EDUCAÇÃO ESCOLAR E PANDEMIA: A DOCÊNCIA EM DISCUSSÃO Eliana de Sousa Alencar Marques – Universidade Federal do Piauí Júlio Ribeiro Soares – Universidade Estadual do Rio Grande do Norte Marly Krüger de Pesce – Universidade da Região de Joinville Coordenadora: Eliana de Sousa Alencar Marques- Universidade Federal do Piauí RESUMO O painel reúne resultados de pesquisas vinculadas ao projeto nacional “Pandemia da COVID-19 e seus impactos na educação básica no Brasil: diagnóstico e proposições interventivas na escola”, vinculado ao edital nº12/2021-CAPES. A pesquisa é desenvolvida em rede e envolve pesquisadores de diferentes instituições brasileiras. A primeira pesquisa, intitulada “Significações de professores em atividade pedagógica durante a pandemia do Covid 19: desafios, perdas e possibilidades” analisa resultados de investigação que partiu da seguinte questão: quais os principais impactos produzidos pela pandemia no processo pedagógico vivenciado por docentes e discentes das séries iniciais do Ensino Fundamental? Os dados foram produzidos com o uso de questionário aplicado a 70(setenta) docentes que atuam nas séries iniciais do Ensino Fundamental em Teresina-PI. Os resultados apontam desafios de ser professor em situação de ensino remoto, perdas nas aprendizagens dos alunos, mas tornou possível a apropriação do uso de tecnologias digitais, situação considerada positiva pelas docentes investigadas. A segunda pesquisa intitulada “Rodas de conversa sobre trajetórias de professores: aprendizagem da docência na pandemia”, tem por objetivo discutir o fenômeno da aprendizagem da docência, a partir da análise de significações constituídas por professores sobre suas trajetórias profissionais no período da pandemia da Covid-19. A pesquisa foi desenvolvida com base na metodologia de roda de conversa com professoras que passaram pela experiência profissional de atuação no período pandêmico. Os resultados apontam que a aprendizagem é um processo que se constitui dialeticamente por meio da apropriação, objetivação e transformação do que é tanto singular (individual) quanto universal (a cultura), mediado pelas particularidades do mundo real. E na pandemia esse processo não foi diferente, uma vez que objetividade e subjetividade, afetividade e cognição, sentidos e significados, se constituíam como unidade dialética e histórica do processo de aprendizagem da docência. A terceira pesquisa intitulada “Reflexões sobre o uso das tecnologias digitais num espaço de formação docente no contexto de pós-pandemia tem como objetivo analisar o resultado do uso das tecnologias digitais aplicadas nas práticas pedagógicas desenvolvidas pelos professores do Ensino Fundamental II da rede municipal de ensino da cidade de Joinville/SC no contexto de pós-pandemia. A análise dos dados evidenciou que os professores reconhecem que devem propor atividades pedagógicas com uso das tecnologias digitais centradas no fazer discente. Percebeu-se um movimento de reflexão dos professores ao avaliarem as práticas pedagógicas e entenderem que as tecnologias digitais por si não garantem o engajamento e aprendizagem dos estudantes. A pesquisa proporcionou espaço de formação e reflexão dos professores sobre as práticas pedagógicas, proporcionando transformações. Palavras-chave: Pandemia do covid-19. Impactos. Docência. Ensino e aprendizagem. Tecnologias. Significações de professores em atividade pedagógica durante a pandemia do Covid 19: desafios, perdas e possibilidades Eliana de Sousa Alencar Marques RESUMO A pesquisa trata das significações produzidas por um coletivo de docentes sobre os impactos da pandemia no processo pedagógico nas séries iniciais do Ensino Fundamental. Partiu da seguinte questão: quais os principais impactos produzidos pela pandemia no processo pedagógico vivenciado por docentes e discentes das séries iniciais do Ensino Fundamental? Em termos de metodologia, a pesquisa foi qualitativa. O instrumento de produção de dados foi o questionário online com 20 questões: 17 fechadas e 3 abertas. Participaram da pesquisa 70 professores que atuam nos anos iniciais do Ensino Fundamental em escolas municipais de Teresina-PI. A pesquisa apontou que as docentes investigadas significam que a pandemia trouxe inúmeros impactos ao processo ensino e aprendizagem, sendo que o primeiro deles foi o fato de obrigar a vivência do processo educativo de forma remota. Situação emergencial necessária, mas extremamente