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Capoeira Angola e o Berimbau Afinado
Clara Tomie Yamasaki Rodriguez
UNICAMP
Agora você poderia compartilhar comigo suas dúvidas, observações e parabenizações
Crie um tópicoBerimbau, instrumento africano recriado no Brasil, junto com o jogo da Capoeira e outras manifestações culturais de resistência negra. Com uma corda só, esse instrumento tem um valor afetivo para o brasileiro: ele é um símbolo, um instrumento sagrado, seu feitio tem segredos resguardados pelos Mestres e guardiões dessa tradição, existe espiritualidade e tradição religiosa desde o momento da colheita da madeira na mata, até o tocar e cantar dentro do ritual da roda de Capoeira. O mundo se encantou pela capoeira, e hoje o berimbau está em muitos lugares, desde palcos, países estrangeiros, orquestras, nas ruas e escolas e também na Academia. É um instrumento utilizado por músicos renomados como Naná Vasconcelos entre muitos outros que usaram o instrumento em seus arranjos e composições, e atualmente ele é livre, e é tocado dentro e fora da Capoeira. Mas, como afinar um berimbau sendo um percussionista não-capoeirista? para tocar em uma orquestra que tem muitos instrumentos? O berimbau, é um instrumento que não tem tarraxa de afinação, e sua afinação depende dos conhecimentos de luthieria do artesão que o constrói, é através de diversos ajustes que o berimbau consegue atingir determinada nota. Sendo que esses conhecimentos são resguardados por Mestres que levam os saberes da Capoeira através da oralidade.
Apoio/Financiamento da Pesquisa: PIBIC/CNPq
JULIA AQUINO
Clara, seu trabalho é impecável! Fiquei pensando aqui se há tensões entre o disseminar desses saberes por parte dos detentores (mestres), com o uso alargado por parte de pessoas que não são do mundo da capoeira? Como você observou isso em suas entrevistas?
Outra coisa que me veio a mente foi como a capoeira, e autometicamente, os saberes musicais estavam ligados às tensões entre escravidao e liberdade ao longo do periodo escravista; os signos e sonoridades esconderiam rotas de comunização entre os pertencentes, uma forma de resistencia sofisticada, isso pode se refletir em como os mestres de algumas linhagens tambem enxergam o disseminar desses saberes atualmente?
Queria te indicar, por fim, o trabalho de uma amiga da História que estuda a atividade musical promovida pelas irmandades religiosas e seu papel educacional, me fez refletir e como a musica poderia ser um transito para varias disputas, lembrei do seu trabalho!
Obrigada mais uma vez pelo seu video e pesquisa! Abraço forte!
JULIA AQUINO
Esqueci de copiar no comentario anterior o trabalho da minha amiga hahaha, é esse: https://proceedings.science/pibic-2021/papers/a-atividade-musical-promovida-e-incentivada-pelas-irmandades-religiosas-e-seu-papel-educacional-na-minas-setecentista, "A atividade musical promovida e incentivada pelas irmandades religiosas e seu papel educacional na Minas setecentista".
Clara Tomie Yamasaki Rodriguez
Gratidão Julinha querida por comentar nesse tópico, por interagir com minha pesquisa, por me indicar esse material para leitura, por me ajudar a refletir sobre os pontos levantados! espero ter respondido sua pergunta!! o Ed me ajudou a escrever também, foi um super exercício!!!
vou procurar sua pesquisa e vou me envolver com ela tambem hehehe!!
beijocas! é uma honra ter o parabéns de uma mina negra doutora na academia!!! muito orgulho querida! gratidão to colada nessa luta!
Fredy Alencar Peres Colombini
Trabalho de grande valia para a cultura popular e musical ! Parabéns Clara !
Clara Tomie Yamasaki Rodriguez
Gratidão Trenel Fredy!!!! uma honra ter o reconhecimento de um capoeira aqui na plataforma Galoá! abssss tamo juntoo
Clara Tomie Yamasaki Rodriguez
Muito Obrigada Trenel Fredy!
Noemi Alves Peixoto
Olá, Clara! Achei seu trabalho extremamente interessante. Ficarei feliz em acompanhar o desenvolvimento das suas pesquisas. Parabéns!!
Clara Tomie Yamasaki Rodriguez
Muito Obrigada Noemi!!!
ANA CAROLINA DE ARAUJO
Quero enaltecer a dedicação, a garra e a força desta mulher tão preciosa e inteligente. Lindo ver este trabalho sobre algo que vc ama e faz com tanta maestria. Parabéns Clara! Vc arrasa.
Clara Tomie Yamasaki Rodriguez
minha inspiração é você mulher arretada baiana da gema!!! te amo demais orgulho de te ter como mais que amiga na minha vida!!
Martin Rodriguez
Impressiona por ser um trabalho muito bem embasado em uma rica pesquisa de campo, e é original na proposta de demonstrar uma base comum à manifestação musical ancestral e popular do Berimbau, e a academia musical com suas notas definidas. Demonstra sua tese em som tocado e medido com graça e precisão, de modo que ficamos com um registro acústico prático agradável da tese. Assim acaba demonstrando uma divina proporção acessível a variados tipos de consciência estética, configurando assim um denominador comum para o entendimento humano. Parabéns pelo trabalho.
Clara Tomie Yamasaki Rodriguez
Muito Obrigada por estar comigo em cada conquista da minha vida! e por as vezes ate me carregar nas horass dificeis!!! esse trabalho é pra voce!!
Clara Tomie Yamasaki Rodriguez
Muito Obrigada por estar comigo em cada conquista da minha vida! e por as vezes ate me carregar nas horass dificeis!!! esse trabalho é pra voce!!
