ESCRAVAS/DEUSAS, SUBMISSAS/PODEROSAS: UM OLHAR SOBRE A REPRESENTAÇÃO DO FEMININO NA MITOLOGIA E NA SOCIEDADE GREGA

Favoritar este trabalho
Como citar esse trabalho?
Detalhes
  • Tipo de apresentação: Trabalho
  • Eixo temático: HUMANAS
  • Palavras chaves: Grécia Antiga; Gênero; Literatura Clássica;
  • 1 Unicamp

ESCRAVAS/DEUSAS, SUBMISSAS/PODEROSAS: UM OLHAR SOBRE A REPRESENTAÇÃO DO FEMININO NA MITOLOGIA E NA SOCIEDADE GREGA

GIOVANNA DE CAMPOS MAURO

UNICAMP

Resumo

Em sua presença em um cosmos repleto de deuses e deusas, o homem grego não separa, como se fossem dois domínios opostos, o natural e o sobrenatural. Dessa maneira, o aspecto religioso está incluído naquele social: há algo de divino no mundo e algo de mundano nas divindades gregas. Assim, a religiosidade do mundo grego, com sua diversidade de tradições, conflitos e ritos, foi escolhida para representar as diferentes visões que os seus praticantes poderiam ter sobre um mesmo aspecto: o gênero. Dito isto, o presente trabalho propôs uma análise comparada entre faces e papeis atribuídos aos tipos femininos na Grécia da Antiguidade Clássica em dois períodos específicos: o século VIII a. C, de Homero e de Hesíodo, e o século V a. C, da pólis democrática. Destaco que o feminino foi representado pelas mulheres mortais de diferentes classes e funções sociais e pelas imortais, que desempenhavam funções cruciais e decisivas nas lendas e nas crenças da mitologia grega. A partir das obras de Hesíodo (Teogonia) e Homero (A Ilíada e A Odisseia) que, segundo Vernant, são as responsáveis pela formação do que conhecemos hoje como "religião grega politeísta", e Eurípides (Hipólito), a pesquisa pretende analisar o processo de construção da noção do feminino na mitologia e nas sociedades gregas antigas (aquela de Homero e aquela da pólis), que ocorreu de forma ambígua.

Apoio/Financiamento da Pesquisa: PIBIC/CNPq

Questões (2 tópicos)

Compartilhe suas ideias ou dúvidas com os autores!

Sabia que o maior estímulo no desenvolvimento científico e cultural é a curiosidade? Deixe seus questionamentos ou sugestões para o autor!

Faça login para interagir

Tem uma dúvida ou sugestão? Compartilhe seu feedback com os autores!

Autor

GIOVANNA DE CAMPOS MAURO

Olá, Matheus. Muito obrigada pelo seu comentário.

Excelente provocação. Eu procurei, durante as minhas leituras, analisar também qual a configuração e qual a importância dos mitos na religiosidade da Grécia Antiga. Para os gregos dos mais variados séculos, os mitos não são apenas relatos. Eles possuem em seu interior as fontes da imaginação e os preceitos morais dessa sociedade. Assim, a análise da religião grega requer também a análise de seus mitos e histórias originais. E é de suma para importância para essa pesquisa a configuração ambígua da mitologia grega quando insere figuras femininas poderosas como Atenas, Hera e Afrodite: ao mesmo tempo que se distancia da realidade de algumas mulheres, de condições mais ou menos abastadas, submetidas às regras de reclusão e silenciamento, se aproxima de outras, como Aspásia, representando o poder dessas figuras em determinados episódios.

Ainda, gostaria de ressaltar que, apesar de percebermos a existência de uma grande fronteira que separa a condição feminina enfrentada pelas deusas e aquela enfrentada pelas mulheres, a misoginia acaba afetando as divindades em algumas situações também. Sabemos que a mulher homérica poderia sofrer castigos corporais. Porém, essa era uma situação que até mesmo as deusas deveriam aceitar, visto que, no canto XV da Ilíada, Zeus inflige penas duríssimas à sua esposa Hera. O caso deHera e Zeus não demonstra que todas as esposas sofressem penas corporais, mas que esse comportamento era aceito pelo público: os espectadores, ao ouvirem tais relatos em poemas, não os condenavam e também não manifestavam nenhum tipo de estranhamento. 

Sinta-se à vontade para colocar mais questionamentos. Estou sempre à disposição.

Autor

GIOVANNA DE CAMPOS MAURO

Olá, Ana. Muito obrigada pelo seu comentário. 

É um pouco difícil falar sobre o meu projeto em apenas cinco minutos, então acredito que explicações por meio dos comentários são sempre bem-vindas.

