A gramática da sedução e seus efeitos na educação matemática

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Resumo
A GRAMÁTICA DA SEDUÇÃO E SEUS EFEITOS NA EDUCAÇÃO MATEMÁTICA Este trabalho apresenta um recorte dos resultados de uma pesquisa que envolveu a análise de docências engendradas pela forma de vida neoliberal na Educação Básica, em especial na área da Matemática. Ao analisar os modos pelos quais os professores compreendem sua docência, buscamos problematizar e evidenciar o funcionamento da maquinaria neoliberal, conceito proposto por Stephen Ball (2014) para representar o conjunto de práticas, políticas e estruturas que promovem a lógica neoliberal nas diferentes esferas da vida. Mais especificamente, consideramos o neoliberalismo como um mecanismo que transforma a educação em um sistema de produção econômica, influenciando as práticas e valores escolares. Nesse contexto, emerge a noção de gramática de sedução, compreendida como um “[...] conjunto de regras que conformam as forças sedutoras presentes na linguagem” (OMITIDO, 2023, p. 189). O conceito supracitado é central para esta pesquisa, cujo objetivo foi discutir os efeitos da gramática da sedução sobre os modos de ser docente que ensina matemática nos anos iniciais. Para dar conta desta proposta, constituiu-se um corpus analítico composto por narrativas de experiências com a Matemática durante o período do Ensino Remoto Emergencial (ERE), produzidas em um formulário on-line respondido por 21 professores atuantes na rede privada de Porto Alegre/RS. Partindo-se das premissas teórico-metodológicas das pesquisas pós-críticas em educação (Meyer; Paraíso, 2012) e da análise discursiva de inspiração foucaultiana (Foucault, 2005), constatou-se que a docência em matemática nos anos iniciais durante o ERE foi fortemente regrada pela gramática da sedução. Educação Matemática, política e sociedade Assim como tantas outras pesquisas da Educação Matemática que enfocam os seus aspectos políticos, sociais e culturais (Valero; Zevenbergen, 2004; Knijnik et al., 2012; Yolcu; Popkewitz, 2018), acompanhamos os debates comumente associados ao pensamento pós-estruturalista. Dentre essas discussões, servimo-nos das teorizações de Foucault (2008), o qual concebe o neoliberalismo como uma racionalidade, ou seja, uma forma de viver em sociedade e consigo mesmo. Segundo o autor, governar em uma sociedade neoliberal implica intervir no comportamento e no pensamento de cada sujeito. Para que isso ocorra, constitui-se uma mentalidade em que todos e cada um lutem por objetivos em comum (a liberdade e a prosperidade, por exemplo) e, para isso, submetam-se “voluntariamente” à lógica neoliberal de pensamento, entendendo que este é o único e o melhor caminho possível em uma sociedade. Refletindo sobre essas formas de ser, pensar e agir que passam a ser instituídas na sociedade e na escola contemporânea, Lipovetsky (2020) aponta o protagonismo da sedução, apresentada como “[...] uma lógica onipresente e transetorial, com o poder de reorganizar o funcionamento das esferas dominantes da vida social e de reorganizar de cabo a rabo as maneiras de viver, bem como o modo de coexistência dos indivíduos.” (Lipovetsky, 2020, p. [24]). Em sua visão, o comportamento humano, as formas de governo e a representação do poder nas sociedades democráticas liberais atendem à regra básica de “agradar e impressionar”, premissas fundamentais da sedução. No campo da Educação, Lipovetsky (2020, p. XXVIII) reitera que a sociedade contemporânea, balizada pelos princípios da sedução, não mais procura “[...] disciplinar os comportamentos da criança, mas realizar seu pleno desenvolvimento, sua autonomia, sua felicidade.”. Nesse contexto, cabe reconhecer a potência motora da sedução e compreender seus impactos na constituição da educação, da escola e dos atores envolvidos no processo educativo. O conceito teórico central deste artigo é o de gramática da sedução, concebido como um conjunto de táticas de condução das condutas operacionalizadas no meio educacional mediante práticas como o uso de jogos na matemática (OMITIDO, 2023). A inspiração para sua nomenclatura veio de uma junção entre as discussões de Lipovetsky (2020) sobre a sedução e as teorizações da obra tardia de Ludwig Wittgenstein (2014) sobre a gramática. Na visão do filósofo, todas as relações de conhecimento existentes não decorrem de dados empíricos, mas de considerações gramaticais feitas no interior das formas de vida (Condé, 2004). Vê-se a existência de uma autonomia da gramática, isto é, a possibilidade de ela ser identificada como uma racionalidade, uma forma de separar o certo e o errado, de elencar critérios capazes de resolver problemas. Por meio da gramática é que se pode entender a lógica presente nas coisas, ou seja, “[...] a racionalidade é antes de tudo gramatical.” (Condé, 2004, p. 93). Dessa forma, pode-se compreender que, da mesma maneira que a racionalidade, a gramática é intrínseca ao uso da linguagem; portanto, inerente à constituição das formas de vida de uma sociedade. Ademais, consideramos