais contextos, contribuindo para a superação de situações-limites (Freire, 2001). Estratégias para apoio aos professores no acolhimento e inclusão das crianças migrantes transnacionais nas escolas brasileiras Um exemplo representativo das estratégias de acolhimento e inclusão de crianças migrantes é a criação do Atlas de Atividades para Promoção de Ambientes Interculturais e Acolhedores em Sala de Aula e do livro Eu sou daqui e de lá – Encontros Interculturais entre Estudantes Brasileiros e Migrantes na Escola. Eles surgem da necessidade de formar os professores para terem competência intercultural, além do fornecimento de suporte e condições para seu trabalho; e da urgência de criar ambientes escolares culturalmente sensíveis, com espaços de escuta ativa das crianças. Os materiais são produtos da tese de doutorado em psicossociologia Meu portuñol fala: sentidos produzidos por crianças e adolescentes migrantes latino-americanos nas escolas brasileiras (Aguiar, 2023), que compreende que há uma invisibilidade das crianças migrantes transnacionais, fruto do olhar adultocêntrico (Moscoso, 2008), refletida na falta de preparo das escolas brasileiras, bem como na escassez de políticas públicas. Referências: AGUIAR, Gabriela Azevedo de. Meu portuñol fala: sentidos produzidos por crianças e adolescentes migrantes latino-americanos nas escolas brasileiras. Tese (Doutorado em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social). Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2023. CRENSHAW, K.W. Mapping the margins: intersectionality, identity politics and violence against women of color, Stanford Law Review, 43, 1991, p. 1241-99. FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001. GIRARDELLO, Gilka. “Eu tenho uma coisa pra contar”: inspirações para a escuta das narrativas infantis. Revista da FUNDARTE, vol 42, 2020. HACHEM, Z. I. Fronteiras na educação: uma leitura sobre trajetória escolar de imigrantes internacionais no Brasil, a partir do conceito de distorção idade-série. Tese (doutorado), Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, 2023. HARTMANN, Luciana; CASTRO, Ana C. Sousa. Etnografia Performativa como metodologia de pesquisa em Artes Cênicas. Revista Aspas, v. 14, n. 1, 2024 JESUS, Jennifer Jacomini de. Cartilha: Palhaços Sem Fronteiras Brasil. Online: PSFB, 2020. LUTTRELL, Wendy: Children Framing Childhoods working-class kids’ visions of care. Bristol: Policy Press, 2020. MACHADO, Marina Marcondes: Para as crianças de agora: uma perspectiva artístico-existencial. São Paulo: Perspectiva, 2023. MOSCOSO, María Fernanda. (2008) Nuevos sujetos, nuevas voces: ¿hay lugar para el pensamiento infantil en los estudios transnacionales. In: SANTAMARÍA, Enrique (ed.). Retos epistemológicos de las migraciones transnacionales. Barcelona: Anthropos, 2008. SAYAD, A. A imigração ou os paradoxos da alteridade. São Paulo: Edusp, 1998.

Compartilhe suas ideias ou dúvidas com os autores!

Sabia que o maior estímulo no desenvolvimento científico e cultural é a curiosidade? Deixe seus questionamentos ou sugestões para o autor!

Faça login para interagir

Tem uma dúvida ou sugestão? Compartilhe seu feedback com os autores!

Eixo Temático
  • Arts, Learning and Education Research
Palavras-chave
Migração, Arte, Educação