ENTRELAÇANDO PRÁTICAS PEDAGÓGICAS EM ESCOLAS DE SURDOS EM CONTEXTO DA PANDEMIA COVID-19 Introdução Pretendemos aqui trazer para a discussão inquietações que circularam em uma pesquisa que aconteceu no entrelaçar de temposespaços, e que aconteceu durante a suspensão das aulas presenciais, por conta de uma pandemia inesperada e que alterou as formas de serestar na escola. Nosso olhar se volta aos encontros com professoras/es de uma escola bilíngue de surdos, onde entrelaçamos experiencias de docência, coordenação e pesquisa. Nosso objetivo geral foi analisar as recriações nas práticas pedagógicas, em contexto de isolamento social na pandemia Covid-19 em uma escola bilíngue de surdos. Como objetivos específicos, procuramos: - entender como o contexto do isolamento social na pandemia Covid-19 impactou na organização do trabalho docente na escola bilíngue e - analisar o processo de discussão dos professores sobre a organização curricular da escola bilíngue num mundo pandêmico, que mobilizou o estudo e a reinvenção. Colocamo-nos como autoras do texto, mas com a contribuição de muitos, podendo considerá-los como interlocutores, autores dos campos dos estudos surdos, da formação e do trabalho docente, do currículo com aproximações aos estudos nosdoscom os cotidianos, para compreender a reorganização das práticas pedagógicas em um momento de isolamento social e de desafios de trabalho remoto. Pensamos a partir de uma perspectiva de um currículo construído a fim de transformar o ensino não somente uma mera adaptação das aulas presenciais, mas algo que englobe o conhecimento escolar, a cultura e valores, bem como os desafios linguísticos envolvidos na educação de estudantes surdos, privados naquele momento do contato com seus pares usuários da língua de sinais. Caminhos investigativos percorridos Talvez quem nos leia se indague o porquê de ainda trazermos para o debate experiências do período da pandemia da Covid19, afinal, já se passaram alguns anos, e outras tantas demandas e experiências emergiram nos temposespaços escolares. Entendemos que muitas foram e são as marcas que continuam nos atravessando, com dores, perdas, mas também de aprendizagens que nos indicam a força emanada das conversas - das trocas e dos apoios mútuos. Ressalta-se que, anos depois, fomos acometidas pelas enchentes no Rio Grande do Sul, quando nos vimos novamente diante de desafios em estabelecer a aproximação na distância, quando vários docentes e estudantes já não tinham mais a necessidade de ficar em casa, mas vivenciaram o não poder mais estar em casa, como também o desejo de estar numa escola onde não havia condições de acesso, e da qual não sabíamos o que encontrar no retorno. Como estabelecer aproximações no distanciamento; como criar formas de ensinaraprender que resgatem a potência do serestar juntos. São estas inquietações e as vivências nos cotidianos de estudantes e docentes em seus atos de criação que nos mobilizou. A dialogicidade foi o marcador do trabalho, pois é só com diálogo que conseguimos estabelecer uma relação que possibilite construir uma escola com currículo forte e que esteja próxima das necessidades e desejos dos educandos; é no ato do verouvirsentir a comunidade em que a escola está inserida, e respeitando suas diferenças que podemos construir uma escola que não oprima nem os educandos nem os educadores. É dessa forma que podemos fazer da escola um local de conhecimento e acolhimento, de busca pela equidade e liberdade de pensamento. Para responder aos objetivos específicos, utilizamos como base para uma contextualização do ambiente de trabalho pedagógico, observações e percepções nos encontros formativos com os professores, em formatos presencial e remoto, e das conversas nos grupos dos professores no Whatsapp, organizados e potencializados tão logo foram suspensas as atividades presenciais. Como fonte de material para análise, utilizamos um questionário estruturado, com respostas livres, enviado para os 19 professores da escola, através do Google Formulário. Esse instrumento foi escolhido justamente devido à nova dinâmica de encontros e de organização das atividades docentes, ou seja, foi uma das estratégias possíveis para potencializar a expressão dos professores. O questionário com os professores foi importante para a pesquisa, pois relatam as dúvidas, incertezas, medos e as práticas pedagógicas destes profissionais. Cabe ressaltar o comprometimento dos professores com a pesquisa, pois responderam quase que imediatamente