pertinente destacar que noções do pensamento de Michel Foucault e Ludwig Wittgenstein foram usadas como referencial teórico para discutir a Educação Matemática em trabalhos como os de Jungues (2012), Wanderer (2014) e OMITIDO (2017). Para Knijnik e colaboradoras (2012), não se trata de um desejo de unir as obras de autores reconhecidos para a criação de um novo campo epistemológico, mas de explorar as potencialidades presentes na análise e na reflexão sobre a Educação Matemática quando vistas através das lentes teóricas constituídas por suas concepções. Sendo assim, vê-se que compartilhar desse tipo de pensamento não significa analisar somente as práticas que ocorrem dentro da escola ou durante a aula de Matemática, mas – e principalmente – todas aquelas que estão fora desses espaços, frequentemente “[...] associadas a racionalidades que não são idênticas à racionalidade que impera na Matemática Escolar, com seus estreitos vínculos com a razão universal instaurada pelo Iluminismo” (Knijnik et al., 2012, p. 18). Aspectos metodológicos Como anunciado anteriormente, esta investigação foi realizada a partir de uma abordagem qualitativa pautada pelas metodologias de pesquisas pós-críticas em educação (Meyer; Paraíso, 2012), as quais não visam a veridicção de determinadas hipóteses, mas o entendimento de como tais verdades se encontram em funcionamento na atualidade. Além disso, nossas premissas teórico-metodológicas têm inspiração na análise discursiva empreendida por Michel Foucault. Para o filósofo, o discurso não é composto apenas por signos, mas por um conjunto de práticas e contextos que produzem efeitos de sentido conforme sua articulação com outros discursos, formando uma rede discursiva que mantém regimes de verdade. Nessa ótica, o discurso é composto de saberes que o sustentam e que regram as ações dos sujeitos, ao mesmo tempo em que (outros) saberes são produzidos, em uma retroalimentação contínua (Foucault, 2005). O material empírico sobre os quais foram postas em operação as ferramentas analíticas foi composto pelas narrativas de 21 professores que deram aula de matemática nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental durante o ERE, coletados a partir de um formulário on-line enviado pelas direções de duas escolas privadas de Porto Alegre/RS. O formulário continha perguntas que versavam sobre as aulas de matemática ministradas no ERE que eles consideravam qualitativamente positivas. Ao perguntar pela qualidade, buscamos propositalmente colocar em evidência os produtos da intrínseca relação entre o sujeito e aquilo que se acredita ser verdade, isto é, as regras que conduzem sua conduta. A gramática da sedução e a Educação Matemática Nas enunciações dos professores, apresentadas a seguir, percebemos que a ludicidade se configura tanto como meio de engajamento quanto como régua qualitativa da aula de matemática, assemelhando-se a um mecanismo de sedução. No 1º ano, lembro que expliquei o jogo "Hora do rush" por meio de duas ou três videoaulas e disponibilizei dez desafios do jogo num Powerpoint que eu montei. Também deu muito trabalho, pois as peças tinham que ter um tamanho exato, cores do jogo, seguir os desafios (pedi foto para uma colega que tinha o jogo em casa) e fiz tudo "do zero". Quando voltamos para a escola e passei a dar aula remota para eles, pude retomar o jogo (mesmo que de forma online) e fazer intervenções com eles. Foi gratificante ver que muitos tinham assistido às aulas e se lembravam das regras! (Professora G) A criança deveria construir uma cartela de bingo, conforme modelo disponibilizado pela professora. A professora sorteia os numerais, até que todos preencham suas cartelas. Eles gostam muito de bingo! (Professora K) Lembro uma proposta de atividade em que o tema abordado seria grandezas e medidas – medidas de comprimento. A proposta era retomar os instrumentos utilizados para realizar diversas medidas. Após toda a exploração, os alunos foram desafiados a realizar algumas medidas de objetos em suas casas, e, para dificultar, tínhamos um tempo, outro tipo de medida. Ver as crianças sumirem e aparecerem nas telas, verificando o cronômetro, e indo em busca das medidas. Confesso que não sei se conseguiram, pois apresentaram medidas questionáveis…. Mas certamente curtiram muito a movimentação e a proposta! (Professora L) A proposta que relatarei a seguir já tinha sido executada em anos anteriores no ensino presencial e foi pensada como possibilidade para o remoto. Uma aula que exigia possuir um pacotinho de confeitos (Bib's). A maioria das crianças superanimada, contando quantas "bolinhas" possuía em seu pacote para saber qual era o seu todo! [...] Inicialmente, as crianças estavam amando, mas aos poucos fui percebendo que, como as quantidades eram diferentes para cada um e eles se sentiam sozinhos, pois não estavam de fato olhando para as quantidades dos colegas, começaram a ficar ansiosos, achando que a sua contagem estava errada. (Professora M) Entendemos que as propostas relatadas trazem momentos gamificados como forma de sistematizar ou apresentar novos conteúdos e como forma de seduzir os estudantes. Nas falas das professoras, vemos que elas atribuem qualidade a essas propostas, pois os estudantes “estavam amando” ou “gostam muito de bingo”. Dentre as falas, destacamos uma das que nos parece mais emblemática para este contexto: “não sei se conseguiram, pois apresentaram medidas questionáveis…. Mas certamente curtiram muito a movimentação e a proposta!”