Identidade, identitarismo e a educação como um processo

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Resumo
Identidade, identitarismo e a educação como um processo Introdução As discussões em torno das identidades sociais ganharam força e materialidade crescente desde os anos 60, com novas configurações: grupos subalternizados se posicionaram de forma cada vez maior e estabeleceram novos modos de fazer política. Com avanços e retrocessos, perpassando linhas sinuosas e muito longe de serem facilmente traçáveis, testemunhamos transformações cada vez mais visíveis. Essas agendas ganharam visibilidade ainda maior com as redes sociais (Mounk, 2024), onde eram discutidas de modo mais estridente e frequentemente segmentadas por nichos específicos. Embora essa agenda apresentasse diversas vertentes, ela de algum modo trazia uma “semelhança de família”, para usar a imagem de Witttgenstein (2005). Não apenas teoricamente, mas por uma prática que se reforçava. Por mais que envolvida em muitas divergências internas, poderíamos dizer que em grande medida ela avançava conjuntamente, com resultados palpáveis em diversos campos, muito embora, como cada vez mais denunciaram sobretudo pensadores marxistas, muito pouco no âmbito econômico (Fraser, 2018). Se ela avançou conjuntamente, também recebeu progressivo rechaço. Grupos de diversas vertentes começaram a criticar o que seriam “exageros” da agenda identitária, ou mais amplamente os problemas estruturais que ela suscitaria. Diversos aspectos compõem essa crítica (Ferreira, 2023), passando pelo suposto academicismo de sua terminologia, por suas contradições ou pelo separatismo que ela tende a provocar. O termo “identitarismo” (Risério, 2019) foi o mais utilizado no Brasil para realizar essa crítica. A hipótese desse trabalho é que tais proposições padecem quase sempre de uma discussão filosófica acerca das identidades sociais. Uma pergunta-chave seria: como compreender teoricamente que a discussão política em torno de identidades sociais subalternizadas leva, progressivamente, a uma discussão crítica como a do chamado “identitarismo”? Como pensar as bases desse fenômeno sem simplifica-lo, sem uma abordagem dicotômica que simplesmente se posicione em um dos lados sem perceber as suas nuances? E, finalmente: como pensar a abordagem desse fenômeno no âmbito da educação? Essa pesquisa articula uma visão filosófica sobre a questão da identidade social com algumas discussões no âmbito da teoria social acerca do identitarismo, tendo como pano de fundo a compreensão do capitalismo como um sistema social que serve de condição de possiblidade a essas manifestações (Fraser, 2024). Do ponto de vista filosófico, parte da perspectiva segundo a qual as identidades dos signos em geral são centrais para a constituição de sentido (Sombra, 2020). Elas, contudo, estão longe de se apresentar de modo fixo: as identidades se dão em processos constantes de identificação que se realizam sobretudo na prática de relações intersubjetivas, em meio a diversas dinâmicas de poder e de antagonismo. À medida que se consolidam em determinada comunidade social, configuram uma rede se sentidos (Sombra, 2020) mais ou menos estável que proporciona certa ambiência a essas comunidades, estruturando suas ações e modos de compreensão da realidade. A abordagem dos conceitos de rede de sentidos e antagonismo será articulada com Bernard Charlot (2007). Charlot (2007) propõe que a educação se dá em uma relação mediada por um desejo. O grande desafio é que os saberes se apresentam em geral sob a forma de “objetos” e enunciados descontextualizados dessa relação fundadora que os constituem. O trabalho tentará mostrar como a compreensão da identidade como um processo de identificação em relações antagônicas se articula com a visão de Charlot. Metodologia Metodologicamente, a pesquisa parte da definição filosófica do conceito de identidade como inserido em relações semânticas e pragmáticas que constituem uma rede de sentidos (Sombra, 2020). Frédéric Cosssutta (1994, p. 40) pensa a reflexão filosófica como de “reexame e redefinição do conceito”. E completa afirmando que por meio dessas operações (1994, p. 41) “unidades de sentido são fixadas, ligadas, hierarquizadas para constituir um universo autônomo de significação”. Mas o texto filosófico, para além da formulação conceitual, pode dialogar com seu espaço de referência (Cossutta, 1994), situações reais, exemplos, com as quais o conceito filosófico dialoga. Consideramos que, no caso da reflexão em torno da educação, a referência vai mais além. Ela pode ser a materialidade que justamente sustenta a discussão conceitual, dá-lhe