AUTISMO(S): DISCURSOS, INTERSECCIONALIDADES E INCLUSÃO ESCOLAR

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Resumo
AUTISMO(S): DISCURSOS, INTERSECCIONALIDADES E INCLUSÃO ESCOLAR Introdução O autismo é um fenômeno, discursiva e historicamente construído, regulado por instituições como medicina, psicologia e educação, refletindo lutas por reconhecimento social. Nas últimas décadas, sua compreensão tem se situado, hegemonicamente, enquanto transtorno do neurodesenvolvimento, mas tem emergido também enquanto construção identitária, conceito ressignificado no paradigma da neurodiversidade. O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é legalmente reconhecido como uma deficiência, sendo a pessoa com autismo(s) fonte de direitos e políticas inclusivas. Considerando que a deficiência é performada dentro de um sistema colonizador que impõe padrões normativos e exclui pessoas com deficiência, destacamos que as abordagens sobre o tema variam conforme diferentes modelos teórico-metodológicos, que divergem em relação às causas, características e intervenções. Nesse sentido, indagamos: como temos construído nossas representações sobre o autismo(s)? Quais as implicações destas nas nossas ações no contexto da inclusão escolar? Para problematizar tais questões, dialogaremos com a malha teórica de Bakhtin (2006) e Foucault (2002), bem como as reflexões de Akotirene (2019), Kergoat (2010) e Orrú (2017), dentre outros/as. Destarte, o presente texto ensaístico objetiva problematizar os discursos sobre o autismo, considerando as contribuições das perspectivas decoloniais e interseccionais, para pensar o(s) autismo(s) enquanto condição humana e construção identitária. Portanto, é imprescindível questionar continuamente nossas práticas discursivas e considerar como elas impactam a subjetividade dos sujeitos com autismo(s) e o modo como são incluídos — ou excluídos — em diferentes esferas da vida social, com ênfase na inclusão escolar. A (des)construção do Autismo: narrativas coloniais, possibilidades decoloniais O autismo é um tema que vem sendo abordado a partir de diferentes narrativas, configurando-se como campo de disputas de poder, já foi conhecido na literatura médica como esquizofrenia infantil, transtorno autístico, autismo da infância, autismo infantil e autismo infantil precoce. Atualmente, no modelo biomédico (DSM-V), é classificado como Transtorno do Espectro Autista (APA, 2014), reconhecendo sua manifestação heterogênea, com uma classificação em níveis de suporte, que refletem práticas discursivas que determinam quais existências são consideradas aceitáveis ou passíveis de intervenção. O modelo biomédico, patologiza o autismo, reduzindo-o a sintomas a serem corrigidos, foca em déficits em relação à norma neurotípica e perpetua o capacitismo. Tendo em vista que o diagnóstico funciona como biopoder, padronizando pessoas e promovendo exclusão social e pedagógica por meio de práticas normatizadoras, tal representação aliada ao capitalismo que valoriza eficiência e produtividade, marginaliza pessoas com autismo e desconsidera suas contribuições únicas, com profundos impactos negativos nas suas vidas e de suas famílias (Foucault, 2002; Orrú, 2017). Por outro lado, desafiando o modelo biomédico, o modelo social concebe a deficiência como construção resultando de barreiras sociais, e não como um problema individual. No contexto dos Estudos Críticos do autismo, o movimento da neurodiversidade defende o reconhecimento do(s) autismo(s) como uma diferença legítima, não uma patologia a ser curada (Ortega, 2008). Dessa maneira, defendemos que o(s) autismo(s) é um tema que merece ser problematizado na perspectiva da decolonialidade, pois a colonialidade, é um padrão de poder que perpetua hierarquias raciais, econômicas e culturais, mesmo após o fim do colonialismo formal. Esse sistema privilegia conhecimentos eurocêntricos, marginalizando saberes e modos de existência não ocidentais. Já a decolonialidade, busca combater essa lógica, valorizando epistemologias excluídas e propondo alternativas que reconheçam a diversidade de experiências e conhecimentos marginalizados. No contexto educacional, artístico e jurídico, a decolonialidade desafia estruturas que continuam a reproduzir desigualdades e exclusões, promovendo formas de resistência e reexistência (Mignolo, 2017). A decolonização do(s) autismo(s) defende o protagonismo dos autistas na construção de suas próprias narrativas, enfrentando práticas capacitistas e promovendo inclusão escolar que valorize as diferenças e direitos (Nicolau; Assis, 2023). Além disso, a articulação com pressupostos interseccionais possibilita outras compreensões sobre as experiências de pessoas com autismo(s). Autismo, pela lente da interseccionalidade: Autismo(s) A interseccionalidade é uma prática política, teórica e metodológica que revela como sistemas de opressão – racismo, capitalismo e cisheteropatriarcado – se entrelaçam, gerando exclusões específicas