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O projeto de "requalificação" do Largo do Arouche proposto por João Dória, em 2018, é um dos grandes exemplos de como os centros antigos passam a ser incorporados ao planejamento urbano em um contexto de aumento da competitividade global. O projeto realizado pela Prefeitura de São Paulo ocorre em parceria com a Associação Viva o Centro, com a Câmara de Comércio França-Brasil e com grandes empresas e instituições francesas interessadas em transformar a área na "Petit Paris" do território paulistano. A partir de sua execução, buscou-se requalificar o Largo do Arouche com ações voltadas à reabilitação paisagística, de mobiliário e equipamentos, potencializando os usos voltados ao lazer, entretenimento e a novas dinâmicas econômicas. O projeto rapidamente atraiu o interesse do mercado imobiliário, de grandes estabelecimentos comerciais e de empresas do circuito superior da economia, que observaram nesta região a possibilidade de avanço da fronteira urbana e de criação de frentes de expansão de acumulação de capital. Entretanto, resultou também em conflitos com os agentes locais que veem nas propostas apresentadas intencionalidades que diferem das reais necessidades dos moradores e frequentadores da área, o que levaria a descaracterização do Largo do Arouche. Dessa forma, buscamos investigar a execução do projeto a partir das transformações que foram impostas ao lugar e dos novos traços que ele pretende conferir ao Centro da metrópole paulistana.
Apoio/Financiamento da Pesquisa: PIBIC/CNPq
WESLEY BATISTA MONTEIRO
Olá João! Parabéns pela pesquisa, serviu como fonte de reflexão importante sobre o urbanismo contemporâneo.
Esta situação do Largo do Arouche me lembrou muito a ideia antiga de Pereira Passos para o Rio de Janeiro, tentando transformar a cidade na "Paris brasileira" com suas grandes avenidas.
Sem ir muito longe, o projeto "Nova Luz" também me parece muito semelhante nessa questão do higienismo. Enfim, gostaria de saber se você vê algum outro motivo além da especulação imobiliária pare este tipo de "revitalização" ser tão comum
att,
Wesley
GUSTAVO TERAMATSU
Rafael, gostaria de cumprimentá-lo pela clareza na redação do texto, o que reflete a consistência teórica e empírica da pesquisa e também a qualidade da orientação. Realmente o impedimento da realização de trabalho de campo traz prejuízos à pesquisa, ainda que atualmente seja possível, por exemplo, utilizar o Google StreetView, mas que imagino já seja possível visitar a área de estudo e fazer os levantamentos necessários. A partir da leitura do texto disponibilizado, deixo algumas questões: 1. A área chamada por você de "Centro" na tabela 1 corresponde a quais distritos de São Paulo? 2. Quantos dos empreendimentos imobiliários — dos 50 mencionados, com 9 mil unidades habitacionais — se localizam no Largo do Arouche? O BK30 e o Boulevard? 3. Você delimitou algum quadrilátero para a pesquisa? 4. Foi realizada produção cartográfica? 5. De que forma a heterogeneidade de agentes impede a gentrificação? Você considera que não se pode falar em gentrificação no Largo do Arouche?
João Rafael Franco Bueno de Campos
Olá, Gustavo! Agradeço pelos comentários, e também pelas perguntas realizadas. Na nossa pesquisa, delimitamos como "Centro" de São Paulo a área que é administrada pela Subprefeitura da Sé, e composta pelos distritos: Bela Vista, Bom Retiro, Cambuci, Consolação, Liberdade, República, Santa Cecília e Sé. Entretanto, observamos que os lançamentos presentes na tabela 1 concentram-se, predominantemente, na República e na Sé, sobretudo na área que se estende entre a Praça da República e o Largo do Arouche, próxima a linha amarela do metrô. Desses empreendimentos, os únicos localizados no Largo do Arouche são o BK30 e o Boulevard. Não delimitei nenhum quadrilátero para a pesquisa. Buscamos estar atentos a área delimitada para a "requalificação" do Largo a partir do projeto da prefeitura, e ao modo com que ela influenciou as áreas próximas da mesma. Quanto a produção cartográfica, foram realizados apenas mapas de localização do Arouche no município de São Paulo, de modo que o desenvolvimento desta atividade ficasse aquém de nossas expectativas.
Por fim, respondo a pergunta 5. A presença de atores contra-hegemônicos da produção do espaço impede que dinâmicas como a gentrificação se espraiem com total energia pelo Centro de São Paulo. Isso porque essa é uma região em que esses grupos conseguem se apropriar dos espaços, constituindo uma ocupação e uma relação de identidade histórica, que permite sua sobrevivência em meio a produção contemporânea da metrópole. Desse modo, o Centro é sinônimo de resistência. Por conta desse processo, não considero possível falar de gentrificação no Largo do Arouche. Há indícios do processo de gentrificação, como as novas dinâmicas econômicas, e a apropriação desse espaço por classes de maior poder aquistivo. Entretanto, esse processo é algo longe de estar consolidado, por conta da forte resistência que ocorre neste território. Deste modo, acreditamos que a ideia de "revalorização em curso", proposta por Eduardo Sombini em sua tese de doutorado, se enquadra melhor na interpretação dos conteúdos socio-espaciais do Centro de São Paulo. Att, Rafael.
GUSTAVO TERAMATSU
Excelente resposta, Rafael! Considero que você expressou muito bem a dimensão dos conflitos e das disputas em sua pesquisa, bem como teve êxito em contextualizar o projeto de requalificação do Arouche no contexto mais amplo de renovação do Centro de SP.
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João Rafael Franco Bueno de Campos
Wesley, agradeço pelo comentário e pela pergunta. Realmente, essas duas operações urbanas se assemelham a "requalificação" do Largo do Arouche: a primeira reflete o urbanismo sanitarista das primeiras décadas do século XX; e a segunda é um exemplo típico das intervenções direcionadas ao Centro de São Paulo nos últimos anos. Em ambos os casos observa-se como as propostas não são pensadas a partir das reais necessidades do lugar, não se adequando a realidade social desses espaços. Desse modo, constituem verdadeiras forças de limpeza social que operam a favor de interesses políticos/econômicos. Acredito que a especulação imobiliária é uma das grandes norteadoras desse processo. Entretanto, considero que as "revitalizações", "requalificações", entre outros nomes, se tornam comuns a medida em que ocorre uma inserção dos lugares em uma lógica de competitividade global, na qual as cidades necessitam reorganizar seu território para atrair investimentos e empresas. Desse modo esses instrumentos da política urbana se tornam cada vez mais comuns, buscando tornar áreas outrora deterioradas em áreas com novos usos e dinâmicas econômicas, como por exemplo a atividade imobiliária, a economia criativa, o turismo empresarial, etc. Espero ter respondido sua dúvida. Att. Rafael.