ECOS SILENTES DO CURRÍCULO EM INOPERÂNCIA “O texto se forma com a escuta dos sons que restam na escrita, como silêncio.” (Librandi, 2020, p. 33) “Escrever é também não falar. É calar-se. É gritar sem ruído.” (Marguerite Duras) O presente trabalho se compõe a partir do encontro de duas pesquisadoras em currículo que procuram exercitar uma conversação com os estudos da ciência e da tecnologia, da filosofia, dos feminismos, da teoria queer e da literatura como parte da “teorização curricular como uma tarefa intelectual criativa” (Miller, 2014). Com base nisso, o que atualmente motiva nosso pensamento é a seguinte provocação: seria possível a teorização em currículo entrar em novos agenciamentos cósmicos, conexões inusitadas (Ranniery, 2012) pelas vias da experimentação, até chegar a um certo ponto de máxima intensidade e, ao mesmo tempo, de impossibilidade (Foucault, 1994)? Mais precisamente, perseguimos a seguinte questão: o que pode uma experimentação teórica em currículo operada na trilha da intensificação das relacionalidades cósmicas? Essa pergunta assim formulada, por apropriação do conceito “vontade de potência” (Nietzsche, 2008), procura colocar em questão a potência da experimentação em abalar os estratos e movimentar a teoria curricular (Paraíso, 2009) na trilha da intensificação das relacionalidades cósmicas. Desse modo, esse trabalho emerge como uma aposta na abertura do pensamento curricular para uma mirada imaginativa em que “subjetividade e política implicam a co-fabricação performativa do mundo, dos muitos mundos no mundo” (Ranniery, 2019, p. 1451), dos “acontecimentos queers do mundo” (Barad, 2012, p. 44), cujos ecos merecem ser ouvidos na disposição silente da inoperância. Na esteira desse pensamento, assumimos a inseparabilidade entre o pensamento e a experimentação. Imersas na prática de filosofização da teoria curricular, consideramos transitar entre o silêncio (Duras, 2010; Lispector, 1998) e a inoperância (Blanchot, 2012; Nancy, 1999) como atitudes capazes de sabotar a estrutura da racionalidade neoliberal que, em seu caráter fálico-patriarcal e calculativo-progressista, insiste em determinar as instanciações teórico-práticas do currículo de modo a despotencializar as intensidades das relacionalidades cósmicas. Na presente pesquisa, mobilizamos o silêncio e a inoperância na constituição do “TQ” ou um corpus Teórico Queer (Terra, 2023), num trabalho quimérico e, nesse sentido, exageradamente imaginativo junto à Teoria Q/Curricular. Nos valemos do TQ como um dispositivo metodológico e epistemológico desacelerado que nos permite escutar de forma silente os ecos da multitude em um mundo cheio de mundos (Ranniery, 2019, p. 1451), isto é, os ecos da multitude queer. Sabemos que somos povoadas por uma série ilimitada de spams que nos fazem participar do corpo utópico da população na mesma medida em que despotencializam as intensidades da experiência cósmica do comum. Então, por meio da especulação amparada em um corpus Teórico Queer, tentamos pensar o currículo como o lugar contra-utópico (Stephan, 2022) da escuta seletiva e silente que retém de forma inoperante e, desse modo, desacelerada, os ecos cósmicos do comum, os quais são reiteradamente abafados pela máquina retórica do neoliberalismo. Assim, o silêncio e a inoperância compõem o TQ como elementos que atravessam e são atravessados pela experiência cósmica do comum, entendida como um campo de relacionalidade aberto e multiaxial que extrapola todo e qualquer limite hipostasiado como determinante do humano em seu antropocentrismo e falocentrismo fundantes. Tal corpus Teórico Queer se institui e é instituído de forma desorganizada e não projetiva como uma espécie de ruptura em relação à intencionalidade latente no campo das teorias de currículo, à reiteração do modo operatório vinculado à lógica de planejamento, ao ensino de conhecimentos que emancipariam um sujeito humano a ser