CADERNO DE ESCREVIVÊNCIAS COMO TECNOLOGIA FORMATIVA DE GESTORAS ESCOLARES E PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADES ANTIRRACISTAS E DECOLONIAIS

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Resumo
CADERNO DE ESCREVIVÊNCIAS COMO TECNOLOGIA FORMATIVA DE GESTORAS ESCOLARES E PRODUÇÃO DE SUBJETIVIDADES ANTIRRACISTAS E DECOLONIAIS Esta pesquisa, desenvolvida no âmbito de um Doutorado Profissional em Educação, investiga o potencial formativo da escrevivência na constituição de subjetividades antirracistas e decoloniais de gestoras escolares. O estudo parte da experiência anterior da pesquisadora, mulher negra, durante seu Mestrado Profissional, em que coordenou uma proposta de revisão curricular em uma escola de elite branca na cidade de São Paulo, à luz da Lei 10.639/2003. Como resultado, foi produzido o “Caderno de Escrevivências Antirracistas e Decoloniais”, que agora será utilizado como ferramenta metodológica em percursos formativos com diretoras escolares da rede pública de um município do ABC Paulista. A relevância e a originalidade deste estudo se intensificam ao considerarmos dados recentes do BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento (2024), que revelam as disparidades raciais e de gênero na educação brasileira: embora 82% dos docentes sejam mulheres, apenas 62% das lideranças escolares são do sexo feminino. No Sudeste, 55% das diretoras escolares são brancas, 25% pardas e apenas 5% pretas. Tais números revelam uma sub-representação alarmante de mulheres negras nos espaços de poder educativo. Ao voltar-se à formação de gestoras predominantemente brancas, esta pesquisa propõe o enfrentamento direto das assimetrias históricas que atravessam a escola pública brasileira. A escrevivência, conceito cunhado por Conceição Evaristo, é aqui compreendida como uma tecnologia formativa capaz de articular narrativas individuais e coletivas no processo de produção de subjetividades. Para a intelectual Conceição Evaristo a potência da escrita de si/nós, as escrevivências, produz atravessamentos nos sujeitos que escrevem e que leem. Esses atravessamentos se constituem como movimentos de inventar e produzir subjetividades antirracistas e decoloniais. Escrevivência, em sua concepção inicial, se realiza como um ato de escrita das mulheres negras, como uma ação que pretende borrar, desfazer uma imagem do passado, em que o corpo-voz de mulheres negras escravizadas tinha sua potência de emissão também sob o controle dos escravocratas, homens, mulheres e até crianças. E se ontem nem a voz pertencia às mulheres escravizadas, hoje a letra, a escrita, nos pertencem também (Evaristo, 2020, p. 30). O conceito de escrevivência permite que cada um(uma) adote "o lugar de enunciação de um eu coletivo", evocando, por meio de suas narrativas pessoais, a história de um "nós" compartilhado, conforme mencionado por Soares e Machado (2017). Nesta pesquisa, a “escrevivência” é entendida como uma tecnologia de narrar experiências coletivas que entrelaçam a vida e as vivências de uma comunidade provisória de aprendizagem. Uma das etapas deste estudo consistiu no planejamento e atuação de uma trilha formativa de educadores e educadoras que atuaram como mediadores de leitura na Feira Internacional Literária de Paraty (FLIP) em 2024. Essa experiência mostrou que a escrita, atravessada por vivências raciais, opera deslocamentos subjetivos capazes de mobilizar os sujeitos a produzirem elaborações sobre outras formas de ser, agir e conhecer. Nessa trilha formativa, tanto os (as) participantes quanto a própria pesquisadora, foram atravessados por histórias individuais que se cruzam e se conectam com a memória coletiva. Minha relação com a escrita sempre foi muito conturbada, desde criança elogiada pela clareza de ideias, mas que ficava na dúvida se usava "s", "ss" ou "ç". O ditados, provas e redações sempre foram uma tortura com requinte de crueldade quando ouvia que não poderia sair por estar fingindo passar mal, com o tempo fui criando forma de não me encontrar com escrita livre, tendo sempre formatos prontos para seguir. O curso trouxe à tona esse conflito, sepultado a algum tempo. Sou apaixonada por livros, mesmo sabendo que ainda leio pouco, gosto da forma que nos leva a outros lugares, mas sempre fugi da escrita. Ver Conceição falar que escrever é a mistura do personagem com o autor, que o confluir da vida deve ser registrado, que se deve escreve para não morrer, reativou dúvidas. Não sei, mas naquele dia senti algo sangrando que me levou a pensar em como quebrar essa muralha. Minha cabeça queima por não saber como fazer...Deixa