ABORDAGEM DO TEMA DAS DROGAS NO CONTEXTO DA EDUCAÇÃO POPULAR Resumo Na conjuntura atual, ainda é possível observar uma forte preocupação da sociedade com questões que envolvem as substâncias psicoativas e seus consumidores. Esta pesquisa se propôs a compreender como o tema das drogas vem sendo abordado no contexto da Educação Popular, sobretudo na literatura da área e em escolas públicas inseridas no meio popular. O presente estudo adotou uma perspectiva qualitativa (Flick, 2009) e exploratória. No que diz respeito aos procedimentos metodológicos para coleta dos dados, foi realizada uma revisão narrativa da literatura (Vosgerau; Romanowski, 2014) e entrevistas semiestruturadas (Mynaio, 2014), com professores/as e gestoras de duas escolas públicas situadas no município de Itapororoca – PB. Alguns dos resultados do trabalho evidenciam que: 1) Na maioria das publicações encontradas constatou-se que a escolha pelo referencial da Educação Popular tem a ver com o entendimento de que essa concepção educativa representa uma alternativa contrária às abordagens hegemônicas sobre drogas, essencialmente repressoras; 2) No que diz respeito à forma como as drogas têm sido abordadas em escolas do meio popular, observou-se que as duas instituições de ensino adotam uma abordagem repressiva de prevenção ao consumo de drogas. De forma conclusiva evidencia-se que o aspecto multifatorial dessas substâncias demonstra que suas abordagens devem levar em consideração os fatores biopsicossociais, ou seja, a droga o indivíduo e a sociedade. No entanto, diante da falta de formação e das informações que geralmente não são problematizadas, o que prevalece é a responsabilização individual do consumidor de drogas, o medo e as práticas repressivas. Palavras-chave: Educação Popular. Drogas. Educação sobre drogas Introdução Este trabalho resulta de uma pesquisa desenvolvida no âmbito de um Mestrado em Educação e tem por objetivo apresentar como a temática das drogas vem sendo abordada na literatura da Educação Popular e em escolas públicas situadas no meio popular. Com o avanço do neoconservadorismo a discussão sobre as substâncias psicoativas não pode se abster de englobar um conjunto de elementos que perpassam o campo político, econômico, cultural, histórico, social e da subjetividade dos sujeitos. As drogas representam um fenômeno social multifacetado, o que torna necessário que sua abordagem social e educativa seja feita de forma interdisciplinar. Entendemos que essas substâncias só adquirem potencial perigoso ou benéfico quando se estabelece uma relação entre elas e um organismo vivo, isto é, de forma isolada, elas possuem um caráter inofensivo (Carneiro, 2018). Partindo dessa premissa, a opção mais sensata para lidar com o desafio social imposto pelo consumo abusivo dessas substâncias seria investir na educação dos seres humanos para lidar com elas e na redução dos riscos que podem estar associados em alguns tipos de consumo. Esforços investidos no ser humano, em assegurar o seu bem-estar e a sua liberdade, e não na erradicação das substâncias ou na criminalização das pessoas que as consomem. Na modernidade, além do valor de uso que se intensifica, as drogas adquirem também valor de troca e valor de signo (Carneiro, 2018). Recorrendo à definição clássica que foi elaborada por Marx, é possível afirmar que “a utilidade de uma coisa faz dela um valor de uso [...] O valor de troca aparece inicialmente como a relação quantitativa, a proporção no qual valores de uso de um tipo são trocados por valores de uso de outro tipo” (Marx, 2013, p. 158). As substâncias psicoativas adquirem valores quando passam a ser consumidas e comercializadas como mercadorias. Ou seja, quando passam a ser trocadas por dinheiro ou qualquer outra coisa que também possua valor de uso. Quanto ao valor de signo, está relacionado ao potencial dessas substâncias enquanto veículos maximizadores dos prazeres e das dores, sua capacidade de produção de subjetividades (Carneiro, 2018). Isso modifica a forma como a sociedade lida com as drogas. Ao longo da história, é possível encontrar os registros dos diversos tipos de relações que a sociedade já manteve com essas substâncias. A maneira hegemônica de lidar com a questão orienta-se pela política de guerra às drogas, que prima pela repressão. Essa forma de abordagem repressiva vem, ao longo dos anos, arrastando consigo um número imenso de consumidores. Nenhum de seus supostos objetivos foi alcançado, pois não conseguiu diminuir a produção, a comercialização ou o consumo das substâncias (Hari, 2018). Partindo desse entendimento sobre a questão das drogas, e tendo em conta a relevância social que essa temática possui, além de suas características multidisciplinares e interdisciplinares, neste estudo, pretendemos compreender como essa temática vem sendo abordada no contexto da Educação Popular. A Educação Popular pode ser compreendida como uma concepção crítica voltada para as questões educacionais, os processos