preenchido, conscientizado e letrado. O TQ rompe com a perspectiva ainda em voga de que o currículo diz respeito ao “plano formal das atividades/experiências de ensino e de aprendizagem, [à] preocupação com a administração, em algum nível centralizada, do dia a dia da sala de aula” (Lopes; Macedo, 2011, p. 21), bem como com a perspectiva universal e absoluta acerca da cultura correlativa a uma concepção unitarista e utilitarista do conhecimento. Admitido enquanto um “método de rastreio para seguir o fio no escuro” (Haraway, 2023, p. 15) – escuro que ecoa os múltiplos silêncios do currículo em inoperância –, o corpus TQ se mostra instigante para nos permitir lidar com a incognoscibilidade, com um “entendimento do currículo como o que ainda não podemos conhecer – ou talvez nunca possamos?” (Miller, 2014, p. 2057). Sem pretender de forma alguma propiciar uma nova afirmação ou prescrição do que é currículo, interessa-nos possibilitar a abertura inventiva de outros modos curriculares para além dos limites analíticos da razão. Nossa tarefa, então, é a de desconfigurar e a de reconfigurar a paisagem do perceptível e do pensável nas teorizações curriculares. Inspiradas em Duras (2010), consideramos que o silêncio diz respeito a um rompante contra-utópico capaz de nos desatar das redundâncias atinentes a uma série de discursos que respondem às demandas falocêntricas do neoliberalismo. O silêncio não condiz ao silenciamento, mas corresponde ao ato de não-dizer em meio a uma realidade que nos obriga a falar demais. E, ainda, enquanto expressão do indizível frente ao excesso de sentido, alude a uma relação com a linguagem dada através da mudez e do silêncio (Lispector, 1998), o que adquire uma dimensão estética ao conferir uma certa eloquência em fazer falar o silêncio a fim de que nos tornemos “toda ouvidos”. Assim, silenciar se configura como um modo de interromper a máquina retórica da biopolítica neoliberal (Foucault, 2008a; 2008b) que compulsoriamente fabrica informações na forma de spam, as quais sufocam o campo das relacionalidades cósmicas. Nesse sentido, perguntamo-nos em que medida o silêncio compõe, recompõe e decompõe o currículo entendido como a prática de tornar-se sujeito com os outros (Pinar, 2008; 2016). Por outro lado, a partir do diálogo entretido entre Nancy (1999) e Blanchot (2012) no que se refere à experiência do ser-em-comum, supomos que a prática de se tornar sujeito com os outros é inoperante, já que a experiência do comum parece se contrapor à ideologia do progresso que fundamenta o corpo utópico da população na biopolítica neoliberal (Foucault, 2013). A ideologia do progresso atinge em cheio os diferentes espectros políticos, transitando entre a esquerda e a direita; além disso, ela repousa na concepção narcísica e antropocêntrica que institui a propriedade do mundo aos homens brancos, cisheteronormativos e ricos, materializados pelos senhores da guerra que dominam os atuais jogos do imperialismo (Butler, 2020). Nesse contexto, currículo parece afastado da acepção ético-política de Pinar (2016), para quem a prática curricular se assenta e é assentada na experiência do comum, entendida nesse trabalho sob a égide da intensificação das relacionalidades cósmicas. Em questão está, por conseguinte, a experiência de que somos em comum e não de que somos a identificação com um algo, com uma figura ou imagem que devemos ter em comum; o ser-em-comum como um esvaziamento do “como nós” que adquire forma pela escuta, reverberações silentes de relações em eco – uma comunidade inoperada. Uma vez que o silêncio e a inoperância se retroalimentam no exercício da escuta especulativa, tendo em vista que só somos capazes de nos tornarmos sujeitos com os outros se aprendemos a escutar estes outros enquanto tais, a escuta especulativa é envolvida pelo silêncio em sua inoperância justamente porque não coaduna com a produção compulsória e acelerada das pretensas