O presente texto nasce de reflexões e diálogos vivenciados no cotidiano de uma escola pública de educação básica, no município de São Gonçalo/Rio de janeiro. Experiências entre professoras e estudantes no diálogo com a literatura infantil que nos provocam a pensar que se a educação não se compromete com os propósitos da educação libertadora, reforça os mecanismos de reprodução da classe social dominante, não respeita e nem valoriza as diferenças e as identidades dos diversos sujeitos que constituem a população brasileira. Coadunamos nossa prática pedagógica, considerando que sem discência, não há docência, por isso, apesar de termos uma grande diversidade de referenciais teóricos no campo do multiculturalismo e da Teoria Crítica, ainda encontramos pontos de divergências e convergência para debater em nossas pesquisas. Os resultados desses estudos demonstram que as contribuições de Paulo Freire e Hamilton Krenak, assinalam a emergência dessa discussão em tempos de avanço da agenda do neoconservadorismo em todo mundo, nos quais a transitoriedade ganha centralidade, mesmo diante da objetividade e da opressão. Partindo disso, compreendemos que para romper com um modelo de escola que ainda aprisiona os sujeitos oprimidos e violentados socialmente são necessárias reflexões com os processos de aprendizagens de modo a trazer para o debate temas que contribuam para o empoderamento do brasileiro com a cultura dos seus povos. O ato de esperançar como um agir político necessário para o bem-viver. Palavras-chave: Diálogo. Diferenças. Desigualdade. Multiculturalismo. Libertação. Bem-viver Introdução O objetivo deste texto é trazer para o debate o diálogo com os conceitos de esperançar (Freire, 1967) e bem-viver (Krenak, 2020) no entendimento que ambos defendem pensar criticamente o modo desigual que se constitui a sociedade atual. Os estudos de Krenak no que se refere ao bem-viver como um modo político de manter um equilíbrio entre o que podemos obter da vida, da natureza e o que podemos devolver se assemelha aos estudos de Freire quando nos convoca a esperançar para libertar-se do modo de exploração. Despertar a consciência crítica para as injustiças sociais é o que defendem os dois autores, porque percebem que é movimento de luta tomar uma posição clara e corajosa sobre o contexto social e político que explora de forma irresponsável sem se preocupar com proteção da vida das pessoas e do planeta. A nosso ver, algumas das tensões problematizadas pelo marxismo e posteriormente, pela Teoria Crítica, a saber, desigualdades e exploração perdem centralidade em alguns debates atuais, principalmente quando se põe em evidência a cultura, a identidade e outros temas relacionados à diversidade e ao multiculturalismo. Ainda que, as discussões no que se referem as desigualdades e diferenças contribuam estruturando relações, parece-nos que essas discussões aprofundam as contradições inerentes à estrutura do capitalismo. Elegemos para este texto algumas experiências vivenciadas na relação entre docentes e estudantes que nos convidam a pensar o debate entre o multiculturalismo e os conceitos esperançar (Freire, 1967) e bem-viver (Krenak, 1967), por reconhecermos a relevância do tema na atualidade. Reflexões que nos convidam a pensar de modos outros O início do século XXI emergiu para o debate nacional questões relacionadas ao multiculturalismo. Destacamos em nossas pesquisas, uma vertente crítica do multiculturalismo, que lança um olhar desestabilizador para práticas e discursos que se alimentam de exclusões e subalternizações, porque evidencia a relação opressor – oprimido, trazendo à tona a desigualdade material que tange as identidades não valorizadas. Uma questão central no multiculturalismo crítico, tal como anunciam Canen (2007) e Mc Laren (2001) é sua condição questionadora das relações assimétricas que tangem a sociedade. Como metodologia elegemos a escuta dos docentes e estudantes em diálogos com a literatura infantil – histórias como: “Os cabelos de Lindu (Geni lima) e Kabpa Darebu (Daniel Munduruku) que trazem de modo acessível às crianças e jovens temáticas importantes que precisam ocupar a centralidade do debate na escola. Trazer temas como a diferença, desigualdade, opressão e libertação são fundamentais para contribuir para que as crianças desde muito cedo reconheçam modos de resistir contra os modos de dominação que parecem estar postos, mas