precária, tendo em vista que nem todos os professores, alunos e familiares tiveram acesso à internet ou mesmo domínio dessa ferramenta para se manter conectado à escola de modo a se envolver ativamente com o processo pedagógico. Outros impactos puderam ser significados pelas professoras, como o agravamento da situação de exclusão escolar de boa parte de alunos em situação de baixa renda, o aumento de casos de adoecimento de docentes e o aumento na situação de desigualdade de aprendizagens entre os estudantes das escolas públicas. Por outro lado, as docentes também significam que o ensino remoto tornou possível a apropriação do fazer docente mediado por tecnologias, um ganho apontado como positivo mesmo em meio ao caos instaurado pela pandemia. Palavras-chave: pandemia; ensino remoto; ensino fundamental I; impactos. Introdução A educação é um processo social que se realiza única e exclusivamente na realidade humano-social. Quando se apresenta de forma organizada, sistematizada, planejada e historicamente situada assume a forma de educação escolar. Embora seja de conhecimento geral o fato de que a educação básica se constitui em fundamento basilar para a melhoria da qualidade de vida dos brasileiros, relatórios oficiais confirmam a persistência em nosso país de um sistema educacional marcado por grandes discrepâncias na qualidade e na abrangência do serviço oferecido à população em idade escolar. Ou seja, o que queremos destacar é que a educação escolar nesse país não é oferecida de forma igualitária para todos. Em 2020 essa situação de desigualdade de oportunidade de aprendizagem escolar se agravou ainda mais em decorrência da pandemia do Covid 19 que, ao se alastrar pelo mundo a partir de 2019, provocou isolamento social, em âmbito mundial, causou paralisação na economia de uma forma geral e desestruturou todos os sistemas de saúde. No Brasil, em março de 2020 foi decretado situação de calamidade pública, o que levou a adoção do isolamento social. Essa medida necessária para preservação da vida humana retirou da escola milhões de jovens e professores, fechou exatamente 99,3% das escolas de Educação Básica, obrigando as escolas brasileiras a adotarem estratégias não presenciais de ensino, conforme dados de resultados verificados em pesquisa recente realizada pelo INEP acerca dos impactos da pandemia na educação básica. (Inep, 2022). Sem condições de acesso à internet de banda larga, a grande maioria absoluta dos estudantes brasileiros no ano de 2020 e, mais da metade do ano de 2021, não tiveram como continuar participando das aulas, e mesmo os que conseguiram, o fizeram em péssimas condições. Pesquisa realizada por Soares et al (2023) aponta que o contexto da pandemia do COVID-19 serviu para agravar de forma brutal as desigualdades de acesso a um ensino de qualidade no sistema público brasileiro. Diante disso, a pesquisa que nos propomos realizar parte do seguinte problema: como docentes avaliam os impactos deixados pela pandemia da Covid-19 ao processo ensino e aprendizagem em classes das séries iniciais do Ensino Fundamental da cidade de Teresina-PI? Em face do problema apresentado, realizamos investigação com o objetivo de investigar significações de docentes sobre os impactos da pandemia no processo ensino e aprendizagem em classes das séries iniciais do Ensino Fundamental na cidade de Teresina. Acreditamos que os resultados desta pesquisa nos darão condições de sugerir estratégias de reestruturação dos processos pedagógicos nas escolas públicas em Teresina. Metodologia Nesta investigação, optamos pela abordagem qualitativa, que segundo Malhotra (2006) apud Chaer, Diniz e Ribeiro (2011, p. 257) significa “metodologia de pesquisa não-estruturada e exploratória, baseada em pequenas amostras que proporcionam percepções e compreensão do contexto do problema”. Ademais, Minayo (2009) caracteriza a pesquisa qualitativa como algo que não pode ser quantificado, mas que trabalha com os significados, motivos, crenças, valores sendo localizado na realidade social dos seres humanos. Isto é, ela investe na descoberta das perspectivas dos participantes, seus significados, se interessando no modo como as diferentes pessoas se posicionam, analisando os dados de forma minuciosa, em toda sua riqueza. Quanto à técnica de produção dos dados, utilizamos o questionário, que para Gil (1999, p. 128) é nada mais que uma “técnica de investigação composta por um número mais ou menos elevado de