COTIDIANOS DA MANOSPHERE NAS REDES SOCIAIS

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Resumo
COTIDIANOS DA MANOSPHERE NAS REDES SOCIAIS Introdução A cultura misógina nas redes sociais propagada por grupos masculinistas tem se apresentado cada vez evidente na sociedade contemporânea, a exemplo da série da Netflix “Adolescência” de Jack Thorne e Stephen Graham, exibida em 2025, que escancara os modos de atuação da manosphere dentro dos ambientes virtuais. O ambiente digital oferece possibilidades de expressão e diálogo com diferentes sujeitos, principalmente com o advento dos smartphones, que possibilitaram acesso rápido e remoto (Fachini, 2017). garantindo a sobrevivência e massificação de redes de sociabilidades voltadas para discussões e transmissão de informações, independentemente da veracidade das informações compartilhadas (Bruzzone, 2024). Nesse cenário, temos a manosphere, um conglomerado de grupos masculinistas que buscam dialogar constantemente sobre as relações de gênero, sendo declaradamente antifeministas, questionando assim o papel do homem e da mulher em sociedade. Esses grupos propiciam nas redes sociais ataques virulentos e misoginós contra as mulheres e outros grupos minoritários que não estão em conformidade com o discurso masculinista (Ging, 2018; Bravo-Vilasante, 2024). Surgindo através do advento da Web 2.0, dentro da blogósfera e do blogspot, a manosphere criou um espaço de acolhimento masculinista, com gírias, memes e diálogos, quase sempre em prol da defesa do homem, estabelecendo um cotidiano cyber antissistêmico e reacionário, tendo nas redes sociais X (antigo Twitter) e Reddit seu maior ponto de encontro (Ging, 2018; Vilaça; D’Andréa, 2021). Partindo desse panorama, essa pesquisa tem como um de seus objetivos analisar o fenômeno transnacional da manosphere no contexto das chamadas guerras culturais online no Brasil, com base em páginas encontradas nas redes sociais Facebook, X e Reddit. Fundamentação Teórica A manosphere, ou esfera masculina, é um conjunto de comunidades online que se concentram em questões relacionadas aos homens, masculinidade e relações de poder. Através dos estudos de Ging, (2018) e Bravo-Vilasante, (2024) percebemos que a manosphere possuí diferentes naturezas entre os movimentos que a compõem, sendo ele: Ativistas pelos Direitos dos Homens, Incels, RedPill, Men Going Their Own Way e entre outros. Essa diversidade de comunidades reflete a complexidade desses movimentos, e suas estratégias de massificação entre os homens, de modo a construir diferentes espaços de discussão, porém com a finalidade de exaltação da masculinidade e daquilo que Silva, Ferreira e Caetano (2022) chamam a atenção para os valores e moralidade da família cisheteropatriarcal. As mudanças culturais e políticas têm influenciado profundamente o ressurgimento e a evolução da manosphere (Thisoteine, et al, 2021). Um aspecto-chave dessas mudanças é o desafio às normas de gênero tradicionais e as diferentes crises da masculinidade, que está ligado diretamente as contradições de um sistema falho ao produzir discursos que não se apresentam nas relações cotidianas. Essa mudança tem gerado reações de resistência por parte de grupos que defendem uma visão mais conservadora da masculinidade e dos papéis de gênero tradicionais. A ascensão do populismo e do nacionalismo de direita tem sido uma tendência observada em muitos países. Esses movimentos políticos frequentemente adotam uma retórica antifeminista e retrógrado de gênero, o que também tem alimentado discursos associados à manosphere (Thisoteine et al, 2021). A propagação das mídias sociais e da tecnologia da informação também desempenhado um papel fundamental, facilitando a formação de comunidades online e permitindo que os grupos que sustenta a manosphere se conectem, compartilhem discursos e ampliem suas influências, tendo como premissa o “outro” como algo que deve ser atacado e combatido. Nesse contexto, os escritos de Certeau (2019) oferecem um importante instrumento para a compreensão dos processos de construção institucionalizada do "outro" – figura que ocupa um lugar estratégico e central nas dinâmicas de poder, sobretudo nas manifestações contemporâneas do masculinismo presente na manosphere. Esse "outro" é produzido discursivamente como ameaça, um inimigo que precisa ser combatido, controlado ou eliminado. Trata-se de um “outro” que não é fixo, mas que adquire diferentes contornos conforme os interesses e medos daqueles que o constroem simbolicamente. A partir dessa perspectiva, o "outro" emerge como tudo aquilo que escapa à lógica do controle e da previsibilidade — é o estrangeiro, o diferente, o marginalizado, o imigrante, o que desestabiliza as certezas consolidadas. A mulher é vista como uma ameaça para o homem em uma sociedade cisheteropatriarcal; as dissidências criam rupturas em um sistema que nega e exclui totalmente suas existências, quebrando o sistema cisheteropatriarcal assim como foi pensado, possibilitando o que a manosphere compreende como a minimização do homem, cis, hetero, cristão e branco em