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Esta pesquisa buscou investigar como o conceito epistemicídio foi construído por Sueli Carneiro (2005). A partir de sua definição, interessava-me observar como o epistemicídio tem sido problematizado pelos coletivos negros da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e, deste modo, pensar as dimensões do racismo que dificultam e/ou interditam a legitimidade do sujeito negro, suas produções e suas formas de conhecimento. A hipótese da pesquisa sustenta que o conceito de epistemicídio é utilizado como fundamento teórico para a mobilização coletiva de estudantes negros da Unicamp. Esses, por sua vez, anseiam um alargamento da democratização universitária e dos conhecimentos nela ensinados.
Apoio/Financiamento da Pesquisa: PIBIC/CNPq
Tayná Victória de Lima Mesquita
Olá Guilherme,
Te parabenizo pela relevância social do trabalho e aproveito para deixar algumas impressões/dúvidas para que você possa reagir.
1) Em primeiro lugar, eu sugeriria uma readequação do título. Numa primeira leitura, temos a impressão de que se trata de um trabalho enfocado no NCN como objeto empírico, sendo que ao longo da leitura do texto, somos surpreendidos com a emergência de outros dois grupos como espaços privilegiados de trabalho de campo. Além disso, ficamos com a espectativa de que os conceitos de poder, epistemicídio e aquilombamento serão mapeados e discutidos. O conceito de epistemicídio é um pouco mais explorado no texto, o de aquilombamento muito pouco e o de poder desapareceu do texto.
Ainda, considerando as entidades etnografadas, senti falta de uma maior caracterização das mesmas, delineando suas diferenças em termos de repertórios de ação e mesmo de estrutura organizacional e vinculação institucional. No caso do NCN, um coletivo de estudantes negros. No caso do Bitita, ao que parece, um Núcleo de Estudos que aglutina a um só tempo docentes e discentes da universidade. E no caso do CADER uma instância institucional. Se tratam de grupos com envergaduras de atuação política bastante específicos, embora eu saiba que existe uma circulação produtiva de pessoas e ideias entre esses grupos. Acredito que esses fatores precisam ser mencionados e discutidos, em especial para os leitores que não conhecem a "cena" da mobilização negra na UNICAMP.
2) Tive a impressão de que seu texto apresenta uma certa sobreposição do conceito teórico assumido por você com relação ao "epistemicídio" em face da categoria êmica epistemicídio e aquilombamento (que teoricamente também não foi explorada no seu texto). Isso é um problema. Não ficou evidente até que ponto a categoria de epistemicídio "mobilizada", "problematizada" pelas entidades do movimento coaduna, amplia, revisa, a definição teórica de Sueli Carneiro. Nesse sentido, valeria a pena trazer para o seu texto narrativas do campo.
3) Outra questão em torno de um conceito teórico: a utilização da noção de "decolonial" no seu argumento. Você afirma que a agenda do NCN se pautou em "conceitos decoloniais como epistemicídio e aquilombamento". Ficou a dúvida: o NCN, enquanto grupo, se autodenomina "decolonial"? Sueli Carneiro, cuja elaboração sobre o conceito de epistemicídio é tomada como base por você, se considera decolonial? Decolonial, descolonial, pós-colonial são enquadramentos teóricos em constante disputa, cabe apontar, primeiro, o que você entende por decolonial, quais autores mobiliza e também se se trata de um enquadramento seu ou um enquadramento que emerge do seu campo empírico.
4) Ainda que você tome o NCN como o centro da história da mobilização negra mais recente na universidade, é importante tomar cuidado com algumas relações de causa e efeito. Não me parece consistente, por exemplo, assumir que a prática política do NCN em torno da ideia de epistemicídio e aquilombamento é um resultado simples "da implementação de cotas raciais na universidade e da maior presença de sujeitos negros na Unicamp". Sim, o enegrecimento e popularização da UNICAMP tem um efeito na dinâmica e amplitude das mobilizações, do enegrecimento dos curriculos, e etc. Mas observando trabalhos que estudam iniciativas do movimento negro na mais antigas na UNICAMP ou mesmo observam a atuação do NCN desde seus primórdios, antes das cotas, é possivel verificar que a mobilização dos conceitos de epistemicídio e aquilombamento é mais uma CONTINUIDADE, do que uma NOVIDADE.