questões apresentadas por escrito às pessoas, tendo por objetivo o conhecimento de opiniões, crenças, sentimentos, interesses, expectativas, situações vivenciadas, etc”. Nesse sentido, optamos por questionário produzido pelo google forms para recolher informações necessárias para elucidarmos o problema de nossa pesquisa. O fato de ser on line é um critério que colabora com a sua utilização, pois, seu envio por email facilita a comunicação, a rápida distribuição e a devolutiva que também acontece por email. Nosso público alvo foram professores do Ensino Fundamental I da rede pública da cidade de Teresina, capital do estado do Piauí. Porém, pelo alcance desse tipo de técnica de produção de dados, recebemos devolutivas de docentes de outras cidades circuvizinhas, totalizando 70 respostas, distribuídas entre as cidades de Teresina, Canto do Buriti e Nazária. O questionário foi distribuído por e-mail e grupos de WhatsApp. O questionário composto por 20 questões, dentre as quais, 17 questões eram fechadas e 3 questões eram abertas, ficou disponível para consulta durante 60 dias. Após esse período, passamos ao processo de análise. Após a leitura das repostas dos questionários, e tomando como norte a análise textual discursiva de Roque Moraes (2013), categorizamos os resultados em função de dois eixos temáticos: Desafios de ser professor em situação de ensino remoto; O que a pandemia da covid 19 nos deixou de prejuízo e nos ensinou. Desafios de ser professor em situação de ensino remoto Nesta subseção, analisamos as significações que as professoras produziram sobre as condições de trabalho durante o ensino remoto emergencial. Em termos de perfil, o grupo é formado em sua maioria por docentes do sexo feminino, têm entre 36 e acima de 45 anos, estão localizados em diferentes municípios circunvizinhos à Teresina, com atuação na rede pública, com mais de 20 anos de tempo de serviço. A série com maio número de respondentes foi o 5º ano, com atuação em diversas áreas disciplinares. Para a grande maioria dos docentes participantes da pesquisa, o processo ensino e aprendizagem foi muito prejudicado nesse formato de ensino devido a enorme dificuldade dos alunos em acompanhar as aulas, em acessar internet, em realizar as atividades que eram encaminhadas para casa, o domínio de tecnologias por parte dos alunos e de professores, sobrecarga docente, precarização do ensino e aprendizagem, ausência de interação entre professores e alunos. De acordo com as repostas dos participantes, para dar continuidade às aulas, os recursos mais utilizados foram celulares, computadores/notebooks, TV, envio de atividades xerocadas/impressas para os pais ou responsáveis, livros didáticos, etc. No entanto, através do uso de tecnologias, foi preciso que as metodologias fossem adaptadas para melhor ensino e aprendizagem. Como exemplo disso, foram citados os vídeos feitos por celular, a utilização de recursos visuais como vídeos e gravuras, atividades que precisavam ser contextualizadas para facilitar a compreensão na hora dos alunos responderem, aplicativos de celular, vídeos educativos, chamadas de vídeos para acompanhar o desenvolvimento da leitura, mensagens faladas, figurinhas de incentivo e elogios, etc. Além disso, entre as tecnologias mais utilizadas pelos professores, no contexto educacional remoto, está o WhatsApp, Youtube, Google Forms. Em síntese, a maioria dos docentes considera que precisaram fazer uso recursos que sequer tinham conhecimento que existiam, devido não fazerem uso de nenhum recurso tecnológico em suas aulas antes do advento da pandemia. Outro grande desafio apontado pelos docentes foi conseguir avaliar o nível de aprendizagem e envolvimento dos alunos com as atividades propostas tendo em vista a condição de distanciamento. Assim, os docentes avaliam que o ensino remoto prejudica algo que é fundamental ao processo pedagógico que é a interação entre professores e alunos, tendo em vista que o distanciamento não permite que os professores consigam avaliar o progresso de seus alunos cotidianamente. Em síntese, os resultados apontam que a maioria dos professores asseveraram como desafios de ser professor em situação de ensino remoto foi a falta de interesse e desestímulo dos alunos, bem como a falta de apoio e compromisso familiar em acompanhar as atividades de seus filhos (devido a essas famílias viverem em situação de vulnerabilidade, tendo que garantir em contexto de pandemia a