sociedade. Como destacam Ferraço, Soares e Alves (2017), trata-se de um campo de alteridade radical, um território de diferença que, por não se submeter às normas estabelecidas, provoca inquietação, medo e hostilidade por parte dos grupos que se veem ameaçados na sua posição de poder. Nesse sentido, a manosphere opera por meio de uma lógica de antagonismo e exclusão: ao invés de reconhecer a diferença como potência criadora, busca enquadrá-la como desvio, anomalia ou perigo que deve ser constantemente combatido (Bravo-Vilasante, 2024). O "outro" é, na verdade, o que abre fissuras no mundo instituído e cria brechas para o surgimento do novo, porém o novo para a manosphere é algo inaceitável que deve ser constantemente combatido. Metodologia Para compreender os cotidianos tecidos nas redes de sociabilidades pertencentes a manosphere, utilizaremos os Estudos das Pedagogias Culturais Visuais como método de análise dos dados que serão produzidos nessas redes sociais. Em outras palavras, buscamos compreender, por meio da observação cotidiana das visualidades produzidas pelos membros dessas comunidades, as formas de expressão das masculinidades, a construção do "outro" e as estratégias de mobilização social utilizadas pelo movimento. Resultados e Discussões Parciais A manosphere, em seus diferentes contextos, apropria-se das dinâmicas digitais contemporâneas como dispositivo central para a disseminação de discursos voltados para a masculinidade hegemônica. Connell (1995) conceitua a masculinidade hegemônica como um modelo de ser homem baseado em força, domínio, controle e rejeição/oposição de tudo aquilo que é percebido como feminino ou frágil. Contudo, como aponta Connell, esse padrão é sempre uma construção social e histórica, vulnerável a transformações e resistências. Ao se apropriarem dos discursos proclamados na manosphere, os homens em suas redes sociais, aos mesmo tempo que buscam atacar o gênero feminino, também reivindicam a restauração de um suposto “passado glorioso” do masculino, afirmando assim valores cisheteropatriarcais, mas, sobretudo, construindo um campo simbólico cultural, reforçado assim uma suposta guerra cultural entre os gêneros, como ilustra a figura 01, onde se observa uma representação de confronto entre valores tradicionais e contemporâneos relacionados às questões de gênero. FONTE:https://www.facebook.com/photo.php?fbid=124418549686891&id=100927192036… Nesse cenário, membros pertencentes à manosphere, ao mesmo tempo que buscam criar supostas verdades sobre as mudanças sociais, criam todo um arsenal cotidiano em rede para se comunicar e registrar suas presenças produzindo assim o que Nolasco-Silva e Maddalena (2022) chama como datificação, ou seja, um corpo de dados que desenha um perfil de consumidor a partir dos algoritmos que são consumidos em tela. Um exemplo significativo desse processo de datificação é o uso do símbolo da pílula vermelha, que se tornou um dos maiores exponentes visuais do movimento. Em sua representação, a pílula vermelha, extraída do filme Matrix, faz alusão ao homem que supostamente se libertou para as “verdades” das questões de gênero, considerando-se assim um adepto ao movimento RedPill. Desse modo, o que aparenta ser um espaço de contestação e liberdade torna-se, paradoxalmente, um território de vigilância e reprodução de consumo, em que os próprios discursos de reacionários convertem em mercadoria e material de controle algorítmico. REFERÊNCIAS BRAVO-VILLASANTE, M. Á. Machosfera, discursos de odio y algoritmización de la esfera pública. Teknokultura: Revista de Cultura Digital y Movimientos Sociales, v. 21, n. 1, p. 69-77, 2024. BRUZZONE, A. Ciberpopulismo: política e Democracia no Mundo Digital. Editora contexto, São Paulo, 2021. CERTEAU, M. A invenção do cotidiano: 1.Artes de fazer. 15. ed. Petrópolis: Vozes, 2018. CONNELL, R. Masculinidades. Tradução de Sérgio Goes de Paula. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995 FACHINI, M. P. et al. Internet das coisas: uma breve revisão bibliográfica. Conexões-Ciência e Tecnologia, v. 6, pág. 85-90, 2017. FERRAÇO, C. E.; SOARES, M. C. S.; ALVES, N. Michel de Certeau e as pesquisas nos/dos/com os cotidianos em educação no Brasil. Pedagogia y saberes, n. 46, p. 7-17, 2017. GING, D. “Special Issue on Online Misogyny”. Feminist Media Studies 18:515–24, 2018. NOLASCO-SILVA, L.; MADDALENA, T. L. O Corpo, a Tela e a Produção de Presença na EaD. EaD em Foco, v. 12, n. 3, p. e1915-e1915, 2022. SILVA, J.; FERRARI, A.; CAETANO, M. Masculinismo, neoconservadorismo e pedagogias culturais: investimentos em tradições, essencializações e naturalizações. Currículo sem Fronteiras, v. 22, e2189, 2022 THISOTEINE, G. M. et al. Homens, violência e consumismo: Análise da masculinidade nos grupos virtuais MGTOW e do filme “clube da luta. Diversidade e Educação, v. 9, n. 1, p. 540-562, 2021; VILAÇA, G.; D'ANDRÉA, C. Da manosphere à machosfera: Práticas (sub) culturais masculinistas em plataformas anonimizadas. Revista Eco-Pós, v. 24, n. 2, p. 410-440, 2021.

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