o sentido último. É nesses termos que a discussão teórica sobre o conceito de identidade dialogará com certos casos exemplares da sua utilização e com a reação que nomeia as políticas identitárias como “identitarismo”. Apesar disso, a formulação geral ainda será de natureza conceitual, como se verá. Considerações em torno da identidade e do identitarismo A questão da identidade foi pensada filosoficamente ao menos desde o poema Da natureza, de Parmênides. Ao afirmar que “o mesmo é pensar e ser” (2002, B3) e “é necessário que o dizer e pensar que é sejam; pois podem ser, enquanto nada não é” (2002, B6), Parmênides iniciava uma problemática que foi reformulada por diversos filósofos, a começar pelos gregos que o seguiram (Santos, 2009). Com diversas interpretações diferentes, fica ressaltada nessa formulação o papel da identidade enquanto “o mesmo” como recurso fundamental contra a contradição do discurso, e sua relação com o pensar e o ser. Certamente não há predicação, ação, cognição ou mesmo valoração sem certa expectativa de identidade daquilo que está sendo predicado, tratado, inteligido ou valorado. Mas, para os nossos propósitos, a identificação não pode ser conhecida a priori. Em geral, ela é constituída na prática humana e pela prática humana. Como tal, precisa ser confirmada ou infirmada coletivamente no bojo dessa prática (Sombra, 2020). Assim sendo, convive com diversas relações antagônicas e de negociação. Nessa dimensão pragmática, o poder daqueles que negociam/antagonizam é fator primordial. Essa dimensão ganha particular relevância quando pensamos na identidade dos próprios sujeitos, e particularmente os sujeitos coletivos (Sombra, 2015). Também as suas identidades são constituídas na prática e negociadas em torno dela. As relações de poder, nesse caso, se inserem inclusive para a constituição das próprias identidades, bem como dos outros com os quais se lida. Em diversas situações, essa atribuição identitária ao outro se dá como uma forma de controle, particularmente por quem detém poder para tal. A identificação é acompanhada de uma série de atributos. Esses atributos são articulados com toda uma produção de sentidos, uma cosmovisão que sustenta a prática dominante, em geral a partir de certa “forma de universalidade” (Marx e Engels, 2007) que frequentemente invisibiliza e desidentifica o próprio dominador. Podemos associar essa forma social na modernidade ao capitalismo. Mas ela fica mais bem compreendida à luz do que Aníbal Quijano articulou (2014) como o casamento indissociável entre modernidade e colonialidade: um padrão mundial de poder que se consolidou com a emergência do capitalismo e articulou novas formas epistêmicas de compreensão da realidade (dualismo, relação sujeito-objeto, compreensão evolucionista do mundo social...), novas relações de produção (mercantilização, individualismo, concentração da propriedade privada, separação entre ambiente de produção e reprodução, ideal de crescimento etc.) e novas formas de identificação (hierarquizações étnico-raciais, novas concepções de gênero). Para que esse padrão se consolidasse, foi fundamental a articulação complexa entre esses elementos (Sombra, 2020). Se as relações de dominação frequentemente impuseram certas identificações-atributos, sempre houve reações a essa imposição. Em concomitância com as lutas político-sociais, sempre houve disputas de sentido. Em relação ao capitalismo, elas se deram por lutas dos trabalhadores e dos camponeses, de mulheres, de povos colonizados etc. Se tomarmos os anos 60 e 70 do século XX como marco, essas lutas ganham algumas dimensões novas. Diversos movimentos começaram a emergir para além de partidos organizados. Em alguns casos, como os movimentos feminista e gay (depois também o movimento negro), ampliando os limites da política e politizando a vida diária. Em muitas situações, tensionando mesmo os grupos organizados de esquerda (Eley, 2005). Os anos 80, por sua vez, começaram a consolidar o que se nomeou como avanço neoliberal em boa parte do mundo, com ataques coletivos à classe trabalhadora, redução de direitos, precarização da assistência social, fechamento de indústrias, privatizações e, em um sentido mais amplo, profunda transformação da subjetividade (Dardot e Laval, 2016). Vivíamos, assim, um paradoxo: os “novos movimentos sociais” alcançaram resultados importantes ao mesmo tempo que crescia o fosso da desigualdade. À medida que esses grupos consolidavam suas pautas, transformavam a própria linguagem, mas muito além dela: ao menos em alguns setores da sociedade, a própria prática da relação com grupos antes subalternizados ia se