. Nesse sentido, parece-nos que as enunciações fortalecem as teorizações de Fabis (2023, p. 168) sobre os movimentos de tornar a aula envolvente, leve e, ao mesmo tempo, exigente e eficiente na fabricação de um professor Donjuanesco, sustentando a ideia de que “[...] envolver e seduzir são imperativos quando as subjetividades juvenis estão tramadas em um cenário onde a felicidade, a alegria e as emoções se tornam gramáticas contemporâneas emergentes”. Além do caráter Donjuanesco assumido pelas professoras, foi possível perceber nas enunciações observadas que, durante o jogo, há um posicionamento desses sujeitos como uma “gestores de informações” (OMITIDO, 2023, p. 171), relatando que, “como as quantidades eram diferentes para cada um, e eles se sentiam sozinhos, pois não estavam de fato olhando para as quantidades dos colegas, começaram a ficar ansiosos, achando que a sua contagem estava errada”. O motivo para isso está na percepção de que a professora captou os pormenores das ações de seus estudantes, “[...] desde seu conhecimento da disciplina até seus desejos” (OMITIDO, 2023, p. 192). Assim, ao agir como uma gestora de informações, entendemos que a professora responde a uma prática de governamento em que se responsabiliza por produzir sujeitos adequados à contemporaneidade “[...] mediante exploração de informações, captura da atenção e modulação da memória” (OMITIDO, 2023, p. 192). Considerações finais Ao definirmos o objetivo de discutir os efeitos da gramática da sedução sobre os modos de ser docente que ensina matemática nos anos iniciais, nosso esforço foi apontar que, na busca pelo prazer e pela felicidade, engendra-se a gramática da sedução, cujos princípios de agradar e impressionar se fazem presentes. A relação entre professor e aluno, nessa ótica, é compreendida como um cortejo em que cada um busca atender aos seus desejos individuais, os quais se encontram diretamente associados uns com os outros. Assim, o sucesso de um impacta o sucesso do outro. Com isso, mostramos que um dos vetores da gramática da sedução é a geração do individualismo, uma marca da sociedade neoliberal que passa a ser impulsionada também pelos jogos e pelo lúdico nas aulas de Matemática. Estas verdades são perfeitamente compatíveis com os preceitos do neoliberalismo e atendem às regras da gramática da sedução. Além disso, nos parece que o ciclo virtuoso da positividade pode ser elegantemente sustentado por meio dos jogos e da ludicidade, sem que haja cisão com os princípios neoliberais ou prejuízo do caráter pedagógico – visto que essas ferramentas, além de tudo, auxiliariam na cognição, no desenvolvimento do raciocínio e na resolução de problemas. Com efeito, acreditamos que a captura dos desejos, dos interesses e dos prazeres dos alunos, ordenada pela gramática da sedução, possibilita e potencializa as positividades múltiplas dos jogos e do lúdico na educação matemática, sustentando seu caráter pedagógico e condutor de condutas, sem apelo à coerção autoritária. REFERÊNCIAS BALL, S. J. Educação Global S. A.: novas redes de políticas e o imaginário neoliberal. Ponta Grossa: UEPG, 2014. CONDÉ, M. L. L. As teias da razão: Wittgenstein e a crise da racionalidade moderna. Belo Horizonte: Argvmentvm, 2004. FABIS, C. Efeitos da implementação do (novo) ensino médio: flexibilidade, entretenimento e a emergência de um currículo letificado. 2023. Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2023. FOUCAULT, M. Nascimento da biopolítica. São Paulo: Martins Fontes, 2008. FOUCAULT, M. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2015. JUNGES, D. L. V. Família, escola e educação matemática: um estudo em localidade de colonização alemã do Vale do Rio dos Sinos. 2012. Dissertação (Mestrado) – Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, 2012. KNIJNIK, G. et al. Etnomatemática em movimento. Belo Horizonte: Autêntica, 2012. LIPOVETSKY, G. A sociedade da sedução: democracia e narcisismo na hipermodernidade liberal. Barueri: Manole, 2020. MEYER, D. E.; PARAÍSO, M. A. (org.). Metodologias de pesquisas pós-críticas em educação. Belo Horizonte: Mazza, 2012. VALERO, P.; ZEVENBERGEN, R. (eds.). Researching the socio-political dimensions of mathematics education. Boston: Springer, 2004. WANDERER, F. Educação Matemática, jogos de linguagem e regulação. São Paulo: Editora Livraria da Física, 2014. WITTGENSTEIN, L. Investigações filosóficas. Petrópolis: Vozes, 2014. YOLCU, A.; POPKEWITZ, T. Making que able body: school mathematics as a cultural practice. ZDM Mathematics Education, [New York], v. 51, p. 251-261, 2018.

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