Educação Matemática, Neoliberalismo e Modos de Ser Docente

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Resumo
EDUCAÇÃO MATEMÁTICA, NEOLIBERALISMO E MODOS DE SER DOCENTE O trabalho apresenta resultados de uma pesquisa desenvolvida a nível de doutorado que teve como objetivo problematizar os efeitos que as aulas geradas no Ensino Remoto Emergencial (ERE) operaram nas formas de ensinar Matemática nos Anos Iniciais da Educação Básica ao longo da pandemia de combate à COVID-19 (doença causada pelo vírus SARS-CoV-2). Em especial, neste trabalho o foco está em evidenciar os entrelaçamentos entre a Educação Matemática e a forma de vida neoliberal que se fizeram presentes nas docências engendradas na pandemia. Para isso, examinou-se enunciações de educadoras que lecionavam em escolas da rede privada de Porto Alegre/RS, naquele período. Os aportes teóricos são as teorizações vinculadas ao pensamento de Michel Foucault. O ERE foi uma modalidade de ensino utilizada de forma temporária pelas escolas durante os anos de 2020 e 2022, em que professores e alunos estavam geograficamente distanciados. Cada instituição organizou de modo diferente as formas de conduzir suas aulas, mas, de uma forma geral, as atividades eram postadas pelos docentes para que os estudantes as acessassem pelos ambientes virtuais. Segundo Saraiva, Traversini e Lockmann (2020), a implementação do ERE deu-se devido a um imperativo de continuidade das atividades escolares durante o período de crise, respondendo a uma demanda neoliberal. Investigar as docências em Matemática dos Anos Inicias do Ensino Fundamental durante o período da COVID-19 foi objeto de investigações como Castro (2021), Tarouco (2022) e Ribeiro (2023). Os estudos mostram que os professores repensaram e ressignificaram sua prática, fazendo uso de materiais didáticos para tornar o ensino mais significativo e prazeroso. Os dados indicam também a necessidade de formação continuada e momentos de aprendizagem de saberes matemáticos. Essa revisão nos fez encontrar aproximações entre nosso estudo e os acima destacados, mas mostrou que nenhum deles examinou os efeitos das docências dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental produzidas ao longo da pandemia utilizando-se da perspectiva foucaultiana, como nossa pesquisa. Aportes teóricos As bases teóricas que sustentaram a pesquisa emergem das reflexões de Michel Foucault, principalmente aquelas vinculadas ao neoliberalismo, compreendido como uma racionalidade, uma forma de vida. Na obra Nascimento da Biopolítica (1978-1979), a governamentalidade é tomada como liberalismo que atua por meio das práticas mercadológicas, conduzindo os corpos: “a razão econômica está não substituindo a razão de Estado, mas dando um novo conteúdo à razão de Estado e dando, por conseguinte, novas formas à racionalidade de Estado” (Foucault, 2008, p. 468). Segundo o autor, a partir do início do século XX, o neoliberalismo encontra condições de possibilidade de existência, mobilizando outras formas de condução das populações e também o governo de si. Pensando no lócus da pesquisa, podemos nos perguntar o quanto professores e estudantes conseguiram manter-se na causa de continuar respondendo à regra do aprender o tempo todo, mesmo em condições tão adversas. O neoliberalismo contribuiu para que o tempo de aula fosse oferecido, pouco importando a opinião dos especialistas em educação sobre a validade ou não desse tempo. Segundo Ball (2014), o neoliberalismo corresponde a um ethos, uma forma de governar novas subjetividades por meio de um rearranjo das relações entre capital e Estado. Se na sociedade do século XXI imperam a biopolítica, o cansaço e o desempenho, a escola do ERE não ficou de fora da força desse imperativo, já que despendeu esforços em fazer com que os estudantes produzissem mais e melhor, mas sozinhos. Estudar a docência e seus efeitos tem a ver com compreender, portanto, o que significa ensinar Matemática na racionalidade neoliberal em um período de exceção como na pandemia. Nesse sentido, compreendemos o modo de vida da pandemia como um ethos covídico, sendo regrado pelas forças do neoliberalismo enquanto relação de consumo e imediatismo, enquanto toda a população precisava preocupar- se com a segurança coletiva (Veiga-Neto, 2011). Aspectos metodológicos Em termos metodológicos, o estudo caracteriza-se como uma pesquisa pós-crítica (Paraíso, 2012). Nesse registro teórico, as investigações não buscam demonstrar a veracidade de uma hipótese, nem há a pretensão de afirmar se as docências analisadas estão corretas ou de acordo com determinado campo de saber. O que se pretendeu foi apenas trazer para a superfície as regras que comandaram o jogo educacional reforçando ou esmaecendo verdades sobre como dar aula de matemática nos Anos Iniciais durante a pandemia. Os movimentos no campo empírico