DIDÁTICA RELACIONAL E JUVENTUDES NO CONTEXTO DA ESCOLA DEMOCRÁTICA: DESAFIOS E POSSIBILIDADES PARA PENSAR A FORMAÇÃO CONTINUADA DOS PROFESSORES DOS ANOS FINAIS Este trabalho apresenta os apontamentos iniciais de uma pesquisa de doutorado, situada na etapa de aprofundamento teórico por meio da revisão de literatura. A pesquisa tem como objetivo geral ampliar o conceito de didática relacional investigando como ela se manifesta no contexto de uma escola democrática e seus desdobramentos para a formação continuada de professores dos anos finais do ensino fundamental. Nesse sentido, busca-se compreender as dinâmicas formativas que emergem no cotidiano escolar, particularmente nas interações entre escola e aluno, conhecimento e aluno, e professor e aluno. Olhar para a formação continuada dos docentes de anos finais do ensino fundamental, que atuam com os adolescentes e jovens nas escolas, justifica-se a partir das análises sobre o contexto atual da educação no Brasil, sobre o qual refletimos que, apesar da Constituição Federal de 1988 garantir acesso ao ensino público, gratuito e de qualidade, os índices de evasão escolar, insucesso e dificuldades na inclusão de grupos étnicos e pessoas com deficiência continuam a crescer (Unicef, 2022). A motivação para esta pesquisa surge destas demandas observadas na educação brasileira e principalmente das dificuldades e conflitos enfrentados pelos professores na busca por atender à diversidade cultural, social e econômica dos alunos. A expansão do ensino fundamental e médio trouxe um maior número de matrículas, mas também gerou conflitos entre os objetivos da escola e as expectativas dos alunos, especialmente aqueles de classes populares. A escola de massas, como descreve Mesquita (2021), não está estruturada para acomodar o perfil dos novos alunos, resultando em desmotivação e desconexão com o ambiente escolar e os jovens, o que exige práticas pedagógicas mais adaptadas e centradas nas necessidades da juventude. Neste sentido pensamos que a formação continuada para esse grupo de docentes precisa centrar foco na escola, uma vez que assim como analisa Dayrell (2007) a escola contribui para a construção da identidade juvenil ao ser um espaço de interações sociais, onde os jovens formam grupos e trocam experiências. No entanto, a escola muitas vezes não reconhece a diversidade dos alunos, limitando sua capacidade de entender e apoiar a construção de identidades. “Parece que assistimos a uma crise da escola na sua relação com a juventude, com professores e jovens se perguntando a que ela se propõe” (p.1106). Assim, vemos a necessidade de ampliar o diálogo e promover ações que motivem os jovens e sensibilizem os professores para essas práticas, pois professores que estabelecem conexões pessoais, que buscam conhecer a realidade do alunado e demonstram empatia criam um ambiente de confiança e engajamento, desenvolvendo estratégias para apoiar o aprendizado de todos (Mesquita, 2021). O recorte na formação continuada dos docentes dos anos finais do ensino fundamental, ressalta a importância de refletir sobre o papel desse educador nesse nível de ensino. Ao se considerar o papel do professor na educação básica, observa-se que ele varia conforme a fase escolar. Na educação infantil e nos anos iniciais, o docente é generalista e acompanha a mesma turma, promovendo um vínculo mais próximo. Já nos anos finais do ensino fundamental, os professores são especialistas e lidam com alunos em transição para a adolescência, enfrentando mudanças complexas em diversas dimensões. A escola democrática parte do reconhecimento da educação como um direito humano e da responsabilidade de formar cidadãos críticos e participativos. Em contraste com o modelo tradicional, influenciado por estruturas hierárquicas e disciplinares, propõe uma organização inclusiva e dialógica, que valoriza a autonomia, a criticidade e o engajamento coletivo na construção do conhecimento (LIMA, 2018). Reconhecemos, então, que uma formação continuada centrada na escola traz diretamente as questões relacionais entre professores e jovens como uma das principais influenciadoras da prática pedagógica, do fazer de professores, partimos então do pressuposto de que a didática relacional perpassa todas as relações escolares — a relação escola-aluno, conhecimento-aluno e professor-aluno — e que, nesse campo de tensões e potencialidades, emerge uma prática pedagógica que coloca o aluno e seu contexto como centro, princípio fundamental da escola democrática. A formação continuada centrada na escola está ainda associada à possibilidade de desenvolvimento profissional docente, permitindo que aprimore seu fazer docente em/para contexto, com o objetivo de ensinar nessa escola tão marcada pela heterogeneidade do corpo discente, o que ajuda a fornecer