Para citar este trabalho use um dos padrões abaixo:
Esta pesquisa se dedicou à análise da implementação do componente curricular projeto de vida no estado de São Paulo, tendo como universo empírico a Escola Estadual Barão Geraldo de Rezende, do distrito de Barão Geraldo em Campinas-SP, pretendendo testar três hipóteses: (1) o "projeto de vida" opera como o centro de gravidade em torno do qual gravitam os atores públicos e privados envolvidos no processo de formulação das reformas educacionais recentes; (2) a relevância do projeto de vida se dá por conta do seu impacto na preparação dos estudantes para uma relação de trabalho flexibilizada introduzida por políticas neoliberais; e, por fim, (3) a comunidade escolar terá possibilidade de ressignificar a relevância atribuída a esse componente curricular. Por meio da análise de documentos e materiais produzidos pela Secretaria de Educação do estado de São Paulo referentes ao Programa Inova Educação e ao Currículo Paulista, bem como das contribuições de instituições privadas como a Fundação Lemann e o Instituto Ayrton Senna, diretamente envolvidos com os processos aqui tratados, e da realização de entrevistas individuais e em grupos com docentes e discentes da E. E. Barão Geraldo de Rezende, foi possível concluir que os atores governamentais e privados percebem o projeto de vida como solução para os problemas percebidos no ensino médio brasileiro, enquanto a comunidade escolar abordada questiona seu papel na formação dos estudantes.
Apoio/Financiamento da Pesquisa: PIBIC/CNPq
CAIQUE SANCHES BODINE
Parabens pelo trabalho, Amanda! Na minha opinião, mostrou uma maturidade intelectual no trabalha geral que impressiona e vai muito além do exigido em uma IC. Possui uma descrição metodológica muito precisa e uma boa discussão dos resultados, além de contar com uma revisão bibliográfica significativa para um resumo expandido. De modo geral, acredito que a temática é central na reflexão dos rumos que a Educação está tomando com a eventual implementação da BNCC. Expõem, de modo sutil, que a suposta neutralidade de um ensino "tecnocrata" e que tem a finalidade de "preparar o aluno para a vida" na verdade serve a interesses bem específicos. Afinal, que tipo de "vida" você está preparando a pessoa, então? Me lembra muito algumas passagens de Freire em A Sombra desta Mangueira, no que tange o ensino bancário...
Novamente, parabéns pelo excelente trabalho, Amanda!!!
NICOLAS GUSTAVO DA CRUZ DA SILVA
Amanda, parabéns pelo seu projeto! O "projeto de vida" como componente curricular é de extrema importância pensando em reforma de educacionais.
No trabalho você relata que os docentes não consideram o projeto de vida como uma papel exclusivo da escola. Diante disso, gostaria de saber se a participação dos pais dos alunos também seria interessante na implementação desse componente curricular, pensando a importância do papel deles na continuidade do "projeto de vida" dos estudantes fora das escolas?
E mais uma vez parabéns aos autores pela realização deste projeto!
AMANDA HEBLING DO AMARAL
Nicolas, muito obrigada pelos comentários! Penso que toda reforma educacional depende da participação da comunidade escolar como um todo, o que inclui a família dos estudantes. O que se pode considerar, no entanto, é em que medida as famílias também terão condições de auxiliar os estudantes nesse sentido (pensando nas contribuições, por exemplo, de Bourdieu em seus estudos sobre educação, de que o planejamento do futuro dos filhos depende em muito do capital cultural dos pais e das percepções da classe sobre as possibilidade de futuro). Também, vale pensar que os estudantes do ensino médio, sobretudo público, costumam trabalhar já nessa idade para auxiliar as famílias financeiramente, o que se aprofunda ainda mais com a pandemia. Será que as possibilidades de planejamento futuro são de fato uma escolha, nesse sentido, ou se trata mais da necessidade?
JOAQUIM AUGUSTO DE ARAUJO
Muito bom o seu trabalho, Amanda. Parabéns!
AMANDA HEBLING DO AMARAL
Muito obrigada, Joaquim!
ANDREY DA SILVA MORI
Amanda, parabéns pelo projeto! Muito bacana ressaltar a escola enquanto local de realização das políticas públicas, ao mesmo tempo em que, contraditoriamente, é o principal local de resistência e subversão da norma.
Abraços!
AMANDA HEBLING DO AMARAL
Andrey, muito obrigada! Espero que tenha contribuído para trazer um novo olhar sobre essas políticas.
Felipe Ferrari da Costa
Parabenizo pela qualidade do trabalho e pertinência do tema, fundamental para se pensar a educação básica hoje.