envolveram, em primeiro lugar, contato com escolas e professores, solicitando a assinatura do Termo de Assentimento da Instituição e dos Termos de Consentimento Livre e Esclarecido. Importa destacar que a pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa de nossa Universidade. Após as devidas assinaturas, conseguimos compor o grupo que integrou o estudo: 21 educadoras de escolas privadas de POA que lecionaram durante a pandemia. Para nomeá-las, utilizamos uma letra do alfabeto, nos fazendo escrever: Professora A, Professora B e, assim, sucessivamente. Cada educadora foi convidada a preencher um formulário, descrevendo experiências marcantes de suas docências no período do ERE e escolhendo duas práticas da área da Matemática que julgavam de qualidade. A estratégia analítica posta em operação sobre os materiais é a análise do discurso, na perspectiva de Foucault (2012), tomando a docência como um objeto discursivo que vem sendo constituído por diversos campos de saber. Nossa lupa foi colocada sobre as enunciações das docentes para descrever saberes que encontraram terreno fértil para proliferarem e entrarem na ordem do discurso da Educação Matemática. Modos de ser docente A análise evidenciou algumas regularidades sobre as docências implementadas ao longo do ERE. A primeira delas é que apesar das dificuldades proporcionadas pela instituição do ERE, as professoras buscaram, a todo o custo, continuar lecionando. Quando enunciam suas formas de planejar o desenvolvimento das aulas, mostram as ferramentas de trabalho que compraram, aprenderam e passaram a usar, como: mesa digitalizadora, quadro branco, canetas e até mesmo uma câmera digital. Olhando mais atentamente, diríamos que o protagonismo das professoras pode estar vinculado ao empresariamento de si. Como destaca Han (2018), o sujeito neoliberal se caracteriza como o empresário de si mesmo, que se explora voluntariamente e de maneira entusiástica. A aprendizagem e a educação neoliberais foram conceituadas por Noguera-Ramírez (2009) como uma subjetividade contemporânea chamada de Homo discens: um aprendiz permanente. Tal subjetividade não se refere apenas aos estudantes, mas também aos docentes que necessitam estar frequentemente se qualificando, a fim de se manterem ativos nas engrenagens econômicas e mercadológicas que o neoliberalismo exige. A ideia de uma adaptação às novas realidades e a eminente necessidade de flexibilização no formato das aulas, neste caso mobilizada pelo ERE, configura-se como uma segunda regularidade evidenciada na análise do material empírico, trazendo como produto uma docência sedutora, adaptável, criativa. Para tal, as docentes apoiam-se na crença de que “a Matemática está em tudo” como um enunciado sustentado pela flexibilidade do ensino, exercendo a criatividade e mediando uma aprendizagem que transforma os alunos em matemáticos, características constituintes do léxico neoliberal. Os excertos a seguir nos ajudam a mostrar esta questão: De uma hora para outra, estávamos expostos a uma outra realidade [...] E como colocar isso a nosso favor? Com uma grande ideia (Professora H) Com o uso do livro e caderno, a atividade foi a de procurar, nos diferentes espaços da casa, objetos que lembrassem formas geométricas espaciais. Cada estudante deveria encontrar a forma que se identificasse com características e elementos dados pela professora. Certamente, a "correria" pela casa com o convite de observar ao seu redor aproximou ainda mais o conteúdo da realidade, fazendo com que essa habilidade fosse mais desenvolvida, e o conhecimento, mais facilmente assimilado. (Professora A) Nossa "sala de aula" foi além das nossas mesas de escritórios e de estudos. Desta vez, fomos para nossas cozinhas. Neste espaço, professores, estudantes e seus familiares participaram de forma ativa de uma aula que, além de deliciosa, teve muitos aprendizados. Na oportunidade, trabalhamos medidas que constituíam a receita daquela pizza, e juntos colocamos a mão na massa, literalmente (Professora C) Ao dizer que “estávamos expostos a uma outra realidade”, a professora demonstra o quanto é afetada por essa outra forma de viver e de relacionar-se com os seus alunos; ao mesmo tempo, ela se sente responsável por fazer dar certo “com uma grande ideia!”