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Clara Tomie Yamasaki Rodriguez
A Capoeira desde o início de seus registros oficiais, que tem como marco o período Joanino (1808-1821), apareceu na história como alvo de repressão, perseguição e severas punições para quem era pego em exercício de capoeiragem, que, nessa época, não era bem a prática que conhecemos hoje. Ela, desde sua origem(incerta), foi criminalizada, assim como a maioria ou todas as práticas do povo negro, na época escravizados (tal qual o samba que também era perseguido no ínicio da Republica)
Constituiu-se nela uma técnica em que se escondem certas informações daqueles que não fazem parte da capoeiragem, especialmente seus perseguidores: os apelidos escondiam o nome; o chapéu os rostos; toques específicos do conjunto de instrumentos da roda de capoeira indicavam movimentações específicas para situações de roda ou chegada dos senhores/polícias; as próprias movimentações do jogo expressivas dançantes escondem sua eficiência marcial; como luta efetiva, mostrando-se apenas como uma dança inofensiva.
As letras das cantigas são códigos que ou resguardam tradições: dizem algo sobre a capoeira ou sobre a roda de capoeira; ou são desabafos/louvações à cerca da vida (relações de poderes entre si, sua história, seus "heróis", as injustiças, as críticas sociais, etc...).
Na música está praticamente toda a indentidade da capoeira como a vemos hoje tendo como símbolo maior o Berimbau, mesmo esse tendo sido introduzido posteriormente... Nela se preserva a "ancestralidade" e a "religiosidade" dos que a praticam e dos que a praticavam, nela se dita o ritmo do jogo e o que fazer em roda:
"Santo Antonio é protetor
Da barquinha de noé"
"Sua coroa de ouro é mariuô(mariwô)"
"Valha-me Deus
Senhor São Bento
Buraco velho tem cobra dentro"
"Sou eu Humaitá
Sou eu Humaitá, sou eu"
"Paranauê paranauê, paraná"
"Vi jararaca no cajueiro
Meu senhor mandou matar"
"Trabalha negro negro trabalha
Trabalha negro pra não apanha"
São símbolos "negaciados", simulados, onde só os iniciados entendem, a forma oitiva, sigilosa e marginal ajudou a resguardar os segredos e a integridade da capoeira e do capoeirista, se transformando em algo místico para os não conhecedores da arte.
Essa didática da presença, do ouvir (oralidade), remete às raízes africanas onde se valoriza e preserva o saber e a vivência dos mais velhos dentro da comunidade. Sendo assim, o capoeirista tinha que permanecer na capoeira até aprender a apreender a sua cosmologia; o que faria com que ele entendesse os significados, códigos e fundamentos da mesma. Sendo assim, o capoeira deveria conquistar a confiança, cativar o mestre, ganhar o respeito e mostrar-se merecedor do conhecimento guardado por ele.
A campanha da Capoeira como esporte nacional durante a Era Vargas (tendo como Mestre Bimba o seu baluarte com a Luta Regional Bahiana: a Capoeira Regional) e seu resgate cultural feito pelos intelectuais destacando seu valor histórico, cultural e folclórico, trouxe uma diversidade de público que foi além da presença dos negros africanos e/ou crioulos (segunda metade séc XIX).
Com a chegada desse público e a ideia de globalização da capoeira como esporte, a luta-cultura-ritual marginal, começa a se moldar em padrões mais comerciais e aceitos socialmente com enfoque nos saltos acrobáticos, vigor físico e na luta contundente e franca (aspecto marcial). Nesse sentido, a Capoeira se distanciou de alguns valores, e uma geração foi quase completamente formada longe dessa musicalidade que resguarda toda sua essência: essa tecnologia negra de resistência; de existência.
Esse saber foi resguardado por alguns, pode-se dizer que na Capoeira Angola através de Mestre Pastinha, que foi um dos contrapontos à Capoeira Regional de Mestre Bimba em meados de 1940 (a capoeira tem basicamente dois estilos: Capoeira Angola e Capoeira Regional, há também a Capoeira Contemporânea fora outros estilos com menores públicos). Entre outros que apreenderam seu valor cultural, enquanto seu valor marcial estava em evidência. As gerações mais novas estão na busca por resgatar todos esses fundamentos.
Historicamente, existe a necessidade de resguardar os segredos das cantigas; acredito que o fato de eu ser capoeirista há 10 anos me ajudou a apreender alguns dos segredos falados pelos mestres, mas acredito que se eu tivesse transcrito as entrevistas diretamente do “hálito” dos mestres, poucas pessoas entenderiam, e conseguiriam tirar uma informação clara e não contraditória (as entrevistas foram transcritas na íntegra, no entanto, a análise dos dados foi feita em cima de minha interpretação das falas).
A capoeira, assim como o ser humano, é uma arte contraditória, incoerente e viva, assim sendo, sempre em transformação.
“Capoeira angola, mandinga de escravo em ânsia da liberdade. Seu princípio não tem método e o seu fim é inconcebível ao mais sábio capoeirista. Capoeira é
amorosa, não é perversa. Ela é um hábito cortês que criamos dentro de nós, uma coisa vagabunda.” - Mestre Pastinha
O esconder, a "negaça", a "manha" e a "mandinga" natural da cultura da Capoeira está presente em sua didática. Os mestres não falam, com quem não confiam, em assuntos desse porte, então, é interessante entrevistar pessoas próximas, onde já existe um vínculo de confiança.
Esse resguardo, esse cuidado, com certeza tem a ver com o quanto foi explorada a capoeira, sua mundialização, o carinho e afeto que os mestres têm por essa história de luta negra documentada na arte viva da Capoeira.