ao questionário, com as seguintes questões: Como foi para ti a mudança de espaço nas relações pedagógicas? Quais foram os desafios que enfrentaste na preparação e aplicação das aulas? Como viste tuas aulas não somente ligadas à tua disciplina, mas pensando multisseriadamente e multidisciplinarmente? Como você entende que essas experiências do ano letivo de 2020 interferem na futura organização da escola bilíngue? Somado a este questionário, tivemos as discussões sobre a organização curricular da escola bilíngue durante as reuniões pedagógicas que ocorreram de forma remota, nas quais evidenciamos um processo de elaboração e reelaboração do projeto político pedagógico que percorre a história de cinco anos da escola, tensionado por aquele momento de atravessamento da Pandemia, que nos fez olhar o currículo e as práticas pedagógicas em uma perspectiva de séries multisseriadas e um currículo multidisciplinar, potencializado pelo trabalho colaborativo envolvendo os docentes. Análise e discussão de resultados Em uma primeira aproximação às respostas ao questionário, procuramos quais as palavras que mais apareciam quando professores contavam de suas experiências. As palavras tecnologia, desafios, família e pedagógicos apareciam sempre juntas no sentido que, ao mudar o local das aulas, esses três primeiros itens foram indicados como os principais obstáculos enfrentados e que influenciaram diretamente no fazer pedagógicos dos professores. Apesar dos professores citarem as palavras: adaptar, melhorar, ressignificar, contextualizar, reorganizar, planejar, eficiência, estratégias, citam apenas cinco vezes o currículo, mas ele é evidenciado, a todo o momento, quando se coloca o educando na centralidade do processo educativo, no planejamento das aulas, nas metodologias utilizadas, considerando não apenas os aspectos intelectuais, mas também os afetivos, corporais, simbólicos e éticos. Como nos indica Tomaz Tadeu da Silva (2010, p. 15) “O currículo é sempre o resultado de uma seleção” e José Sacristán (1998, p. 16) “o currículo é algo evidente e que está aí, não importa como o denominamos”, as respostas dos professores mostram esse currículo em movimento, que não se adapta em função da surdez, num movimento de diminuição ou simplificação, mas organizando esse documento de forma a suprir as necessidades biopsicossociais dos alunos e as mudanças do momento. Ao receber e ler as respostas dos professores ao questionário, as palavras escritas por eles, pareceu-nos quase um desabafo. A Pandemia da Covid-19 acentuou as desigualdades sociais, econômicas e os professores da escola, além de cumprirem com suas obrigações trabalhistas, ainda precisavam administrar suas vidas pessoais: companheiros perderam empregos, os filhos em casa, familiares doentes, precisaram também organizar espaços na casa, cuidar como produzir material, participar de reuniões, formações, ajudar aluno, muitas informações ao mesmo tempo, responder questões; ou seja, com tudo isso, reforçaram seu protagonismo aquele momento. Os desafios enfrentados pelos professores foram inúmeros, mas cada um, à sua maneira, foi construindo táticas e se reinventando pedagogicamente, desafiando-se, não deixando que os obstáculos determinassem suas práticas. Foram contornando as adversidades, uns com mais angústias, outros com mais facilidade e suas respostas mostram que ser professor não é uma tarefa fácil, mas, ao mesmo tempo, fica evidenciado o quanto a formação pedagógica é importante. O trabalho docente se concretiza na sua ação pedagógica, que, por sua vez, faz-se pela relação do contato direto com o aluno, que, nesse momento em que o contato presencial não era permitido, necessita reformular suas práticas. Diante disso, a tarefa fica mais difícil e exige que o professor esteja aberto e se reconstrua. Ao analisar as respostas à segunda pergunta – Como viste tuas aulas não somente ligadas à tua disciplina, mas pensando multisseriadamente e multidisciplinarmente?, que vai refletir sobre a organização da escola e do fazer pedagógico voltado às turmas multisseriadas e à interlocução de disciplinas com o trabalho multidisciplinar, alguns professores apresentaram mais dificuldades, enquanto outros já se mostraram mais confiantes. Ao trabalharem juntos, os professores puderam experienciar momentos de interação, não somente com seus alunos, mas também com seus pares. Contextualizar sua disciplina com o tema norteador da semana, como também com a disciplina do colega foi um desafio. Os