Entre pensamento e percepção: currículo

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Resumo
ENTRE PENSAMENTIO E PERCEPÇÃO: CURRÍCULO É a partir do entendimento de uma teorização curricular que faz de si campo experimental relacional numa abertura ao sensível e provocadas pelos escritos de Erin Manning (2016,2023,2024) e Alfred North Whitehead (1979, 2009) que propomos, neste trabalho, imaginar currículo como aquilo que acontece entre pensamento e percepção num friccionar entre inteligibilidade e ininteligibilidade. Esta abertura pretende deslocar a centralidade dada ao conhecimento na tradição curricular como aquilo que pode ser selecionado, organizado e quantificado (Macedo, 2012) numa aposta de que a força e a potencialidade do currículo está no encontro, está na sua “capacidade de mobilizar diferenças no acontecimento, capacidade de fazer sensível a força da forma que desfaz aquilo que [o] prende” (Manning, 2016, p.39) ao seu próprio nome, rasurando-o, transbordando-o. Sobre pensamento e percepção Segundo Whitehead (2009), todo pensamento, ao decorrer de uma percepção sensível é impulsionado por e traz a contragolpe “um elemento diverso do pensamento” (p.8) que o filósofo nomeia como “apreensão sensível” (p.8). A apreensão sensível, por sua vez, diz sobre uma espécie de afetação diante de, um arrebatamento singular no encontro com (que, como diria Manning (2023), é sempre um econtro-sem) aquilo do qual difere. De modo que as coisas sobre as quais o pensamento se debruça não são nunca tão simplesmente pensamento. Pensamento é diferente de e decorre de uma percepção sensível e percepção sensível carrega em si uma apreensão sensível das coisas daquilo do qual difere e que não passa pela racionalidade. Apesar de não passar pela racionalidade, contudo, aquilo apreendido sensivelmente afeta o mental, sendo também uma atividade mental, mas uma atividade que o provoca, funcionando como um “sentimento” (Whitehead, 1979) ou uma “compreensão em-direção-a pela qual a experiência se faz sensível” (Manning, 2016, p.24). De maneira que o discernimento de uma apreensão sensível é sempre a apreensão da apreensão sensível. Isso quer dizer que não é possível deter-se sobre uma apreensão sensível, fixá-la com vistas a estudá-la, mas é possível senti-la, afetar-se por ela na disjunção entre seu acontecimento, enquanto evento irrepetível e sua ausência em um outro evento e assim sucessivamente. De modo que toda apreensão sensível pressupõe a ocorrência de um evento e é um evento em si mesma. Raciocínio que leva Whitehead a afirmar que a distinção de um “evento é por nós discriminada em eventos parciais” (2009, p.20) e nunca em sua totalidade por mais que por ela, por sua totalidade - uma presentidade a si no momento que acontece -, sejamos arrebatados. Ou seja, aquilo que discernimos é parte - nunca o todo- relacional e a relacionar, singular e fugaz de um evento que se configura, consequentemente, também como evento irrepetível. Seu aparecer se dá como resolução momentânea de uma problemática entre o que acontece e não podemos plenamente traduzir mas afeta e aquilo que se discerne em relação ao acontecido. É, então, em face dessa complexidade perceptiva entre o que se discerne e o que se apreende sensivelmente, que Whitehead explica que há a possibilidade de pensar sobre as coisas sem pensar o pensamento enquanto as pensamos, o que ele chama de um pensar homogêneo, que - entendemos - acontece como um pensar estéril, imparcial, que observa de fora; e um pensar que pensa o pensamento conjuntamente com aquilo sobre o qual se dedica a pensar, que ele chama de um pensar heterogêneo - um pensar contaminado que acontece em relação, como relação. Assim, enquanto um pensar homogêneo omite da sua equação a apreensão sensível intrínseca ao seu próprio movimento ao tomar aquilo que já se conhece como parâmetro validativo na sua tomada de forma, na sua resolução; um pensar heterogêneo, por outro lado, engloba em seu movimento a apreensão sensível sem omiti-la, trazendo para frente a eventualidade intrínseca a sua resolução complexa, acontecendo sempre e de novo, nunca da mesma maneira, como experiência relacional e a relacionar. Se dando, portanto, sempre em movimento e como movimento entre o discernido e o a discernir num “locus” do ainda não, da força mais-que (Manning, 2024), da experiência enquanto aquilo que acontece e abraça a imprevisibilidade, o incognoscível, e cujo valor não preexiste à relação mesma que o faz emergir. Isto posto, é preciso notar que a separação daquilo que discernimos da complexidade mesma que a faz aparecer como uma espécie de resolução com vistas a fazer algum sentido, a um tomar forma, acontece em ambos tipos de pensamento, embora de maneiras diferentes. A essa resolução Whitehead (2009) chama abstração (que não é nada inofensiva e/ou imaterial uma