que precisam ser consideradas para uma inclusão democrática. Essa abordagem denuncia o epistemicídio e reivindica saberes marginalizados, reposicionando grupos subalternizados como sujeitos plenos, desafiando paradigmas universalistas (Akotirene, 2019). No Brasil, raça, gênero e classe não podem ser analisados isoladamente, pois práticas discriminatórias recaem desproporcionalmente sobre corpos negros e periféricos. Reconhecer a interseccionalidade como um direito é essencial para enfrentar desigualdades estruturais e garantir cidadania plena e democrática. Embora a Constituição de 1988 assegure igualdade formal, a falta de uma abordagem interseccional impede o enfrentamento adequado dessas desigualdades. Nesse contexto, a coextensividade das relações sociais oferece um quadro teórico fundamental para compreender a interseccionalidade nos estudos sobre autismo(s), em que as relações sociais não podem ser analisadas de maneira isolada, pois elas se entrecruzam de forma dinâmica e complexa, influenciando-se mutuamente e produzindo efeitos recíprocos. Ao invés de simplesmente somar marcadores sociais distintos, essas relações se estruturam e se transformam simultaneamente, criando hierarquias e contradições que impactam o diagnóstico, o acesso a serviços e as oportunidades de inclusão das pessoas com autismo(s) em diferentes contextos sociais (Kergoat, 2010). Essas relações sociais não são estáticas, mas sim arenas de disputa e transformação, o que sugere que os estudos sobre autismo(s) devem avançar para incluir perspectivas interseccionais mais amplas. A interseccionalidade, quando aplicada a esse campo, pode revelar padrões de exclusão anteriormente negligenciados, como a sub-representação de mulheres negras com autismo(s) na literatura científica e na formulação de políticas públicas. Dessa forma, ao reconhecer a coextensividade das relações sociais, os estudos críticos sobre autismo(s) podem ampliar sua capacidade de compreender as múltiplas formas de opressão e propor intervenções mais inclusivas. A falta de abordagem interseccional nos estudos de neurodiversidade é criticada por Nair, Farah e Boveda (2024), que afirmam estar restrita a gênero e neurodivergência, ignorando raça e classe. Ademais, sugerem que é essencial incluir epistemologias do Sul Global e considerar experiências interseccionais para que o movimento da neurodiversidade seja emancipatório. A interseccionalidade como potencializada como meio de questionar premissas tradicionais nas pesquisas, revela a necessidade de considerar experiências de pessoas com autismo(s) pertencentes a minorias raciais, de gênero e sexuais, frequentemente negligenciados, para promover uma compreensão mais inclusiva e equitativa da neurodiversidade. Diante do exposto, nos nossos estudos, pesquisas e práticas, buscamos construir uma aproximação epistemológica e teórico-metodológica com o(s) autismo(s) e as pessoas, ancorando-nos na concepção dialógica de ser humano, assumindo que este se constitui nos múltiplos contextos nos quais se insere. É por meio da linguagem que construímos sentidos, subjetividades, estabelecemos relações e produzimos conhecimentos. O sujeito se constitui na relação com o outro, em um processo interativo e dinâmico que envolve múltiplas vozes e perspectivas. Ao se expressar, as pessoas não apenas comunicam ideias, mas também se posicionam em relação ao mundo e às experiências vividas, configurando suas identidades em meio às práticas discursivas que o atravessam e o constituem (Bakhtin, 2006). Nossa concepção, representada pela Figura dos círculos concêntricos, compreende o(s) autismo(s) como uma experiência identitária interseccional que se constitui a partir de múltiplas dimensões biopsíquicas, sociais, culturais, educacionais e discursivas. Partimos do entendimento de que o ser humano é essencialmente um ser de linguagem, cuja identidade é construída na relação dialógica com o outro e com o mundo. A deficiência, situada no nível intermediário da Figura, é vista como uma construção biopsicossocial, resultado da interação dinâmica entre fatores biológicos, psicológicos e sociais que configuram diferentes modos de ser e estar no mundo. No nível mais específico, o(s) autismo(s) é compreendido como uma experiência identitária fluida, plural e interseccional, cuja construção é continuamente influenciada por discursos, práticas sociais e políticas educacionais que podem promover ou dificultar processos de inclusão e reconhecimento. Figura: Dimensões dialógicas constitutivas do autismo(s). Fonte: Elaborado pela autora (2025). Conforme representado na Figura, adotamos uma abordagem crítica que desafia os paradigmas biomédicos e funcionalistas, compreendendo autismo(s) não como um estado fixo ou patológico, mas como uma condição humana, uma experiência dinâmica, fluida e contextual. Trata-se de um processo contínuo de construção identitária, influenciado por relações sociais, culturais e educacionais. A