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Pelos preceitos da fenomenologia, reconhecemos o corpo como modo de ser no mundo (MERLEAU-PONTY, 1999). A interação eu-outro-mundo, em constante dialética, impulsiona modos de ver e sentir o mundo que reconhecem as práticas corporais em suas interfaces biológicas, culturais, sociais e psíquicas. Neste ínterim, a pesquisa descreve a percepção da experiência vivida por uma atleta de ginástica rítmica com Síndrome de Down que representa o Brasil em eventos nacionais e internacionais. Com viés qualitativo, a coleta de dados foi realizada com uma atleta de GR Adaptada por meio da entrevista fenomenológica semiestruturada, entrevistas com o uso de método visual (uma com elicitação de artefatos e/ou fotos), observação não-participante a um evento competitivo com participação da atleta e memorial da pesquisadora. A validade e confiabilidade dos dados foi realizada por meio da triangulação dos achados com a revisão por pares. Para a análise, optamos pela atitude fenomenológica. Na descrição vivida, a atleta relembra sua história de vida e metodologias pedagógicas na prática da dança que incutiram uma relação de comparação e baixa estima as suas possibilidades de movimento. Ao ser convidada para integrar um grupo de GR, relembra atenção da treinadora para suas potencialidades. Não obstante, escolhe em fotos, aparelhos de ginástica, medalhas e revistas a afirmativa do seu conhecimento, levantando-se para ensinar movimentos e explanar o vivido. Lançamentos, recepções e saltos são direcionados a pessoas com Síndrome de Down: níveis de dificuldades e exigências de composição parecem orientados às características da pessoa com deficiência, concretizando o conceito de inclusão. Nossas análises revelaram o papel dos eventos esportivos na consolidação da experiência esportiva. Não são só as metas quantitativas que prevalecem (como pódio e notas numéricas). Sentimentos e emoções paradoxais foram afloradas: ansiedade e alívio, alegria e decepção o que indicou que a reação e reconhecimentos desses estados foram imprescindíveis para o alcance do rendimento. Especialmente na competição, expôs o papel do árbitro no viver o esporte: adentrar no solo e vê-los preparados para o julgamento não inibe, mas alimenta a perseverança. Reconhecendo-se como atleta, advoga pelo respeito e estima: exemplo de superação, força, disciplina (LACERDA, 2019) que perpassaram a admissão limites (VAZ, 1999): o biótipo corporal e a facilidade no ganho de peso e atenção aos aspectos nutricionais, a manipulação dos aparatos da GR com mãos pequenas e a acuidade visual e o uso de óculos, as dores e cansaço intrínsecos ao treinamento (aludindo não –apenas- às lesões, mas as adaptações próprias do físico aos estímulos de treino). A rotina de treino e participação nos eventos a faz atleta que transcende o fazer esportivo por si só: alcançou o mundo vivido e o corpo-sujeito, pois ela elucida “a ginástica é a minha vida”. Se defendemos o esporte para todos/as, este projeto instiga afirmar que sentir-se atleta no mundo também é para todos/as. Se no âmbito da vida ativa ou desempenho, a pessoa com Síndrome de Down percebe o mundo vivido esportivo em sua inteireza. Pelos preceitos da corporeidade, repensar ações que se abre a potencialidades do fazer esportivo (PATRICIO, CARBINATTO, 2021) efetivamente sensível e inclusivo.
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