vez que produz efeitos reais e in-forma eventos/tomadas de formas porvir). Uma etapa própria ao exercício de todo e qualquer pensamento que, contudo, quando tomada como entidade separada e imparcial, como acontece em um pensamento homogêneo, acaba por gerar uma bifurcação entre o que se entende por matéria (como aquilo que diz sobre o que se explora, conhece e pode ser medido, comprovado, analisado como coisa que está fora…) e sua percepção (como aquilo que engloba o que é desconhecido e não se pode explicar, mas atravessa e faz perceber/apreender, o que embaralha o entendimento, sonhos, sensações…) reduzindo pensamento, e consequentemente mundo, ao que é coerente em relação ao já conhecido e é possível reconhecer, à esfera humana. Bifurcação que é ela mesma, Whitehead (2009) alerta, uma abstração! Logo, é tão somente em meio a um pensamento heterogêneo, que não toma a abstração como unidade separada daquilo sobre o qual se debruça, mas sim como uma resolução complexa-entre, ambivalente e que não para, uma resolução polarizada contaminada e a contaminar, que é possível evitar essa bifurcação. Um pensar que toma a experiência perceptiva inerente ao seu acontecimento como experiência radical que co-materializa espaço e co-espacializa tempo no friccionar entre o atual e o virtual que constitui. “Um pensamento que define [portanto] suas próprias regras no movimento, que toca o domínio do absoluto movimento à medida que se co-compõem com o movimento atual” (Manning, 2024, p.40). O que pressupõe um abraço ao não saber, ao ainda não, numa ativação mesma do mais-que (2024) e não acontece de maneira linear nem ordenada, pulsando na batida rítmica e frenética do mundo. Entendendo sem entender numa experienciação mesma singular e implicada que “o mundo é um processo, e que processo é o tomar forma de ocasiões atuais” (Whitehead, 1979, p.22). Mas como fazer isso? Abraçando a ininteligibilidade Entre o atual, seu negativo e o ainda não: mais-que Se apreensão sensível é sempre uma apreensão de uma apreensão sensível, isso quer dizer que para que uma apreensão ganhe tônus é preciso que se diferencie daquilo que ela não é. “Para ganhar consistência é preciso eliminação. O que não se adequar à coloração dessa experiência singular é posto em pano de fundo para que a experiência venha a ser totalmente o que é.” (Manning, 2016, p.24). A tudo que não é passível de atualização e precisa ser excluído para que uma apreensão sensível ganhe tônus, Whitehead chama apreensão negativa (Whitehead, 1979). Mas, eliminação, Manning (2016) alerta, “é ainda participação” (Manning, 2016, p.24). Isso porque na sua negação ela acontece como uma espécie de sombra, como um pano de fundo da apreensão sensível que vem à tona. De modo que ela “não é atualizada no acontecimento, mas este não pode deixar de ser infundido naquela” (Manning, 2026, p.24). Assim, embora ininteligível, sentimos e somos afetados pela apreensão negativa na marca da sua ausência. Nas palavras de Whitehead, uma apreensão sensível “carrega em si as cicatrizes de sua emersão; [...] ela retém a impressão do que poderia ter sido, mas não é” (1979, p.). O que a torna, em vista disso, não só relevante para aquilo que emerge, mas visceral. É na impressão da sua falta, num encostar no que no perceptível é imperceptível, que se torna possível sentir o excesso da forma, a supersaturação. Disjunção entre supersaturação e exclusão é o que acusa diferença, produz diferença: o mais-que (Manning, 2024) da forma. É na potência desse mais-que que a forma, aquilo, isso, que emerge como apreensão sensível e/ou pensamento ganha força e se polariza mantendo-se em movimento. Assim, “para que haja movimento [...] é preciso recortar o movimento total em unidades supostamente mensuráveis, quebrar a duração que, de outra maneira, ocorreria sem qualquer obstáculo por todas as expressões do mundo”(Manning, 2024, p.39). É justamente nessa quebra que “novas durações criarão processos. Nunca [...] haverá o não movimento - mesmo naquilo que parece estar absolutamente parado, há uma quantidade de movimento-movente, a força da forma” (Manning, 2024, p.39). O que quer dizer que “não há ocasião a qual não traga para a frente, em algum nível, aquilo que estava no pano de fundo” (Manning, 2016, p.24) de maneira que polarizar é uma questão de contraste. É preciso lançar contraste sobre isso, sobre supersaturação e exclusão, para que se torne perceptível o imperceptível no perceptível de maneira a “criar as condições de um modo outro de percepção” (Manning, 2016, p.34). É por meio do contraste que aparecem outros modos de perceber e “Modos outros de perceber criam outros de viver” (Manning, 2016, p.34) perturbando tudo o que está, inclusive o momento mesmo, a própria ideia das coisas tais quais elas aparecem para nós. E o currículo nisso tudo? Partindo desse