Nesse sentido, indicaria como uma referência que pode ser útil a leitura da minha dissertação de mestrado, onde discuto as mobilizações do NCN de sua fundação até o ano de 2020 e também de um grupo mais antigo e muito parecido com a proposta do BITITA, O NEN, Núcleo de Estudos Negros (ao que se sabe, o primeiro coletivo de estudantes negros que temos noticia na UNICAMP). O trabalho da Angélica Inada, sobre o processo de luta pelas cotas também é interessante, na medida em que mapeia um pouco as origens do NCN e delineia as temáticas dos primeiros QTCA (sendo a edição de 2014, por exemplo, enfocada na questão do epistemicídio e intitulada: III QUEM TEM COR AGE: Intelectualidade Negra - Conhecimento, racismo e epistemicídio).
MESQUITA, T.V.L. É preciso mudar os lugares da mesa: um estudo das carreiras militantes de acadêmicos negros na Universidade Estadual de Campinas. Dissertação (Mestrado em Educação), Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, 2021.
INADA, A. K. Quando a Unicamp falou sobre cotas: trajetória de militância do Núcleo de Consciência Negra e da Frente Pró-cotas da UNICAMP. Dissertação (Mestrado em Educação), Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, SP, 2018.
5) Finalizando, outro ponto que chamou a atenção nas conclusões foi o uso dos verbos no futuro do presente indicativo... "a CADER servirá", "será o Núcleo de Estudos Carolina de Jesus". A escrita me confundiu como leitora, pois deu a impressão de que você estava fazendo prescrições sobre o futuro da mobilização negra na universidade, quando eu entendo que seu objetivo como pesquisador é refletir sobre o campo presente e indicar potencialidades, reforçar hipóteses, nunca certezas. Nesse sentido, sugeriria uma revisão e padronização dos tempos verbais ao longo do texto.
Aguardo seu retorno ao diálogo,
Tayná
Bruno Nzinga Riibeiro
Olá, começo com um elogio ao tema escolhido, sobretudo pela pertinência ao tamanho de uma iniciação científica. AEstou convencido que a escolha por aprofundar a análise sobre como as categorias de epistemicídio e aquilombamento aparecem em campo, durante os três anos, são adequadas. inda que a pesquisa tenha sofrido modificações pelo contexto da pandemia, é notável que se trata de um tema que pode acompanhar o autor em sua agenda futura.
Além do mais, o texto está muito bem redigido e a bibliografia não é decorativa, pelo contrário, o autor debate as ideias mesmo num paper tão curto.
Eu gostaria de saber como o autor compreende o impacto das ações afirmações na universidade, não apenas do ponto de vista quantitativo (mais pessoas negras na instituição), mas das mudanças no perfil dos estudantes negros ingressam. Além da pesquisa bibliográfica, procurou-se os dados e o perfil sócio-econômico? Como os repertórios pré-entrada na universidade dos sujeitos que fazem parte das recentes configurações do NCN modificaram a atuação do grupo? A mesma pergunta também cabe a como a Unicamp se relaciona com os estudantes negros e suas iniciativas, uma vez que vemos transformações profundas desde a aprovação das cotas.
Guilherme antunes
Boa tarde, espero que esteja bem. Agradeço o comentário elogioso e às reflexões levantadas, Bruno.
Sobre o impacto da implementação e execução das ações afirmativas no perfil dos estudantes negros acredito que ainda saibamos pouco e muito por conta da pandemia. No momento atual, ainda que saibamos da ampliação da entrada de pessoas negras na universidade, a comunidade universitária da Unicamp ainda não sabe quais são esses perfis. Existe uma ideia de como são esses perfis por conta do primeiro ano de cotas em 2019 e dos poucos dados censitários realizados por instâncias da universidade como o SAE (Serviço de Apoio ao Estudante) para a execução das aulas remotas em 2020 e 2021. Contudo, ainda não sei qualificar esse impacto. O que sabemos é que somos em maior número e, nesse sentido, não poderia deixar de citar o papel fundamental da CAVU (Comissão de Averiguação do Vestibular Unicamp), ao garantir a entrada de pessoas negras por ações afirmativas.
Em relação ao perfil sócio-econômico, eu não utilizei. Não tive folego, tempo e nem sei se a própria universidade, para além do SAE, no que diz respeito as faculdades e institutos, possuem esses dados. Espero que tenham.
Falar sobre os repertórios dos integrantes do NCN pré-ingresso na universidade, e como eles impactaram na própria dinâmica do coletivo ainda é nebuloso para mim. Afinal sou ingressante do NCN e da Unicamp exatamente em 2019. Ao participar das primeiras reuniões percebi uma baixa quantidade de integrantes antigos (4 no máximo e chutando alto), ao passo que de ingressantes eram 5 ou 6. Desse modo era como se o coletivo, em 2019, estivesse sendo tocado pelos novos integrantes, isso fez com que não soubéssemos se estávamos num sincronia com a antiga configuração do NCN ou não.