Ressalto também a qualidade da reflexão inicial que articula as reformas educacionais do ensino básico brasileiro com o contexto do capitalismo contemporâneo.
Neste sentido, elenco algumas questões que podem auxiliar para o desenvolvimento futuro de pesquisas sobre esta temática:
- Na p. 3 escreve-se que “Para os reformadores, é a distância entre a escola e as demandas da vida social que produziriam os problemas de qualidade e o alto índice de evasão no Ensino Médio”. Como professor do ensino médio na rede estadual de São Paulo, vejo que este tema é muito presente no discurso de gestores e alunos e, em grande medida, justifica as reformas em execução. Mas faria uma provocação para suas pesquisas futuras: quais os reflexos da existência de um processo de deslegitimação e mesmo de ataque à escola - como espaço autônomo de construção de conhecimento e formação cidadã - no reforço e legitimação deste discurso pró-reformas? Haveria articulações entre as disposições empresariais que visam atribuir à escola o papel de formação de mão-de-obra adaptada às demandas do capitalismo contemporâneo e um movimento conservador que visa retirar da escola seu papel de reflexão cidadã? Ou ainda, como os discursos de setores empresariais e de um movimento conservador no âmbito moral articulam, sob diferentes prismas, a ideia de que haveria uma “distância entre a escola e as demandas da vida social” e, neste sentido, legitimam mudanças no modelo de ensino?
- Trabalha-se com as hipóteses que o “projeto de vida opera como centro de gravidade em torno do qual orbitam os diferentes agentes envolvidos nas reformas educacionais recentes” e de que “a relevância do projeto de vida estaria relacionada à sua capacidade de preparar os estudantes, por meio do desenvolvimento de habilidades socioemocionais, para atuarem em um mercado de trabalho cujas demandas e garantias legais de proteção estão em profunda transformação”. Me parece sim que o projeto de vida possui essa centralidade, mas somente quero destacar que estes eixos são transversais em todo o currículo do Novo Ensino Médio, sendo que questões como empreendedorismo e a lógica de preparação ao mercado de trabalho constituem-se como eixos que devem nortear a prática docente também nos itinerários formativos. Neste sentido, o projeto de vida pode ser visto também como um continuum, algo que não se encerra no próprio componente curricular.
- No que se refere à reflexão sobre a recepção dos professores ao componente projeto de vida e as condições para sua execução destaca-se no trabalho algo que me parece muito relevante, a saber, “a falta de preparação dos profissionais da educação para lidarem com os sonhos dos jovens, apontando para a falta de formação adequada para esse componente” (p. 3). Isso parece apontar para uma precarização nas formas de implementação do Novo Ensino Médio, realidade referente ao conjunto dos componentes do novo currículo (não só do PV), que estão ou serão implementados. Se vê uma espécie de confusão entre professores e entre professores e alunos sobre o papel deste componente curricular e, em última instância, da própria escola neste novo contexto. Entender as causas deste processo passa também por analisar as condições de implementação da reforma curricular, considerando metas governamentais propostas em São Paulo, tempos de realização das mudanças e o período histórico em que isso vem acontecendo (neste caso, no meio de uma pandemia sanitária). Passa também por refletir sobre a presença ou ausência de professores e da escola na formulação e execução destas mudanças.
- Na p. 5, referindo-se ao Novo Ensino Médio, cita-se a existência de “críticas e resistências a essas reformas educacionais desde o início de sua formulação”. Senti falta de saber um pouco mais sobre estas críticas e resistência. Penso que sejam fundamentais para articular uma reflexão sobre os caminhos, os conflitos e as disputas na implementação deste novo modelo de ensino.
- Por fim, gostaria de perguntar por que da escolha desta escola para realização do trabalho de campo? Chegou-se a considerar a possibilidade de pesquisa em escolas de outras regiões de Campinas? Afinal, como seria a realidade em escolas localizadas nas periferias da cidade? Faço estas indagações como um estímulo, pois considero enriquecedor quando a Unicamp supera os limites de Barão Geraldo.
Parabéns pelo trabalho. Reflexão muito importante e de muito boa qualidade.
AMANDA HEBLING DO AMARAL
Felipe, agradeço imensamente a pertinência do seu comentário e a leitura tão atenta ao trabalho.
