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A persistência e a intensificação da violência contra mulheres no Brasil se configura como uma verdadeira epidemia de feminicídios. Entretanto, grande parte dessas mortes permanece invisibilizada nas estatísticas, nas instituições e no debate público aatravés das subnptificações, num cenário em que muitas mulheres acabam por 'morrem sem contar'. Este estudo busca compreender os determinantes demográficos, territoriais e normativos que produzem e sustentam essa violência estrutural, integrando perspectivas teóricas e empíricas para explicar por que certos contextos tornam mulheres sistematicamente mais vulneráveis à vitimização letal e não letal. A pesquisa articula três dimensões analíticas: (1) território e desigualdade estrutural, (2) normas sociais e sistemas de controle simbólico, e (3) risco percebido e experiências de violência. Articulando teorias de efeitos de vizinhança, desorganização social, interseccionalidade e regimes de gênero, argumenta-se que a violência contra mulheres não pode, nem deve ser compreendida apenas como fenômeno individual ou doméstico, mas como resultado de configurações estruturais que envolvem segregação urbana, racismo, patriarcado e baixa coesão comunitária. Metodologicamente, o estudo busca integrar diferentes bases de dados nacionais recentes: Atlas da Violência 2023, para caracterização territorial de feminicídios e desigualdades raciais; Censo Demográfico 2022, para identificar vulnerabilidades socioeconômicas e características estruturais dos territórios; e as edições 2021–2024 da pesquisa Visível e Invisível, que permitem analisar normas sociais, percepções de segurança, vitimização e influência religiosa. A Pesquisa Nacional de Vitimização (2013) é empregada como marco comparativo, evidenciando continuidades e mudanças no padrão da violência ao longo da última década. A estratégia analítica pretende combinar análise descritiva, comparação contextual e interpretação socioestrutural, priorizando a integração conceitual entre dados e teoria. Os resultados podem evidenciar que os feminicídios se concentram em regiões marcadas por profunda desigualdade socioespacial, maior precariedade dos serviços públicos, informalidade laboral e maior proporção de população negra, confirmando a centralidade das desigualdades estruturais como determinantes do risco letal. Adicionalmente, os dados da pesquisa Visível podem mostrar que normas conservadoras, discursos religiosos restritivos e atitudes que naturalizam a violência psicológica continuam amplamente difundidas, afetando tanto a percepção de risco quanto a busca por ajuda. A convergência entre vulnerabilidade territorial, desigualdade racial e normas patriarcais produzem um contexto no qual mulheres não apenas vivem sob maior risco, mas frequentemente têm suas experiências silenciadas pelas instituições, reforçando o ciclo de “morrer sem contar”. As análises preliminares apontam que a violência de gênero no Brasil resulta de um arranjo demográfico complexo, em que território, desigualdade e normatividade se reforçam mutuamente. O estudo pode contribuir ao evidenciar que políticas públicas efetivas precisam considerar simultaneamente a dimensão estrutural (condições urbanas), comunitária (coesão e apoio social) e cultural (normas de gênero). Oferece, assim, uma leitura integrada e atualizada da epidemia de feminicídios no país, alinhada às agendas latino-americanas de pesquisa em população, violência e desigualdades.
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