ALTERAÇÕES NA OFERTA EDUCACIONAL DOS SEGMENTOS ALFA E ELITE NO PARANÁ A PARTIR DA INCORPORAÇÃO AO GRUPO FINANCEIRO ELEVA EDUCAÇÃO

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Resumo
ALTERAÇÕES NA OFERTA EDUCACIONAL DOS SEGMENTOS ALFA E ELITE NO PARANÁ A PARTIR DA INCORPORAÇÃO AO GRUPO FINANCEIRO ELEVA EDUCAÇÃO INTRODUÇÃO Neste trabalho buscamos analisar as alterações decorrentes na oferta educacional das marcas Alfa Rede Ensino e Elite Rede de Ensino no estado do Paraná após serem adquiridas pelo Grupo Eleva Educação, holding que até 2020 tinha a Gera Venture Capital como maior acionista com participação de 76% no seu capital e Jorge Paulo Lemann como maior investidor, detentor de 56% do Gera (Araujo, 2023). A Gera Venture Capital é uma “gestora de recursos brasileira, com foco em maximizar o valor de seus negócios a longo prazo” (Gera Capital, 2024). Opera como fundo de investimento do Grupo Eleva Educação sendo a coordenadora da fusão entre o Colégio Elite Rede de Ensino e Pensi Colégio e Curso no estado do Rio de Janeiro em 2013 que deu origem ao então Grupo Eleva Educação[1], resultando no controle direto da Gera em unidades de ensino consolidadas. O Eleva Educação desde então, passou a expandir seus negócios fora do estado de origem com a compra do Coleguium Rede de Ensino em Minas Gerais no ano de 2014 e com a venda de tecnologias educacionais para escolas parceiras[2], dentre elas, a Eleva Plataforma de Ensino que congregava material didático, tecnologias educacionais e assessoria pedagógica. Para Araujo (2023), a aquisição do Coleguium marcou o início de um processo sistemático de expansão do grupo via incorporação de escolas. Até o ano de 2022 o Eleva Educação contava com 178 unidades escolares espalhadas por 15 estados brasileiros e no Distrito Federal. Em dez anos, o grupo se tornou o maior grupo de educação básica não confessional do Brasil (Araujo, 2023). A carteira de ofertas da holding é diversificada, composta por diferentes marcas de escolas espalhadas por todo o Brasil. A oferta da Educação Básica privada, é o negócio educacional para o qual os fundos de investimento têm se voltado no Brasil e criado um mercado educacional sem precedentes em outros países (Adrião; Domiciano, 2018; Adrião; Araujo, 2023; Araujo, 2023). Acreditamos, em acordo com Adrião e Araujo (2023, p. 4), que este movimento, “favorecido por “políticas de ampliação e liberalização dos mercados de crédito, constituem uma nova fase da privatização da educação que expressa a predominância do mercado financeiro e a subordinação da educação às suas características”. Isso porque, a educação privada passa a funcionar sob a lógica dos investidores, não dos consumidores, colocando-a enquanto serviço e mercadoria disponibilizada para grupos de pessoas com capacidades econômico-financeiras distintas para acessá-la (Araujo, 2023). A estratégia do Eleva no Brasil para constituir sua carteira de escolas tem sido adquirir marcas de prestígio, consolidadas nas diferentes regiões do país, para depois expandir-se organicamente. Com isso, a aquisição de escolas e a expansão da holding é uma das formas de capitalizar o Grupo, termo este entendido por Adrião e Araujo (p. 3, 2023) como os “processos que ampliam o capital social de uma empresa por meio da abertura de capital em bolsas de valores, pelo aumento no número de sócios ou ainda pela venda de parte de seus ativos, serviços ou bens para reinvestimento”. O potencial de capitalização de Grupos educacionais como o Eleva é bastante grande, visto que buscam fusões, aquisições e criação de novos estabelecimentos educacionais, condição que além de aumentar seu valor de mercado proporcionam maior retorno para os acionistas. Reside aqui um dos princípios desse processo radicalizado de privatização da educação, a expansão da lucratividade