que na verdade precisam de ecos para uma mudança de modos de ver e viver no mundo. No debate com esses sujeitos (docentes e estudantes) buscamos atrelar as categorias desigualdades e diferenças. Abordamos algumas questões levantadas pelo multiculturalismo, sem, contudo, abdicar da estrutura social econômica, no entendimento que a desvalorização das identidades se associa também às questões econômicas, porque em se tratando de países latinos americanos, enfrentamos nitidamente contextos marcados pelas relações de opressão. “A opressão, que é um controle esmagador, é necrófila. Nutre-se do amor à morte e não do amor à vida” (FREIRE, 1987, p. 65) e a ecologia dos saberes, como aposta para “empurrar o céu para cima” e “adiar o fim do mundo (krenak, 2019). Discutimos a perspectiva multicultural questionando o lugar da cultura e da desigualdade no campo social, cultural e econômico. A opção pelo multiculturalismo, ou seja, pelas questões culturais e identitárias não se desvincula das relações de classes e poder instituídos e legitimados pelas contradições do capitalismo, por isso, priorizamos no referencial a tendência crítica do multiculturalismo salientada tanto por Canen (2007, 2009 e 2012) e McLaren (2001). Nosso debate tem como interlocutores Freire (1987, 1997 e 2001) e Krenak (2019,2020). O multiculturalismo é um modo importante de luta pelos direitos dos grupos dominados, excluídos por conta de não pertence a uma cultura e classe social considerada superior. Os estudos freirianos e os estudos indígenas conseguem trazem a mesma discussão levantada pelos estudos do multiculturalismo dando relevância social e política a escuta das narrativas dos sujeitos comuns, pois percebem que somente quem vive o lugar da opressão pode contar sobre a experiência de viver neste lugar. Como adotamos a tendência crítica do multiculturalismo, trazemos à baila, as contribuições da Escola de Frankfurt, priorizando sempre o diálogo que denuncia as tramas de uma sociedade injusta e opressora. No diálogo com o multiculturalismo crítico, além de compreendermos as questões culturais, também, problematizamos a estrutura social desigual e as relações opressoras, tais como, Freire ressalta em suas incansáveis problematizações acerca da educação libertadora. Não muito diferente McLaren aborda o multiculturalismo vinculado às questões macro da relação social de exploração capitalista. Com sua origem na escola de Frankfurt, a teoria crítica reivindica espaços para vozes silenciadas, denunciando as mazelas características do capitalismo e preconizando a construção da sociedade alicerçada na justiça social, hibridização e identidades culturais. As tensões acerca do tema redistribuição e reconhecimento apresentados neste trabalho, a nosso ver, encontram eco nas proposições de Freire, quando anuncia as especificidades das identidades e denuncia as atrocidades mantidas e perpetuadas pelas relações desiguais sejam no plano econômico e no político. No que diz respeito à nossa tese sobre a perspectiva do reconhecimento das ideias freirianas, ressaltamos sua proposta de compreender mulheres e homens como sujeito histórico e político, que antes da leitura da palavra, possuem leitura de mundo. Além disso, incorpora em boa parte de suas proposições a necessidade de reconhecimento, tanto por parte dos oprimidos, como dos opressores. Assim como os estudos freirianos percebemos que a libertação será alcançada, dentre outras ações, pelo reconhecimento das condições violentas e indignas. “Inauguram a violência os que oprimem, os que exploram, os que não se reconhecem nos outros; não os oprimidos, os explorados, os que não são reconhecidos pelos que oprimem como outro” (FREIRE, 1987, p. 42). E pela insistência do exercício de esperançar, exercício proposto pelo próprio Freire (1992), no sentido de ir atrás, construir, esperançar, não desistir. Entendemos que, esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo…”. A desigualdade social, cultural e econômica é um marcador identitário do nosso país, presente desde o início da história conhecida como descobrimento. Carregamos marcas de violência, exploração e massacre contra índios e negros e outros grupos minoritários. As diferenças culturais tornaram-se sinônimo de inferioridade, pretexto que impulsionou e legitimou a escravidão e a dominação efetivada pelos europeus que sufocaram um grande contingente populacional. O