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Dançando no 'Fábricas de Cultura'
BEATRIZ SILVESTRE RODRIGUES DE SOUZA
UNICAMP
Agora você poderia compartilhar comigo suas dúvidas, observações e parabenizações
Crie um tópicoEste trabalho foi desenvolvido com o propósito de realizar um desdobramento da pesquisa de Iniciação Científica "O Programa Fábricas de Cultura como agente transformador na periferia", realizada entre 2019 e 2020, no qual buscamos ampliar as informações e reflexões sobre o Programa, bem como, entender as lacunas de seu histórico que haviam ficado em aberto. Assim, neste segundo projeto de Iniciação Científica, nos propusemos a focar nossa pesquisa especificamente na linguagem da dança, e a compreender melhor a diferença da iniciação artística que é desenvolvida na Fábrica de Cultura Sapopemba e a proposta de aprofundamento da linguagem da dança, visando o aperfeiçoamento e a formação profissional, realizada pelo Núcleo Luz. Para isto, foi feito um levantamento bibliográfico sobre arte-educação, formação profissional e sobre políticas culturais, assim como, uma pesquisa e uma revisão documental sobre o Programa Fábricas de Cultura e o projeto Núcleo Luz. O estudo foi realizado de maneira remota através de uma abordagem qualitativa e quantitativa, por meio de entrevistas semi-estruturadas realizadas com 36 pessoas, sendo 24 aprendizes, 7 educadores e 5 entrevistas de cunho historiográfico com as pessoas responsáveis pela concepção e construção das diretrizes do Programa.
Apoio/Financiamento da Pesquisa: PIBIC/CNPq
Annelise Estrella Galeazzi
Oi Beatriz, tudo bem?
Meu nome é Annelise Estrella, sou doutoranda em Teoria Literária no IEL; é um prazer estar aqui conhecendo sua pesquisa, obrigada pela partilha!
Fiquei com uma dúvida ao ver o vídeo e ler seu resumo...
Você diz que, imagino que sobretudo através das entrevistas, pretendeu investigar quais são as diferenças "da iniciação artística que é desenvolvida na Fábrica de Cultura Sapopemba e a proposta de aprofundamento da linguagem da dança, visando o aperfeiçoamento e a formação profissional, realizada pelo Núcleo Luz" (copiado do seu resumo). No entanto, não ficou muito evidente quais são as diferenças para as pessoas que você entrevistou; no vídeo há um relato da diferença mais da natureza, isto é, do conceito dos projetos do que uma diferença na relação entre os sujeitos participantes e cada projeto apresentado. No minuto 2:54 você traz a opinião dessas pessoas, mas sem levantar as diferenças entre os projetos, ficou como que uma fala para ambos. Não há diferenças então?Você pode contar um pouco mais sobre esse aspecto?
Obrigada e parabéns pela pesquisa!
Abraço,
Annelise
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BEATRIZ SILVESTRE RODRIGUES DE SOUZA
Olá Annelise, prazer!
Primeiramente super agradeço pela questão e pelas considerações!!
No resumo e no vídeo eu realmente exponho o conceito, mas esse conceito também aparece no olhar dos aprendizes sobre as diferenças só que de maneira mais aprofundada- e eu só faço esse detalhamento no relatório final da pesquisa. Segue abaixo uma fala maior sobre esse aspecto:
Em relação às diferenças apontadas entre os ateliês realizados nas unidades do Programa e o trabalho desenvolvido no Núcleo Luz, os aprendizes corroboraram a informação que os ateliês têm mais um caráter de iniciação artística, visto que são cursos voltados para conhecer e experimentar as linguagens artísticas, sem muita cobrança de compromisso. O ensino nos ateliês se dá de maneira mais aberta e com uma abordagem mais “leve”, dado que há uma grande rotatividade de pessoas nos cursos, por serem de curta duração e abrangerem uma faixa etária mais ampla. Outra diferença levantada foi em relação ao fato dos ateliês não abrangerem várias disciplinas como no projeto Núcleo Luz, com exceção do projeto espetáculo. De acordo com os entrevistados, as Fábricas de Cultura são de fato um ambiente mais educacional e social, os quais também podem ser vistos, como um lugar de passagem, de provocação, de vivência, nos quais são promovidos introduções às diversas linguagens artísticas, em um ambiente de lazer. Embora os ateliês não sejam destinados às formações, existem jovens que, ao ficarem mais tempo nas Fábricas, conseguem se dedicar mais e alcançar certo amadurecimento na prática escolhida. E por fim, a última diferença apontada foi que nas Fábricas de Cultura não há nenhuma bolsa ou ajuda de custo como no projeto Núcleo Luz, o que acaba às vezes propiciando faltas, bem como, certa evasão por parte daqueles que não residem perto das Fábricas.