formativos e os processos de lutas das classes populares. As primeiras ações assim denominadas tiveram origem na América Latina e difundiram-se por diversos países através de experiências educativas e culturais direcionadas ao povo. Tomando como ponto de partida a realidade vivenciada, os saberes e a cultura, busca-se construir o conhecimento de forma compartilhada através do diálogo, da troca de experiências e da reflexão sobre a realidade. No contexto da Educação Popular, refletir sobre a realidade significa perceber as questões sociais, políticas, culturais e econômicas que incidem diretamente sobre as condições de vida e podem levar à exclusão e às situações de desigualdade. Perceber a realidade é o primeiro passo para transformá-la; é essencial para que todos os evolvidos no processo educativo possam alcançar a tão almejada e necessária consciência crítica. Sendo assim, os princípios da Educação Popular seguem orientando teórica e metodologicamente grupos e movimentos sociais ligados a questões culturais e educacionais. De acordo com Leite (2016), é importante que os novos fenômenos que atravessam o âmbito educacional sejam acolhidos pela Educação Popular. Sobretudo quando exercem grande influência sobre a vida e a educação do povo. Questões relacionadas às drogas afetam a sociedade, as escolas e, de forma bastante significativa, a sobrevivência de homens e mulheres pertencentes às classes populares. Metodologia O presente estudo adota uma perspectiva qualitativa (Flick, 2009) com caráter exploratório. Para sabermos como as drogas vêm sendo enfocadas na literatura da Educação Popular, realizamos uma revisão narrativa (Vosgerau; Romanowski, 2014). Utilizamos como critérios para selecionar os estudos o uso das palavras-chave “educação popular” e “drogas”. Priorizamos artigos publicados em periódicos e o recorte temporal abrangeu os anos de 2014 a 2019. Os artigos foram selecionados no portal de periódicos da CAPES e nas páginas das próprias revistas, através do buscador Google Acadêmico. No portal de periódicos da CAPES, encontramos 221 artigos. Fizemos a leitura dos títulos e dos resumos e selecionamos três estudos que, de fato, apresentavam em seu corpo a relação objetiva entre a temática das drogas a da Educação Popular. Três artigos foram selecionados no site das próprias revistas, através de pesquisa realizada por meio do buscador Google Acadêmico, quais sejam: Revista de Educação Popular da Universidade Federal de Uberlândia e Revista da Faculdade de Educação da Universidade do Estado de Mato Grosso. Considerando todos os artigos e os Trabalhos de Conclusão de Curso indicados na banca de qualificação, ao todo, 8 (oito) estudos foram selecionados e lidos na íntegra para posterior análise. A pesquisa empírica teve como locus duas escolas públicas pertencentes ao município de Itapororoca/PB. Para a coleta dos dados, foram realizadas entrevistas semiestruturadas. Os sujeitos da pesquisa foram duas gestoras e sete professores/as que se disponibilizaram em colaborar com o estudo, sendo cinco participantes da escola (A) e quatro participantes da escola (B). Para realizarmos a análise das entrevistas, utilizamos a técnica de análise de conteúdo temático-categorial, conforme é sistematizado por Bardin (2016). Resultados e Discussão No contexto evidenciado pelas publicações que foram analisadas, pode-se inferir que existe não apenas uma, mas algumas formas de abordar a questão das drogas sob a perspectiva da Educação Popular. Observou-se que as propostas ou as ações concretas desenvolvem-se em diferentes espaços educativos, apesar de haver uma maioria de estudos voltados para espaços não escolares. As ações que objetivam discutir sobre a questão das drogas de maneira educativa utilizam diferentes ferramentas didáticas e metodológicas. O que todas têm em comum é a opção pela Educação Popular como concepção teórica orientadora de suas abordagens. Constatou-se a junção entre a Educação Popular e as epistemologias do sul, entre a Educação Popular e a economia solidária e, por fim, entre a Educação Popular e a redução de danos. A escolha por fazer o entrelaçamento entre a Educação Popular e alguma outra vertente de conhecimento para desenvolver uma abordagem sobre as drogas, provavelmente, objetiva qualificar essas ações e aumentar o seu alcance. Em alguns casos, a junção justifica-se pelos tipos de atividades que se pretende desenvolver. Em outros casos, por haver uma certa semelhança entre as práticas e princípios da Educação Popular e da outra concepção escolhida. Em grande parte das publicações, o público participante das abordagens são os adolescentes. Essa fase da vida nos seres humanos representa um período de muitas descobertas, transformações, rebeldias, criatividades e curiosidades. É nesse período também que muitos sujeitos têm o seu primeiro contato com as drogas, sejam lícitas ou ilícitas. A respeito das ferramentas pedagógicas utilizadas no desenvolvimento das abordagens sobre