com base nas características do mercado financeiro, importando mais a lucratividade e os ganhos presentes e futuros do que os processos educacionais e que usufrui dele. Isso posto, objetiva-se neste trabalho analisar as alterações na oferta educacional de duas marcas adquiridas pelo Eleva no estado do Paraná: Alfa Rede de Ensino e Elite Rede de Ensino, duas das vinte e três marcas que pertenciam ao Grupo em 2022 (Suprimido, 2025), espalhadas em 15 estados brasileiros, somando 178 escolas (Suprimido, 2025). A problemática que aqui se discute pode ser assim anunciada: a incorporação das escolas privadas ao Grupo Eleva altera a dinâmica da oferta educacional? Entende-se a oferta educacional tanto no que se refere a quantidade de matriculados quanto a organização e distribuição delas pelas escolas, turmas e turnos de atendimento. Para atender o objetivo proposto, levantamos e analisamos dados sobre quantidade de escolas, matrículas, número de alunos por turma, coletados na plataforma do Laboratório de Dados Educacionais, no Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), nos sites do Grupo Eleva e das marcas de escolas adquiridas. Essa pesquisa, de natureza documental, adotou a abordagem e análise qualitativa. De acordo com Gil (2008), a pesquisa documental compreende um conjunto “[...] de materiais que não receberam ainda um tratamento analítico, ou que ainda podem ser reelaborados de acordo com os objetivos da pesquisa” (Gil, p. 51, 2008). O período analisado correspondeu ao ano anterior à incorporação das primeiras escolas de cada uma das marcas pelo Grupo Eleva Educação até 2022, o que correspondeu ao intervalo temporal de 2015 a 2022 para o segmento Alfa Rede de Ensino e, de 2016 a 2022, para o Elite Rede de Ensino. Análises e discussões dos resultados O Paraná é o segundo estado onde o Eleva faz suas negociações adquirindo a unidade Alfa Rede de Ensino no município de Cascavel em 2016, escola de prestígio, existente há mais de quarenta anos naquela localidade, destacando-se pelo alto índice de aprovação de egressos em cursos de medicina (Araujo, 2023, Samor, 2017). A marca nasce nos anos de 1970 com a criação do Alfa Vestibulares, preparatório para as universidades públicas, especialmente à Universidade Estadual do Oeste do Paraná, com tradicional curso de medicina e localizada em Cascavel. O Elite Rede de Ensino é a segunda marca a se firmar no Paraná em 2017 após aquisição de outra escola Alfa, também localizada na cidade de Cascavel, neste caso a escola foi rebatizada com o nome Elite Cascavel. Esta marca não existia no estado e na região Sul antes desse processo de aquisições, originou-se no Rio de Janeiro em 1999 como curso preparatório para concurso (Morgan, Sartori, Nascimento, 2023), chegando ao Paraná via Eleva Educação. A tabela que segue ilustra o movimento de aquisições do Grupo Eleva das duas marcas no período delimitado. Verifica-se que a marca Alfa soma 12 unidades e a Elite oito, totalizando 20 estabelecimentos, tais unidades estão espalhadas em 12 cidades paranaenses (Autora - Suprimido). Ressalta-se que no ano pandêmico (2020) o Grupo não fez aquisições, mas reinicia o movimento de expansão em 2021 ainda em meio a pandemia da COVID-19. Pela quantidade total de matriculados[3], registrada nas tabelas que seguem, percebe-se crescimento para ambas as marcas, 5.051 matrículas em sete anos nas escolas Alfa e 4.741 em seis anos nas unidades Elite, perfazendo respectivamente 1.041% e 2.324% de ampliação. A marca Elite, ainda que com menor quantidade de escolas, cresceu percentualmente mais do que a Alfa e em menor tempo. Em 2020, mesmo sem o Eleva adquirir escolas, as matrículas cresceram para todas as etapas de escolaridade em ambos os segmentos, exceto na etapa da Educação Infantil em que houve decréscimo de 23% no segmento