A IMPLEMENTAÇÃO DO "PROJETO DE VIDA" COMO COMPONENTE CURRICULAR EM UMA ESCOLA PÚBLICA NO ESTADO DE SÃO PAULO

Vol 4 2021 - 136120
Trabalho
Favoritar este trabalho
Como citar esse trabalho?
Resumo

Esta pesquisa se dedicou à análise da implementação do componente curricular projeto de vida no estado de São Paulo, tendo como universo empírico a Escola Estadual Barão Geraldo de Rezende, do distrito de Barão Geraldo em Campinas-SP, pretendendo testar três hipóteses: (1) o "projeto de vida" opera como o centro de gravidade em torno do qual gravitam os atores públicos e privados envolvidos no processo de formulação das reformas educacionais recentes; (2) a relevância do projeto de vida se dá por conta do seu impacto na preparação dos estudantes para uma relação de trabalho flexibilizada introduzida por políticas neoliberais; e, por fim, (3) a comunidade escolar terá possibilidade de ressignificar a relevância atribuída a esse componente curricular. Por meio da análise de documentos e materiais produzidos pela Secretaria de Educação do estado de São Paulo referentes ao Programa Inova Educação e ao Currículo Paulista, bem como das contribuições de instituições privadas como a Fundação Lemann e o Instituto Ayrton Senna, diretamente envolvidos com os processos aqui tratados, e da realização de entrevistas individuais e em grupos com docentes e discentes da E. E. Barão Geraldo de Rezende, foi possível concluir que os atores governamentais e privados percebem o projeto de vida como solução para os problemas percebidos no ensino médio brasileiro, enquanto a comunidade escolar abordada questiona seu papel na formação dos estudantes.

Apoio/Financiamento da Pesquisa: PIBIC/CNPq

Questões (6 tópicos)

Compartilhe suas ideias ou dúvidas com os autores!

Sabia que o maior estímulo no desenvolvimento científico e cultural é a curiosidade? Deixe seus questionamentos ou sugestões para o autor!

Faça login para interagir

Tem uma dúvida ou sugestão? Compartilhe seu feedback com os autores!

Autor

AMANDA HEBLING DO AMARAL

Obrigada pelo comentário, Caique! A questão é justamente essa que você colocou: projeto para qual vida? Isso passa pelos atores envolvidos e por sua concepção da função da educação. 

Autor

AMANDA HEBLING DO AMARAL

Nicolas, muito obrigada pelos comentários! Penso que toda reforma educacional depende da participação da comunidade escolar como um todo, o que inclui a família dos estudantes. O que se pode considerar, no entanto, é em que medida as famílias também terão condições de auxiliar os estudantes nesse sentido (pensando nas contribuições, por exemplo, de Bourdieu em seus estudos sobre educação, de que o planejamento do futuro dos filhos depende em muito do capital cultural dos pais e das percepções da classe sobre as possibilidade de futuro). Também, vale pensar que os estudantes do ensino médio, sobretudo público, costumam trabalhar já nessa idade para auxiliar as famílias financeiramente, o que se aprofunda ainda mais com a pandemia. Será que as possibilidades de planejamento futuro são de fato uma escolha, nesse sentido, ou se trata mais da necessidade? 

Autor

AMANDA HEBLING DO AMARAL

Muito obrigada, Joaquim!

Autor

AMANDA HEBLING DO AMARAL

Andrey, muito obrigada! Espero que tenha contribuído para trazer um novo olhar sobre essas políticas.