Procurei analisar, por meio da leitura de A Ilíada e A Odisseia, as virtudes e qualidades que uma mulher no século IX a.C e VIII a.C deveria possuir. Em primeiro lugar, uma mulher desta época deveria ser bela: Homero aborda com frequência essa característica quando descreve uma personagem feminina. A beleza seria também o aspecto que aproximaria uma mortal de uma deusa. Além disso, a mulher homérica deveria também dominar os trabalhos domésticos e obedecer aquele que estaria no comando de sua casa.

A mulher do século IX a.C e VIII a.C não é somente submissa, mas é também vítima de uma ideologia que pode ser classificada como misógina: o homem homérico duvida e suspeita da mulher, mesmo daquela mais submissa e mais devota. 

Ainda, a mulher homérica não somente poderia sofrer punições físicas: ela ainda precisaria conviver com a concubina de marido e também com outras mulheres, como prisioneiras de guerra, que poderiam manter relações com o patrão da casa.

A partir do século VII, por sua vez, a cidade grega, pólis, começa se definir como comunidade política e social. Essa organização tinha como base a exclusão de determinados grupos de pessoas, como estrangeiros, escravos e mulheres. Com as primeiras cidades surgem também as primeiras legislações que contribuíram para a criação de leis que confirmaram a misoginia existente. Por exemplo, as mulheres adúlteras seriam proibidas de participar das festas religiosas, poderiam sofrer o repúdio e, sobretudo, poderiam sofrer qualquer punição do marido.

Dentro do mesmo recorte cronológico, a procriação e o casamento eram considerados as únicas funções da vida feminina. Ao mesmo tempo, a família poderia optar por vender a própria filha como escrava por uma variedade de motivos. Ademais, em alguns casos, quando uma criança do sexo feminino nascia, ela era abandonada nas estradas pela sua família. 

Porém, pude constatar que essas situações e mentalidades não se aplicavam a todas as mulheres que viviam na cidade de Atenas. As mulheres de classes sociais mais baixas, por exemplo, possuíam maior "liberdade" de movimentação, no sentido que poderiam realizar o comércio de pão e verdura, poderiam vender animais no mercado e poderiam também trabalhar nas terras. 

As mulheres mais abastadas economicamente também não podem ser consideradas de todo isoladas da vida pública e de seus acontecimentos. O avanço do estudo de gênero na arqueologia tem contribuído para reforçar esse viés e demonstrar que a oposição interno/externo como sendo corresponde a oposição mulheres/homens é limitada. 

Quanto à segunda parte da sua dúvida, concluí que algumas categorias de mulheres conseguiriam driblar (ainda que somente de certa forma) a misoginia, como as estrangeiras, as heteras, as concubinas e as deusas.

No meu trabalho, dediquei particular atenção às heteras. Além da esposa e da concubina, o cidadão ateniense poderia manter relações com a hetera. As heteras eram, em sua maioria, estrangeiras, vindas de fora de Atenas. Esse pequeno grupo de mulheres poderia circular livremente pelas ruas e não estavam necessariamente submetidas ao patriarcado do período. Elas eram, ainda, mais educadas que as esposas atenienses: as heteras conheciam poesia, música, filosofia, matemática, retórica. Elas ofereciam envolvimento intelectual e afetivo a pagamento e, dessa forma, conseguiam controlar as próprias vidas com os seus próprios recursos. Podemos citar como exemplo Aspásia, amante de Péricles, que promovia debates filosóficos e participava de banquetes ao lado dos homens. 

Por fim, acho interessante também ressaltar o caso das deusas. As deusas, retratadas inúmeras vezes nas obras utilizadas no meu trabalho, parecem não sofrer com a mesma condição feminina das mortais. Ártemis, por exemplo, permanece virgem. Hera, por sua vez, trama diversas vezes contra o seu marido, o desobedece e não vive o estereótipo do casamento harmonioso. 

Ainda, Hesíodo constrói um relato em que as deusas e os deuses possuem o mesmo valor na guerra e nas decisões importantes. Principalmente quando a guerra contra os Titãs está prestes a eclodir, deuses e deusas são convocados da mesma maneira para lutar lado a lado. Assim, posso afirmar que, mesmo embora a condição feminina seja muito diferente entre as próprias mortais segundo um grande número critérios, ela não afeta as divindades de forma semelhante.

Espero ter conseguido responder as suas dúvidas. Estou sempre à disposição. 

Ana Maria Ferreira Côrtes

Giovanna, agradeço sua resposta e a atenção que você deu às minhas questões.

De fato, cinco minutos é pouquíssimo tempo e imaginei que você teria muito mais coisas a dizer sobre a pesquisa.

Suas explicações mostram que você mergulhou nesse universo das representações femininas e que domina o assunto.

É muito interessante esse dado que você traz referente às classes sociais e à mobilidade das mulheres das classes mais baixas e das mais altas.

Você pretende dar continuidade à pesquisa? Essas brechas que as mulheres encontram na sociedade grega me parecem um tema riquíssimo.