. De certa forma, a enunciação mostra a necessidade de sedução dos alunos, desafiando a criação de modos diferentes de manter a disciplina para que pudessem aprender. A necessidade da sedução como parte do processo de ensino encontra sustentação na obra de Lipovetsky (2020), que afirma a existência de uma sociedade de sedução baseada em premissas neoliberais, regulada pela necessidade de felicidade, bem-estar e prazer. Dessa forma, ao pensar em utilizar a casa dos alunos de forma criativa e divertida ao propor uma “correria pela casa” e ativa ao “colocar a mão na massa, literalmente”, as professoras posicionam sua docência como sedutora, flexível, criativa e inovadora. A aula de matemática em ambiente virtual configurou-se pela proposição de atividades práticas e ativas, para que pudessem reconhecer o conhecimento matemático em todo lugar e como meio para o desenvolvimento de saberes mediados pelo educador. Atuar como um gestor das aprendizagens responde ao imperativo neoliberal, segundo Laval (2019), uma vez que assume uma lógica de eficiência, desempenho e mensuração ao mesmo tempo que possibilita que o estudante seja protagonista de sua aprendizagem. Nesse sentido, o aluno que aprende matemática não fica alheio à racionalidade neoliberal, uma vez que é posicionado como um sujeito que precisa ter sucesso em sua aprendizagem, mas que deve fazer isso de forma ativa. A fala de que usar determinados materiais em outros espaços “aproximou ainda mais o conteúdo da realidade, fazendo com que essa habilidade fosse mais desenvolvida e o conhecimento mais facilmente assimilado” demonstra a vontade de fazer com que todos consigam ter sucesso no aprendizado em matemática (Valero, 2013). Tornar a vida um sucesso faz com que a aprendizagem seja colocada em todos os lugares e, ao mesmo tempo, em lugar nenhum (Laval, 2019), o que explica a recorrência de propostas que se utilizavam de métodos diferentes dos comumente utilizados nas aulas de matemática, entretanto não foram identificados quaisquer questionamentos aos conteúdos ensinados. Considerações finais Finalizamos o texto destacando que a pesquisa nos permitiu identificar que a docência em matemática foi atravessada por premissas neoliberais que funcionaram como estratégias de condução de condutas tanto docentes quanto discentes. Percebemos a mobilização de sujeitos empresários de si e aprendizes eternos, uma vez que as educadoras buscaram meios de continuar lecionando a qualquer custo. Além disso, visualizamos uma docência flexível, sedutora, usando como ferramenta para seu desenvolvimento a crença de que “a matemática está em tudo”. Tal crença funcionou como estratégia de subjetivação discente, posicionando o aluno como protagonista da sua aprendizagem. A partir dessa ideia, podemos concluir que todas estas regras que gerenciaram os modos de ser estão vinculadas às práticas de governamento desta época. REFERÊNCIAS BALL, Stephen. Educação Global S.A: novas redes políticas e o imaginário neoliberal. Ponta Grossa: UEPG, 2014. CASTRO, Gisele Figueiredo. Narrativas de três professores iniciantes sobre aprender e ensinar matemática nos anos iniciais do ensino fundamental. Dissertação de Mestrado em Educação - Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá, 2021. FOUCAULT, Michel. Arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012. FOUCAULT, Mchel. Nascimento da biopolítica. São Paulo: Martins Fontes, 2008. HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Belo Horizonte: Âyiné, 2018. LAVAL, Christian. A escola não é uma empresa: neoliberalismo em ataque ao ensino público. São Paulo: Boitempo, 2019. LIPOVETSKY, Gilles. A sociedade da sedução: democracia e narcisismo na hipermodernidade liberal. Barueru: Manole, 2020. NOGUERA-RAMÍREZ, Carlos. O governamento pedagógico: da sociedade do ensino para a sociedade da aprendizagem. Tese de Doutorado em Educação – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2009. PARAÍSO, Marlucy Alves. Metodologias de pesquisas pós-críticas em educação e currículo: trajetórias, pressupostos, procedimentos e estratégias analíticas. In: MEYER, Dagmar; PARAÍSO, Marlucy Alves (org.). Metodologias de pesquisas pós-críticas em educação. Belo Horizonte: Mazza, 2012. p. 23-45. RIBEIRO, Caroline Paula. Práticas de sala de aula de uma professora que ensinou matemática em uma escola montessoriana durante a pandemia. Dissertação de Mestrado em Educação Matemática - Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2023. SARAIVA, Karla; TRAVERSINI, Clarice; LOCKMAN, Kamila. A educação em tempos de COVID-19: ensino remoto e exaustão docente. Práxis Educativa, Ponta Grossa, v. 15, e2016289, ago. 2020. p. 1-24. TAROUCO, Marcia Helena de Oliveira. Contribuições de um curso na modalidade EAD no processo de formação continuada de professores que ensinam matemática nos anos iniciais. Dissertação de Mestrado em Ciências e Matemática - Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2022. VALERO, Paola. Mathematics for all and the promise of a bright future. Proceedings of the eight congress of the european society for research in mathematics education european society for research in mathematics education. 2013. VEIGA-NETO, Alfredo. Governamentalidades, neoliberalismo e educação. In: BRANCO, Guilherme Castelo; VEIGA-NETO, Alfredo. Foucault: filosofia & política. Belo Horizonte: Autêntica, 2011. p. 37-52.

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