Autor

AMANDA HEBLING DO AMARAL

Felipe, agradeço imensamente a pertinência do seu comentário e a leitura tão atenta ao trabalho. 
Quanto ao seu primeiro ponto: ficou bastante evidente durante a realização da pesquisa que o uso de argumentos que circulam, inclusive entre os docentes, sobre a escola e a função da educação é uma das estratégias de legitimação dos reformadores. Acredito que você pegou um ótimo ponto quanto à distância entre escola e vida, mas penso também na autonomia como uma das habilidades socioemocionais a serem desenvolvidas. É legítima a defesa de autonomia dos estudantes, e os reformadores se utilizam disso. Concordo com sua suposição de que, de alguma forma, isso desarticula a escola da formação cidadã e parece provável que seja um ponto de encontro entre os setores empresariais e o movimento conservador. A Wendy Brown, que utilizei como referência para a pesquisa, traz reflexões relevantes sobre o encontro entre essas duas frentes, se você tiver interesse. Para ela, é justamente na negação de princípios democráticos que ocorre o casamento entre esses grupos.
Muito relevante sua colaboração quanto ao projeto de vida se constituir como continuum. A reforma foi desenvolvida de forma bastante articulada. No entanto, pareceu para nós que os desejos individuais dos estudantes e sua preparação mais 'prática' (ainda que não técnica) para ocuparem cargos de trabalho eram os pontos de foco dos formuladores da reforma, e nesses dois pontos o projeto de vida parece ter papel central.
Quanto à percepção das professoras, acredito que você revelou um ponto central que também apareceu na pesquisa (mas, por conta do espaço, não foi possível acrescentar ao resumo apresentado aqui no Congresso). As professoras relataram a formação precária e a falta de condições para a implementação do programa inova educação e, em especial, do novo ensino médio, durante o período pandêmico, apontando, inclusive, que isso se daria como medida estratégica do governo para forçar a implementação sem resistência. Ainda comentaram como é desafiador lidar com essas mudanças no "turbilhão" da pandemia, tendo que lidar com demandas das mais variadas dos seus estudantes e da própria docência. Essa precariedade da implementação dificulta ou até inviabiliza a reflexão crítica e compartilhada dos elementos dessa reforma. Também é importante pensar como essa demanda emocional relatada pelas professoras pode ser efeito da própria pandemia, em que as desigualdades se aprofundam e o emocional de todos está fragilizado.
Felipe, você tem razão nos dois últimos pontos. Faltou relatar as críticas e resistências, mas já aproveito para deixar aqui uma notícia de uma das discussões em torno da BNCC, ainda no processo de formulação, que foi cancelada por conta da manifestação de estudantes e professores: https://novaescola.org.br/conteudo/12246/protesto-marca-cancelamento-da-audiencia-da-bncc-do-ensino-medio-em-belem. 
Quanto ao último ponto, era de nosso interesse realizar a pesquisa em mais de uma escola, para efeito de comparação, mas também para sair de Barão Geraldo. A escolha dessa escola em específico se deu pela minha familiaridade com o campo (já havia realizado estágio e PIBID lá), o que me possibilitou acompanhar as fases mais iniciais da implementação da Reforma e a atuação das entidades privadas, ainda antes da realização da pesquisa. Ainda mais em contexto de pandemia, que dificultou bastante o contato com as escolas, preferimos manter o campo em um espaço já conhecido.
Agradeço de novo seus comentários, foram muito enriquecedores! 

Autor

AMANDA HEBLING DO AMARAL

Olá Maristella! Obrigada pelo comentário.

Entrevistei 3 professoras e 4 estudantes do Ensino Médio da escola. 

Quanto às conclusões, imagino que você esteja se referindo ao tratamento das entrevistas (me corrija se estiver enganada). As entrevistas foram de caráter semiaberto e foram todas gravadas com o consentimento dos participantes. Posteriormente foram transcritas. A partir desse material, analisei as respostas a cada uma das perguntas, comparando as percepções dos entrevistados quanto aos tópicos. Como as entrevistas com os estudantes foram em grupos, ficou mais fácil notar as concordâncias e discordâncias entre eles, e assim concluir o que seria mais geral em suas percepções. Quanto às professoras, comparei suas respostas às perguntas e busquei aquilo que tinham de pontos em comum.

Sobre referencial teórico, me baseei em trabalhos de correntes bem variadas. O que elegeria como destaque, especificamente na intersecção entre educação, neoliberalismo e reforma educacional, seria o trabalho do Gaudêncio Frigotto, Celso João Ferretti, Pablo Gentilli e Christian Laval.

Instituições
  • 1 Unicamp
  • 2 UNICAMP
Eixo Temático
  • HUMANAS
Palavras-chave
Projeto de Vida
Escola e sociedade
Reforma do Ensino Médio