A CONSTRUÇÃO DA BRANQUITUDE NA EDUCAÇÃO INFANTIL

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Resumo Expandido - Trabalho em Andamento
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Resumo
A CONSTRUÇÃO DA BRANQUITUDE NA EDUCAÇÃO INFANTIL Na última década, estudos sobre relações étnico-raciais na primeira infância demonstraram que crianças negras sofriam racismo e discriminação em suas rotinas na creche (Cavalleiro, 2018); recebiam cuidados diferenciados em relação a crianças brancas que recebiam maiores gestos de afeto das professoras (Oliveira, Abramowics, 2010) e que tinham poucos elementos da cultura afro-brasileira em artefatos na escola que favorecessem o aspecto positivo dos corpos não-brancos (Santos, 2021). Tais estudos focalizam o papel da/do professor/a, da escola e da família em relação às crianças. Outra abordagem tem sido estudar como as crianças negras resistem à discriminação, compreendendo-as como ativas nas relações com os pares (Santiago, 2015, 2019; Nunes, 2016). O estudo em andamento aqui apresentado se insere nesta perspectiva de ter como objetivo compreender o papel das crianças na produção de suas próprias culturas ao ressignificarem o mundo dos adultos (Corsaro, 2011). Assim, o enfoque não se dá prioritariamente sobre a ação das professoras, mas como as crianças brancas ressignificam e contribuem na construção das hierarquias raciais na educação infantil na interação com seus pares. Ancorada na Sociologia da Infância (Corsaro, 2011) e na Sociologia das Relações Raciais (Carneiro, 2023; Guimarães, 1999), a investigação compreende que raça é uma construção social que hierarquiza sujeitos. Sobre branquitude, compreende-se como uma construção de naturalização da brancura como o fenótipo do padrão social, conferindo privilégios e acessos a recursos materiais e simbólicos, colocando-os no topo da hierarquia de poder social (Bento, 2022; Schucman, 2020). A hipótese inicial é que assim como a construção da identidade negativa da criança negra, ancoradas nos estudos citados, está presente desde a creche, a construção da identidade positiva da criança branca também. As perguntas que nortearam o trabalho foram: (i) é possível identificar a construção de dispositivos de branquitude entre as crianças na creche? (ii) se sim, como isto se dá? A metodologia escolhida foi a etnografia (Magnani, 2023) para compreender como as relações raciais são construídas cotidianamente, de maneira sutil por meio das intersubjetividades. É a partir destas sutilezas que identidades se constituem em diversos âmbitos, sobretudo, o racial. Assim, foram observadas três salas de educação infantil da rede municipal de Paulínia, interior de São Paulo, inicialmente, uma vez por semana em cada sala, com a duração de 3 horas e, posteriormente, duas vezes por semana, com 1 hora e meia de observação por dia em cada turma, totalizando 25 observações em cada uma entre setembro e dezembro de 2023. O contato com as professoras foi mantido até abril de 2024 e o trabalho foi aprovado pelo Comitê Ético de Pesquisa da universidade sede. As três turmas foram denominadas na pesquisa por Zebra, Tigre e Sapo. Segundo a declaração da família, (i) a Zebra tem 15 crianças, 07 brancas, 06 pardas, 0 pretas, 0 amarelas e 02 não declaradas; (ii) a Tigre tem 14 crianças, 06 brancas, 04 pardas, 01 preta, 0 amarelas e 02 não declaradas; (iii) a Sapo tem 15 crianças, 11 brancas, 04 pardas, 0 pretas, 0 amarelas e 0 não declaradas. A heteroidentificação feita pelas professoras e pela pesquisadora se diferenciou das famílias, indicando a complexa classificação racial no Brasil. A observação demonstrou que as interações nas brincadeiras eram o lócus privilegiado para compreender como as crianças brancas produziam hierarquias raciais com colegas não brancos. As crianças pequenas fazem das dinâmicas brincantes espaços de expressão próprios; são neles que meninos e meninas pequenos(as) constroem territórios constituídos por características que anunciam as singularidades infantis, responsáveis pela produção de uma cultura própria, distante de uma mera reprodução das experiências adultas. Para Corsaro (2011), as crianças reproduzem interpretativamente, alterando, acrescentando ou resistindo ao que está posto dentro de seus contextos. Assim, as vivências individuais infantis, entrelaçam-se com a subjetividade coletiva de ser criança e se potencializam em uma nova cultura constituída de dinâmicas próprias que se mobilizam para que as interações sejam possibilitadas. Ao longo da pesquisa, uma particularidade desse processo de construção demonstrou ser fundamental e constante na interação entre as crianças pequenas: as estratégias de entrada (Corsaro, 2011) nas brincadeiras. As observações evidenciaram que o início das interações entre os pares na creche aconteciam de maneira sistemática e apresentavam-se de quatro principais maneiras: 1) Iniciação de uma brincadeira para chamar atenção de um grupo ou de uma criança; 2) Observação das regras da brincadeira de um grupo, seguida de uma tentativa em dar continuidade a ela para ser aceito dentro daquela interação; 3) Oferecimento de um brinquedo ou um objeto diferente dos que já existem na