Alfa. Destaca-se também que ambas as marcas não ofertavam a Educação Infantil antes de serem incorporadas ao grupo, condição que se alterou no ano posterior à aquisição. Do total de matriculados na Educação Básica, tanto o segmento Alfa quanto o Elite concentraram a oferta no Ensino Fundamental e Médio. Para cotejar com o movimento das matrículas, levantamos o número de turmas em pesquisa recém-concluída [autora, 2025 - suprimido]. Os resultados mostraram redução de turmas em todas as etapas de escolaridade para as unidades Alfa, com pequenas oscilações em anos pontuais, movimento que se diferiu nas escolas Elite, uma vez que, do início da incorporação até o final da série histórica, apuramos que o número de turmas se ampliou principalmente na Educação Infantil, com exceção da redução de uma turma em duas unidades. Este movimento de aumento de turmas se repetiu para o Ensino Fundamental e Ensino Médio (Autora Suprimido, 2025). Partindo da análise da quantidade de turmas e do crescente número de matriculados, nos interessou verificar a média dos alunos por turma, indicador coletado no INEP por escola e apresentados nas figuras 1 e 2 que seguem. Figura 1 - Número de alunos por turma - Alfa Rede de Ensino (2015 - 2022) Fonte: Inep (2015 - 2022); (Autora, 2025) Os dados presentes na Figura 1 explicita a racionalização de recursos via aumento de alunos por turma. A etapa que apresenta maior proporção de ampliação é o Ensino Médio, com destaque para Cascavel que triplica a quantidade de estudantes após a incorporação; a Educação Infantil também preocupa nesta localidade, em 2017 apresentava 12 crianças por turma, em 2022, 33. O número de alunos por turma cresceu de forma ascendente também em outras localidades enfatiza-se Alfa Ponta Grossa e Alfa Maringá em que o número passou de 100 no Ensino Fundamental e Médio. Observa-se o crescimento da oferta, sem o devido cuidado com a distribuição da quantidade de estudantes por turma, principalmente no Ensino Médio, etapa em que a proporção tende a ser maior. Figura 2 - Número de alunos por turma - Elite Rede de Ensino (2016 - 2022) Fonte: Inep (2015 - 2022); (Autora, 2025) Neste conjunto de escolas Elite, ainda que se perceba aumento na quantidade de alunos por turma, o movimento distingue-se das unidades da Alfa. O maior crescimento deu-se em Cascavel para todas as etapas sendo a escola com maior número de alunos por turma dentre as demais. Na Educação Infantil, com exceção da Elite Cascavel, nenhuma ultrapassou a quantidade de 25 alunos por turma, no Ensino Fundamental também não passaram de 30 e no Ensino Médio, 50 alunos por turma. Considerações finais Analisamos neste trabalho as alterações na oferta educacional nos segmentos Alfa e Elite Rede de Ensino no Paraná decorrentes da aquisição de unidades escolares pelo Grupo Eleva Educação, maior Grupo de Educação Básica não confessional no Brasil (Araujo, 2023). Acompanhamos o movimento da oferta analisando o ano anterior à aquisição seguindo até 2022 - ano que marca a alteração do nome Eleva para Salta Educação por conta da remodelação nos negócios da holding no mercado educacional (Adrião, Araujo, 2023; Araujo, 2023). Conforme se apresentou, ambas as marcas tiveram sua origem em cursos preparatórios, o Alfa para vestibulares e o Elite para concursos, no entanto, ao serem adquiridas e incorporadas ao Grupo Eleva eram escolas de educação formal já consolidadas, de prestígio social e com histórico de egressos aprovados em vestibulares de cursos concorridos diferindo-se assim do tradicional percurso dos grupos privados originários da educação privada (Adrião; Domiciano, 2018) queimando etapas pelas quais seus antecessores passaram. A comparação da oferta das duas marcas evidencia que a quantidade de escolas e matrículas cresceram mais em números absolutos para o