relatos dos professores, protagonistas desse espaçotempo, mostram o quanto o cotidiano da escola foi modificado, atravessado pelas reuniões pedagógicas, pelas formações e principalmente pela união de um grupo de professores preocupados e engajados na educação de seus alunos. Mesmo em meio a uma Pandemia, permitiram-se reinventar, superar seus medos, problemas e dificuldades, que foram muito além da sua jornada de trabalho, sem folga, sem horários, prontos a participar desse processo educativo, focando nas habilidades e competências de cada aluno. Os alunos foram contemplados respeitando sua individualidade, como seres únicos. Os professores mostraram todo o comprometimento com a Educação de Surdos para que os alunos não perdessem o contato com a Libras e, sobretudo, não sobrecarregassem as famílias. Essa preocupação está baseada nos estudos sobre a Educação de Surdos, que ajudam a analisar que a Pandemia e o consequente isolamento social trouxeram uma perda significativa na aquisição linguística dos alunos, principalmente dos alunos menores, que estavam começando seu processo de alfabetização. Haja vista que a maioria dos alunos provém de famílias de ouvintes que pouco, ou quase nada, fazem uso da Libras em suas interações. Considerações finais Os cotidianos nas escolas trazem muitas surpresas, muitas vezes inimagináveis, pois as pessoas envolvidas constroem situações desconhecidas e imprevistas em busca de uma educação para todos. Como argumentam Alves e Garcia (2000, p. 8): “é preciso estar na escola: sentir o cheiro da escola, os movimentos, ouvir as professoras e os alunos, compartilhar de suas angústias e alegrias. Para isso, é preciso ter esse sentimento de mundo de que nos fala”. Nas respostas aos questionários e nas falas dos professores nas reuniões pedagógicas podemos evidenciar esse cotidiano escolar, mesmo naquele momento sem uma escola tradicionalmente conhecida. Ali percebia-se uma escola que atravessa seus muros e adentra no cotidiano dos alunos, dos professores e das famílias e, muitas vezes, mais próximas do que anteriormente, quando no formato presencial, dado o envolvimento com as angústias e dificuldades vivenciadas naquele momento. Ainda de acordo com Alves e Garcia (2000), “Muito se fala sobre escola, de fora da escola, de longe da escola, muitas vezes a partir de um absoluto desconhecimento em relação ao que acontece dentro da escola a cada dia” (Alves; Garcia, 2000, p. 12). Nossa motivação estava em estar junto, em construir uma experiência de partilha. Ressaltamos a importância dos relatos dos sentimentos e dos desabafos, estratégias e necessidades desses profissionais que fizeram da Pandemia um momento de estudo e de muita dedicação para com os educandos e suas famílias, mostrando todo o seu afeto e experiência na Educação de Surdos e se permitindo se reinventar, apesar de todas as adversidades impostas pela Pandemia e por falta ou desconhecimento das tecnologias que se fizeram imprescindíveis. Os desafios enfrentados pelos professores foram inúmeros, mas cada um, à sua maneira, foi construindo táticas e se reinventando pedagogicamente, desafiando-se, não deixando que os obstáculos determinassem suas práticas. Foram contornando as adversidades, uns com mais angústias, outros com mais facilidade e suas respostas mostram que ser professor não é uma tarefa fácil, mas, ao mesmo tempo, fica evidenciado o quanto a formação pedagógica é importante. O trabalho docente se concretiza na sua ação pedagógica, que, por sua vez, faz-se pela relação do contato direto com o aluno, que, nesse momento em que o contato não era permitido, reformula suas práticas. Diante disso, a tarefa fica mais difícil e exige que o professor esteja aberto e se reconstrua, a si e as suas práticas. Esta pesquisa não teve a pretensão de apontar sugestões ou soluções — até porque várias alternativas foram sendo experimentadas e compartilhadas no cotidiano vivido por muitos professores –, mas, que possa, em um futuro, servir de fonte de inspiração para ajudar a compreender como foi esse processo de mudanças nas relações escolares, que durou quase dois anos. REFERÊNCIAS ALVES, Nilda; GARCIA, Regina L (Orgs.). A invenção da escola a cada dia. Rio de Janeiro: DP&A, 2000. SACRISTÁN, José Gimeno. O currículo: os conteúdos do ensino ou uma análise prática. Compreender e transformar o ensino, v. 4, p. 119-148, 1998. SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. 3 Ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2010.