emaranhamento para pensar currículo, é possível, então, pensar que aquilo que emerge sob esse nome diz sobre uma complexidade radicalmente relacional que nunca se estabiliza e age como corte em múltiplas direções e tempos. E é o modo como esse corte se faz sensível, como a disjunção entre o que não se atualiza e sua supersaturação nesse acontecer corte curricular, que “cria campos de relação pelos quais novos modos [...] são inventados. Tais modos [...] [por sua vez] propõem novas maneiras de tomar o tempo, de fazer o tempo.” (Manning, 2016, p.39). O que “só acontece se o que vem em primeiro plano [...], não é o seu valor de troca” (p.39), na afirmação de que currículo como qualquer outra coisa “não tem valor inato” (p.39), não é, mas se dá tão somente em relação, como relação. Um deslocar que faz pensar que sua força está na “capacidade de mobilizar diferenças no acontecimento, capacidade de fazer sensível a força da forma que desfaz aquilo que [o] prende” (p.39) ao seu próprio nome, rasurando-o, transbordando-o. Currículo, qualquer ideia de currículo, só pode acontecer, então, com-sem o outro, um outro todo outro, um outro que ainda não foi inventado, porque ele mesmo - o currículo - nunca está pronto e não pode estar, porque só é na abertura radical à diferença, sendo ele diferença, transformação incessante em um emaranhamento complexo politemporal e polidirecional. Uma prática materializante, portanto, informe. Isso, entendendo que “Informe não é o que não tem forma, mas uma dinâmica que inventa e promove novas formas.” (Terra, 2023, p.137). Uma dinâmica que diz sobre “transbordamento por intensidade e superposição de elementos heterogêneos que intervém na criação de valor obrigando a inventar novas formas de atribuir valor.” (Terra, 2023, p.137). De maneira que o que aqui se defende não se trata de uma nova categoria, um novo nome, uma nova fronteira que possa ser fixada. Não. Antes, defende-se um deslocar de pensamento que corta este texto, a mim, você, aquilo que nos rodeia, currículo, como vir-a-ser no emaranhado relacional que envolve e cria-com que é um criar-sem, criar-diante-de, como fronteiras vivas, complexas, irregulares, que não se estabilizam nunca e não estão dadas antes das relações que as fazem emergir, configurar e reconfigurar. Aqui, currículo não pede licença e não tem ponto final, provoca, perturba, acontece estando/não estando, lá e cá, a todo instante, na interseção do invadir e ser invadido pelo desconhecido que afeta, transforma e faz movimentar quer queira ou não. Sua acontecimentalidade se dá, sempre e de novo, mas nunca da mesma maneira, como corte que ramifica e molda locais de vínculo que espaçotempomaterializam mundo em infinitas direções. Como “um trabalho de composição com a paisagem rumo às dobras da espaçotempomaterialização” (Terra, 2023, p.138), remetendo assim à “uma relacionalidade radical, ao inacabamento e indeterminação como condição da existência, um modo de vida estético pela explosão estelar selvagem de metamorfose.” (Terra, 2023, p.138). Desse modo, defendemos a aposta que se alicerça numa abertura radical a tudo/todos envolvidos em suas parcialidades e contigencialidades históricas na relação, no fazer-com, no friccionar materializante impossível de conter, prever ou projetar: um currículo que se dá na relação. Uma possibilidade - quem sabe? - de habitar a imensa confusão do vir a ser curricular - e em certa medida, escola e educação pelas frestas, nos vãos, sem objetificá-la ou reduzi-la a isto ou aquilo, ao que a priori deve ser conhecido ou ensinado, abrindo-a ao que não conhecemos, que invade, transforma e que por isso não podemos re-conhecer. REFERÊNCIAS MACEDO, Elizabeth. Currículo e conhecimento: aproximações entre educação e ensino. In: Cadernos de Pesquisa [Internet]. 2012. Dec;42(147):716–37. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0100-15742012000300004. Acesso em: 07 abr 2025. MANNING, Erin. Políticas do toque: sentidos, movimento e soberania. Tradução Bianca Scliar. São Paulo: GLAC edições, 2023. MANNING, Erin. Sempre Mais-que: a dança da individuação. Tradução Fran Trento. São Paulo: GLAC edições, 2024. MANNING, Erin. Por uma pragmática da inutilidade, ou o valor do inframince. Galaxia (São Paulo, Online), n.31, p.22-40, abr.2016. TERRA, Nathália. Quantizar os estudos em currículo: experimentações aberrantes. Tese (Doutorado em Educação) - Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2023. WHITEHEAD, Alfred North. O conceito de natureza. Tradução Júlio B. Fischer. São Paulo: Martins Fontes, 2009. WHITEHEAD, Alfred North. Process and reality. New York: The free press, 1979. * O presente trabalho foi realizado com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do nível Superior – Brasil (CAPES). Código de Financiamento 001.

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