Demografia, cuidado e território: um índice municipal de vulnerabilidade e os desafios da implementação da Política Nacional de Cuidados no Brasil

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A implementação de políticas públicas de cuidado em contextos marcados por profundas desigualdades territoriais exige instrumentos analíticos capazes de orientar a priorização de ações de forma transparente, comparável e sensível às diferenças locais. No Brasil, a recente instituição da Política Nacional de Cuidados (PNaC) introduz o desafio de traduzir um desenho federal abrangente em estratégias territorializadas, compatíveis com a heterogeneidade demográfica, socioeconômica e institucional dos municípios. Nesse contexto, este trabalho apresenta e valida o Índice Municipal de Vulnerabilidade para Políticas de Cuidados (IMVPC), uma ferramenta multidimensional desenvolvida para subsidiar a implementação descentralizada da PNaC a partir de evidências empíricas.

O IMVPC foi concebido com base no Marco Conceitual da Política Nacional de Cuidados, especialmente no princípio do universalismo progressivo sensível às diferenças, que reconhece a necessidade de priorizar territórios e populações com maiores níveis de vulnerabilidade diante de restrições fiscais e institucionais. O índice combina quatro dimensões centrais da organização social dos cuidados: (i) demanda por cuidados na população, captando a presença de crianças, pessoas idosas e a estrutura etária dos domicílios; (ii) oferta de cuidados, mensurada por indicadores de cobertura da educação infantil e pela presença de profissionais ocupados em atividades de cuidado; (iii) condições de trabalho das mulheres, refletindo desigualdades de gênero associadas à sobrecarga de cuidado não remunerado; e (iv) vulnerabilidade socioeconômica e habitacional, que expressa as restrições materiais que afetam a capacidade de prover e receber cuidados.

Como etapa de validação metodológica, o IMVPC foi estimado para todos os municípios brasileiros a partir dos microdados do Censo Demográfico de 2010. Os resultados revelam forte heterogeneidade territorial na vulnerabilidade associada aos cuidados, com maior concentração de municípios em situação crítica nas regiões Norte e Nordeste, mas também com variações significativas no interior de todas as grandes regiões do país. O índice mostra-se sensível tanto a padrões macrorregionais quanto a desigualdades intra-regionais, evidenciando que municípios vizinhos podem apresentar níveis bastante distintos de vulnerabilidade. Adicionalmente, os achados indicam que, embora a demanda e a oferta de cuidados apresentem forte componente territorial, as condições de trabalho das mulheres constituem uma dimensão transversal, afetando municípios de diferentes perfis socioeconômicos.

O uso do Censo de 2010 foi a estratégia de exercício de validação do método, permitindo testar a consistência conceitual, estatística e operacional do índice em escala nacional. A próxima etapa da pesquisa consiste na aplicação do IMVPC com dados atualizados do Censo Demográfico de 2022. Além de seu uso operacional na gestão pública, o IMVPC contribui para o debate demográfico ao demonstrar o potencial dos censos como infraestrutura de dados para a construção de indicadores multidimensionais sensíveis ao território.

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Instituciones
  • 1 Programa de Pós-graduação em Demografia (PPGDEM) - Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Brasil
  • 2 CEDEPLAR/UFMG
Eje Temático
  • 11.3 Trabajo de cuidados, organización social y sociedad del cuidado
Palabras Clave
Cuidado
Território
Vulnerabilidade social
Demografia aplicada
Políticas públicas