própria sobrevivência material), ou até mesmo alguns pais que respondiam as atividades de seus filhos (o que dificulta a avaliação docente em analisar a aprendizagem real de seus alunos). Ademais, foi citado a falta da afetividade devido ficarem sem contato físico com alunos e equipe escolar, prejudicando o desenvolvimento social da criança, o que evidencia a necessidade das interações sociais. Além disso, o excesso de tempo frente às telas de computadores tornou-se algo prejudicial, bem como as condições de ambiente de trabalho inadequados. Importante ressaltar a falta de apoio, suporte técnico e financeiro do governo municipal, revelando a insensibilidade por parte de órgãos competentes, no qual os mesmos cobravam resultados dos professores, omitindo-se da devida responsabilidade com as escolas. Exemplo disso é a grande parte de alunos que não possuíam acesso à internet, e nem equipamentos tecnológicos necessários para continuar acompanhando as aulas remotas (como celulares, computadores, notebooks, etc). Fica evidente, portanto, as aulas remotas trouxeram outros desafios que não eram comuns nos encontros presenciais como: problemas de conexão, engajamento dos alunos à distância, falta de acesso à internet, retorno das atividades avaliativas, etc. O que a pandemia da covid 19 nos deixou de prejuízo e o que nos ensinou A maioria dos professores estavam presentes nas aulas (72,9%), onde quase todos (exceto 1) lecionaram por meio de ensino remoto. Pela maioria dos relatos, não houve aula durante os dois anos de pandemia, apenas o envio de atividades. Isso significa muito prejuízo em termos de aprendizagem e desenvolvimento dos estudantes. Outra característica que a atividade pedagógica assumiu no período pandêmico foi a gravação das aulas para serem disponibilizadas para os alunos e em outras situações, as aulas eram gravadas e acompanhadas em tempo real. Para a grande maioria dos docentes participantes da pesquisa, o processo ensino e aprendizagem foi muito prejudicado nesse formato de ensino devido a enorme dificuldade dos alunos em acompanhar as aulas, em acessar internet, em realizar as atividades que eram encaminhadas para casa, o domínio de tecnologias por parte dos alunos e de professores, sobrecarga docente, precarização do ensino e aprendizagem, ausência de interação entre professores e alunos. Em relação aos recursos didáticos: a mediação pedagógica foi possibilitada pelos os recursos tecnológicos como notebook/computador TV, celular, atividades xerocadas/impressas, livros didáticos. Como nem todos tinham acesso a tais recursos, muitos alunos ficaram prejudicados. Em relação a aprendizagem e desenvolvimento dos estudantes, entre as dimensões mais afetadas os docentes informaram a dimensão intelectual ocupando o primeiro lugar, em segundo, têm-se a dimensão cognitiva; e em último, foi informada a dimensão socio-afetiva do aluno. Com relação aos impactos no processo de aprendizagem e desenvolvimento nas áreas das disciplinas, os docentes informaram que em primeiro lugar foi a área de linguagens, seguida da matemática; geografia e história; e ciências da natureza. Os docentes consideram que o município conseguiu garantir que menos da metade dos alunos tivessem continuidade em seus processos educativos, sendo que a maioria dos docentes avalia que mais da metade dos alunos ficou fora do processo educacional. Esse dado revela que a pandemia agravou de forma brutal a desigualdade no processo educacional, penalizando, sobretudo, os alunos de baixa renda. A maioria dos docentes considera que a pandemia agravou a situação de exclusão e evasão nas escolas públicas, citando como causas, a falta de recursos e materiais tecnológicos, o não conhecimento em fazer o manuseio adequado dessas ferramentas, desinteresse/desmotivação dos alunos e pais ou responsáveis, as dificuldades na aprendizagem (na leitura, escrita, linguagem), entre outros. Em relação aos docentes, estes relataram condição afetiva diversa: sensação de desafio, ansiedade, medo, desgaste físico e emocional, estresse, tristeza etc. E por fim, a pesquisa também evidenciou que os docentes apontam aspectos positivos e negativos na vivência da pandemia e do ensino remoto. Consideram como negativo a falta de interesse e desestímulo dos alunos; falta de apoio e compromisso familiar em acompanhar as atividades de seus filhos; falta de afetividade; excesso de tempo frente às telas de computadores; e condições de ambiente