Quanto ao seu primeiro ponto: ficou bastante evidente durante a realização da pesquisa que o uso de argumentos que circulam, inclusive entre os docentes, sobre a escola e a função da educação é uma das estratégias de legitimação dos reformadores. Acredito que você pegou um ótimo ponto quanto à distância entre escola e vida, mas penso também na autonomia como uma das habilidades socioemocionais a serem desenvolvidas. É legítima a defesa de autonomia dos estudantes, e os reformadores se utilizam disso. Concordo com sua suposição de que, de alguma forma, isso desarticula a escola da formação cidadã e parece provável que seja um ponto de encontro entre os setores empresariais e o movimento conservador. A Wendy Brown, que utilizei como referência para a pesquisa, traz reflexões relevantes sobre o encontro entre essas duas frentes, se você tiver interesse. Para ela, é justamente na negação de princípios democráticos que ocorre o casamento entre esses grupos.
Muito relevante sua colaboração quanto ao projeto de vida se constituir como continuum. A reforma foi desenvolvida de forma bastante articulada. No entanto, pareceu para nós que os desejos individuais dos estudantes e sua preparação mais 'prática' (ainda que não técnica) para ocuparem cargos de trabalho eram os pontos de foco dos formuladores da reforma, e nesses dois pontos o projeto de vida parece ter papel central.
Quanto à percepção das professoras, acredito que você revelou um ponto central que também apareceu na pesquisa (mas, por conta do espaço, não foi possível acrescentar ao resumo apresentado aqui no Congresso). As professoras relataram a formação precária e a falta de condições para a implementação do programa inova educação e, em especial, do novo ensino médio, durante o período pandêmico, apontando, inclusive, que isso se daria como medida estratégica do governo para forçar a implementação sem resistência. Ainda comentaram como é desafiador lidar com essas mudanças no "turbilhão" da pandemia, tendo que lidar com demandas das mais variadas dos seus estudantes e da própria docência. Essa precariedade da implementação dificulta ou até inviabiliza a reflexão crítica e compartilhada dos elementos dessa reforma. Também é importante pensar como essa demanda emocional relatada pelas professoras pode ser efeito da própria pandemia, em que as desigualdades se aprofundam e o emocional de todos está fragilizado.
Felipe, você tem razão nos dois últimos pontos. Faltou relatar as críticas e resistências, mas já aproveito para deixar aqui uma notícia de uma das discussões em torno da BNCC, ainda no processo de formulação, que foi cancelada por conta da manifestação de estudantes e professores: https://novaescola.org.br/conteudo/12246/protesto-marca-cancelamento-da-audiencia-da-bncc-do-ensino-medio-em-belem.
Quanto ao último ponto, era de nosso interesse realizar a pesquisa em mais de uma escola, para efeito de comparação, mas também para sair de Barão Geraldo. A escolha dessa escola em específico se deu pela minha familiaridade com o campo (já havia realizado estágio e PIBID lá), o que me possibilitou acompanhar as fases mais iniciais da implementação da Reforma e a atuação das entidades privadas, ainda antes da realização da pesquisa. Ainda mais em contexto de pandemia, que dificultou bastante o contato com as escolas, preferimos manter o campo em um espaço já conhecido.
Agradeço de novo seus comentários, foram muito enriquecedores!
Maristella Gabardo
Olá Amanda. tudo bem? Parabéns pela relevância do seu projeto.
Você consegue me dar mais detalhes sobre o número de entrevistados e como se chegou as conclusões levantadas por você nesse levantamento. Além disso, você pode apresentar quais foram os referenciais teóricos utilizados na sua pesquisa?
AMANDA HEBLING DO AMARAL
Olá Maristella! Obrigada pelo comentário.
Entrevistei 3 professoras e 4 estudantes do Ensino Médio da escola.
Quanto às conclusões, imagino que você esteja se referindo ao tratamento das entrevistas (me corrija se estiver enganada). As entrevistas foram de caráter semiaberto e foram todas gravadas com o consentimento dos participantes. Posteriormente foram transcritas. A partir desse material, analisei as respostas a cada uma das perguntas, comparando as percepções dos entrevistados quanto aos tópicos. Como as entrevistas com os estudantes foram em grupos, ficou mais fácil notar as concordâncias e discordâncias entre eles, e assim concluir o que seria mais geral em suas percepções. Quanto às professoras, comparei suas respostas às perguntas e busquei aquilo que tinham de pontos em comum.
Sobre referencial teórico, me baseei em trabalhos de correntes bem variadas. O que elegeria como destaque, especificamente na intersecção entre educação, neoliberalismo e reforma educacional, seria o trabalho do Gaudêncio Frigotto, Celso João Ferretti, Pablo Gentilli e Christian Laval.
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AMANDA HEBLING DO AMARAL
Obrigada pelo comentário, Caique! A questão é justamente essa que você colocou: projeto para qual vida? Isso passa pelos atores envolvidos e por sua concepção da função da educação.