verdades vinculadas às múltiplas opiniões dos cidadãos de bem (spam). Ao contrário do que os áudios acelerados do whatsapp parecem nos fazer crer, a escuta especulativa demanda a desaceleração. Escutar o eco que o outro ressoa em nossos ouvidos consiste em estranharmos o que somos e o que acreditamos ser (Nodari, 2024). Nesse sentido, a escuta promove a ontologia cósmico-social do estranhamento que, ao invés de nos afastar dos outros, deles nos aproxima a partir de uma interação disjuntiva que pode ser brevemente descrita da seguinte forma: quando silencio, acolho os ecos do outro em mim e ao acolhê-los, isto é, ao escutá-los em mim, deixo de ser o que sou para me tornar, por meio de tal composição disjuntiva, quem jamais fui. Assim, se a “relacionalidade diária chamada educação” envolve “subjetividades em constante produção, rejeição, transformação” (Miller, 2014, p. 2057), ao me tornar outra perante o outro que outrora ecoou em mim, reinstauro a necessidade da articulação entre o si que já é outro e o outro que já não é mais o mesmo. Percebemos, então, uma diferença entre o currículo determinado pelas demandas biopolíticas do corpo utópico da população, que calcula o progresso por meio do racismo de estado, e o currículo como abertura à experiência do comum, entendido como o despontar performativo “dos muitos mundos no mundo” (Ranniery, 2019, p. 1451). Com base nisso, nossa hipótese é a de que somos incapazes de experenciar o currículo como o ecoar de relacionalidades cósmico-queers porque continuamos a operar sob a luz da perspectiva que atribui a posse do mundo aos homens brancos e seus investimentos progressistas. Daí nossa aposta em seguir junto às teorizações curriculares exercitando uma atenção às dimensões do silêncio em inoperância como que nos permitindo ativar um lugar contra-utópico da escuta, importante para seguirmos na trilha da intensificação das relacionalidades cósmicas. Dito de outro modo, trata-se de fazer do pensamento em currículo “um lugar da escuta e dando corpo – no corpo do texto – à experiência última da indestinação do sentido” (Nodari, 2024, p. 27) como a nova (des)ordem do mundo. Finalmente, o movimento deste trabalho se configura como um modo de convocar a fabular junto às teorizações curriculares cuja dimensão quimérica repousa na combinação heterogênea, incongruente de mundos distintos, mundos queers. Essa fabulação, própria do TQ, faz-se por meio de interações teórico-epistêmicas inusitadas que são ativadas pela abertura à especulação de reverberações audíveis e inaudíveis ressoadas desde o encontro na e com a multiversidade cósmica. Um modo mesmo de implicar-se com uma política do sentir-pensar para a qual importa manter-se no sem sentido, sem forma e sem figuras únicas e universais, escutando nesse som silente a intensidade das relacionalidades cósmicas elevadas à máxima potência. Ou, ainda, alude a uma espécie de retomada instigante para nos permitir lidar com a experimentação teórica em currículo implicada em “produzir deslocamentos teóricos comprometidos com desbarbarizar o mundo” (Macedo, 2019, p. 1116), a fim de reimaginar política e esteticamente esse mundo que é nosso por não ser de ninguém. Palavras-chave: silêncio, inoperância, currículo, escuta especulativa, relacionalidades cósmicas. REFERÊNCIAS BARAD, Karen. “On Touching – The Inhuman that Therefore I Am.” Differences: A Journal of Feminist Cultural Studies, v. 23, n. 3, p. 206-223, 2012 BLANCHOT, Maurice. La communauté inavouable. Paris: Les Éditions de Minuit, 2012. BUTLER, Judith. The Force of Non-Violence: an ethical-political bind. New York: Verso Books, 2020. DURAS, Marguerite. La maladie de la mort. Paris : Les Éditions de Minuit, 2010. FOUCAULT, Michael. História da sexualidade II: o uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Graal, 1994. FOUCAULT, Michel. Nascimento da Biopolítica. 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