brincadeira, para fazer a troca por sua participação; 4) Solicitação verbal para participar da brincadeira. A depender de sua eficácia, as crianças utilizavam-se de uma ou mais estratégias para conseguir ser aceitas nos grupos já formados ou, até mesmo, para convidar uma ou mais crianças para uma nova dinâmica. A presente pesquisa demonstrou que essas estratégias demarcam uma hierarquia racial dentro da produção das culturas infantis, à medida que tornou observável quais as crianças que detinham o poder de liderar os grupos e proteger os territórios ali construídos - as brancas - e quais aquelas que utilizavam-se de inúmeras estratégias para pertencer a alguma brincadeira dentro do grupo - as negras. Mais que isso, foi possível constatar como essas dinâmicas corroboram para a manutenção de dispositivos que alimentam a branquitude desde a infância, naturalizando os papeis em razão da raça e evidenciando a construção da identidade de crianças brancas como um processo ancorado em privilégios que são reafirmados desde a paparicação (Oliveira e Abramowics, 2010) e o olhar das pessoas adultas (Cavalleiro, 2018), até a constituição da subjetividade das crianças pequenas por elementos da cultura familiar, midiática ou religiosa, estruturalmente racistas. Em certa situação, por exemplo, duas meninas brancas da turma da Zebra brincam de “casinha” na sala. Uma menina negra tenta entrar dentro daquela dinâmica utilizando-se da estratégia 3, apresentando um celular de brinquedo para as meninas na tentativa de ser aceita por elas. Apesar do aceite, a menina negra precisou realizar várias negociações para se manter dentro da brincadeira, sugerindo trocas e se esforçando para garantir sua permanência naquele território. Situações como essa se repetiram ao longo das observações e tornaram evidente a recorrência em que as crianças brancas lideram as principais brincadeiras da turma e como a sutileza de compreenderem-se como detentoras de poderes, como a decisão de quem pode adentrar as fronteiras dos territórios construídos, garantem privilégios e hierarquizam os papeis dentro das culturas infantis. A contribuição da presente pesquisa vai ao encontro de compreender os mecanismos raciais que operam nas relações entre as crianças, considerando-as culturalmente ativas dentro desse processo, assim como salientam Corsaro (2011), Santiago (2015, 2019) e Nunes (2016). Sobretudo, perceber como essas interações ensinam crianças brancas a respeito da normatividade de suas características físicas e constroem suas identidades ancoradas na percepção de que seus corpos podem orientar as dinâmicas dentro dos espaços escolares. Neste caminho, para além da denúncia dos preconceitos e das violências acometidas aos corpos de meninos e meninas negros(as) nos espaços de Educação Infantil, a pesquisa tenta contribuir com os estudos acerca dos processos de subjetivação que constroem percepções acerca de ser branco desde a infância. Ademais, busca valorizar as relações entre as crianças como lugar ativo, em que se reinterpreta, ressignifica e produz. Palavras-chave: Branquitude, raça, educação infantil, Sociologia da Infância Referências BENTO, C. Pacto da Branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022 CARNEIRO, Sueli. Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não-ser como fundamento do ser. Rio de Janeiro: Zahar, 2023 CAVALLEIRO, E. Do silêncio do lar ao silêncio escolar: racismo, preconceito e discriminação na educação infantil. 6. ed. São Paulo: Contexto, 2018. CORSARO, W. Sociologia da Infância. Porto Alegre: Artmed, 2011. GUIMARÃES, A.. Racismo e anti-racismo no Brasil.. São Paulo: Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo/Editora 34,1999. MAGNANI, J. et al. Etnografias urbanas: quando o campo é a cidade. 1. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2023 NUNES, Míghian Danae Ferreira. Cadê as crianças negras que estão aqui?: o racismo (não) comeu. Latitude, Maceió-AL, Brasil, v. 10, n. 2, 2018. DOI: 10.28998/lte.2016.n.2.2616. Disponível em: https://www.seer.ufal.br/index.php/latitude/article/view/2616. Acesso em: 11 mar. 2025. OLIVEIRA, F. ; ABRAMOWICZ, A. Infância, raça e "paparicação". Educação em Revista, v. 26, n. 2, p. 209–226, 2010. SANTIAGO, Flávio. Gritos sem palavras: resistências das crianças pequenininhas negras frente ao racismo. Educação em Revista, v. 31, n. 2, p. 129–153, abr. 2015. SANTIAGO, F. Eu quero ser o sol!: (re) interpretações das intersecções entre as relações raciais e de gênero nas culturas infantis entre crianças de 0 à 3 anos em creche. 2019. Tese (doutorado) - Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação, Campinas, SP, 2019. SANTOS, N. O acolhimento inicial de bebês negros e negras nos espaços da creche: aspectos a considerar e desafios a alcançar. 2021. Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação, Campinas, SP, 2021. SCHUCMAN, L. Entre o encardido, o branco e branquíssimo: branquitude, hierarquia e poder na cidade de São Paulo. 2a ed. São Paulo: Veneta, 2020.

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Instituições
  • 1 UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas
Eixo Temático
  • GT07 - Educação de Crianças de 0 a 6 anos