de trabalho inadequados. Entre os aspectos positivos são apontados os desafios que foram superados, novos conhecimentos tecnológicos adquiridos, reinvenção de práticas e metodologias de ensino, aproximação com as tecnologias, companheirismo e compromisso, maior envolvimento das famílias na vida escolar dos filhos. Conclusão A pesquisa apontou que a pandemia trouxe inúmeros impactos ao processo ensino e aprendizagem, o primeiro deles foi o fato de obrigar a vivência do processo educativo de forma remota. Situação emergencial necessária, mas extremamente precária, tendo em vista que nem todos os envolvidos no processo pedagógico como professores, alunos e familiares tiveram acesso à internet ou mesmo domínio dessa ferramenta para se manter conectado à realidade. Decorrente desse fato, a situação de exclusão escolar se agravou ainda mais, pois, para boa parcela da população em idade escolar os dois anos de pandemia significaram dois anos sem conseguir vivenciar os processos educativos, pois, a educação escolar ficou circunscrita ao envio de tarefas sem as interações necessárias. Os resultados também levam à conclusão de que sem aulas, sem interação com os colegas ou mesmo com professores, os alunos não tinham como acompanhar matérias, aprender conteúdos essenciais à continuidade dos estudos, levando ao comprometimento do desenvolvimento intelectual e cognitivo do estudante, do domínio e conhecimento na área da linguagem. Além disso, os resultados apontam ainda para o aumento da exclusão e evasão escolar, impactos negativos na condição afetiva dos docentes, o que pode levar ao aumento de casos de adoecimento. Por outro lado, há que se considerar que mesmo em meio ao caos provocando pela pandemia, as professoras reconhecem que a vivência da docência nessa situação colaborou com a apropriação de novas formas de fazer a docência com o uso de tecnologias digitais, promover engajamento, colaboração e fortalecimento de laços que são fundamentais para o trabalho coletivo. Referências CHAER, G.; DINIZ, R. R. P; RIBEIRO, E. A. A técnica do questionário na pesquisa educacional. Evidência, Araxá, v. 7, n. 7, p. 251-266, 2011. GIL, Antônio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 5. ed. São Paulo: Atlas, 1999. INSTITUTO NACIONAL DE ESTUDOS E PESQUISAS EDUCACIONAIS ANÍSIO TEIXEIRA (INEP). Censo Escolar, 2010. Brasília: MEC, 2022. MINAYO, Maria C. S. , In: PESQUISA SOCIAL: teoria, método e criatividade/ DESLANDES, Suely F; GOMEZ Romeu; MINAYO, María C. S (organizadora). 28. ed. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2009. MORAES, Roque. Uma tempestade de luz: a compreensão possibilitada pela análise textual discursiva. Ciência & educação. 2003, vol. 9, n. 2, p. 191-211. ISSN 1516-7313. SOARES, Júlio Ribeiro; BOCK, Ana Mercês Bahia; MARQUES, Eliana de Sousa Alencar. Impactos da pandemia da covid-19 na educação básica: a questão do fracasso escolar. Educação, 2023, e130/1-25. Rodas de conversa sobre trajetórias de professores: aprendizagem da docência na pandemia Júlio Ribeiro Soares – Universidade do Estado do Rio Grande do Norte Resumo O trabalho se insere no campo temático dos impactos da pandemia na educação, tendo por objetivo discutir o fenômeno da aprendizagem da docência, a partir da análise de significações constituídas por professores sobre suas trajetórias profissionais no período da pandemia da Covid-19. Para fundamentar este estudo, buscamos apoio na psicologia sócio-histórica, notadamente nas categorias historicidade, atividade e significação. A pesquisa foi desenvolvida com base na metodologia de roda de conversa com professoras que passaram pela experiência profissional de atuação no período pandêmico. Para analisar as informações, recorremos ao instrumento analítico dos núcleos de significação, cujo processo resultou em dois núcleos que denotam o processo de aprendizagem da docência, a saber: “mal-estar docente: significando dúvidas, dilemas e decisões” e “necessidades formativas na trajetória profissional: significando afetos, ações e proposições”. Concluímos o trabalho apontando que a aprendizagem é um processo que se constitui dialeticamente por meio da apropriação, objetivação e transformação do que é tanto singular (individual) quanto universal (a cultura), mediado pelas particularidades do mundo real. E na pandemia esse processo não foi diferente, uma vez que objetividade e subjetividade, afetividade e cognição, sentidos e significados, se