FOLHINHA ECLESIÁSTICA DE MARIANA: O IMPRESSO, OS LEITORES E SEUS MODOS DE APROPRIAÇÃO Esta pesquisa, ainda em andamento, tem como objetivo descrever analiticamente um impresso católico- Folhinha Eclesiástica de Mariana- popularmente conhecida como Folhinha de Mariana, de um ponto de vista editorial, visando recuperar leitores pretendidos e suas diferentes apropriações, a relação entre formato e usos, o conteúdo e as práticas de leitura. Do ponto de vista teórico e metodológico, fundamentamos a investigação nos estudos da história cultural, da história do livro e da leitura e das discussões de impressos de grande circulação e literatura popular. Destacam-se ainda os trabalhos da História Oral com os sujeitos participantes. A História Cultural, fonte para análise do impresso Folhinha Mariana tem permitido a compreensão do impresso de dois modos diferentes, como fonte histórica o que possibilita entender a história da leitura e dos leitores em determinados períodos históricos e contextos culturais, e, como objeto físico, no sentido de compreender e descrever o surgimento, a propagação e a permanência deste objeto, as estratégias e regras de fabricação e publicação, a materialidade envolvida, rede editorial, assim como seu formato, estrutura, recursos e técnicas gráficas utilizadas, dentre outras. Analisar os impressos com vistas a compreender os leitores também implica tensões e problemas metodológicos. O conceito de apropriação de Chartier (1988) permite uma mirada para o modo com o leitor recebe e usa os textos, porém há, nesta apropriação, uma tensão operatória, pois segundo o autor é necessário chegar ao ponto de equilíbrio dessa tensão: de um lado a crença de que o texto forma o leitor e de outro lado, a liberdade total do leitor de criar sentido no texto. Assim, para o autor, a apropriação que implica que o leitor se encontra numa liberdade condicionada aos artefatos do texto. Outra questão importante que problematizaremos na análise do impresso e sua apropriação é a relação da Folhinha de Mariana com o que se caracteriza como literatura popular e/ou literatura de grande circulação. Popular é a forma do impresso? Popular é o leitor? Popular é o conhecimento que se pretende ser popularizado? Popular está relacionado à ampla circulação? O popular está no preço acessível? Nesta perspectiva e analisando a história da edição francesa, Mollier (2008) destaca, por exemplo, que na segunda metade do século XVIII, os impressores, livreiros e editores se veem motivados a procurar “uma otimização do lucro” (p. 23), buscando assim ampliar as possibilidades de acesso dos leitores ao objeto desejado. Tendo em vista diferentes acepções do conceito de popular, nesta pesquisa considera-se o popular no sentido de impressos de grande circulação e permanência e que são capazes de atingir diferentes públicos, gostos e bolsos. Para descrever o impresso por nós investigado, vejamos sua definição no Dicionário da Religiosidade Popular – Cultura e Religião no Brasil, num verbete escrito por Francisco Van derem Poel (Frei Chico) em 2013: A Folhinha de Mariana, “Em formato de uma grande página de jornal, está folhinha é publicada anualmente em Mariana (MG) desde 1872, com tiragem de 500 mil exemplares. É famosa pela previsão do temp. Contém os 12 meses do ano com os santos de cada dia, conselhos para a lavoura, fases da lua e algumas leis eclesiásticas. Na sua confecção são usados os prognósticos do antigo Lunário Perpétuo. Desde 1959 os direitos autorais pertencem à arquidiocese de Mariana. É exemplo de uma folhinha que não separa vida e religião”. (grifos do autor). A expressão de que a folhinha não separa a vida e religião, refere-se ao fato de o impresso conter informações de cunho religioso, bem como informações que se relacionam a aspectos da vida civil, administrativa e social. Parte da Folhinha de Mariana dialoga com uma tendência editorial que se encontra nos almanaques, calendários e outras folhinhas – por exemplo, as Folhinhas de Algibeira (PEREIRA, 2019) que circularam em diferentes épocas e países, cujas características simbólicas e materiais se assemelham, sendo um tipo de material que supõe apropriação diversa pelo leitor, especialmente pela miscelânea de assuntos e signos (verbal, visual, cinético) cuja integração desperta multiplicidades de significados no momento da leitura. A Folhinha Eclesiástica de Mariana – popularmente conhecida como Folhinha de Mariana, começou a ser escrita em 1870 e foi fundada por Dom Silvério Gomes Pimenta (1840-1922), com o objetivo de suceder antigos calendários que para os religiosos era um tanto “licenciosos” (Cônego José Geraldo Vidigal, 2017), ou seja, que apresentavam informações que se afastavam da moral e dos ensinamentos cristãos. Publicada há mais de 130 anos, é um calendário em formato de duas folhas de frente única – com tipo de papel jornal em preto e branco. Há mais de cento e trinta décadas, a Folhinha de Mariana é