diretrizes para a construção de uma nova profissionalidade para os professores. Com relação aos procedimentos metodológicos, esta pesquisa se alinha a uma abordagem qualitativa, com foco na análise das interações e percepções de professores. Pretendemos ter como lócus da pesquisa uma escola pública escolhida por critérios teóricos e práticos que evidenciem uma cultura democrática, com ênfase na gestão participativa, valorização do território, protagonismo estudantil e escuta ativa. Serão utilizados como instrumentos metodológicos: observações dos momentos de formação na escola, entrevistas semiestruturadas, análise documental e diário de campo. A análise dos dados seguirá buscando identificar categorias emergentes ligadas às práticas formativas, relações didáticas e à cultura democrática da escola. A pesquisa atualmente está em fase de revisão de literatura, procurando levantar produção sobre o tema e consultando à literatura especializada, buscando uma maior aproximação e familiaridade com o objeto a ser investigado. A revisão busca inserir a pesquisa no diálogo maior e contínuo da literatura, desta forma as pesquisas começaram a partir da base da biblioteca da PUC-RIO, integrada a EBSCO, usando o período de 2019 a 2024 como recorte inicial. Busca-se com este estudo contribuir para o aprofundamento do conceito de didática relacional, conceito que vem sendo desenvolvido nas pesquisas de Mesquita (2016, 2021, 2024) como uma dimensão da didática que compreende o ensino e a aprendizagem a partir da centralidade das relações humanas no contexto escolar. Como destaca Mesquita (2024, apud Tardif e Lessard, 2005), “ensinar é trabalhar com seres humanos, sobre seres humanos, para seres humanos” (p. 31), e isso implica reconhecer que as práticas pedagógicas são atravessadas por afetos, conflitos, resistências e potências. Desta forma Mesquita (2021) assevera que se as dimensões do trabalho docente se ampliam por exigência de seu objeto − a aprendizagem dos jovens de classes populares − é preciso ampliar também as dimensões da didática. A dimensão relacional também faz parte do que Candau (2012) nomeia de Nova Didática, dentro do conceito da Didática Fundamental, baseadas na interação com os alunos, na motivação para aprender e na compreensão da cultura do outro. Alinhados ainda à didática crítica e decolonial de Candau (2023), reconhecendo que a relação pedagógica é também um espaço de disputa de sentidos, de escuta ativa e de reconhecimento da pluralidade de saberes e culturas, vislumbramos a dimensão relacional da didática, como um norte para repensarmos a formação docente, evidenciando-a como um dos caminhos a serem discutidos e pesquisados com o intuito de ampliar o repertório docente para os desafios impostos à profissão. Esperamos concluir o trabalho produzindo conhecimento científico que ampare o fortalecimento da profissionalização docente, nos aponte mais caminhos para a formação, bem como contribua para o fortalecimento da didática como um campo que empodera de profissionalidade à docência à medida que se configura como um conhecimento genuíno do ofício professoral. Deixar o campo da didática enfraquecido, enfraquece a profissionalização docente, uma vez que entendemos que para ensinar não basta apenas saber. Palavras-chave: Didática Relacional, Formação Continuada, Anos Finais. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CANDAU, Vera Maria (org.). Rumo a uma nova didática. 22. ed. Petrópolis: Vozes, 2012. CANDAU, Vera Maria Ferrão. Didática crítica intercultural e decolonial: uma perspectiva em construção. In: LONGAREZI, Andréa Maturano; PIMENTA, Selma Garrido; PUENTES, Roberto Valdés (orgs.). Didática crítica no Brasil. 1. ed. São Paulo: Cortez, 2023. p. 208–232. DAYRELL, Juarez. A escola “faz” as juventudes? Reflexões em torno da socialização juvenil. Educação e Sociedade, Campinas, v. 28, n. 100 – Especial, p. 1105–1128, out. 2007. LIMA, Licínio C. Por que é tão difícil democratizar a gestão da escola pública? Educar em Revista, Curitiba, v. 34, n. 68, p. 15–28, mar./abr. 2018. MESQUITA, Silvana Soares de Araújo. O exercício da docência no ensino médio: a centralidade do papel do professor no trabalho com jovens da periferia. 2016. 286 f. Tese (Doutorado em Educação) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2016. MESQUITA, Silvana Soares de Araújo. Ensinar para quem não quer aprender! Um dos desafios da Didática e da Formação dos Professores. Pro-Posições, Campinas, v. 32, p. 1–25, 2021. MESQUITA, Silvana Soares de Araújo. Profissão docente e competência relacional: implicações de uma profissão marcada pelas relações. Revista Novamérica, Rio de Janeiro, v. 182, n. 30, p. 30–35, abr./jun. 2024. UNICEF. Educação brasileira em 2022 – a voz de adolescentes. 2024a. Disponível em: . Acesso em: 1 dez. 2024.