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A violência contra a mulher constitui um grave problema de saúde pública, com repercussões físicas, psicológicas e sociais que impactam diretamente o bem-estar e o acesso aos serviços de saúde. Além dos agravos imediatos, experiências de violência estão associadas a sofrimento psíquico, pior autoavaliação de saúde, maior vulnerabilidade socioeconômica e barreiras no uso de ações preventivas. No Brasil, embora o Sistema Único de Saúde (SUS) ofereça gratuitamente o exame citopatológico para rastreamento do câncer do colo do útero, desigualdades sociais e experiências de violência podem comprometer a adesão ao exame. Considerando a importância do rastreamento regular para reduzir morbimortalidade por esse câncer, torna-se fundamental compreender como diferentes formas de violência se relacionam com a realização do exame no prazo recomendado.
O objetivo deste estudo foi analisar a associação entre violência física e psicológica e a realização do exame preventivo do câncer do colo do útero entre mulheres brasileiras, bem como investigar possíveis efeitos de moderação por características sociodemográficas e socioeconômicas. Trata-se de estudo transversal, com dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) 2019, inquérito domiciliar de base populacional com amostra probabilística em três estágios e ponderação para desenho complexo. Foram incluídas mulheres de 25 a 64 anos. O desfecho foi a realização do exame no prazo recomendado (em dia vs. fora do prazo). As variáveis principais foram violência física e violência psicológica, categorizadas segundo autoria (não sofreu, parceiro íntimo/ex-parceiro, outra pessoa). Foram estimados modelos de regressão logística com correção para o plano amostral, com ajustes progressivos para variáveis demográficas, socioeconômicas e de saúde. Também foram testadas interações entre violência e raça/cor, renda, escolaridade e ocupação.
Entre as mulheres analisadas, 81,3% estavam com o exame em dia. A prevalência de violência física foi de 4,2%, enquanto 18,7% relataram violência psicológica. Na análise bivariada, ambos os tipos de violência apresentaram associação com o desfecho. Entretanto, após ajustes, a violência física perdeu significância estatística no modelo completo, indicando que sua associação inicial foi amplamente explicada por fatores estruturais e condições de acesso. Em contraste, a violência psicológica perpetrada por “outra pessoa” manteve associação negativa significativa mesmo após controle por variáveis sociodemográficas, socioeconômicas e de saúde, sugerindo menor chance de realização do exame entre essas mulheres. A violência psicológica por parceiro íntimo/ex não apresentou associação significativa nos modelos ajustados.
Nas análises de interação, observou-se modificação de efeito estatisticamente significativa entre violência física e raça/cor (p=0,021), evidenciando heterogeneidade na associação conforme o grupo racial. Para as demais variáveis testadas, não foram identificadas interações globais significativas.
Os resultados indicam que determinadas experiências de violência, especialmente psicológica fora do contexto conjugal, permanecem associadas à menor adesão ao rastreamento, independentemente de fatores socioeconômicos. Além disso, a variação segundo raça/cor na violência física aponta para a necessidade de incorporar a perspectiva das desigualdades raciais na análise do acesso a ações preventivas. O enfrentamento da violência contra a mulher deve articular políticas de saúde, assistência social e proteção social, fortalecendo a identificação precoce da violência na atenção primária e promovendo estratégias intersetoriais que ampliem o acesso equitativo ao cuidado preventivo.
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