representação do(s) autismo(s) como um processo de se tornar propõe uma pedagogia inclusiva que valoriza e celebra as diferenças como parte essencial da experiência humana. Ao transformar as representações do(s) autismo(s), buscamos também transformar os espaços de ensino e aprendizagem, promovendo práticas que reconheçam, acolham e celebrem as diferenças. Defender que o(s) autismo(s) está em constante movimento – resistindo, emergindo e desaparecendo em diferentes contextos – sugere que educadores inclusivos devem abandonar modelos fixos de ensino e desenvolver estratégias que respeitem a singularidade de cada estudante neurodivergente. Ao invés de encaixar os indivíduos em categorias diagnósticas que determinam antecipadamente suas capacidades e limitações, a proposta é criar ambientes de aprendizagem onde o(s) autismo(s) possam ser expressos de múltiplas formas, promovendo o florescimento de todos os estudantes. Dessa forma, a inclusão se torna um processo dinâmico e transformador, capaz de desafiar os roteiros culturais hegemônicos sobre o(s) autismo(s). No campo da inclusão escolar, é essencial repensar políticas, currículos, metodologias e estruturas escolares para atender às necessidades de grupos historicamente excluídos, considerando experiências atravessadas por raça, gênero, classe e deficiência. A interseccionalidade, como ferramenta prática, contribui para combater desigualdades ao analisar como múltiplos marcadores identitários interagem para criar desafios e oportunidades específicos. No contexto do(s) autismo(s), essa abordagem permite compreender as experiências das crianças com autismo(s) em diferentes contextos sociais e promover práticas pedagógicas que contemplem tanto as dimensões culturais quanto as econômicas, visando uma educação mais democrática e emancipatória. Considerações Finais A decolonialidade e a interseccionalidade, portanto, são marcos teóricos e práticos que nos desafiam a enxergar a complexidade das opressões e a construir estratégias que não apenas reconheçam as diferenças, mas que promovam a justiça social em todas as suas dimensões. Estas e muitas outras questões merecem ser dialogicamente problematizadas no contexto da inclusão escolar, junto a professoras/es, gestoras/es, estudantes e famílias. A representação que temos e (des)construímos sobre o(s) autismo(s) tem implicações diretas nos modos como nos relacionamos com as pessoas. Logo, precisamos pensar sobre acessibilidade a partir das barreiras que enfrentamos/impomos, dentre estas estão as nossas atitudes diante de uma pessoa com deficiência. O(s) autismo(s), quando analisado pela lente da interseccionalidade, deixa de ser compreendido como uma condição única e homogênea para se transformar em “autismos”, uma pluralidade de experiências atravessadas por classe, raça, gênero, sexualidade e contexto cultural. Reduzir o(s) autismo(s) a uma categoria médica universalizada é insuficiente, pois ignora essas vivências específicas que emergem da interseção entre deficiência e outras identidades sociais. Compreender o(s) autismo(s) exige, portanto, uma análise crítica e plural que reconheça as desigualdades sistêmicas e promova políticas e práticas inclusivas que acolham a diferença e a multiplicidade de experiências das crianças. Referências AMERICAN PSYCHIATRY ASSOCIATION (APA). Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais-DSM-V. Porto Alegre: Artmed, 2014. AKOTIRENE, C. Interseccionalidade. Pólen Produção Editorial LTDA, 2019. BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2006. FOUCAULT, M. As palavras e as coisas. São Paulo: Martins fontes, 2002. KERGOAT, D. Dinâmica e consubstancialidade das relações sociais. Novos Estudos, n. 86, p. 93-103, mar. 2010. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0101-33002010000100005. Acesso em 22 de jan. de 2025. MIGNOLO, W. D. Colonialidade: o lado mais escuro da modernidade. Revista brasileira de ciências sociais, v. 32, p. e329402, 2017. Disponível em: https://doi.org/10.17666/329402/2017 Acesso em Acesso em 28 de nov. de 2024. NAIR, V. K. K.; FARAH, W.; BOVEDA, M. Is neurodiversity a Global Northern White paradigm? Autism, p. 13623613241280835, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1177/13623613241280835. Acesso em Acesso em 28 de nov. de 2024. NICOLAU, G.; ASSIS, P. A descolonização do Autismo a partir do protagonismo Autista. Revista Mundaú, n. 13, p. 63–86-63–86, 2023. Disponível em: https://www.seer.ufal.br/index.php/revistamundau/article/view/14020. Acesso em Acesso em 28 de nov. de 2024. ORRÚ, S. E. O re-inventar da inclusão: os desafios da diferença no processo de ensinar e aprender. 1. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2016. 136 p. ORTEGA, F. O sujeito cerebral e o movimento da neurodiversidade. Mana, v. 14, p. 477-509, 2008. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0104-93132008000200008. Acesso em 28 de nov. de 2024.

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