segmento Alfa, cujas matrículas somaram 5.345 em 2022, enquanto as unidades do segmento Elite totalizaram 4.445, 900 a menos. Entretanto, ainda que se tenha identificado maior crescimento em números absolutos nas escolas do segmento Alfa, as da Elite Rede de Ensino tinham menor número de escolas, menos tempo no estado, mas a proporção de ampliação das matrículas superou as da marca Alfa, indicando tendência de crescimento. Relativo à quantidade de estudantes por turma, verificou-se dinâmica diferente para as marcas no Paraná, situação a ser mais bem explorada, mas não se pode ignorar que houve alteração na dinâmica da oferta educacional em ambas as marcas. No caso da Alfa a ampliação do número de estudantes por turma é preocupante e explicita a racionalização dos custos do Grupo e a concentração de ativos (matrículas/alunos) nesta marca. Supõe-se que tal racionalização possa vir acompanhada da redução do quadro de docentes e outros funcionários, dado a ser ainda analisado. No caso do Elite, não foi possível precisar a razão pela qual o Grupo optou por manter certa razoabilidade na distribuição de alunos por turma, supõe-se que pode se ligar ao valor das mensalidades cobradas, podendo ser as escolas Alfa as de menor custo e, portanto, a que abarcam famílias com perfil socioeconômico menor tendo, potencialmente, maior procura nas regiões onde se localiza. Já o Elite pode estar direcionado a um público com maior poder aquisitivo, favorecendo menor número de alunos por turma com lucratividade igual ou maior do que as escolas Alfa, dado que dialoga com a análise de Araujo (2023) o qual, indica a oferta de diferentes tipos de escola para públicos de diferentes origens econômicas. O formato de expansão do Grupo Eleva educação por meio da aquisição de escolas radicaliza o processo de privatização da educação básica que passa a se movimentar no ritmo do mercado financeiro voltando-se aos interesses dos acionistas do Grupo, colocando em risco o futuro da educação como Direito Humano fundamental. Referências Autora, 2025 [suprimido] ADRIÃO, T.; ARAUJO. F. Privatização da educação no contexto de financeirização da economia: a indução da oferta educacional privada por fundos de investimentos. Jornal de Políticas Educacionais. V. 17 e86124. Jan. de 2023. ADRIÃO, T.; DOMICIANO, C. Educação Pública e as Corporações: avanços e contradições em uma década de ampliação de investimento no Brasil. FINEDUCA – Revista de Financiamento da Educação, Porto Alegre, v. 8, n. 3, 2018. ARAUJO, F. Desvendando os labirintos da financeirização na educação básica: perspectivas sobre a Holding Eleva Educação. Revista Cocar. Edição Especial. n. 20/2023, p. 1-20, 2023. GERA. A gestora. Gera Capital, Rio de Janeiro, 2024. GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Atlas; 2008. MORGAN, K.; SARTORI, L.; NASCIMENTO, L. Salta Educação no Rio de Janeiro: o caso do Elite Rede de Ensino: Salta Educação in Rio de Janeiro: the case of the Elite Rede de Ensino. Revista Cocar, [S. l.], n. 20, 2023 SAMOR, G. EXCLUSIVO: Eleva compra Agenda Edu para alavancar canais digitais. Brazil Journal, set. 2020. [1] Após reconfiguração no mercado educacional com a venda das suas escolas Eleva ao grupo britânico Inspired Education Group em 2022, passou a se denominar Salta Educação, como neste trabalho analisamos o movimento do Eleva Educação, assim o denominaremos ao longo da análise. [2] Por escolas parceiras, entende-se aquelas que manifestaram interesse na compra da tecnologia desenvolvida pelo grupo, a qual em 2021foi vendida para Vasta Educação, subsidiária da Cogna (Valenti, 2021). [3] As Tabelas 2 e 3 somam as matrículas de todas as escolas do Grupo.

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  • 1 UFPR - Universidade Federal do Paraná
Eixo Temático
  • GT05 - Estado e Política Educacional