A Unicamp precisa melhorar muito sua relação com seus estudantes negros. Costumo dizer que a própria comunidade universitária ainda não sabe lidar com a gente porque ainda não nos conhece. O processo de cotas e vestibular indígena ainda é muito recente (2019 o primeiro ano de execução), logo depois tivemos pandemia e não sei se a universidade se debruçou a olhar com carinho para a população negra como fez com os estudantes indígenas, por exemplo. O que eu vejo é um cenário, ainda, de luta e mobilização para a garantia de uma universidade democrática e diversa racialmente.
MONICA PEREIRA RUIZ
Parabéns pela pesquisa, tema de extrema importância! Abraços, Mônica.
Guilherme antunes
Muito obrigado, Mônica. Fico contente que tenha gostado.
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Guilherme antunes
Boa tarde Tayná, espero que esteja bem. Agradeço as reações sobre o meu texto. Alguns dos pontos levantados ajudaram-me a refletir sobre as lacunas que sentia que estava deixando, mas não sabia em que lugar estavam.
Antes de começar a responder os pontos levantados por você, preciso, primeiro, informar que o meu texto disponível aqui na plataforma não se encontra completo por conta do próprio calendário PIBIC/Unicamp quota 2020/21, que solicitou a entrega do paper antes mesmo do término da pesquisa. Por conta disso que algumas passagens ficaram confusas e incompletas ao passo que não demonstram a amarração entre os conceitos e as entidades que encontrei ao decorrer da pesquisa. Ainda assim, confesso que tive uma certa dificuldade em ajustar essas passagens e, por isso, agradeço desde já as indicações da sua dissertação de mestrado e o trabalho da Angélica Inada (que certamente enriquecerão a reflexão do meu trabalho). Ficarei muito contente se você puder ler e comentar o meu trabalho completo, assim poderá ter uma noção maior e melhor do busquei apresentar na pesquisa: a construção da agenda política do NCN nos anos de 2019 a 2021 (deixarei meu e-mail ao final desse texto para mantermos contato, mas também solicito o seu, caso aceitei o meu pedido).
Isto posto, buscarei agora responder aos pontos levantados por você:
1. Readequação do título e a articulação dos conceitos base da pesquisa (Poder, epistemicídio e aquilombamento).
Realmente, o título poderia sofrer uma alteração no sentido de incorporar as outras entidades que surgem no texto. Mas no momento da pesquisa percebi que os integrantes do NCN ocupavam (pelo menos no primeiro momento de construção e execução de atividades dessas outras entidades - Bitita e CADER) uma posição de destaque por serem do NCN. No caso do Bitita, ainda que as pessoas não participassem como representantes oficiais do coletivo, a maioria dos que frequentavam o grupo de estudos e ajudavam na escolha do tema a ser estudado, nesses dois primeiros anos, eram do coletivo. Já em relação a CADER, pude observar que a dinâmica que se dava com o NCN era balizada justamente pelos conceitos chaves da minha pesquisa: poder, epistemicídio e aquilombamento. Isso pode ser observado nas ementas das duas edições do “Unicamp Afro”, evento em que o NCN foi um dos organizadores centrais. Logo, a minha hipótese é que a relação que se dá entre essas três entidades observadas: NCN, Bitita e Cader, é toada pela agenda do próprio coletivo.
Conforme disse antes, essas passagens não aparecem no texto disponibilizado pela plataforma, contudo, aparecem no documento final, nele tentei descrever o movimento acima definindo inclusive cada conceito.
2. Categoria êmica e narrativas do Campo
Esse ponto de fato preciso rever pois foi onde encontrei maiores dificuldades na escrita.
3. Enquadramento teórico de decolonial: o NCN se considera decolonial?
Em quando pesquisando o NCN no período da pesquisa, não constatei que o coletivo se definia através do conceito de decolonial. Esse termo mais foi utilizado por mim, a partir das definições feitas por Grada Kilomba (2019) e Fanon (2019), para exemplificar as atividades realizadas pelo coletivo. Contudo, é algo que preciso rever.
4. Mobilização de epistemicídio, no NCN, como continuidade ao invés de novidade
Agradeço, novamente, as indicações dos textos e da existência de outros coletivos/grupos de estudos, preciso checá-los.
5. Tempo verbal
De fato, não me atentei as conjugações verbais e suas possíveis interpretações. Obrigado por chamar a atenção.
Espero que tenha conseguido deixar mais nítido os pontos levantados anteriormente por você Tayná. Preciso agradecer mais uma vez as reflexões pertinentes levantadas que ainda estão ecoando aqui na minha “caixola” e que certamente farão com que eu retorne com um olhar mais acurado para minha pesquisa. Abraços.
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