constituíam como unidade dialética e histórica do processo de aprendizagem da docência. Palavras-chave: Educação básica. Atuação docente na pandemia. Núcleos de significação. Introdução Começamos este trabalho corroborando o pensamento, segundo Freire (1991, p. 58), de que “ninguém nasce educador ou marcado para ser educador. A gente se faz educador, a gente se forma, como educador, permanentemente”. Essa mensagem ressoa o entendimento de que a docência não é uma aptidão individual com a qual se desenvolve e atualiza-se no percurso da história de vida profissional. Denota afirmativamente que o educador precisa ter formação para exercer o ofício da educação, isto é, da docência. Ou ainda, conforme pontuado por Marx (2007, p. 533) na terceira tese sobre Feuerbach, “o próprio educador tem de ser educado”. Sabemos que são várias as tendências e concepções de ensino e aprendizagem que fundamentam o trabalho educativo. Contudo, é necessário ressaltar que, mesmo dando ênfase ao processo de aprendizagem neste trabalho, a nossa postura epistemológica não denota nenhuma possibilidade de redução da importância da atividade de ensino ou de naturalização das condições de aprendizagem (Leontiev, 1978; Vigotski, 2007). A atividade de ensino, portanto, não se configura apenas como uma variável constitutiva da aprendizagem, mas uma de suas mais relevantes mediações sociais e pedagógicas. Voltando nossas lentes para o contexto da pandemia da Covid-19, sabemos que os desafios profissionais foram enormes em todas as áreas da atuação humana, inclusive no campo da educação. Os professores se depararam nesse contexto de mudança no cenário global com situações pedagógicas diversas que exigiam novos aprendizados sobre a docência, isto é, aprendizados sobre como o manejo das atividades escolares poderia fomentar possibilidades de aprendizagem e desenvolvimento nos alunos. Diante desse contexto, esclarecemos que o presente trabalho tem por objetivo discutir o fenômeno da aprendizagem da docência, a partir da análise de significações constituídas por professores sobre suas trajetórias profissionais no período da pandemia da Covid-19. Para fundamentar este estudo, buscamos apoio na psicologia sócio-histórica, notadamente nas categorias historicidade, atividade e significação. A categoria historicidade é um recurso teórico-metodológico fundamental no campo epistemológico da psicologia sócio-histórica por permitir compreender que o real, isto é, a docência, não se constitui naturalmente, na imediaticidade do que ocorre na escola, uma vez que é mediada por experiências concretas que foram vividas e objetivadas por gerações anteriores como ato educativo. Atividade é outra importante categoria por fundamentar o entendimento de que a constituição da sociedade, inclusive do próprio ser humano, só é possível por meio da ação humana sobre a realidade. Assim sendo, é somente na atividade docente e de estudo que o professor se constitui historicamente como profissional da educação. Importante ressaltar que a categoria atividade, na perspectiva sócio-histórica, não se restringe a ação física do corpo, mas igualmente a atividade de pensamento. A categoria significação é também um importante recurso teórico-metodológico, por possibilitar apreender não apenas a fala dos participantes deste estudo, mas seus pensamentos e afetos. O que denominamos significação (Aguiar, Aranha e Soares, 2021) é unidade dialética de sentidos e significados (Vigotski, 2001). Enquanto o significado permite a compreensão do pensamento na sociedade, uma vez que as palavras podem ser generalizadas na comunicação, o sentido se remete à fala interna, ou seja, o pensamento verbalizado singularmente por cada indivíduo. Por isso, é uma dimensão do indivíduo. Contudo, essa diferença entre indivíduo e sociedade, assim como entre sentido e significado, não denota uma dicotomia no campo epistemológico da psicologia sócio-histórica. De qualquer forma, o termo significação, criado mais recentemente por estudiosos de Vigotski (Aguiar, Aranha e Soares, 2021) carrega essa totalidade dialética, sem desconsiderar as propriedades específicas dos sentidos e significados. Metodologia A pesquisa foi realizada no primeiro semestre de 2024 com professores de uma escola pública do estado do Rio Grande do Norte, considerando-se, como critério de escolha, o fato de já ter ambientado a realização de alguns outros projetos de pesquisa. Embora cinco professores