para depois... continua sendo uma frase que ecoa minha cabeça. (Ana, mulher negra, educadora, moradora de Paraty) A experiência relatada foi delineada pela intersecção entre teoria, prática e corporeidade, considerando os marcadores sociais de raça, gênero e classe. É nesse sentido que o Caderno de Escrevivências se configura como uma tecnologia (ou metodologia) potente de (trans)formação de subjetividades na perspectiva decolonial e antirracista. Meyer e Paraíso (2012), entre outros autores, também contribuem para inventar percursos metodológicos que rompem com padrões hegemônicos de pesquisa e formas de produzir conhecimento. Ademais os estudos culturais de gênero, étnicos e raciais aplicados ao campo da educação fundamentados na perspectiva pós-crítica (pós-estruturalismo, pós-colonialismo, pós-feminismo, etc) contribuem para tensionar os conceitos com os quais a ciência tradicional eurocêntrica costuma operar, dentre eles, as noções de sujeito, linguagem, verdade e poder. Sendo assim tais estudos também subsidiam e inspiram a escolha dos percursos e ferramentas teórico- metodológicas de produção e análise do corpus desta pesquisa em construção. Do ponto de vista teórico, o Caderno de Escrivivências se vale das contribuições de hooks (2021), Freire (2006), entre outros autores pós-coloniais e alinhados à filosofia Ubuntu. Autores como Gordon (2018), Ramose (2002), Dju e Muraro (2022) e Nogueira (2011) veem na filosofia Ubuntu uma ética e um modo de vida que instauram um outro senso de coletividade e experiência de comunidade que confrontam o modelo hegemônico ocidental de convivência social. Assim, a pesquisa reafirma a escrevivência como ferramenta de escuta, reconhecimento e transformação. Ao provocar gestoras escolares a revisitarem suas trajetórias sob a lente da racialidade, o estudo tem a intenção de contribuir para o tensionamento de lógicas de poder que ainda marcam as instituições educacionais. A proposta visa não apenas à formação individual, mas à possibilidade de gestar coletivamente uma escola democrática e antirracista para todos. O que se espera é que, no âmbito de suas escolas, gestoras “escriviventes” possam cocriar novas comunidades provisórias de aprendizagem, orientadas por práticas epistemológicas e de convivência emancipatórias, inclusivas e plurais. REFERÊNCIAS BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento. Diversidade e lacunas de representação na força de trabalho escolar da América Latina e do Caribe. Nota Técnica, 2024. Gregory Elacqua, Graciela Pérez-Núñez, Erika Abarca, Luciana Etcheverry. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/media/nota-tecnica-diversidade.pdf BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática "História e Cultura Afro-Brasileira". DJU, Antonio Oliveira; MURARO, Darcísio Natal. Ubuntu como modo de vida: contribuição da filosofia africana para pensar a democracia. Trans/Form/Ação, Marília, SP, v. 45, n. Special Issue 1, p. 239–264, 2022. DOI: 10.1590/0101-3173.2022.v45esp.13.p239. Disponível em: https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/transformacao/article/view/….. Acesso em: 6 abr. 2025. EVARISTO, Conceição. A escrevivência e seus subtextos. In: DUARTE, C. L.; NUNES, I. R. (Orgs.). Escrevivência: a escrita de nós. Reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo. Rio de Janeiro: Mina Comunicação e Arte, 2020. FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 29. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2006. GORDON, Lewis. Black Issues in Philosophy: The African Decolonial Thought of Oyèrónkẹ́Oyěwùmí. Blog of the APA (American Philosophical Association), 2018. Disponível em: https://blog.apaonline.org/2018/03/23/black-issues-in-philosophy-the-af…. hooks, bell. Ensinando comunidade: uma pedagogia da esperança. Trad. Kenia Cardoso. São Paulo: Elefante, 2021. MEYER, Dagmar Estermann; PARAÍSO, Marlucy Alves (Orgs.). Metodologias de pesquisa pós-críticas em educação. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2012. NOGUEIRA, Renato. Ubuntu como Modo de Existir: Elementos gerais para uma ética afroperspectivista. Revista da ABPN • v. 3, n. 6 • nov. 2011 – fev. 2012 • p. 147-150. RAMOSE, Mogobe. The ethics of ubuntu. In: COETZEE, Peter H.; ROUX, Abraham P.J. (eds). The African Philosophy Reader. New York: Routledge, 2002, p. 324-330. SOARES, Lissandra Vieira; MACHADO, Paula Sandrine. "Escrevivências" como ferramenta metodológica na produção de conhecimento em Psicologia Social. Rev. psicol. polít., São Paulo , v. 17, n. 39, p. 203-219, ago. 2017.

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