No Projeto Núcleo Luz, independente do ciclo, o estudo ele acontece de maneira mais profunda, exigindo mais seriedade e compromisso dos aprendizes. O projeto tem uma grade a ser seguida semestralmente, fazendo com que o aprendiz vivencie diversas matérias, corporeidades e linguagens da dança, uma vez que há um conteúdo e uma carga horária mais intensa. Ainda, segundo muitos aprendizes o projeto proporciona uma grande “imersão” na dança, pois há um objetivo maior do ensinamento e aprendizado, bem como, há uma continuidade maior no trabalho, por se estar em um grupo mais sólido caminhando e evoluindo junto. De acordo com os relatos, no Núcleo Luz o aprendiz vivencia cada etapa de maneira intensa, porque muitos entram no projeto já com um desejo de se aprofundarem na dança e/ou de atuarem na área, e isso também faz com que eles tenham mais compromisso, determinação e foco nas aulas. Além disso, no Núcleo Luz o aprendiz é instigado a estudar, a pesquisar sua própria arte, e por meio das práticas de corpo e das experimentações eles começam a entender como é ser artista, dançarino. Por fim, muitos ainda apontaram que no projeto há uma atenção maior para os aprendizes, visto que ele cria condições para que possam estudar e estarem lá todos os dias, ao darem uma bolsa auxílio, diferentemente das Fábricas de Cultura.
Sobre o aprofundamento e a formação em dança, os aprendizes relataram que o trabalho desenvolvido oportuniza entender o que é um trabalho de corpo e propicia com que eles desenvolvam uma percepção sobre seus corpos. Ainda, segundo muitos aprendizes, é uma formação que tem sua grade de aulas muito bem estruturadas o que proporciona com que eles evoluam tecnicamente, visto que eles sentem o corpo mais inteligente e mais predisposto a resolver os problemas que lhe são dados, bem como, possibilita com que eles percam o medo e se permitam experimentar a dança e o mover do corpo sem julgamento.
Os aprendizes entendem que o Ciclo I é um ciclo de experimentação, é a oportunidade que os educandos têm de realizar uma boa preparação corporal e também de investigar o corpo de maneira mais aberta, sem tanta pressão, dado que é um ciclo que não há tanta cobrança em relação a resultado em si, embora se espere que os aprendizes tenham compromisso, seriedade e responsabilidade com o trabalho que está sendo desenvolvido. Ainda, muitos educandos disseram que mesmo nesse ciclo inicial, é feita uma grande imersão na dança e nos processos artísticos. Além disso, os educandos relataram que este ciclo é mais rotativo, visto que se um aprendiz sair do projeto em algum momento do ano não compromete o Programa, porque há uma lista de espera em que as pessoas podem entrar em qualquer momento do ano. Eles também disseram que no Ciclo I há um trabalho de corpo muito intenso, mas que não há tantos estudos teóricos como no Ciclo II.
Por sua vez, os aprendizes consideram o Ciclo II realmente como um ciclo de formação, no qual se exige maior compromisso dos educandos, visto que se alguém sair em algum momento do processo, não poderá ser substituído por outra, pelo fato de se exigir uma continuidade do trabalho. Segundo os aprendizes, é um ciclo muito completo, porque há conteúdos em danças mais profundos, com um trabalho prático aliado ao trabalho teórico, apresentando uma grade horária maior. É um ciclo mais exigente, no qual os aprendizes precisam ter muita responsabilidade e autonomia em seu processo, visto que há uma cobrança maior em relação ao aprendizado por meio de exames. Também, é um ciclo em que os aprendizes estão mais perto da direção, no qual eles podem acompanhar e observar como esta direciona a criação e como o espetáculo é montado; ao mesmo tempo, que eles têm outras matérias para dar apoio teórico nas análises e percepção, a fim de instrumentalizá-los. Ainda, de acordo com os educandos é um ciclo bem assertivo, visto que ele oferece muitas ferramentas para eles se tornarem profissionais da dança, bem como, para proporcionar uma perspectiva sobre o que é dança e mostrar as possibilidades do mercado de trabalho. E por fim, é um ciclo que proporciona com que muitos aprendizes não apenas tenham mais consciência de seu próprio corpo e de si mesmo, como indivíduos, como também em relação à sociedade.
Espero que tenha conseguido contemplar melhor este aspecto agora.
Outro abraço,
Beatriz