excluído, majoritariamente negro e mestiço, é estigmatizado como perigoso e inferior e perseguido não mais pelo capitão do mato, mas, sim, pelas viaturas de polícia com licença para matar pobre e preto. Sendo reservado os territórios marcados por áreas devastadas, ausência de água potável e saneamento básico. A vida é ameaçada pelo ambiente inóspito, ora pelo racimo ambiental, ora pelo racismo estrutural. Obviamente, não é a polícia a fonte de violência, mas as classes média e alta que apoiam a conduta pública de violência utilizada pela polícia para higienizar as cidades, calar e causar o medo no oprimido. E essa continuação da escravidão por outros meios se utilizou e se utiliza da mesma perseguição e da mesma opressão cotidiana e selvagem para quebrar a resistência e a dignidade dos excluídos (Souza, 2019). Em função, do diálogo, proposto por Freire, propormos nesse estudo, estabelecer interlocução com outros autores que reconhecem as relações de opressão. Para krenak (2007), o bem-viver é um chamamento para ações e reações coletivas em prol do bem comum, em oposição ao ideário colonial. É “a difícil experiência de manter um equilíbrio entre o que nós podemos obter da vida, da natureza, e o que nós podemos devolver” (Ailton Krenak, 2020, p. 9). [...] a ecologia dos saberes deveria também integrar nossa experiência cotidiana, inspirar nossas escolhas sobre o lugar em que queremos viver, nossa experiência como comunidade. Precisamos ser críticos a essa ideia plasmada de humanidade homogênea na qual há muito tempo o consumo tomou o lugar daquilo que antes era cidadania (p. 12). O bem-Viver e o esperançar como movimentos necessários capazes de modificar o cenário opressor que ainda vivem muitos dos que ainda desconhecem a força da luta da educação popular e dos movimentos populares em defesa de uma formação humanizada que tem como princípios a reflexão, a ação e a libertação. Reconhecer as marcas históricas da opressão e pensar novos modos de libertação são debates importantes que precisam habitar a escola pois reconhece que crianças e jovens vivenciam situações de discriminação e violências desde muito cedo e são capazes de pensar a criticamente a respeito do tema. Neste sentido, criar modos de compreensão e resistência são fundamentais para buscar romper com o racismo contra os povos negros e indígenas não apenas do nosso país, mas também no cenário global, pois contribui para uma sociedade menos desigual. Para não concluir Sem a intenção de fechar conceitos ou encerrar a discussão a respeito do tema trazemos para o debate o conceito de multiculturalismo em consonância com as ideias de Freire (1967) e Krenak (2020) no que tange a luta por uma educação que reconhece o bem-viver e o esperançar como modos de resistência. Reconhecemos a importância de trazer para o debate acadêmico alguns resultados vivenciados na escola em diálogo com estudantes e docentes na compreensão que este debate é necessário para romper com marcas opressoras que ainda assolam a nossa sociedade. Entendemos que a escola é um espaço importante de luta, porque nela habitam uma diversidade de crianças e jovens pertencentes a diferentes contextos sociais. Reconhecemos que muitos sujeitos por enfrentarem cotidianamente situações marcadas pela ausência do Estado, acabam produzindo identidades marginalizadas, sem se darem conta que reforçam e praticam racismo e violência contra a si mesmo. Pautas que ganham visibilidade no cotidiano escolar podem ecoar para outros espaços, inclusive nos lugares onde muitos indivíduos ainda encontram dificuldades para entoar sua voz, para impor suas diferenças como marca identitária e não como produto hierarquizado da cultura etnocêntrica, tal como ressaltou Freire quando se referiu a violência opressora que silencia e impede o diálogo. Fundamentadas na ideia do inacabamento que tange nossa identidade enquanto sujeitos humanos e sociais, compreendemos que este trabalho ainda em fase inicial representado pela afinidade teórica e pelos diálogos constantes tanto com docentes como com discentes, ainda tem muito o que avançar, para o futuro, é nosso interesse investigar os impactos da relação dialógica na formação e na vida dos estudantes de Pedagogia. Referências CANEN, Alberto G e CANEN, Ana. Rompendo fronteiras curriculares: o multiculturalismo na educação e outros campos do saber. 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