tenham participado do início da pesquisa, vamos analisar as significações constituídas por apenas duas professoras que, além de terem demonstrado interesse pelo projeto, também manifestaram posicionamentos críticos em relação às suas experiências com a política de enfrentamento à crise da pandemia na educação. Para efeito de sigilo, nomeamos as duas participantes com os apelidos Aroeira e Carnaúba, símbolos da beleza da flora nordestina. Em analogia, as citadas professoras simbolizam a força da mulher na educação e na sociedade. A professora Aroeira tem formação em Ciências Biológicas e contabiliza mais de 10 anos de atuação no ensino fundamental e médio. A professora Carnaúba tem formação em Matemática e atua há mais de 20 anos na docência do ensino fundamental, além de ter experiência em coordenaria pedagógica. Para apreensão das informações, fizemos uso da metodologia da roda de conversa, por se configurar como um instrumento que permite criar possibilidades de comunicação reflexiva sobre o tema em discussão. Assim, após a confirmação do nosso objetivo, a roda de conversa teve início com a questão: O que conseguimos aprender um pouco mais sobre a docência a partir da nossa atuação profissional na pandemia? As reflexões foram gravadas, com a permissão das professoras-participantes, mediante o termo de consentimento livre e esclarecido. Logo em seguida, o conteúdo produzido na roda de conversa foi transcrito e analisado com base no instrumento analítico dos núcleos de significação. Resultados e discussão Após transcrição e leitura das reflexões produzidas pelas professoras na roda de conversa, conseguimos sistematizar dois núcleos de significação, que têm como base quatro indicadores que foram abstraídos a partir do levantamento de pré-indicadores, isto é, trechos de falas das professoras que são coerentes ao objetivo da pesquisa. O primeiro núcleo de significação, “mal-estar docente: significando dúvidas, dilemas e decisões”, é constituído de dois indicadores: 1) problemas escolares vividos pelos alunos no ensino remoto: distanciamento da escola e limitação das possibilidades de aprendizagem; 2) dificuldades, desafios e estratégias de desenvolvimento da prática docente na pandemia. O indicador “problemas escolares vividos pelos alunos no ensino remoto: distanciamento da escola e limitação das possibilidades de aprendizagem” enfoca questões, segundo as professoras participantes da pesquisa, que atinam para prejuízos escolares na vida dos estudantes, por não terem maturidade suficiente para aprenderem sozinhos, sem ajuda da estrutura pedagógica da escola. Ao mesmo tempo, a própria escola cobra essa competência autodidata dos alunos. Por isso, conforme a Professora Carnaúba (2024), “muitos alunos não fizeram sequer uma atividade da escola durante o ensino remoto”. Nessa mesma perspectiva, a Professora Aroeira (2024) atenta-se criticamente para a questão de que “o aluno tinha que ser protagonista da aprendizagem, ser autor da própria aprendizagem”. Quanto ao indicador “dificuldades, desafios e estratégias de desenvolvimento da prática docente na pandemia” este desvela, segundo as professoras-participantes da pesquisa, as possibilidades de parcerias das escolas com as famílias no apoio ao processo de escolarização das crianças. No entanto, trata-se de uma parceria marcada por dificuldades e desafios, mas também estratégias de enfrentamento a situação. Conforme a Professora Carnaúba (2024), “muitas famílias não conseguiam ajudar. Mesmo que quisessem, não tinham conhecimento nem preparo para ajudar seus filhos”. Ao mesmo tempo, segundo a Professora Aroeira (2024), muitos professores foram em buscas de alunos, no intuito de oferecer alguma ajuda. O segundo núcleo de significação, “necessidades formativas na trajetória profissional: significando afetos, ações e proposições”, teve origem nos indicadores: 1) adequação de metodologias de ensino e de recursos didáticos ao processo de escolarização na pandemia; 2) “Nós não fomos preparados para isso”: limites da formação e da atuação docente na pandemia. O indicador “adequação de metodologias de ensino e de recursos didáticos ao processo de escolarização na pandemia” ajuda a entender o esforço empreendido pelos professores, sobretudo no início da pandemia, para dar conta das atribuições da docência. Segundo a Professora Aroeira (2024), além das aulas, “a gente passava a manhã, tarde e noite em frente ao computador, pro...