publicada uma vez ao ano e oferece em suas páginas orações, instruções religiosas, tabelas do amanhecer e do anoitecer, das festas móveis, dos feriados, épocas de plantio, resoluções da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), dados biográficos do Santo Padre e a Bula Papal, além de reservar um espaço de 11x15 centímetros para a propaganda das casas comerciais que adquirem anualmente este calendário e o distribuem como “cortesia” aos fregueses. A partir da entrevista com leitores ou filhos de leitores para compreender a alfabetização no espaço doméstico (PEREIRA, 2013) e de outros dados colhidos em memórias de professoras sobre materiais lidos em casa, a pesquisa tem evidenciado, além dos usos pretendidos, algumas funções relacionados aos aprendizados da leitura e da escrita, com utilização de momentos específicos ao longo do dia para ler e escrever o nome do santo do dia, a fase da lua e alguma informação sobre plantio em cadernos, para depois ser corrigido pela mãe ou a irmã mais velha Ao analisar o conteúdo da Folhinha de Mariana e os seus recursos gráficos e materiais, estima-se que o impresso pretendia/pretende atingir um público leitor religioso, um leitor católico, quando apresenta os códigos da igreja católica, com as normas, deveres e direitos dos fiéis, ou mesmo informações bem próprias do mundo católico, com as resoluções das conferências católicas. Por outro lado, a folhinha pretendia atingir também um leitor do campoque precisasse ter informações sobre o regulamento do tempo, sobre as épocas de plantio. Certamente o perfil e a quantidade da população que habita a zona rural mudou radicalmente, desde que a folhinha teve sua primeira publicação mas destaca-se que, com a tradição que foi se estabelecendo em torno do papel desse impresso, possivelmente há leitores que não são nem católicos, nem homens que trabalham com agricultura, mas que simplesmente acreditam na precisão da folhinha com a previsão do tempo. Até atualidade, sabe-se de leitores que gostam ter as Folhinhas pregadas atrás das portas para consultas rápidas sobre o tempo ou até mesmo leitores que a usam como um enfeite embaixo de algumas latas. (Conversas informais nas ruas de Mariana). Sua materialidade é bem simples: seu papel é de baixa gramatura e, ao folheá-lo, é facilmente possível rasgar, ao mesmo tempo em que as sombras das letras aparecem na outra página. Essas características materiais fazem com que seu preço seja menor, ela custa, 1,20 reais a unidade (dados da Editora Dom Viçoso) isso pode nos remeter a problematizar sobre um leitor pretendido, um leitor das classes populares, mas também pode ter ajudado a manter a perenidade da circulação pelo baixo preço. Considerando o tempo de sua edição, a Folhinha Mariana até o século XXI, constata-se sua grande permanência. No entanto, em entrevista com gerente da editora Dom Viçoso, editora responsável por editar a folhinha, concedida em 2017, sua tiragem é bem mais baixa: 180 mil exemplares. Dessa forma, podem ter sido arrefecidos seus usos e as funções estimadas para sua leitura, ou mesmo algumas das crenças que subsidiaram seu consumo, mas ainda é expressiva sua tiragem. Ao adotar a ideia de que o popular se refere a uma literatura de circulação mais ampla (ANDRIES, 1996a) os dados permitem dizer que as Folhinhas almejaram e almejam essa circulação. Assim, seja pela pretensão de que atinja um universo muito grande de leitores que é evidenciado no verbete, seja pelo formato, seja pela real possibilidade de compra e circulação, o material investigado dialoga com outros que são designados como populares e mostra a força de sua permanência até os dias atuais. REFERÊNCIAS ANDRIES, Lise. Les livres de savoir pratique dans la France des XVII et XVIII siècles. In: CHARTIER, Roger et LUSEBRINK, Hans-Jurgen. Colportage et Lecture populaire: imprimés de large circulation en Europe XVI-XIX siècles. Imec Éditions. 1996a. CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Trad. Maria Manuela Galhardo. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1988. CHARTIER, Roger. As revoluções da leitura no ocidente. In: ABREU, Márcia. Leitura, história e história da leitura. São Paulo: FAPESP, 1999. MOLLIER, Jean-Yves. A leitura e seu público no mundo contemporâneo: ensaios sobre História Cultural. Tradução de Elisa Nazarian. Belo Horizonte: Autêntica, 2008. PEREIRA, A.P.P. Memórias de alfabetização no espaço doméstico: mobilizações e estratégias familiares em torno do ensino-aprendizagem da leitura e da escrita. Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2013. __________________. Folhinhas de Algibeira do Século XIX: um Estudo da Forma, Função e Conteúdo. Tese. Doutorado em EDUCAÇÃO Instituição de Ensino: UNIVERSIDADE FEDERAL DE MINAS GERAIS, Belo Horizonte, 2019. POEL, Francisco Van der. Dicionário da religiosidade popular: cultura e religião no Brasil. Curitiba, PR: Nossa Cultura, 2013. 1150 p. ISBN 9788580661026 (enc.)