drogas, constatamos que, na maioria dos estudos, foram utilizadas metodologias que envolveram uma participação ativa das pessoas. Buscou-se promover a problematização e a reflexão sobre os conteúdos que estavam sendo desenvolvidos através dessas atividades. Utilizaram-se muitas dinâmicas, apresentações de filmes, seções grupais de diálogo, jogos e oficinas. Nas abordagens sobre drogas que se orientaram pelo referencial da Educação Popular, é perceptível a busca pela construção compartilhada do conhecimento através de um maior envolvimento das pessoas nas atividades, e não apenas a transmissão das informações. No que diz respeito à forma como as drogas têm sido abordadas em escolas do meio popular, com base na análise de conteúdo realizada foram apresentadas e discutidas oito categorias temáticas: 1) o consumo de drogas; 2) as drogas na sala de aula; 3) informações sobre drogas; 4) desenvolvimento do conteúdo; 5) percepções sobre a capacidade para abordar o conteúdo; 6) o papel da escola; 7) obstáculos para a abordagem do conteúdo; 8) abordagens potentes. A partir da pesquisa realizada nas duas instituições do município de Itapororoca, foi possível perceber que a maioria dos professores já trabalhou o conteúdo sobre drogas na sala de aula, porém, apesar disso, a maioria também admite que não se sente preparada para abordá-lo. Fatores como medo e insegurança fazem parte dos seus cotidianos. Também foi possível observar que os participantes da pesquisa têm pouco conhecimento sobre o tema e em sua maioria, se informam através das redes sociais. Esses fatos podem ser explicados, possivelmente, pela ausência de formação específica. Pelo que foi apresentado, as ações de prevenção dão mais ênfase às consequências nocivas das substâncias. Busca-se com isso afastar os alunos, mantê-los longe do “mundo das drogas”. As informações obtidas através da internet, redes sociais e experiências pessoais são transmitidas como verdadeiros cânones, fatos inquestionáveis. Não negamos a importância desses saberes, mas acreditamos que eles deveriam ser problematizados, refletidos e, quando necessário, superados. Dentre as abordagens mais potentes para abordar a questão das drogas na escola, foi possível observar que alguns participantes da pesquisa se referem a oficinas, dinâmicas apresentações e práticas de esporte. Porém, a grande maioria acredita que a forma mais efetiva de educar os alunos sobre esse tema seria através de palestras com pessoas que já consumiram drogas. Ou seja, transmissão de informações sobre as consequências do consumo e como conseguir interrompê-lo. Provavelmente, esse tipo de abordagem objetiva causar um certo impacto sobre os alunos e, assim, mantê-los longe das drogas. Neste sentido, as abordagens de prevenção repressivas tentam eliminar a liberdade das pessoas, retirando delas a capacidade de decidir sobre suas próprias vidas. Considerações Finais Refletir sobre a questão das drogas pode nos afastar das respostas simplistas e das soluções imediatistas. Buscar conhecimentos oriundos de fontes confiáveis é a única forma de escapar do reducionismo e das armadilhas ideológicas que são disseminadas na sociedade através de diversos meios. Na era digital, onde todo tipo de informação está disponível de maneira rápida e fácil, a escola é um lugar privilegiado, pois nela ainda é possível ter um certo controle sobre os conteúdos que serão abordados e as discussões que serão levantadas. Assim, questões fundamentais para a sociedade, como é das drogas, podem ser desenvolvidas de forma crítica e com base em conhecimentos científicos. No que diz respeito à educação sobre drogas, de acordo com o que foi possível identificar, acreditamos que o desenvolvimento de abordagens educativas orientadas pela educação popular, a formação dos professores e mudanças discursivas são condições necessárias para que a questão seja abordada de maneira clara e sem posicionamentos e práticas repressivas. Referências BARDIN, Laurence. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2016. CARNEIRO, Henrique. Drogas: a história do proibicionismo. São Paulo: Autonomia Literária, 2018. FLICK, Uwe. Introdução à pesquisa qualitativa. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2009. HARI, Johann. Na fissura: uma história do fracasso no combate as drogas. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. LEITE, Ivonaldo. Educação popular, ontem e hoje: perspectivas e desafios. Revista Espaço Acadêmico, n° 176, 2016. Disponível em:
http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/281…. Acesso em: 10 de mar. de 2025. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I. ed. 1. Boitempo, 2013. MINAYO, Maria Cecília de Souza. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 14. ed. São Paulo: Hucitec, 2014. VOSGERAU, Dilmeire Sant‘Anna Ramos; ROMANOWSKI, Joana Paulin. Estudos de revisão: implicações conceituais e metodológicas. Rev. Diálogo Educ., Curitiba, v. 14, n. 41, p. 165-189, jan./abr. 2014.