transformando. Esses avanços provocaram transformações à esquerda e à direita. À esquerda, houve progressiva incorporação de algumas dessas pautas identitárias, mas cada vez mais a partir de uma teoria que as articulasse, não meramente como um agregado que se interpusesse às formulações anteriores[1]. Ao mesmo tempo, se mantiveram reações que basicamente rejeitavam quase que na totalidade as transformações ocorridas (Risério, 2019), críticas liberais mais nuançadas que no entanto ainda preconizavam uma noção abstrata de universalidade (Mounk, 2024) ou mesmo críticas contundentes da esquerda à articulação entre política identitária/pensamento liberal/neoliberal (Fraser; 2018; Barros, 2024 ou Morais, 2018, por exemplo). Considerações finais Nesse momento, as disputas ainda são bastante acentuadas. Não é fácil qualquer síntese em uma temática que tem tantos desdobramentos. Mas algumas poucas sinalizações já podem ser feitas. Do ponto de vista filosófico, nos parece equivocada qualquer compreensão essencializadora das identidades que não perceba a complexa constituição que as forjam. Do outro lado, é igualmente deletéria certa percepção “pós-moderna” dessas identidades como meramente constituídas a partir do discurso ou da linguagem. Ao contrário, elas estão fincadas na materialidade da vida humana, em suas constantes disputas. Afirmar isso, naturalmente, não significa rejeitar o importante papel do discurso (Sombra, 2019). Essas representações filosóficas têm a sua contrapartida no âmbito da educação, se pensarmos com Charlot (2007) no papel das relações na constituição de um saber. Em uma análise mais aprofundada, as identidades devem ser apreendidas sobretudo como relações, mais do que como “objetos”. Essa afirmação aparentemente trivial aporta imensos desafios aos processos pedagógicos, pois temos uma tendência quase intuitiva de objetificar nosso ensino e nossa aprendizagem. Nesse sentido, por mais que saibamos conceitualmente que as identidades são constituídas socialmente, tendemos a abordá-las em sua fixidez objetal, o que nos remete a constantes dogmatismos. REFERÊNCIAS BARROS, Douglas. O que é identitarismo? São Paulo: Boitempo, 2024. CHARLOT, Bernard. Da relação com o saber: elementos para uma teoria. Porto Alegre: Artmed, 2007. COSSSUTTA, Frédéric. Elementos para a leitura dos textos filosóficos. Tradução de Angela de Noronha Begnami et al. São Paulo: Martins Fontes, 1994. DARDOT, Pirerre e LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. Tradução de Mariana Echalar. São Paulo: Boitempo, 2016. ELEY, Geoff. Forjando a democracia: a história da esquerda na Europa, 1850-2000. Tradução de Paulo Cézar Castanheira. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2005. FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. Tradução do coletivo Sycorax. São Paulo: Elefante, 2017. FERREIRA, Sérgio Rodrigo da Silva. “A questão identitária nas eleições municipais de 2020: uma genealogia do conceito de ‘identitarismo’ no Twitter”. Alceu, v. 23, n. 51, Rio de Janeiro, set/dez 2023. FOSTER, John Belamy. A ecologia de Marx: materialismo e natureza. 4ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005. FRASER, Nancy. “Do neoliberalismo progressista a Trump – e além”. Tradução de Paulo Neves. Política & Sociedade, vol. 17, n. 40, Set/Dez. de 2018. FRASER, Nancy. Capitalismo canibal: como nosso sistema está devorando a democracia, o cuidado e o planeta e o que podemos fazer a respeito disso. Tradução de Aline Scátola. São Paulo: Autonomia Literária, 2024. MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. Tradução de Rubens Enderle et al. São Paulo: Boitempo, 2007. MOORE, Jason. Capitalism and the web of life: ecology and the accumulation of capital. London/New York: Verso Books, 2015. MORAIS, Lays Bárbara Vieira. As aporias do lugar de fala: como a política identitária afetou a esquerda. Goiânia: UFG, 2018 [Dissertação de mestrado]. MOUNK, Yascha. A armadilha da identidade: uma história das ideias e do poder em nosso tempo. Tradução de Roger Trimer. São Paulo: Edições 70, 2024. PARMÊNIDES. Da Natureza. Tradução de José Gabriel Trindade Santos. São Paulo: Loyola, 2002. 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Marxism and the oppression of women: toward a unitary theory. Chicago: Haymarket, 2013. WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações filosóficas. Tradução de Marcos Montagnoli. Petrópolis: Vozes, 2005. [1] As referências são inúmeras. Podemos citar, a título de exemplo, Fraser, 2024; Quijano, 2014; Federici, 2017; Robinson, 2023; Vogel, 2013; Foster, 2005; Moore, 2015.

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